A grande família grande • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de setembro de 2004

A grande família grande

Estocado em Família · Nostalgia

Ontem estava pensando na família do tio Alberto e da tia Vilma, que me deram cinco primos, e fiquei com muita saudade deles – e da casa de família grande, espécie em extinção, que eles representaram para mim.

Sim, porque hoje a norma é ter-se, quando muito, um filho só – uma paternidade por assim dizer cirúrgica, planejada e exercida em ambiente com todas as variáveis controladas. Monitoração pela internet.

Família grande hoje em dia é a do Carlos e da Sheylla, que perderam todo o senso do economicamente correto e tiveram três.

Longe vão os dias de casa cheia, de gente repartindo o mesmo espaço vital – o mesmo quarto, o mesmo guarda-roupa, a mesma televisão. Levantou-se uma geração que não sabe o que é fila para usar o banheiro, esperar todo mundo para sentar-se à mesa, exigir a divisão milimétrica do último pedaço do bolo. Não conhece a experiência de conviver com alguém de idade na mesma casa.

Na casa repleta do tio Alberto, eu sei, havia tudo isso – e como eu os invejava. Eu, que tinha duas míseras irmãs mais velhas, quando meus quatro primos (e uma prima) eram obrigados a empilhar-se em beliches em quartos abarrotados. Havia naturalmente um charme adicional no fato de que eles moravam em casa de madeira numa propriedade semi-rural – com direito a pasto, vacas, porcos, milharais, coelhos e galinhas. Para mim eles eram os Waltons. Minha própria versão dos Waltons.

Pensando em retrospecto, ter vários filhos implicava em muitos riscos – muitas variáveis para controlar e muitas provisões para acumular para o futuro. Era economicamente arriscado em muitos sentidos. Mas a vitalidade daquela casa e de outras casa repletas que conheci (a da Dona Carmelita em Urubici, da Dona Hulda em Campinas, só para citar duas) me leva a lamentar de coração a extinção do gênero.

Quem não esteve numa casa repleta não tem como saber o que é sentir-se acolhido. Quem tem todo o espaço para si acaba privado de descobrir que o mais precioso é o espaço preenchido ao seu redor.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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