Uma parábola • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de junho de 2011

Uma parábola

Estocado em Goiabas Roubadas

Num dia sobre o qual pouco se sabe, num passeio pelas vastidões de rocha crestrada em Crater Ridge, a nordeste de Auburn, o autor de fantasia Clark Ashton Smith (1893-1961), que também era pintor e escultor, encontrou um pedaço de rocha natural cuja aparência lhe sugeriu imediatamente um ídolo pré-histórico ou um artefato de uma civilização tão antiga quanto desconhecida. Conhecedor das preferências incomuns de seu amigo H. P. Lovecraft (1890-1937), formidável autor de histórias de terror, Ashton Smith acabou lhe dando o fragmento de rocha de presente – depois de batizá-lo, segundo a inclinação de ambos por nomes estranhos e evocativos, de “Inominável Eikon”. Em 31 de maio de 1933, poucos dias depois de mudar-se para uma antiga casa em estilo colonial, Lovecraft escreveu uma carta a Ashton Smith na qual menciona o ídolo de pedra, e num único parágrafo delineia o que pode ser ao mesmo tempo uma parábola e uma história perfeitamente lovecraftiana, que só não sei dizer se me daria maior prazer ler ou escrever:

 

A propósito – em minha nova residência o Inominável Eikon de horror pré-humano tem uma nova função a exercer: ele serve de apoio para livros, e reside no topo de um gabinete largo com portas de vidro, na vizinhança de um antiquado globo terrestre. Lentamente, dia após dia, algo sinistro parece estar se infiltrando furtivamente nos livros assim apoiados. Novos e terríveis significados começam a insinuar-se nos textos — nas entrelinhas, por assim dizer, — e podem-se encontrar implicações de horror, até aqui despercebidas, nos títulos de capítulos e nas linhas verticais aparentemente fortuitas formadas pelo despejar das palavras umas sobre as outras. Um livro de astronomia bastante inofensivo tem começado a sugerir os mais impronunciáveis horrores cósmicos, enquanto um livro-texto de botânica alude a fungos monstruosos e talófitas blasfemas mais repulsivas do que a vegetação saturniana de um desenho de Klarkash-Ton1. E o texto do livro mais próximo ao Eikon está se tornando irregular. Certas palavras tem começado a destacar-se de modo não natural do restante do texto, e o que comunicam não deve ser repetido, ou examinado sem apreensão.

 

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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NOTAS
  1. Klarkash-Ton: um dos diversos apelidos com sonoridade “mítica” que Lovecraft cunhou para referir-se aos amigos de seu círculo literário. Klarkash-Ton é, naturalmente, o próprio Clark Ashton. []
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