Uma internet com fronteiras: como é não estar no facebook • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 01 de dezembro de 2015

Uma internet com fronteiras: como é não estar no facebook

Estocado em Manuscritos

Não estar no facebook ficou parecendo a coisa mais narcisista que faço, e está longe de ser

 

Dentre os motivos que encontro para antagonizar a maior rede social do planeta, o menor não é este: o fato de que não fazer parte do facebook sequestrou o status de coisa mais estranha que faço. Não sou mais o tiozinho maluco que raramente usa sapatos, o excêntrico que há 1o anos não assiste televisão. Sou o cara que você não pode encontrar no facebook.

Se eu tatuasse o corpo inteiro, chamaria menos atenção. Nada contra tatuar o corpo inteiro e por certo nada contra chamar a atenção – mas o que importa é que eu preferiria ser livre para escolher a estranheza pela qual sou lembrado.

Fui cidadão do facebook por três ou quatro meses em 2012, e a estranheza acumulada me obriga ocasionalmente a explicar o óbvio: porque nunca voltei. Você não ouviu nem a metade.
 

Uma mudança na estrutura atômica da amizade

A amizade sempre foi uma coisa alada, difícil de capturar. O amor pousa e se deixa acariciar, mas toda tentativa de engaiolar a amizade de modo a melhor desfrutar dela mostrou-se de alcance limitado – até agora.

E se alguém inventasse uma rede social que servisse de catálogo e recapitulação de amizades presentes, passadas e futuras? A rede social que fizesse isso estaria exigindo uma mudança radical na estrutura atômica da amizade, uma verdadeira mutação – porque a amizade legítima, que é bicho chucro e morre em cativeiro, a catalogações e confinamentos nunca se prestou.

Sequestrando para si o termo (hoje em dia quando se usa a palavra “amigos” se fala, na maior parte do tempo, do facebook; sim, é incrível), o facebook fala como se ele (e como se nós) fossemos capazes de entender, de mensurar e de classificar a amizade. Não se engane, velho; a amizade que existe não se deixa domar e vive longe do curral que construímos para ela.
 

Era melhor não ter de saber como as pessoas são superficiais

Perto do topo da minha lista de rancores está este: o facebook roubou as ilusões que eu tinha a respeito das pessoas que considero interessantes.

Tenho (na vida real; cacete, desde quando a distinção foi necessária) um amigo que é astrofísico, outro que é historiador e fazedor de kokles, outro que é professor e ufólogo. Sem acesso à timeline de todos, me resta imaginar as complexidades, as peculiaridades e as preferências de cada um. O que cada ponto de vista privilegiado pode estar contribuindo para a crítica sutil e não condicionada que meus amigos estão por certo (são meus amigos, afinal de contas) fazendo à sociedade?

Enorme motivo para não estar no facebook é manter em pé as ilusões que nutro da complexidade desses e de outros seres humanos. Já pensou o embaraço que seria encontrar no facebook uma pessoa que acho interessante e me deparar com uma torrente de postagens fascistas, homófobas ou raso-governistas? Descobrir que a pessoa que quero admirar admira Olavo de Carvalho em vez de Oliver Sacks, Reinaldo Azevedo em vez de Fernando Pessoa, Ayn Rand em vez de Tolstoi?

Parece o fim de uma ilusão, mas é só o começo do facebook.
 

O facebook premia o superficial

Minha esperança é que o problema esteja no próprio facebook, e que as pessoas sejam na verdade menos superficiais, menos condicionadas e mais originais do que parecem ser nas suas linhas do tempo. Porém essa esperança se converte em rancor contra o facebook, por premiar tão descaradamente o superficial, e contra meus amigos por se submeterem a regime tão desfigurante.

Não sem fundamento, meu amigo Manuel Anastácio pondera que a mediocracia do facebook reflete a nossa própria humanidade no que tem de superficial, de tedioso, de mesquinho, de apenas ocasionalmente brilhante.

Meu problema é que sou um boçal e um antiquado, e simplesmente não quero que existam monumentos à mediocridade. Quero monumentos monumentos, livrarias monumentais, pessoas inclassificáveis, modos de vida não-condicionados que nenhuma postagem comporte, soluções de convivência que sejam incompatíveis com a internet em mais sentidos que posso imaginar.
 

O sequestro do sequestro da disponibilidade

Por quase dez anos não tive telefone celular porque achava muito importante, e ainda acho, não ter como ser encontrado. Poder ser encontrado a qualquer momento sempre me pareceu uma coisa indigna para o buscado e para os que o buscam. É na verdade o inverso da disponibilidade, porque em nome da disponibilidade universal você se torna universalmente indisponível para o que está fazendo naquele momento.

Se o celular pode me interromper quando quiser, a mensagem que passo para mim e para os outros é que nada do que estou fazendo e ninguém com quem estou é essencial ou suficiente. Consigo num gesto só ofender quem está comigo e dar testemunho da minha superficialidade.

O celular sequestrou a disponibilidade, mas o facebook sequestrou esse sequestro, encarcerando o cidadão numa cela de disponibilidade ainda menor e mais vigiada. Há uma dúzia de gatos no twitter e com os seus amigos você fala talvez no whatsapp, mas para a disponibilidade universal existe o facebook, e só o facebook.

Depois de negociações comigo mesmo que se estenderam por anos, capitulei e hoje em dia tenho celular; algumas vezes está até ligado. Consolou-me a ideia de que, embora possa ser encontrado, retenho o controle sobre onde vou ser encontrado. Essa última dignidade o facebook me quer ceifar.
 

O facebook quer ser a sua interface com a internet

A internet é uma selva, e o facebook quer protegê-lo de se embrenhar diretamente nela, com a promessa da segurança e das recompensas de um condomínio fechado. Pra que sair mata adentro e conferir a caixa de entrada do seu email, se todos estão aqui e aqui tem Inbox e Messenger? Pra que se embrenhar na capoeira para visitar este blog, essa biblioteca ou aquela página de notícias, quando mais conteúdo do que você pode consumir alguém vai postar ali mesmo no mural do condomínio? Para que aprender a vasculhar a internet em busca de fotos e conteúdo de qualidade quando veja, alguém postou fotos de mau gosto e de baixa resolução de algum lugar da Itália e olhe, gatinhos.

O resultado é uma internet com fronteiras, um jardim murado que drena as subversões do espírito caótico que tornou a internet diversa e irresistível em primeiro lugar. Um número formidável de empresas e personalidades abandonou as suas páginas na internet em favor de páginas no facebook, porque as pessoas simplesmente deixaram de se aventurar selva adentro. O mais longe que queremos ir é até a loja de conveniência do condomínio fechado.

A ridícula ambição dos idealizadores do facebook é substituir a internet, fazer com que você esqueça que ela já existiu – porém o verdadeiramente ridículo é o quanto estão conseguindo. O que você escreve no facebook pertence ao facebook, e ele de quebra se beneficia sem mover um dedo de tudo que se escreve fora dele, porque acaba sendo sugado pela sua atração gravitacional. Este texto foi publicado na internet, mas você com toda a probabilidade se deparou com ele nós sabemos onde.
 

Relacionamento como fluxo

Possibilitando a disponibilidade universal, o smartfone produziu uma enorme guinada no modo como as pessoas encaram e vivem os relacionamentos. Por dez mil anos de civilização os relacionamentos mais estreitos, longos e intensos tinham de permanecer pontuados, jamais contínuos. Até mesmo gente apaixonadíssima conhecia a distância e a pausa.

O smartfone mudou tudo isso, quem sabe com que consequências, mas o facebook apropriou-se da metáfora do relacionamento como fluxo e tornou-a literal. O facebook quer que você acredite que há algum exercício de relacionamento no despejo contínuo de imagens e recortes impessoais que se adicionam a uma pilha que ninguém tem como acompanhar ou gerir, conteúdo curado por gente que você chama de amigos num contexto em que seus amigos eles não têm qualquer oportunidade de ser.
 

O facebook quer intermediar a realidade

Pouca gente ignora que o melhor da vida, da internet e da amizade está fora do facebook, mas essa consciência só torna mais inexplicável o quanto recorremos a ele para intermediar a realidade. Não há quem desconheça a sensação de que nada parece que realmente aconteceu antes de você postar que aconteceu no facebook.

O resultado é uma realidade diminuída: insistindo que a realidade seja continuamente validada pelo facebook, deixamos de entender que ela é continuamente diluída por ele.

Em muitos sentidos o facebook é a materialização (uma materialização imaterial, como convém a essa vocação) do espírito do capitalismo. Ele quer ganhar, e de fato ganha, oferecendo a você [1] o que já era seu em primeiro lugar e [2] aquilo que você não quer chegar a ter. Associar esse moedor de carne às palavras amizade e relacionamento é só uma patifaria adicional.
 

O que não exige muito acaba exigindo tudo

A diferença entre a leitura de um livro e a experiência da televisão é que a televisão chega a você digerida e em fluxo contínuo. O paradoxal é que a televisão exige menos de você do que o livro, e exigindo menos acaba exigindo do seu tempo muito mais.

Não sou o primeiro a entender que o sucesso do facebook está ligado ao seu caráter de televisão. Na internet que existe do lado de fora você vai encontrar conteúdo de qualidade muito maior, mas em compensação vai ter de virar as páginas. No facebook o conteúdo está longe de ter a mesma excelência, mas chega até você digerido e em fluxo contínuo, precisamente como a velha televisão: basta você ficar sentado e ceder ao fascínio das imagens em sucessão.

Exigindo esse mínimo de nós, o facebook acaba exigindo ao mesmo tempo tudo – e isso se reflete na parcela de tempo que estamos dispostos a dedicar a ele. Esse nosso endosso de 24 horas os anunciantes agradecem.

Como é não estar no facebook

É como viver em 1986.

De vez em quando algum amigo me escreve para mandar uma foto ou artigo que eu, vivendo fora do condomínio fechado e sem acesso ao seu mural, não tinha como ver ou ler (meu amigo tem de lembrar que não estou no facebook e tem de tomar o passo de me procurar para me atualizar; pode parecer muito, mas era como as coisas funcionavam antes e meus amigos sabem que sou um cara antiquado). Sendo pessoal, esse contato permite que conversemos um pouco sobre as filigranas desses e de outros assuntos. Permite até, vai, que contemos um ao outro como vão as coisas.

De vez em quando um amigo liga, aparece ou me convida para sair. Há amigos que vejo sempre, há amigos de longe com que estou sempre em contato. Amigos desaparecem por horas, dias ou semanas, mas quando voltam à superfície é algo sempre formidável. E o simples fato de voltarem, ou de eu voltar a eles, fala sobre o mistério da amizade – que é sacrossanta no que tem de precária, selvagem e não institucional.

São relacionamentos definidos pelas pausas, pela frequência das pausas, pelo que sentimos um pelo outro durante esses espaços intersticiais e pela força da atração gravitacional que nos leva a trabalhar para quebrar esses curtos ou longos jejuns.

E não me peça o constrangimento de continuar a descrever o que costumava se chamar de viver. Está em qualquer livro de 1986 ou em qualquer livro escrito antes disso. Se acha que vai perder algum amigo por não estar no facebook, é melhor você escolher melhor… as suas leituras e redes sociais.
 

Por outro lado, meus amigos me garantem que entro nas mídias sociais no preciso momento em que estão saturadas e entrando em declínio. Aconteceu com o twitter, aconteceu com o instagram. Se for para corroborar ou acelerar o declínio do facebook, esse sacrifício estou quase pronto a fazer.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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