A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 30 de novembro de 2005

A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112

Estocado em História

É DE CONHECIMENTO GERAL que o jeito “tradicional” que comemoramos o Natal – com árvore, Papai Noel, banquetes familiares e troca de presentes – é importação do hemisfério norte.

Menos conhecido é o fato de que essa singela tradição familiar é coisa relativamente recente mesmo na região do mundo que a criou. Durante a maior parte de sua história a comemoração do Natal foi coisa muito controversa, alvo de todo tipo de crítica e hostilidade. Os norte-americanos passaram séculos tentando reprimir o Natal de muitas maneiras (comemorá-lo chegou a ser proibido em alguns estados, e o feriado só ganhou reconhecimento legal na metade de século XIX) – até que se conseguiu domesticá-lo, de forma extraordinariamente bem-sucedida, na inócua tradição que observamos hoje.

Como explica o historiador Stephen Nissenbaum em seu delicioso The Batlle For Christmas, parte da hostilidade contra o Natal residia, naturalmente, na sua origem pagã. Não há absolutamente nada que indique que Jesus tenha nascido no dia 25 de dezembro – pelo contrário, os pastores que visitaram-no no berço não estariam “no campo guardando seu rebanho durante as vigílias da noite” no rigoroso inverno de dezembro. A data foi escolhida (no quarto século depois de Cristo) não por motivos históricos ou religiosos, mas porque marcava o solstício do inverno – e o correspondente festival pagão, comemorado já muitos séculos antes do Advento.

Porém ainda mais importante na história da resistência contra o Natal era o modo peculiar como a festa era comemorada antes de sua domesticação. Longe de ser a serena cerimônia familiar com que estamos habituados hoje, o Natal era uma violenta zoação pública, caracterizada por procissões de desordeiros bebendo e comendo pelas ruas, zombando das autoridades, pedindo esmolas aos passantes (com freqüência ameaçando-os de alguma violência) e invadindo as casas dos ricos para reabastecer seus bolsos, panças e copos. Era esse carnaval que o governo do Massachusetts tentava suprimir quando tornou ilegal a comemoração do Natal entre 1659 e 1681.

Explica Nissenbaum:

Pode parecer estranho que o Natal tenha sido em alguma época celebrado dessa forma, mas há uma boa razão. Nas sociedades agrícolas do hemisfério norte o mês de dezembro era uma grande “vírgula” no ciclo anual de trabalho, uma época em que havia um mínimo de trabalho para realizar. O frio congelante do inverno mais avançado não havia ainda chegado; o trabalho de ceifar a colheita e prepará-la para o inverno estava concluído; e havia cerveja e vinho em abundância, bem como carne dos animais recém-abatidos – carne que precisava ser consumida antes que estragasse.

Comida à vontade, tempo ocioso e muita bebida disponível: os primeiros ingredientes na história da comemoração do Natal.

E ainda os mais recentes.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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