A arbitrariedade do nacionalismo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 14 de agosto de 2006

A arbitrariedade do nacionalismo

Estocado em Política · Traduzindo Borges

[H. G.] Wells, inacreditavelmente, não é nazista. Inacreditavelmente, porque quase todos meus contemporâneos o são, ainda que o neguem ou ignorem. Desde 1925 não há agente da imprensa que não opine que o fato inevitável e trivial de ter-se nascido em determinado país e de pertencer a determinada raça (ou a determinada mistura favorável de raças) não seja um privilégio singular e um talismã suficiente. Defensores da democracia, que creem-se muito diversos de Goebbels, instam a seus leitores, no mesmo dialeto do inimigo, a escutar os latidos de um coração que colige os íntimos mandatos do sangue e da terra. . . . Recordo com algum estupor certa assembleia convocada para debelar o antissemitismo. Tenho várias razões para não ser antissemita; a principal é esta: a diferença entre judeus e não-judeus me parece, em geral, insignificante, às vezes ilusória ou imperceptível. Ninguém quis aquele dia acompanhar minha opinião; todos juraram que um judeu alemão difere vastamente de um alemão. Em vão lhes recordei que não foi outra coisa que disse Adolf Hitler; em vão insinuei que uma assembleia contra o racismo não deve tolerar a doutrina de uma Raça Eleita; em vão aleguei a sábia declaração de Mark Twain: “Não pergunto de que raça é determinado homem; basta que seja ser humano, ninguém pode ser pior” (The Man that Corrupted Hadleyburg, página 204).

Neste livro [Guide to the New World], como em outros – The Fate of Homo Sapiens, 1939; The Common Sense of War and Peace, 1940, – Wells exorta-nos a recordar nossa humanidade essencial e a refrear nossos miseráveis rasgos diferenciais, por mais patéticos ou pitorescos que sejam. Na verdade essa repressão não é exorbitante; ela limita-se a exigir dos estados, para sua melhor convivência, o que uma cortesia elementar exige dos indivíduos.

Jorge Luis Borges, Otras inquisiciones

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Paulo Brabo @saobrabo

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