Temor e fé • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de fevereiro de 2006

Temor e fé

A fé referida pela personagem de Dostoiéviski deve ter sido aquela que é expressa como temor pelo saber de um dia ter que prestar contas a Deus pelo que se faz e pelo que se deixa de fazer. Trata-se de uma crença correta, mas é uma definição incompleta do que seja a fé cristã.

Nós cristãos já experimentamos muitas definições do que seja fé. Em nossa história, de fé em fé, passamos por todo tipo de injustiça clerical e política, fomos de genocídios e escravidão a saques e confiscos, de pirataria e dominação a guerras e etnocídios. De fé em fé, graças ao progresso tecnológico e econômico, chegamos hoje a uma não menos cínica definição para fé. Hoje a fé pregada nas igrejas e motivo das mais fervorosas orações do fiéis é a fé do tudo possuir e do tudo consumir. Chegamos a esta maturidade da fé certos de que Deus não é alguém que se deva temer. Finalmente adquirimos a mais vil convicção de que a fé é o instrumento divino que temos para manipular Deus. Quando éramos crianças ingênuas, temíamos a Deus. Agora somos esclarecidos arrogantes, Deus nos serve.

Aqueles que hoje não têm fé, temem.

Quem tinha a fé citada por Dostoiéviski, temia a Deus. Quem tem a fé que desenvolvemos serve-se Dele e, por que não, do próximo. Outros, que não tem fé alguma, vêem o próximo e sabem que ele não tem a quem recorrer – não há Deus para socorrê-lo, – por isso eles o acolhem, se irmanam com ele. Aqueles que hoje não têm fé, como aqueles da antiga fé dos tempos de Dostoiévski, temem: temem morrer sem ter deixado uma história digna, temem partir sem nunca terem sido amados, temem ser esquecidos, temem que a única vida que tem por fim tenha sido vã. Temem o vazio do seu fim inevitável e temem deixar para trás outra coisa que não seja o vazio. Temem, como não há céu nem inferno, que nunca tenha existido virtude alguma. Sabem que na morte não terão nada, nem a própria lembrança do bem que fizeram, por isso temem deixar a existência sem ter feito bem algum.

Restam a Deus, em nossos dias, para fazer a sua vontade, os ateus. Deixem as pedras terem o privilégio de fazer o bem e evitar o mal sem qualquer interesse por recompensas futuras, já que os cristãos estão muito ocupados com a segurança de sua ortodoxia de privilégios, presentes e futuros.

Você, ainda hoje, tem a fé da personagem de Dostoiévski? Por minha fé, eu lhe asseguro que um dia você não terá mais o que temer. Você outro tem a ambição de tudo ter e a pretensão de nada sofrer, e escolheu dar a isto o nome de fé? Viva o tempo que lhe resta, desfrute enquanto pode. Antes do que você pensa você receberá a sua justa recompensa e não terá mais nada a perder. Biblicamente falando – falo da minha fé -, a todos caberá receber o que não esperam, isto para alguns é graça, para outros será justiça.

A todos caberá receber o que não esperam.

Quanto aos ateus, aqueles que não se contentam com nossas definições de fé, ou com as imagens que pintamos de Deus, deixem-nos em paz. Deixem-nos fazer o bem sem esperar nada em troca. Deus faz o mesmo.

Meu amigo L. Ivan Volcov

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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