A boa e a má notícia sobre Thomas Piketty • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de abril de 2014

A boa e a má notícia sobre Thomas Piketty

Estocado em Manuscritos

O assunto do momento entre os pensadores econômicos norte-americanos é o francês Thomas Piketty, autor de Capital in the Twenty-first Century (2013).

A boa notícia é que o livro “assombrosamente bem documentado” de Piketty está convencendo os americanos do que deveria parecer óbvio: que o capitalismo produz e acentua a desigualdade econômica e social.

Que o capitalismo tende a enriquecer os proprietários do capital e a empobrecer todos os outros já dizia, com o perdão da palavra, Marx. A contribuição de Piketty está em explicar porque os pensadores neoliberais acreditam no contrário. O problema, explica ele, está em que o pensamento neoliberal – “num mercado livre todos acabam ganhando” – nasceu num momento econômico que mostrou ser uma exceção histórica: o período entre 1913 e 1973.

Nessa idade do ouro do capitalismo as economias da Europa ocidental e dos Estados Unidos de fato se expandiram e a desigualdade econômica de fato diminuiu, mas em termos estatísticos o período foi uma aberração, uma exceção transitória. Piketty explica que se nesse período a distância entre pobres e ricos diminuiu não foi devido ao livre-mercado, mas aos efeitos combinados de duas guerras mundiais e da Grande Depressão. Hoje em dia os índices demonstram que a distância entre pobres e ricos apenas aumenta mas, com base no otimismo enganoso nascido naquele período de exceção, os neoliberais continuam a insistir 1Milton Friedman: “O livre mercado distribui entre todos os frutos do crescimento econômico”. que o capitalismo sem rédeas acabará produzindo, sem qualquer necessidade de intervenção, a justiça social e econômica.

Com Marx, Thomas Piketty sustenta que a distância crescente entre pobres e ricos tende a produzir tensões insuportáveis; porém onde Marx celebrava o fato de que a tensão acabaria produzindo a revolução, Piketty lamenta que a tensão poderá acabar inviabilizando o capitalismo.

E é essa a má notícia: Piketty quer manter vivo o capitalismo por mais algumas décadas, e está apostando que essa sobrevida estarão dispostos a bancar aqueles que mais se beneficiam com ele.

Como o único modo de prolongar a vida útil da máquina capitalista é tolhendo a distância crescente entre ricos e pobres, Piketty está evangelizando uma solução: uma taxa global (isto é, válida em todo o planeta) e progressiva (isto é, quem é mais rico paga mais) sobre fortunas acima de um milhão de euros.

A saída paradoxal para o capitalismo seria, portanto, fomentar alguma distribuição – não de renda, mas de capital:

«A solução é reformar a estrutura econômica americana de modo a que os trabalhadores possam suplementar os seus salários através de posse de capital e de significativas rendas de capital e participação nos lucros.»

Colocado de outro modo: num mundo perfeito seremos todos capitalistas.

Fique bem entendido que a declarada ambição de Piketty (e dos seus admiradores) não é beneficiar os pobres, mas viabilizar o capitalismo, garantindo a exploração de recursos e de gentes por um pouco mais de tempo e adiando a altercação final. Se o mundo capitalista adotará a solução de Piketty (ou uma semelhante) só o tempo pode dizer. Ninguém gosta de pagar taxas pela prosperidade, mas um verdadeiro capitalista não poupará um dedo ou dois para manter viva a galinha dos ovos de ouro.

 

SE VOCÊ NÃO FAZ IDEIA DO QUE É NEOLIBERALISMO OU DE PORQUE TEM ESSE NOME:
A liberdade não nos libertará, na Bacia das Almas

SOBRE AS IDEIAS DE THOMAS PIKETTY E SEU IMPACTO NOS ESTADOS-UNIDOS:
Capital Man, em The Chronicle of Higher Education (em inglês)

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. Milton Friedman: “O livre mercado distribui entre todos os frutos do crescimento econômico”.
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