A aquisição da boa vontade • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 26 de dezembro de 2007

A aquisição da boa vontade

Estocado em História

Os puritanos compreendiam ainda outra coisa: muito dos excessos sazonais que ocorriam no Natal não eram mera desordem caótica, mas comportamento que assumia forma profundamente ritualizada. Essencialmente, o Natal era uma ocasião em que a própria hierarquia social era simbolicamente virada de cabeça para baixo, num gesto que invertia os papéis designados de gênero, idade e classe social. Durante a temporada do Natal aqueles próximos à base da pirâmide social agiam com desfaçatez e presunção. Homens podiam vestir-se de mulheres e mulheres podiam vestir-se (e agir) como homens. Gente jovem podia imitar e zombar dos mais velhos (por exemplo, um menino podia ser escolhido como “bispo” e assumir por um breve período a autoridade de um bispo de verdade). Um camponês ou aprendiz podia tornar-se “Barão da Desordem”e imitar a autoridade dos verdadeiros “nobres”.

Com lucidez de antropólogo, Increase Mather explicou quais cria serem as origens da prática: “Nos dias da Saturnália os senhores serviam seus escravos […] Os gentios chamavam os dias de Saturno a Idade de Ouro, porque nela não havia servidão, em Comemoração pelo que no seu Festival os Servos deviam ser os Senhores”. Essa prática, como muitas outras, foi apenas tomada e transposta para o Natal, em que os de baixa posição social tornavam-se “Barões da Desordem”. Ainda hoje, no exército britânico, no dia 25 de dezembro os oficiais são obrigados a servir os soldados nas refeições.

A forma mais comum de inversão social ocorrida durante a temporada do Natal envolvia algo que ainda associamos ao Natal nos nossos dias, e chamamos de caridade. Esperava-se que gente próspera e poderosa oferecesse os frutos da abundância de sua colheita aos vizinhos mais pobres e dependentes. A a noção contemporânea de caridade, no entanto, não transmite um quadro adequado de como esse intercâmbio ocorria – pois eram normalmente os próprios pobres que davam início a transação, que era encenada face a face, em rituais que nos pareceriam hoje uma intolerável invasão de privacidade.

No restante do ano eram os pobres que deviam bens, trabalho e respeito aos ricos, mas nessa ocasião eles viravam a mesa – literalmente. Grupos de pobres – em sua maioria meninos e rapazes – invocavam o direito de marchar até as casas dos abastados, adentrar seus salões e receber presentes sob a forma de comida, bebida e por vezes dinheiro. E os ricos tinham de deixá-los entrar.

O senhor da terra podia sempre usar um generoso donativo de Natal como modo de reparar a acumulação de um ano inteiro de pequenas injustiças.

O Natal era ocasião em que os camponeses, servos e aprendizes exercitavam o direito de exigir de seus vizinhos mais ricos e benfeitores que os tratassem como se eles fossem ricos e poderosos. O senhor da casa grande deixava entrarem os camponeses e oferecia-lhes um banquete. Em troca os camponeses ofereciam algo de verdadeiro valor numa sociedade paternalista: sua boa vontade. Essa troca de presentes por boa vontade incluia com freqüência a execução de canções, frequentemente canções relacionadas à bebida (desta transação ritualizada foi apenas a promessa de boa vontade a sobreviver nas canções contemporâneas de Natal).

Viemos exigir nosso direito
Se não abrires tua porta
Derrubaremos-te no chão
[…]
Mais uma vez nos reunimos, para um feliz Ano Novo
Desejar a cada um desta família
Que haja abundância de batatas e arenques
De manteiga e de queijo, e toda sorte de guloseima
[…]
Deus mande ao senhor da casa um copo de cerveja de qualidade
Deus mande à senhora da casa uma boa torta de Natal
[…]
Vem, mordomo, traz-nos um garrafão da melhor [cerveja]
Assim rezaremos para que tua alma no céu descanse;
Mas se vierdes com um garrafão da menor [qualidade],
Abaixo virão mordomo, garrafão e tudo mais.

Numa economia agrícola o tipo de “desordem” que estou descrevendo não representava de fato uma ameaça à autoridade da nobreza. O historiador E. P. Thompson observou que o senhor da terra podia sempre tentar usar um generoso donativo de Natal como modo de reparar a acumulação de um ano inteiro de pequenas injustiças, readquirindo no processo a boa vontade de seus inquilinos.

Na verdade, episódios de desordem eram amplamente tolerados pela elite. Alguns historiadores argumentam que a inversão de valores funcionava na verdade como uma válvula de segurança que continha os ressentimentos de classe dentro de limites claramente definidos, e que ao inverter a hierarquia estabelecida (ao invés de simplesmente ignorá-la), tais inversões serviam na verdade como reafirmação da ordem social existente.

Stephen Nissenbaum, The Battle For Christmas

Paulo Brabo @saobrabo

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