Na cidade antiga • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 05 de dezembro de 2004

Na cidade antiga

Estocado em Sonhos

Curitiba, mas uma Curitiba de sonho. O sol havia acabado de se pôr mas havia muita luz amarela na tarde gelada. Eu andava, talvez a esmo, por entre uma multidão que saía (de algum grandioso e não visto edifício) do que poderia ter sido um concerto ou um casamento, todos muito finamente vestidos e encasacados, caminhando em direção a seus carros ou esperando que seus carros viessem buscá-los. Não sei dizer ao certo quem, mas eu sabia que havia familiares meus por ali e depois de uma tarde de aventuras (eu não havia assistido ao concerto) esperava ganhar uma carona para casa.

Enquanto procurava um rosto conhecido na multidão deparei-me, bem no meio da rua, com meu [falecido] tio-avô Reynaldo Purim. Ele estava em pé, sozinho e vagamente confuso entre as pessoas que passavam, vestindo um pesado casaco de lã que descia até abaixo dos joelhos, exatamente como me lembro dele: velhinho mas encorpado e posudo, os cabelos finos e muito brancos, o rosto avermelhado, a língua tentando formar alguma palavra que custava muito a cristalizar: quando a frase estava pronta para sair o interlocutor já havia perdido a paciência de se interessar pelo que ele tinha a dizer, ou a ocasião havia irremediavelmente se perdido. Foi o que aconteceu nessa ocasião: quando perguntei ao tio quem ia levá-lo para casa e antes que ele encontrasse as palavras para responder minha prima Vanelli apareceu de trás dele e tomou-o pelo braço, sorrindo para mim como que em resposta: eu não precisava me preocupar porque já tudo estava arranjado.

Quando a Vanelli afastou-se levando o tio levantei os olhos e vi, a uns vinte metros de onde eu estava, meu pai sentado dentro do carro (estacionado) dele, esperando atrás do volante como ele sempre faz. Pensei em chamar a sua atenção e pedir uma carona, mas por alguma razão tive por certo que o carro estaria cheio e resolvi voltar sozinho pelo meio da cidade. O prospecto na verdade não me parecia nada ruim; acho bem provável que eu estivesse escolhendo a travessia à pé pela cidade antiga.

No lado oposto da rua havia uma série de velhos edifícios distintos mas pegados um ao outro. O andar superior desses edifícios avançava alguns metros em direção à rua, deixando um vão livre sobre a calçada. A calçada era portanto coberta, e os pedestres andavam por ali tendo as portas dos edifícios de um lado e uma longa parede do outro, com arcos ocasionais que davam para a rua.

Entrei por um desses arcos e fui caminhando sozinho por esse corredor, observando as portas de madeira à minha esquerda, pintadas (como as paredes) de um cinza claro vagamente azulado. Passei pelas portas abertas de uma igreja vazia com bancos e paredes de madeira, depois pelas portas fechadas do que eu sabia ser um restaurante, e por fim testei a porta do edifício seguinte, meu destino temporário, que para minha surpresa estava aberta.

Eu sabia (porque havia estado com um amigo no saguão daquele prédio antes naquele mesmo sonho, na parte inicial de que não me lembro) que num apartamento daquele edifício moravam os pais e a irmã mais nova de minha ex-namorada Olívia, e eu por alguma razão eu havia resolvido falar com eles pelo interfone antes de prosseguir viagem.

Havia algumas pessoas no saguão esverdeado do prédio, aparentemente todas querendo como eu descobrir o número do apartamento que queriam visitar pela confusa lista de nomes colada num mural. Não se tratava na verdade de uma lista, mas de uma série de pedaços de papel (alguns deles incrivelmente antigos), amontoados uns sobre os outros, trazendo um nome de família ao lado do número do apartamento. Não estavam organizados em qualquer ordem, e muitos apartamentos pareciam não estar representados. Um lance verde de escadas logo atrás de nós levava para os andares superiores. Não era um prédio alto e não me lembro de ter visto elevador.

De repente entraram da rua, ou talvez já estivessem ali, o pastor Edir Félix dos Santos e sua esposa, procurando ao meu lado nas anotações do mural o apartamento do pastor Williams Balaniuc, que tinham vindo visitar. No momento seguinte eu já os estava prestativamente ajudando, e sem qualquer transição quem morava no prédio era mesmo o pastor Williams e não (esqueci deles) os pais da Olívia. Se eu achasse de uma vez o número do apartamento, pensei, poderia usar o interfone para falar com os filhos do pastor lá em cima – e no sonho os filhos do pastor Williams não eram o Paulo, o Billy e o Cléber, mas os quatro filhos do Seu Paulinho e da Dona Carmelita de Urubici.

Afastei-me por um momento do grupo apinhado diante do mural e encontrei por acaso, fixado a pouca distância num lambril, um papel amarelado com o nome do pastor Williams e o número do seu apartamento (começava com 3, mas havia também o que deveria ser um 5, talvez um 7, possivelmente um 2). Falei pelo interfone com o reverendo e perguntei sobre os seus filhos, se estavam em casa. O pastor informou-me que infelizmente não, estavam os quatro passando alguns meses em Chicago e só deveriam voltar em fevereiro. Agradeci, informei que o pastor Edir estava subindo e saí para o frio amarelado do entardecer.

Meu caminho cidade adentro era basicamente uma longa descida, uma revisão onírica (e muito estendida) do trajeto de quem desce do prédio da Telepar, do Cemitério Municipal ou do Largo da Ordem em direção ao centro. As ruas pelas quais eu caminhava na noite curitibana (sozinho, embora descessem comigo outras pessoas que eu não conhecia, talvez pensando como eu em tomar um ônibus lá embaixo) eram estreitas e de pavimentação muito escura. As calçadas eram estreitas e as luzes acesas das casas iluminavam o caminho. Fazia muito frio.

Eu caminhava olhando para baixo, vendo a luz refletida no pavimento, e percebi sem transição que uma fina camada branca surgira sobre o calçamento. Alguém à minha direita disse: “Está nevando!”, e estendi a mão como que para confirmar sensorialmente a intuição. No momento seguinte pude, sim, ver uma neve muito fina, com flocos minúsculos, que descia pendulando do céu iluminado e parecia se solidificar apenas abaixo do nível dos telhados. Lembro ter ficado surpreso porque novembro era muito tarde para nevar.

A ruas pela qual descíamos foi se estreitando cada vez mais, fazendo pequenos desvios de trajeto para um lado e para outro, até que, depois que cumprimentamos a secretária de uma iluminada escola de inglês (que observava a neve de sua pequena varanda) a rua simplesmente terminou no portão do quintal da casa de alguém. Eu sabia que para prosseguir precisava continuar descendo rumo à cidade lá embaixo, e em retrospecto não fiquei exatamente surpreso ao ver que a rua terminava.

Sem que ninguém precisasse me explicar o que fazer, abri o portãozinho de metal diante de mim e entrei no quintal de calçamento da casa. Naquela região da cidade não havia ruas e as casas ficavam imediatamente uma ao lado da outra, os muros e gradis compartilhados e interligados por portões de ferro e escadarias de concreto. O único meio de prosseguir era passando do quintal de uma casa para o quintal de outra, descendo as escadas, abrindo e fechando os portões, desviando para a casa da direita antes de encontrar um portão que abrisse para uma nova escada e mais abaixo, e assim por diante.

Em determinado momento, no quintal de alguém (havia a esta altura parado de nevar), percebi deslumbrado que a única maneira de chegar ao portão um metro e meio abaixo de nós era passando por dentro da casa à minha esquerda. Abri a porta (estava aberta, como todos os portões pelos quais precisamos passar) e entrei numa sala de jantar às escuras, a casa silenciosa mas (eu sabia) não vazia, a decoração fossilizada das casas de classe média dos anos 70, com toalhas de tricô e abajures de acrílico, a única luz entrando da rua e filtrada pelas cortinas. Lembro que a mesa e as cadeiras eram de fórmica vermelha, exatamente como a porta (também de fórmica e vermelha) que havia na parede da direita do mesmo aposento – e pela qual saí para uma pequena escada e para o nível inferior do quintal da mesma casa.

Ali, diante do portão baixo e metálico de duas abas (daqueles grandes o bastante para dar passagem a um carro, mas que ali não davam passagem a carro algum, porque abriam para o quintal da casa vizinha), encontramos (eu e meus companheiros) uma senhora varrendo o chão de concreto. Ela não pareceu nada surpresa ao nos ver, e quando alguém puxou conversa com ela sobre o problema de gente passando pelos quintais ela parou de varrer e disse que não a incomodava, apenas queria que fosse mais organizado, que mais de uma vez o pessoal do bairro tinha pedido à pessoa responsável que tomasse uma providência a respeito, e continuou falando.

Olhando a cidade se descortinando branca lá embaixo, para todos os quintais e todas as casas que eu ainda precisava atravessar para chegar onde queria, fiquei feliz que as coisas fossem assim e que aqui não houvesse ruas, apenas casas. Aquilo tinha um charme que eu achava que não existia mais.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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