Transgredir • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 16 de janeiro de 2009

Transgredir

Estocado em Manuscritos

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Transgredir, numa palavra, é fazer a narrativa avançar. Trata-se literalmente de “transpor uma linha”, “cruzar um limite”, mas não é coisa que esteja atrelada a qualquer necessidade ética ou nuance moral. É devido a esse agnosticismo moral da transgressão que o único valor absoluto abraçado pela narrativa é ela mesma, isto é, que a história seja contada.

Dito de outra forma, transgredir não equivale, de modo algum, a pecar; transgredir é exercer uma liberdade de escolha que é sempre terrível, porque cada escolha pode ter intenções e resultados bons ou maus. É por isso que se diz de quem transgrediu que “conheceu o bem e o mal”, porque sua escolha poderá ter resultados bons ou ruins — ou, mais propriamente, porque o transgressor terá de arcar com as consequências tanto boas quanto más da sua decisão.

Em termos narrativos, portanto, transgredir equivale a viver. Pedir um favor, dar um presente, declararar amor, declarar guerra, fazer amigos e ajudar um desconhecido — bem como atitudes puramente negativas e cautelosas como o recolhimento e a abstinência — envolvem, cada uma a seu modo, alguma modalidade de transgressão. O dilema moral não reside em transgredir ou não, mas em transgredir de que forma; isto é, de que forma fazer a narrativa avançar.

O médico transgride quando se interpõe no caminho da doença, o bombeiro transgride quando se interpõe no caminho do fogo; a viúva pobre transgride quando passa dia e noite exigindo justiça na porta da casa do juiz corrupto, e o juiz transgride quando faz justiça para aplacar a insistência da viúva. Se Romeu e Julieta não tivessem transgredido, reconhecendo seu amor diante um do outro e do mundo, seus descendentes correriam céleres e vivos entre nós em linhagens independentes; porém amaram e morreram, isto é conheceram o bem e o mal. Deus, naturalmente, é o mais assíduo e mais apaixonado transgressor, porque criou-nos o homem à sua imagem e semelhança e aqui estamos eu e você1. Cada protagonista tem o conflito que merece.

Não devemos, portanto, cair na armadilha da serpente e procurar, nesta que é a narrativa primordial da transgressão, indícios de um pecado original, porque — não bastará nunca repetir — o pecado original não está no original. Neste que seria o momento ideal para fazê-lo, o texto irá se recusar, até o final, a chamar de pecado o que está prestes a acontecer. Daqui a um momento Adão e Eva terão transgredido e Deus dirá “agora o homem é como nós, conhecendo o bem e o mal”. Ou seja, o homem é como Deus no que transgrediu, e não no que pecou. Com Deus e como Deus, terá de arcar com as consequências da sua transgressão.

E, como homem, terá de arcar com as consequências do seu pecado. O pecado no entanto, não é resultado, causa ou efeito da transgressão. O pecado é injeção da serpente.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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NOTAS
  1. É provavelmente por essa razão que a tradição bíblica associa constantemente o sexo a interdição, terreno sagrado e transgressão. Pois nada reencena a transgressão original de Deus de forma mais profunda do que a procriação. Ao gerar filhos o homem trangride (transpõe) sua suficiência produzindo um novo personagem que está ao mesmo tempo inteiramente ligado e desligado dele. Ao gerar filhos, o homem conhece imediatamente o bem e o mal, o belo e o terrível, por reconhecer que as escolhas do filho são em grande parte independentes da virtude do pai. Precisamente nesses dois sentidos Deus transgrediu e conheceu o bem e o mal ao conceber seu filho (Lucas 3:38) Adão. []
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