A ascensão de Enoque • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 12 de maio de 2008

A ascensão de Enoque

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AS DEZ GERAÇÕES: A ascensão de Enoque

Essa não foi a primeira vez que Enoque esteve no céu. Uma vez antes disso, enquanto vivia entre os homens, foi-lhe permitido ver todas as coisas que há na terra e no céu. Numa hora em que ele estava dormindo um pesar profundo desceu-lhe sobre o coração; em seu sonho ele chorou, sem saber o que o pesar significava, nem tampouco o que lhe sobreviria. Então lhe apareceram dois homens muito altos; seus rostos eram como o sol, seus olhos como lâmpadas incandescentes, e fogo brotava de seus lábios; suas asas eram mais brilhantes do que ouro, suas mãos mais brancas do que a neve. Eles puseram-se em pé diante da cama de Enoque e chamaram-no pelo nome. Enoque despertou do sono e apressou-se a prestar-lhes reverência, aterrorizado. Esses homens então lhe disseram:

— Ânimo, Enoque, não tenha medo. O eterno Deus mandou-nos até você, e hoje mesmo você subirá ao céu conosco. Conte aos seus filhos e criados, e diga que não o procurem até que o Sehor o traga de volta.

Enoque fez como lhe foi dito, e depois que ele havia falado com seus filhos, instruindo-os a não darem as costas para Deus e a guardarem os julgamentos dele, esses dois homens o chamaram, tomaram-no em suas asas e colocaram-no sobre as nuvens, que passaram a deslocar-se cada vez mais para cima, até depositá-lo no primeiro céu. Aqui foram mostrados a ele os duzentos anjos que governam as estrelas, bem como seu serviço celestial. Aqui ele viu também os depósitos de neve e de gelo, de nuvens e de orvalho.

«Recebemos ordens de acompanhá-lo até este ponto.»

Dali eles o levaram até o segundo céu, onde Enoque viu os anjos caídos em prisão, que não obedeceram aos mandamentos de Deus, tendo ouvido o conselho de sua própria vontade. Os anjos caídos lhe disseram:

— Ah, homem de Deus! Rogue por nós ao Senhor!

Ele respondeu:

— Quem sou eu, homem mortal, para rogar por anjos? Quem sabe para onde estou indo, ou o que me espera?

Eles então levaram-no ao terceiro céu, onde foi-lhe mostrado o Paraíso, com todas as árvores de belíssimas cores e seus frutos maduros e saborosos, bem como toda espécie de alimento que produziam, brotando com delicioso aroma. No meio do Paraíso ele viu a árvore da vida, no lugar em que Deus repousa quando vem ao Paraíso. Essa árvore, em sua excelência e sua doce fragrância, não pode ser descrita; é mais bela do que qualquer outra coisa criada, e em todos os seus lados é semelhante a ouro e a carmim, sendo transparente como o fogo e cobrindo todas as coisas. De suas raízes no jardim brotam quatro fontes, das quais fluem, leite, mel, óleo e vinho; suas correntes descem até o Paraíso do Éden, que se localiza na fronteira entre a região terrena da corruptibilidade e a região celeste da incorruptibilidade, e daí contornam a terra. Ele viu também os trezentos anjos que cuidam do jardim, e com vozes incessantes e abençoado cântico servem ao Senhor todos os dias. Os anjos que conduziam Enoque explicaram-lhe que este lugar está preparado para os justos, enquanto que o terrível lugar de tortura, preparado para os pecadores, encontra-se nas regiões setentrionais do terceiro céu. Ele viu toda sorte de torturas e escuridão impenetrável, e não há ali luz alguma, exceto um fogo sombrio que queima incessantemente. Aquele lugar tem fogo por todos os lados, e por todos os lados frio e gelo, pelo que tanto queima quanto congela. E os anjos, terríveis e sem piedade, empunham armas violentas, e sua tortura é sem clemência.

Os anjos levaram-no então ao quarto céu, e mostraram-lhe todas as suas entradas e saídas, bem como todos os raios de luz do sol e da lua. Ele viu as quinze miríades de anjos que saem com o sol e servem-no durante o dia, e os mil anjos que o servem durante a noite. Cada anjo tem seis asas, e segue adiante da carruagem do sol, enquanto cem anjos mantém o sol aquecido e acendem-no. Viu também as maravilhosas e estranhas criaturas chamadas fênices e chalkidri, que cuidam da carruagem do sol e o acompanham, levando calor e orvalho. Mostraram-lhe também os seis portões a leste do quarto céu, por onde o sol parte e os seis portões a oeste por onde ele se recolhe, bem como os portões pelos quais sai a lua e aqueles pelos quais ela retorna. No meio do quarto céu ele viu um exército armado, servindo ao Senhor com címbalos e orgãos e vozes que jamais cessam.

No quinto céu Enoque viu as inúmeras hostes dos anjos chamados Grigori. Sua aparência era semelhante à dos homens, seu tamanho maior do que os gigantes, suas feições macilentas, seus lábios silentes. Quando perguntou quem eles eram, os anjos responderam:

— Esses são os Grigori, cujo príncipe Salamiel rejeitou o santo Senhor.

Enoque então disse aos Grigori:

— Por que vocês ficam parados, irmãos, e não servem na presença do Senhor? Por que não desempenham suas tarefas diante do Senhor, de modo a não irá-lo até o fim?

Eles ouviram aquela repreensão, e quando as trombetas soaram juntas, em sonoro clamor, os Grigori começaram também a cantar em uma só voz, e suas vozes chegaram à a presença do Senhor em tristeza e ternura.

No sétimo céu Enoque viu os sete grupos de anjos que organizam e estudam as revoluções das estrelas e as mudanças da lua e a revolução do sol, e supervisionam as boas e más condições do mundo. Organizam também ensinos e instruções e falares doces e cântico e todo tipo de louvor glorioso. Eles mantém em sujeição todas as coisas vivas, tanto no céu quanto na terra. Em meio a eles há sete fênices e sete querubins e sete criaturas aladas, cantando numa só voz.

Quando chegou ao sétimo céu e viu os exércitos flamejantes dos grandes arcanjos e forças incorpóreas e senhorios e principados e autoridades, Enoque ficou aterrorizado, tremendo de pavor. Aqueles que o conduziam então tomaram-no e o colocaram no meio deles, e disseram:

— Ânimo, Enoque. Não tenha medo.

E mostraram-no de longe o Senhor, assentado em seu trono elevado, enquanto todos os exércitos celestiais, divididos em dez gradações, tendo se aproximado, postaram-se de pé sobre os dez degraus de acordo com a sua graduação e prestaram reverência ao Senhor. Em seguida prosseguiram cada um para o seu posto em meio a celebração e júbilo e luz sem limites, cantando cânticos em voz suave e gentil e servindo-o gloriosamente. Dia e noite não se afastam nem partem, permanecendo diante da face do Senhor, efetuando sua vontade, querubins e serafins ao redor do seu trono.

«Poste-se diante da minha face para sempre.»

E as criaturas de seis asas cobrem por inteiro o seu trono, cantando em voz suave diante da face do Senhor:

— Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; o céu e a terra estão cheios da sua glória.

Depois que Enoque havia visto tudo isso os anjos que o conduziam lhe disseram:

— Enoque, recebemos ordens de acompanhá-lo até este ponto.

Eles então partiram, e Enoque não os viu mais. Permaneceu na extremidade do sétimo céu, tomado de terror, dizendo a si mesmo:

— Ai de mim! O que foi me sobrevir!

Mas então veio Gabriel e disse a ele:

— Não tenha medo, levante-se e venha comigo, e permaneça diante da face do Senhor para sempre.

Enoque respondeu:

— Ah, meu senhor, meu espírito me abandonou em temor e tremor. Chame de volta os homens que me trouxeram a este lugar! Eu confiei neles, e com eles eu me postaria diante da face do Senhor.

Gabriel então levou-o agilmente, como uma folha carregada pelo vento, e colocou-o diante da face do Senhor.

Enoque caiu de joelhos e adorou ao Senhor, que disse a ele:

— Enoque, não tenha medo. Levante-se e poste-se diante da minha face para sempre.

E Miguel levantou-o do lugar, e ao comando do Senhor removeu dele suas roupas terrenas, ungiu-o com o óleo santo e o vestiu; quando Enoque olhou para si mesmo, estava semelhante a um dos gloriosos de Deus, e então abandonaram-no o temor e o tremor.

Deus chamou um de seus arcanjos que era mais sábio que todos os outros, e colocara por escrito todos os feitos do Senhor, e disse a ele:

— Traga os livros do meu almoxarifado, dê uma pena a Enoque e interprete os livros para ele.

O anjo fez como lhe fora ordenado, e instruiu Enoque por trinta dias e trinta noites, e seus lábios não cessaram de falar, enquanto Enoque escrevia todas as coisas a respeito do céu e da terra, de anjos e homens, e tudo aquilo sobre o que é próprio ser instruído. Ele também escreveu sobre as almas dos homens, aquelas que não chegam a nascer, e sobre os lugares preparados para elas para sempre. Copiou tudo com precisão, e escreveu trezentos e sessenta e seis livros.

No oitavo milênio não haverá anos, nem meses, nem semanas, nem dias, nem horas.

Depois que Enoque havia recebido todas as instruções do arcanjo, Deus revelou-lhe grandes segredos, cujo teor os próprios anjos desconhecem. Contou-lhe de que forma, a partir da mais inferior escuridão, o visível e o invisível haviam sido criados; como ele formara o céu, a luz, a água e a terra; narrou também a queda de Satanás e a criação e o pecado de Adão, e revelou-lhe ainda que a duração do mundo será de sete mil anos, e que o oitavo milênio será ocasião em que não haverá contagem de tempo: nenhum fim, nem anos, nem meses, nem semanas, nem dias, nem horas.

O Senhor concluiu essa revelação a Enoque com as seguintes palavras:

— Entrego você agora a Samuil e Raguil, que trouxeram-no aqui. Vá com eles para a terra, e conte a seus filhos as coisas que eu disse a você, bem como o que testemunhou do céu mais inferior até o meu trono. Dê-lhes obras escritas por você, para que as leiam, e distribuam os livros aos filhos dos filhos deles, de geração em geração e de uma nação a outra. E eu darei a você meu mensageiro Miguel para [guardar] os seus escritos e os escritos de seus pais, Adão, Sete, Enos, Quenan, Malalel e seu pai Jarede. Não os requererei até a última era, pois já instrui meus dois anjos, Ariuk e Mariuk, a quem coloquei na terra como seus guardiães, e ordenei que os guardem, a fim de que o relato do que farei na sua família não se perca no dilúvio que está por vir. Pois por causa da perversidade e da maldade dos homens eu trarei um dilúvio sobre a terra, e destruirei a todos, mas pouparei um homem íntegro da sua descendência juntamente com todos na sua casa, que agirão em conformidade com a minha vontade. Da descendência desses eu levantarei uma geração numerosa, e por ocasião da extinção dessa família eu mostrarei a eles os livros escritos por você e pelo seu pai, e os guardiães desses livros sobre a terra os mostrarão aos homens íntegros e aos que me agradam. Esses os transmitirão à geração seguinte e esses, tendo-os lido, serão glorificados por fim mais do que antes.

Enoque foi então mandado de volta à terra para permanecer ali por trinta dias instruindo seus filhos. Porém antes que ele saísse do céu Deus mandou-lhe um anjo cuja aparência era como neve, cujas mãos eram como gelo. Enoque olhou para ele, e seu rosto enregelou-se diante do fato de que homens pudessem suportar a visão daquele homem.

Os anjos que haviam-no levado ao céu colocaram-no na sua cama, no lugar em que seu filho Matusalém o aguardava dia e noite.

Enoque reuniu seus filhos e todos na sua casa, e instruiu-os fielmente a respeito de todas as coisas que havia visto, ouvido e escrito, e deu seus livros a seus filhos, para que os guardassem e lessem, insistindo que não ocultassem os livros, mas mostrassem-nos a todos que tivessem desejo de conhecimento.

Quando se completaram os trinta dias o Senhor enviou escuridão sobre a terra, e uma penumbra ocultou os homens que estavam com Enoque. Os anjos apressaram-se em tomar Enoque e carregaram-no ao céu mais elevado, onde o Senhor o recebeu e colocou-o diante de sua face; a escuridão então abandonou a terra, e houve luz. As pessoas voltaram a ver e não compreenderam que Enoque havia sido tomado, e glorificaram a Deus.

Enoque nasceu no sexto dia do mês de Sivan, e foi levado ao céu no mesmo mês, no mesmo dia e na mesma hora em que nasceu. Matusalém apressou-se juntamente com todos os seus irmãos, filhos de Enoque, e ergueu um altar no lugar chamado Acuzã, de onde Enoque havia sido tomado para o céu. Os anciãos do povo vieram para a festividade e trouxeram presentes para os filhos de Enoque, e fizeram grande celebração, festejo e júbilo por três dias, louvando a Deus por ter concedido tamanho sinal através de Enoque, que havia encontrado favor juntamente com eles.

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Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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