A Graxa Noturna • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 29 de julho de 2004

A Graxa Noturna

Estocado em Filmes

Assisti esta semana, finalmente e pela primeira vez, a versão original de A Bolha Assassina [The Blob, 1958]. O filme me surpreendeu por vários motivos, eles por si mesmos surpreendentes: embora o orçamento não tenha sido aparentemente maior do que o dos filmes de terror/ficção dos anos 40 e 50 que estou acostumado a curtir, a mão do diretor é menos pesada e o roteiro menos previsível. Surpreendeu-me muito o fato do filme ser colorido, e em Technicolor – eu teimava com a Alice que era em preto e branco.

Agora, eu podia esperar tudo, menos que A Bolha fosse uma espécie de Grease (Nos Tempos da Brilhantina) de terror, com direito a gangues de garotões com topetes de brilhantina, mocinhas de vestido rodado e rabo de cavalo, rachas automotivos noturnos e pais e tiras durões exigindo saber o que os meninos estão fazendo acordados àquela hora da noite – mesmo que fosse para salvar o mundo.

Aparentemente a grande sacada do filme, imitada por praticamente todas as produções do gênero que vieram depois, foi colocar pela primeira vez os jovens no centro da ação. Os heróis de A Bolha Assassina, fica exaustivamente claro, são os descolados teenagers que povoam, inocentes e incompreendidos, a noite da pacata cidadezinha. Com exceção do policial Dave, os adultos do filme são todos obtusos e especializados demais para serem capazes de reconhecer uma ameaça para a qual não possuem uma referência – quanto mais para combatê-la eficazmente. Os jovens, ao contrário, são ágeis, não-especializados e conectados, numa era que ainda precede a internet. Num instante, uma rede informal, bem-humorada e eficiente de jovens e adolescentes supre o que falta para derrotar a Bolha no confronto final.

A grande sacada do filme foi colocar pela primeira vez os jovens no centro da ação.

Em praticamente todos os filmes de terror/ficção das décadas que precederam A Bolha Assassina os protagonistas eram inquestionavelmente adultos em idade e postura. Os dois filmes do gênero que assisti imediatamente antes de A Bolha, Tarântula [Tarantula!, 1955] e O Estranho Mundo do Planeta X [Strange World of Planet X, 1957] não são exceção, e neles a mocinha tinha pelo menos trinta e o herói quase cinquenta anos de idade – se não mais. Eram, como diria-se hoje, tios – quase avôs.

Em A Bolha, no entanto, tudo é estudadamente jovem, começando pelo visual psicodélico e pela anacrônica baladinha tipo Jovem Guarda que acompanham os créditos iniciais. É provável que as audiências de hoje não engulam o casal central como jovens em idade de escola secundária (Steve McQueen tinha 28 anos quando interpretou o papel), mas a idéia revolucionária já estava lá.

No cinema lotado que aparece em determinado momento do filme, jovens e crianças estão assistindo às gargalhadas um filme de terror que segue a velha fórmula (o filme é em preto e branco e estrelado por Bela Lugosi, ele mesmo um tio). O único velho no cinema é um velho chato, e está sentado no fundo do cinema, perto de onde o monstro vai escorrer dali a minutos.

Mensagem subliminar: os velhos não sobreviveram à Bolha – e os anos 60 nem haviam começado.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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