Tolkien, o São • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 14 de outubro de 2004

Tolkien, o São

Estocado em Política

J. R. R. Tolkien, autor da trilogia O Senhor dos Anéis, era um cara são.

Politicamente, por exemplo, ele ia adiante das tendências simplistas, já dominantes no seu tempo, que viam no comunismo a destilação definitiva do mal e a democracia como o último bastião da virtude. Ele na verdade desconfiava tanto de um quanto de outro.

Sobre a democracia ele pronunciava lucidezas como:

Não sou democrata – apenas porque a “humildade” e a igualdade são princípios espirituais corrompidos pela tentativa de se mecanizá-los e formalizá-los, e como resultado o que temos não é singeleza e humildade universais, mas universais grandeza e orgulho, até que algum Orc resolva se apossar de um Anel do Poder e sejamos então, como estamos sendo, escravizados.

Tolkien nunca se posicionou a favor de nenhum dos partidos da sua Inglaterra nativa. Privadamente, ele confessou numa carta a seu filho Christopher:

Minhas opiniões políticas tendem cada vez mais para a anarquia (compreendida filosoficamente, significando abolição de controle, e não homens barbudos armados de bombas) – ou talvez a uma monarquia aconstitucional. Eu gostaria de poder prender qualquer pessoa que usasse a palavra “Estado” (em qualquer sentido que não para referir-se ao domínio inanimado do solo da Inglaterra e seus habitantes, algo que não tem nem poder, nem direitos nem mente); depois de uma chance de retratação, eu os executaria sumariamente se permanecessem na sua obsessão.

É evidente que um dos principais eixos dramáticos de O Senhor dos Anéis é político: a noção de que o poder – qualquer poder – corrompe. Mesmo simples hobbits e elfos puros de coração não estão a salvo do brilho corruptor do poder do Anel.

Tolkien, o São, desprezava o socialismo, a democracia, o capitalismo, o fascismo, o totalitarismo e na verdade de qualquer controle institucional: qualquer Estado, por mais bem intencionado que fosse. Era um sujeito que celebrava as virtudes da vida simples (leia-se o Condado), tinha severa antipatia por máquinas ou pela vida mecanizada, e esperava que sua arte pudesse refletir ou antever uma transformação maior na alma do mundo.

Tolkien, o São, aguardava o Retorno do Rei, mas não ousava imaginar que alguém deveria ou teria como, nesse hiato, ousar usurpar o lugar.

Anarquistas, eu e ele, graças a Deus.

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As variedades da experiência capitalista

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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