A Central de Piadas da ANA • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 13 de janeiro de 2006

A Central de Piadas da ANA

Estocado em Brasil · Manuscritos

Depois de um ano e 13 dias de treinamento básico, inciado em 1981, minha primeira função oficial na organização foi um estágio de seis meses na Central de Piadas da ANA – a supersecreta Agência Nacional de Acobertamento.

A Central de Piadas – a saudosa CPI, para a qual faço ainda um trabalho avulso ou outro – é um moderníssimo complexo de 8 andares subterrâneos, à prova de ataques nucleares e de riso, localizado a 400 metros de profundidade na cidade baixa de Salvador. A única entrada conhecida é pelo Elevador Lacerda, mas é preciso digitar um código rotativo no painel secreto de controle, cuja posição dentro do elevador também muda semanalmente e por isso você nunca sabe exatamente onde está. “Faz parte da piada”, diz o pessoal da CPI.

Se já chegou até você uma piada fazendo graça de alguma figura política do Brasil, é quase certo que tenha sido trabalho da Central.

Como o elevador nunca está vazio, a cada viagem você acaba levando pelo menos meia dúzia de baianos e turistas para dentro do complexo subterrâneo – motivo pelo qual o contingente da Central permanece aumentando exponencialmente. “Esse é sem dúvida um dos grandes segredos do nosso sucesso”, afirma Roberto Tomé, Diretor Nacional da Central. “Nossas melhores duplas de criação são formadas por um baiano distraído e algum turista dinamarquês.”

Os esforços da CPI são perfeitamente alinhados com a declaração de propósitos da ANA – a árdua tarefa de ocultar dos nacionais o que o resto do mundo está careca de saber: que o Brasil é a maior potência tecnológica, cultural e política do planeta. Os incansáveis redatores da Central trabalham dia e noite criando piadas e anedotas que denigrem, difamam e escarnecem impiedosamente figuras e eventos da vida nacional. Essas piadas são reunidas por tema e compiladas em dossiês (os chamados “trios-elétricos”). No momento oportuno, quando o gatilho de alguma operação da ANA é acionado (digamos, o presidente da Câmara é acusado falsamente de corrupção) o trio-elétrico correspondente é colocado em circulação por canais secretos, de modo a sustentar a cortina de fumaça coletiva que impede a massa dos brasileiros de enxergar a grandeza e a singularidade do Brasil.

Quem mais teria tempo para criar piadas tão elaboradas?

Se já chegou até você uma piada fazendo graça de alguma figura política ou cultural do Brasil, é quase certo que tenha sido trabalho da Central. Em retrospecto, é estranho que você não tenha estranhado antes. Pense comigo: você conhece alguém que tenha inventado alguma piada? As piadas, acredite, não nascem em árvores. São trabalho duro. Qualquer um que reflita sobre o assunto terá de concluir que as anedotas que inundam diariamente a sua caixa de entrada só podem se originar em algum orgão central do governo: quem mais teria tempo livre para criar piadas tão elaboradas?

Algumas vezes, como no infame caso do Ayrton Senna, os trens elétricos são liberados antes do tempo, com resultados potencialmente desastrosos. Apenas meia dúzia de pessoas percebeu que as maldosas anedotas do vastíssimo dossiê de piadas sobre a morte do Senna (“Sabe qual o novo nome da curva Tamburello? Reta do Senna”) começou a circular na íntegra meras duas horas depois do acidente que levou nosso herói para um plano superior – sendo que o prazo mínimo para se desovar um trem elétrico completo é de uma semana (o erro gerou ainda a suspeita de que o próprio acidente tivesse sido planejado pela Agência; a verdade é que Senna era o mais notório agente insubordinado da ANA, mas a história é bem mais complicada do que isso).

Quem conhece os procedimentos da Central sabe que os dossiês de piadas estão prontos muito antes de que sejam necessários – e a maioria nunca chega a ser. O engraçadíssimo trem-elétrico da releeição do Lula, por exemplo, já está pronto há mais de um ano, embora seja provável que nunca vá chegar ao olho do público. Outro dia passaram pelas minhas mãos, para aprovação, uma série desses dossiês preventivos, preparados para alguma eventualidade – entre eles estavam o dossiê da canonização de Ana Maria Braga, o dossiê da visita do papa, o dossiê do ataque nuclear norte-coreano em Brasília (esse último por pouco não foi necessário; se você não ficou sabendo o mérito é novamente da ANA, que criou o caso Marcos Valério para encobrir a embaraçosa verdade).

A gente ganha pouco mas se diverte.

Já o elaborado dossiê da morte dos Mamonas Assassinas (que eram, coincidentemente, eles mesmos agentes da ANA e deixaram uma enorme lacuna) teve de ser refeito às pressas, porque continha referências que poderiam ser consideradas elogiosas à soberania nacional.

A Central de Piadas é, portanto, um dos braços mais importantes do vasta obra de acobertamento da ANA. Suas duplas de redação labutam arduamente entre um uísque e outro a fim de sustentar através de piadinhas infames o que é, naturalmente, o maior engodo de todos os tempos. É em parte graças ao afã desses heróis anônimos que você de fato acredita que o Brasil é um país que não vai pra frente. Nossa lavagem cerebral tem mantido, até agora, a verdade à salvo do grande público – e mantido ao mesmo tempo um sorriso tonto no rosto coletivo do Brasil.

É panis et circus, com ênfase em circus.

Se não houvesse a CPI, você abriria o seu e-mail e não encontraria aquelas mensagens hilárias que todo mundo aprendeu a esperar e difundir: listas de piadinhas que se acumulam antes que você tenha tempo de apagar a última (se você perceber, são sempre mensagens encaminhadas: o primeiro encaminhador é inevitavelmente um boi de piranha da Central). Ou, como diz a infame frase cunhada pelo pessoal de marketing da ANA e popularizado até à náusea pelos canais da CPI: A gente ganha pouco mas se diverte. Graças ao nosso trabalho, tem gente que de fato acredita que uma coisa compensa a outra – o que, convenhamos, não é pouco.

A propósito, você ficou sabendo que um deputado federal foi diagnosticado com febre aftosa? A boa notícia é que vão ter de abater o rebanho todo.


Se você acha isso bom, espere para ver o novo trem elétrico da febre aviária. Eu que fiz.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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