Três pontos • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 12 de Maio de 2016

Três pontos

Estocado em Brasil · Goiabas Roubadas · Política

Este relato é a parte 7 de 7 da série Até onde você quer ir com a justiça

Mas o que acho que pode ser dito, entretanto, é que, sendo chamado de golpe ou não, o que está em curso é um abuso da justiça; o uso seletivo e parcial da justiça e das leis para obter seus próprios fins. E a justiça pela metade, longe de ser meio caminho andado, é uma injustiça por inteiro […] Do mesmo modo, Henrique Alves, por exemplo, parece ter a convicção de que o que se pune no Brasil de hoje não é ser corrupto, mas estar ao lado do PT (e desmente, de uma tacada, a ideia de que foro privilegiado, por sua vez, possa ser algo que torne o detentor particularmente imune à condenação). Falando da Justiça como didática: não se está ensinando a não roubar, e sim a não ser, ou se aliar com, nada que pareça de esquerda. Se aplica à Lava Jato, se aplica às pedaladas fiscais; se pedaladas são ou não condenáveis como crime de responsabilidade é uma discussão jurídica complexa, creio que definitivamente pedaladas sejam uma conduta reprovável. Mas o importante é que o mesmo Congresso que pretende impedir Dilma pelas pedaladas, na mesma sessão, aliás com o expresso fim de iniciar o processo, aprovou as pedaladas de FHC e Lula. Deixando muito claro, mais uma vez, que o que se está punindo não são as pedaladas. Voltando à didática: deixando claro que roubar e pedalar são OK, para quem não é de esquerda; o efeito é o contrário da justiça.

Tiago de Thuin, em A semântica e a matemática do impeachment

 

Para os consequencialistas a retórica é outra. O que menos importa são seus motivos ou razões, se ela expressava anseios populares ou democráticos, se ela tinha um plano liberal ou neoliberal. Importa que sua gerência operacional não funcionou. Nós empobrecemos. O país está economicamente em colapso e socialmente em estado de insegurança. Temos então os melhores motivos para destituí-la, porque tudo aquilo que não está rendendo como deveria, deve ser substituído. Como qualquer outro trabalhador que não faz seu serviço direito, deve ser trocado. Seu governo é um desastre. Mas quanto tempo devemos esperar para afastar o próximo desastrado? Que exista uma lei que atende pela alcunha de “eleições e democracia”, isso exprime apenas uma intenção de nossos antepassados, uma indicação genérica do que devemos buscar em nosso desejo, não o que devemos praticar com nossos atos. Se ela não respeitou suas promessas, como Polinice não respeitou seu acordo com Etéocles, ela deve ser punida. Não é golpe nem vingança, pois as intenções estão afastadas, mas apenas uma troca de técnico em um time que não está ganhando.

Percebe-se quão fraco é o argumento dos consequencialistas se lhes retiramos o seu complemento obsceno. O direito pode afastar um presidente, mas a economia não. É preciso imputar-lhe a acusação de corrupta, mau caráter, condenando-a e a sua família (seus associados partidários) em nome de uma família melhor e maior: a nossa. Aqui a pergunta que se levanta contra os consequencialistas é: que consequência terá uma destituição processada desta maneira? Se pelo menos 30% das pessoas percebe esta reunião de intenções e efeitos como um golpe, não estará nosso futuro tragicamente comprometido?

Christian Dunker, em A tragédia ética da política

 

Somos um país forjado em ferro, brasa, mel de cana, pelourinhos, senzalas, terras concentradas, aldeias mortas pelo poder da grana e da cruz, tambores silenciados, arrogância dos bacharéis, inclemência dos inquisidores, truculência das oligarquias, chicote dos capatazes, cultura do estupro, naturalização de linchamentos e coisas do gênero.

Acontece que, no meio de tudo isso e ao mesmo tempo, produzimos formas originais de inventar a vida onde amiúde só a morte poderia triunfar. Um Brasil forjado nas miudezas de sua gente, alumbrado pela subversão dos couros percutidos, capaz de transformar a chibata do feitor em baqueta que faz o atabaque chamar o mundo. Um Brasil produtor incessante de potência de vida, no arrepiado das horas e no chamado de uma pluralidade de deuses bonitos como as mulheres e os homens. A luta por esse segundo Brasil, ao meu juízo, não me enreda porque acho que ela será vitoriosa.

Luiz Antonio Simas, em Continuaremos

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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