A família pré-industrial • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 01 de fevereiro de 2006

A família pré-industrial

Estocado em História · Nostalgia

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Papai tá lá na roça, mamãe foi ajudar

Não adianta: nossa tendência é idealizar o passado. Nada é mais belo e admirável ou idealizável do que o passado, especialmente à medida que vai se ficando velho, e com o devido tempo todo mundo fica.

Exigimos que as coisas sejam como sempre foram, porque é verdade auto-evidente que eram melhores antes. A família, por exemplo. Já deixei registrada aqui e aqui a falta que ela me faz: a família grande, relíquia de um tempo irrecuperável.

Hoje em dia as famílias são pequenas, a mãe trabalha fora, papai foi passear, talvez não volte.

Pode ser útil então respirar fundo e lembrar que a família nuclear papai-trabalha/mamãe-cuida-da-casa-e-dos-filhos, por mais icônica e nostálgica que possa aparecer, é coisa relativemente moderna na história, e teve vida tristemente curta. Quem viu, viu; quem viver, não verá.

A curiosa invenção que chamamos de família existiu sob as mais diversas formas ao longo da história. O nome e a ideia central sobreviveram a tremendas crises e mudanças, mas não o formato.

Antes do século XIX e da industrialização, a família era basicamente uma unidade econômica: todos trabalhavam e o pai era o chefe do empreendimento familiar.

As crianças eram, particularmente, vistas como adultos em miniatura, versões maçantes e irritantemente imperfeitas dos seres verdadeiramente funcionais que as cercavam. Crianças trabalhavam como todo mundo e não recebiam qualquer atenção especial, com exceção de uma certa impaciência para que crescessem logo. A adolescência não havia sido inventada, e a transição para a fase adulta começava assim que a criança se mostrava capaz de empunhar a primeira ferramenta. Crianças serviam para ajudar o pai e a mãe em suas tarefas, e a cuidar dos irmãos menores, que sucediam-se em ritmo alucinante.

As mulheres faziam “trabalho de verdade”, isto é, estavam diretamente engajadas na produção do que quer que fosse. Se não ajudavam no ofício do marido, produziam comida, costuravam roupas, teciam.

Em geral o homem trabalhava e comia em casa, e não era visto portanto como “o provedor”. Como trabalhavam todos juntos, homem, mulher e filhos, a convivência familiar era espantosamente mais intensa do que nos nossos dias.

Tampouco o termo “família” era usado, como hoje em dia, para descrever essa família nuclear que só comporta marido, mulher e filhos. Havia invariavelmente mais gente na casa e portanto na família: avós, tios, primos, empregados. A educação que havia era, primariamente, responsabilidade da família.

Pense numa versão menos requintada de Os Waltons, sem qualquer paparicação por parte dos pais e avós sobre os John Boys e as Mary Ellens.

Então algum sujeito desavisado inventou a máquina a vapor, e colocou tudo a perder.

Veja também:
Trabalho infantil na América do Norte
(de onde chupei as imagens que ilustram este documento)

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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