A geração do dilúvio • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 28 de julho de 2008

A geração do dilúvio

Estocado em Goiabas Roubadas

NOÉ: A geração do dilúvio

Enquanto os descendentes de Caim assemelhavam-se a seu ancestral em sua depravação e pecaminosidade, os descendentes de Sete levavam uma vida piedosa e ordeira, sendo que a diferença entre as duas linhagens refletia-se em seus locais de residência. A família de Sete fixara-se nas montanhas próximas ao Paraíso, enquanto a família de Caim residia no campo de Damasco, o lugar onde Abel foi assassinado por Caim.

Infelizmente, na época de Matusalém, logo após a morte de Adão, a família de Sete corrompeu-se à maneira dos cainitas. As duas linhagens uniram-se uma à outra a fim de cometerem toda espécie de perversidade. O resultado dos casamentos entre elas foram os Nephilim, cujos pecados ocasionaram o dilúvio sobre o mundo. Em sua arrogância esses alegavam ter o mesmo pedigree da posteridade de Sete, e comparavam-se a príncipes e homens de ascendência nobre.

A licenciosidade desta geração deveu-se até certo ponto às condições favoráveis de que desfrutava a humanidade antes do dilúvio. Não conheciam trabalho árduo nem preocupação, e como resultado de sua extraordinária prosperidade tornaram-se insolentes; em sua arrogância, voltaram-se contra Deus.

Uma única semeadura produzia uma colheita suficiente para suprir as necessidades de quarenta anos, e por meios mágicos as pessoas conseguiam fazer com que os próprios sol e lua se dispusessem ao seu serviço.

A criação de filhos não lhes dava qualquer trabalho. Nasciam depois de uns poucos dias de gravidez, e imediatamente após o nascimento sabiam andar e falar; ajudavam eles mesmos a mãe a cortar o cordão umbilical. Certa vez um recém-nascido, correndo para buscar uma luz para que sua mãe pudesse cortar o cordão umbilical, encontrou o chefe dos demônios, e teve início uma altercação entre os dois. Ouviu-se de repente o canto do galo, e o demônio fugiu depressa, gritando para o bebê:

— Vá contar à sua mãe que se não fosse o canto do galo eu teria matado você!

O bebê retrucou:

— Vá contar à sua mãe que se não fosse meu cordão umbilical eu teria matado você!

Foi essa vida sem preocupações que deu a eles espaço e tempo livre para suas infâmias. Por algum tempo Deus, em sua bondade paciente, foi tolerante com as perversidades dos homens, mas sua tolerância terminou quando as pessoas começaram a viver vidas devassas — pois “Deus é paciente com todos os pecados, menos com a imoralidade”.

O outro pecado que apressou o fim da geração perversa foi sua rapacidade. Tão astuciosas eram suas depredações que a lei não podia tocá-los. Se um camponês trazia ao mercado uma cesta de vegetais, as pessoas passavam-lhe do lado e, uma após outra, subtraiam um pedacinho de cada vez; cada pedaço não tinha grande valor em si, mas logo ao vendedor não restava o que vender.

Mesmo depois que havia decidido pela destruição dos pecadores, Deus permitiu que sua misericórdia prevalecesse, pelo que mandou-lhes Noé, que exortou-os por cento e vinte anos a corrigirem sua conduta, acenando sempre com a ameaça do dilúvio. Eles porém nada faziam além de ridicularizá-lo. Quando viram ocupando-se da construção da arca, perguntavam:

— Pra quê essa arca?

Noé:

— Deus trará um dilúvio sobre vocês.

Os pecadores:

— Que espécie de dilúvio? Se ele mandar um dilúvio de fogo, contra isso nós sabemos nos proteger. Se for um dilúvio de água e a água brotar do solo, fecharemos [os buracos] com barras de ferro; se descer do alto, conhecemos uma solução para isso também.

Noé:

— As águas brotarão de sob os seus pés, e vocês não terão como impedi-las.

Eles em parte persistiram na dureza de seus corações porque Noé havia anunciado que o dilúvio não desceria enquanto o piedoso Matusalém habitasse entre eles. Quando encerrou-se período de cento e vinte anos de suspensão da pena que Deus havia apontado, Matusalém morreu, mas em consideração pela memória desse homem piedoso Deus deu a eles uma semana adicional, a semana de luto por ele. Durante esse período de graça as leis da natureza foram suspensas: o sol levantava-se no oeste e punha-se no leste. Aos pecadores Deus deu as guloseimas que aguardam o homem no mundo futuro, a fim de mostrar-lhes aquilo a que estavam perdendo direito. Mas tudo isso mostrou-se infrutífero e, tendo Matusalém e os outros homens piedosos da geração dele partido desta vida, Deus trouxe o dilúvio sobre a terra.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas já foi longe demais