A estância do cavalo mecânico • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 15 de abril de 2009

A estância do cavalo mecânico

Estocado em Manuscritos

Era um lugar que só apelava às crianças; quando acontecia de voltarem como adultos, estavam invariavelmente cansados ou estressados demais para reconhecer que já haviam estado ali e encontrar no lugar as suas marcas. Para os que não retornavam, a estância pendia da memória com a vaguidão de uma lembrança de sonho.

Era um hotelzinho sem qualquer pretensão, numa curva inóspita de uma estrada já pouco frequentada antes do advento da nova BR. Via de regra, só pernoitavam ali os viajantes surpreendidos à noitinha por alguma falha mecânica particularmente exigente. Enquanto seus automóveis repousavam aguardando uma peça de reposição na oficina do posto de gasolina, dois quilômetros estrada acima, descobriam que o holtelzinho do posto fora desativado anos antes e só restava recorrer, carregando cônjuges, filhos e bagagem, à portaria da Estância.

No ensebado e amarelado restaurante do posto o rádio urrava os insucessos de duplas sertanejas de cinquenta anos atrás, nomes que o pai jurava que jamais ouvira e jamais voltaria a ouvir. No asseado e branco saguão da Estância eram recebidos por música mais baixa e mais indefinível, orquestras grandiloquentes e canções românticas que deveriam ser típicas de algum país euroupeu que a memória não conseguia determinar com unanimidade.

A Estância existia num limbo mercadológico; era considerada parada luxuosa demais pelos caminhoneiros e acanhada demais pela família média em viagem de férias. Por essa razão havia via de regra vagas e muitas, conforme esclarecia o recepcionista, um sujeito magro, alto e tatuado de uns trinta anos, ao mesmo tempo muito masculino e um tanto afeminado, trajando um sorriso ambíguo, calça preta e camisa social bege.

Era um lugar só para dormir, aguentar a noite sob ventiladores e em meio ao cheiro de espirais fumegantes de inseticida, engolir o café da manhã sobre toalhas xadrez e correr para recuperar o carro e acrescentar léguas à lembrança dali.

As crianças, que buscavam atrações em outro comprimento de onda, não demoravam a encontrá-las. Um exemplo: ao longo de uma das paredes de todos os corredores, a sessenta centímetros do chão, estendia-se uma canaleta de concreto de perfil quadrangular, de cerca de um palmo de largura, pela qual circulava continuamente água límpida aos olhos e refrescante ao toque. Os adultos, embora incapazes de elucidar de pronto o enigma desse sistema interno de aquedutos, tomavam por certo que deveriam subsistir por trás de alguma razão sensata, e não se demoravam a ignorá-lo por completo em troca de complicações mais prementes.

Não faziam, como as crianças, barcos de papel e lançavam-nos ao sabor da corrente gentil, quase imperceptível; não viam suas embarcações desaparecem dentro de alguma parede para reaparecerem quase imediatamente de alguma outra, num andar inesperado do hotel, num ciclo aparentemente infinito mas nunca que nunca se repetia.

Não visitavam ou não se admiravam diante do Quarto dos Bichos, que era um aposento sem móveis, emoldurado por duas paredes envidraçadas, inteiramente repleto de animais vivos e mortos, impossivelmente próximos uns dos outros como numa ilustração de enciclopédia. Havia um lago e duas tartarugas vivas e muitos animais empalhados, e uma lontra mecânica de olhos de conta que saía da água por um trilho e cujo focinho tocava de repente, deliciosamente, o vidro. Havia sapos e jaguatiricas e medusas animadas flutuando de fios de nylon, macacos esqueléticos que tiravam os piolhos uns dos outros e, de repente, uma cotia de verdade que se mexia ou um polvo que colocava a cabeça para fora. O cheiro era de taxidermia e de querosene e de esterco, o fascínio absoluto.

As mães conversavam com alguma nova amiga na escura loja de lembranças ao lado do Quarto dos Bichos, onde também recusavam-se a comprar as camisetas de estampas atrozes, enquanto os pais no saguão extraíam café de uma máquina vertical de metal reluzente ou perfilavam-se em sofás diante da austeridade exigente de uma única televisão.

Ninguém, exceto as crianças, parava por mais de um minuto diante do cavalo mecânico, que era mais uma escultura do que qualquer outra coisa, sua estrutura formada por folhas recortadas de ferro que ligeiramente se sobrepunham, como as placas de um tatu ou de um rinoceronte numa gravura antiga.

Era um lugar que só apelava às crianças; quando acontecia de voltarem como adultos, estavam invariavelmente cansados ou estressados demais para reconhecer que já haviam estado ali e encontrar no lugar as suas marcas. Para os que não retornavam, a estância pendia da memória com a vaguidão de uma lembrança de sonho.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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