A discussão do paraibano com o carioca • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 10 de abril de 2015

A discussão do paraibano com o carioca

Estocado em Manuscritos

As ondas brincaram tempo com as pernas de Douzemar antes que ele despertasse de boca na areia. O paraibano tossiu, cuspiu e cambaleou três ou quatro passos madrugada adentro, e entendeu pela posição do Pão de Açúcar que aquela era uma versão de pesadelo da praia de Botafogo, uma versão em que a noite tinha sido desterrada pela vigília dos holofotes.

Entendeu também que estava muito bêbado, cheirando azedo e gostando vômito e cachaça, e não recordava ter tido ocasião para os prazeres que lhe estavam cobrando essas restituições. Sua lembrança terminava com o sangue branco do abotoado requerendo a plataforma no alto do morro, a mão de Valenciana que não chegara a alcançar, e dois tiros – um dos quais, pelo menos, poderia ter sido seu.

Não encontrou no corpo prejuízo além de um corte largo e horizontal acima do joelho, mas esse não estava sangrando mais. Aquilo lhe pareceu essencial: se ele estava vivo, Valenciana em algum lugar podia também estar.

A primeira coisa, que ele tomava pela mais fácil, era recrutar assistência. A praia estava praticamente deserta, mas pela calçada se aproximava um casal.

– Boa noite, meus caros amigos, e que noite – ele disse, estendendo a mão. – Sou Douzemar, e quem não precisa de boas notícias? Por ora não sei onde está Valenciana e posso precisar –

Mas o homem e a mulher tinham passado ao largo e escondido as mãos, como se ele tivesse o poder de mastigá-las com a sua; atravessaram a rua e não produziram outra satisfação. Douzemar gritou para chamar a atenção de um crente que estava caminhando em direção ao centro, mas o sujeito olhou aterrorizado e saiu correndo antes que o paraibano desse um passo na sua direção.

– Alô! A cordialidade ficou onde, ficou! – gritou Douzemar. – Foi assim.

Uma mulher muito alta tinha parado para olhar a cena do outro lado da rua e estava dando risada. Os carros que passavam davam buzinadas longas e ultrajadas.

– Eles não vão parar pra te ouvir, sabe – disse a mulher, tirando uma mecha de cabelo da frente dos olhos e dando um sorriso entre a solicitude e a pena.

– Por que não, desculpe? – disse Douzemar, da calçada oposta.

Ela deu uma gargalhada que conseguiu ser inteiramente indelicada e não inteiramente isenta de simpatia.

– Porque você está pelado, gente – ela disse, em seguida. – Você está nu!

– E o que tem? – disse Douzemar. – Aqui não é o Brasil?

Ela respondeu colocando a mão no quadril. Ele foi atravessando a rua, e a essa altura já tinha estabelecido que sua interlocutora era um travesti.

– Vossia me deve desculpar – disse o paraibano, – mas venho de um Brasil em que andar sem roupa é tido como muito elegante. Em certas cerimônias é traje obrigatório.

– Me leva pra lá! – ela exigiu, sorrindo.

– Decerto que levo – ele disse. – Meu nome é Douzemar. O seu?

– Lana. Lana Marla.

Ele tomou a mão do travesti entre as suas e deu um beijo.

Ela sentiu o cheiro de cachaça e recolheu a mão.

– Você é de onde, ocó, de onde?

– Sou da Paraíba – ele disse, e já temia se naquela realidade a palavra podia referir a alguma coisa.

– Ah, eu tive um namorado de João Pessoa – disse Lana Marla. – Está procurando ajuda pra voltar?

Embora ele estivesse sorrindo um pouco, os olhos de Douzemar marearam.

– Certo que quero voltar, mas para mais de um lugar – ele disse, desviando o olhar. – E pra isso preciso quebrar o encanto. E antes de tudo encontrar Valenciana.

– Valenciana… sua mulher?

– É, é minha mulher – Douzemar foi secando os olhos com as costas do braço e abriu o sorriso, como se tivesse esquecido esse consolo em meio à calamidade. – Se há alguma coisa que pode recuperar o Brasil de amores faceiros que vossia não conhece, é o amor meu e de Valenciana.

E cambaleou, mas Lana firmou-o no lugar.

– Você bebeu um monte, né?

– Não recentemente – ele disse, mas não sabia o que isso queria dizer.

Lana hesitou um instante, ponderando todos os arrependimentos dos que se inclinam à misericórdia.

– Vem cá – ela decidiu, tomando o homem pela mão. – Pelado do jeito que você está a polícia vai te arrochar.

Caminharam para longe da orla. A dez quadras dali, ao longo de uma parede sem qualquer ornamento, Lana bateu numa porta de ferro estreitíssima.

– Nori, sou eu, Marla! – e para Douzemar: – Nori é vigia. Deixo com ele uma muda de roupa.

Quando abriu a porta o homem lá dentro já estava estendendo a mochila, o rosto sem qualquer expressão. Douzemar achou que ele parecia um espírito tutelar, negro e vestido de negro, ao mesmo tempo solícito e claramente pronto a descer o braço por razões que não teria achado necessário explicar. Foi a primeira pessoa naquela noite a conceder à sua nudez a indiferença que ela pedia, pelo que Douzemar ficou grato.

– Toma, veste isso – disse Lana, puxando as roupas para fora da mochila.

O vigia estava já fechando a porta, mas Lana Marla tocou o metal com os dedos de unhas longas.

– Você quer um café com leite? – ela disse ao paraibano.

– Eu aceito.

– Norivaldo, vê um café aqui para o amigo da Paraíba, por gentileza? Eu não quero não.

O vigia não mandou ninguém à merda, abriu a garrafa térmica que trazia na cintura e estendeu silenciosamente a Douzemar uma tampa de café com leite.

O pedido, o gesto e o café socorreram Douzemar com um perfume que ele sentiu podia levá-lo noite adentro. As sapatilhas de lona ficaram largas impraticáveis e ele descartou; teve de dobrar as pernas da calça duas vezes, a gola larga da camiseta lhe dividiu o peito, mas Lana sorriu como se ele estivesse apresentável.

– É um crime um homem como você andar vestido – ela disse, ajustando a gola dele na altura do ombro. – Mas enquanto o encanto não quebra vai ter de ser assim.

O vigia revirou os olhos e fechou a porta.

– Obrigada, Nori! – ela gritou.

– Obrigado, Nori – disse Douzemar à porta fechada.

– Bom – disse Lana, e deu um passo de costas. – Pode ficar com as roupas, Douzemar. Caíram melhor em você mesmo.

O paraibano inclinou-se para a frente e segurou-lhe os braços, como se ela fosse uma aparição que ele tivesse de manter presa à terra.

– Tenho de pedir mais uma coisa – ele disse. – Me acompanhe por favor até o centro. Só até a Cinelândia.

– Gente, é sério, tenho de voltar pra casa – ela disse. – Mas ao centro se chega fácil, é só seguir –

– Eu sei chegar até o centro – ele disse. – Mas não sei o que vou encontrar, e preciso de alguém que me diga o que é normal.

Lana Marla juntou as duas mãos e levou à boca.

Seguiram pela rua do Catete. Quando chegaram à Augusto Severo eram mais de quatro da manhã, e Lana tinha a essa altura ideia mais clara das inquietações de Douzemar. Tinha ouvido da chegada triunfal a Botafogo, da procissão até a praia Vermelha, do embate no Pão de Açúcar, do passamento do Cão e das ameaças do encapuzado.

– Quer dizer – ela disse – que nesse Brasil maravilhoso você é uma celebridade?

– De nenhum jeito – disse Douzemar. – Sou cabra do mais raso, mas temos que não cessam esses regalórios nacionais que festejam as virtudes de quem quer que seja. É como jogar futebol na rua, não sei se vocês fazem ou sabem o que é.

– Hoje em dia não se joga mais bola na rua, quase – disse Lana. E acrescentou: – Você falando parece que veio assim de um Rio antigo.

Douzemar pensou se deveria dizer que tinha reconhecido pouca coisa no trajeto além do Palácio do Catete. Lana estava sendo gentil, mas estava claro que quanto mais ele falava mais recursos a simpatia dela requeria. Se aquela parecia para Douzemar uma versão muito avariada do seu Brasil, para Lana o avariado tinha de parecer ele.

– Na minha cabeça o único Rio de Janeiro que existe é antigo, não? – foi como ele conseguiu colocar. – Como quando vossia pensa em Paris, ou Florença.

– É tudo muito diferente, Douzemar? Toda essa simpatia, essa cultura, essa festa – e Lana saltitou ligeiramente, como se pudesse imaginar.

Ele assentiu enfaticamente com a cabeça.

– Estivéssemos no Rio que conheço – ele fez uma linha de ida e volta com a mão, – nesse trecho que cruzamos teríamos visto fossem trios de capoeira, rodas de samba, cucumbis, portas de gafieira, dançarias de candomblé, falanges de timbaleiros buscando umas às outras noite afora para se desafiar. E sempre os casarões. Vocês têm os Colégios e as Flâmulas? Têm as Bateladas de Abril? Têm a Academia Brasileira de Literatura de Cordel em Santa Teresa?

– Olha, não que eu saiba – ela disse.

– Vocês têm Tom Jobim, pelo amor de Deus? Águas de março?

– Temos, claro, graças a Deus.

– Pixinguinha? Cartola? Noel Rosa? Evinha? Paulinho da Viola?

– Todos esses. No seu Rio tem favela no morro? Tem Cidade de Deus?

Mas então venceram o Passeio Público, e Douzemar finalmente se localizou. Quando entendeu que o parque não estava na beira do mar como deveria, e que no lugar do Palácio Monroe havia uma praça lisa sem qualquer vestígio de alma que não um chafariz monumental, seu coração afundou barriga adentro.

Porém foi quando alçou os olhos da praça que ele atirou-se de joelhos na calçada.

– Que foi, gente, ajuda! – disse Lana. – Olha que a sua perna está machucada!

Douzemar retesou o corpo e recusou-se a deixar-se levantar.

– Vocês derrubaram o morro do Castelo – ele disse. – Vocês apagaram a porra do morro.

– Que morro, Douzemar? Nunca aqui teve morro nenhum.

– Posso garantir que tinha – ele disse. – Bem aqui –

A voz dele faltou e ela tirou da bolsa uma garrafinha d’água. Ele bebeu um gole.

– Bem aqui na nossa frente – ele pigarreou. As lágrimas desciam sem pausa, mas ele falava com mais ódio do que tristeza enquanto indicava com a mão.– Começando atrás da Escola de Belas Artes, ficava o morro do Castelo, e em cima o bairro mais antigo da cidade. A igreja de São Sebastião. O mosteiro. A igreja de Santo Inácio. O marco de pedra da fundação do Rio. A fortaleza primeira. O observatório. – ele deixou que as mãos caíssem sobre as coxas. – O trabalho que deve ter dado pôr abaixo um morro inteiro, a coisa mais antiga e mais cara do Rio, e vocês deixaram no lugar um lago de asfalto.

– Talvez você tenha razão – disse Lana, tentando encontrar na malha de prédios traço da cidade que ele via. – O que sei que derrubaram foi o morro de Santo Antônio.

Ele olhou para ela com o rancor que só um homem que está chorando pode oferecer.

– Mas deixaram uma parte – ela disse, – deixaram o convento de Santo Antônio. E fizeram junto dos arcos da Lapa uma catedral que você vai odiar.

Douzemar chorou de olhos abertos por quase meia hora, ajoelhado como estava, antes de voltar a falar. Nesse meio tempo Lana Marla tirou os saltos plataforma e sentou-se ao lado dele na calçada da praça sem alma, que ela não teve coragem de mencionar se chamava Mahatma Gandhi.

– O morro do Castelo é o lugar que Valenciana mais ama em todo o Rio de Janeiro – o homem trocou de posição e sentou-se. – A gente fica numa casa boêmia sem dono, um sobrado com uma varanda formidável que é uma festa sem fim… gente do Brasil todinho. E Valenciana gosta do casario, de pinçar as livrarias que têm todas redes para dormir ou para ler, petiscar nos armazéns da ladeira da Misericórdia. E a vista, meu cacete, um panorama de que não se escapa. Que pecado, minha cara Marla, vossia nunca ter ouvido os violeiros no chafariz, não ter namorado no jardim das Roseiras.

– Foi por isso que você quis vir ao centro – ela disse, baixando a cabeça. – Porque tinha esperança de encontrar a Valenciana.

– Se Vale estivesse no Rio sei que teria vindo pra cá, para o Castelo, esperando que eu fizesse o mesmo. Sei direitinho onde ela estaria, debaixo de que arco.

Lana ergueu a cabeça, furiosa consigo mesma por não ter certeza se o morro do Castelo existia fora da imaginação de Douzemar. E quanto pior seria se tivesse existido e fosse agora imaginação.

– Quando você fala dessas coisas que já passaram – ela disse, – dessas coisas que as pessoas a-pa-ga-ram do mapa, a cidade fica parecendo um esquecimento só. E todo mundo passa todo dia e ninguém lembra que é um esquecimento só. Quantos esquecimentos você acha cabem um em cima do outro, Douzemar? Quantas camadas?

Lana pôs-se de pé e estendeu a mão.

– Vem – ela disse. – Se você vai encontrar a Valenciana e quebrar o encanto vai ter de descansar primeiro, vai ter de reagrupar. Vamos pra casa.

Nada naquela noite lhe pareceu fazer mais sentido do que a palavra reagrupar, mas Douzemar continuava sentado ao lado da mão estendida.

– Copacabana está dizendo que sim – Lana insistiu. – Botou a brisa à minha disposição.

– A bomba H quer explodir no jardim, matar a flor em botão – ele disse, muito sério.

– Eu digo que não.

Douzemar deixou-se levantar e foram caminhando descalços em direção à estação da Cinelândia, ele mais do que ela cantarolando Casaco marrom.

 

Evinha, Casaco marrom | Clique no triângulo para ouvir

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas está desde 2004 sem chegar a lugar algum