01 de Dezembro de 2011

Deus não escreve não-ficção; por que alguém deveria?

Traduzindo Borges

Enquanto um autor se limita a narrar acontecimentos ou a traçar os tênues desvios de uma consciência, podemos supô-lo onisciente, podemos confundi-lo com o universo ou com Deus; quando se rebaixa a raciocinar, sabemo-lo falível. A realidade procede dos fatos, não dos raciocínios; a Deus toleramos que se afirme “eu sou o que sou” (Êxodo 3:14), não que declare ou analise, como Hegel ou Anselmo, o argumentum ontologicum. Deus não deve teologizar; o escritor não deve invalidar com razões humanas a momentânea fé que exige de nós a arte. Há outro motivo: o autor que mostra aversão por um personagem parece não terminar de entendê-lo, parece confessar que este não é inevitável para ele. Desconfiamos de sua inteligência, do mesmo modo que desconfiaríamos da inteligência de um Deus que mantivesse céus e infernos. Deus, escreveu Spinoza (Ética 5:17), não odeia ninguém e não deseja ninguém.

Jorge Luis Borges, explicando porque os primeiros livros de H. G. Wells, que limitam-se a contar histórias e não se rebaixam a defender teses, são superiores aos demais. No processo, acaba esclarecendo porque Jesus só contou histórias. Ainda Otras Inquisiciones (1952).

25 de Novembro de 2009

Nenhum motivo e nenhuma recompensa

Goiabas Roubadas

Ainda Wells, sobre Jesus:

E não era meramente uma revolução moral e social que Jesus proclamava: fica claro por um grande número de indicações que seu ensino tinha uma inclinação política muito manifesta. É verdade que ele disse que seu reino não era deste mundo, e situava-se no coração dos homens e não sobre um trono; porém fica igualmente claro que em todo o lugar e na medida em que seu reino se estabelecesse no coração dos homens, o mundo exterior seria naquela mesma medida revolucionado e renovado.

O que quer que a cegueira e a surdez dos seus ouvintes tenham deixado de captar das suas palavras, é muito evidente que não deixaram de captar sua firme resolução de revolucionar o mundo. Todo o método da oposição levantada contra ele, bem como as circunstâncias de seu julgamento e execução, demonstram claramente que para seus contemporâneos ele parecia estar propondo sem rodeios, e de fato propôs sem rodeios, alterar e fundir e alargar toda a vida humana.

Em vista das coisas que Jesus disse claramente, será de espantar que todos que eram ricos e prósperos tenham intuído um horror de coisas insólitas, o naufrágio iminente de seu mundo diante do seu ensino? Ele estava arrastando todas as pequenas reservas que eles haviam levantado contra o serviço social e trazendo-as para fora, para luz de uma vida religiosa universal. Ele era como um terrível caçador moral que forçava a humanidade para fora das cômodas tocas nas quais tinham vivido até aquele momento. No esplendor branco do reino dele não deveria haver propriedade alguma, privilégio algum, nenhum orgulho e nenhuma preferência; nenhum motivo e nenhuma recompensa que não fosse o amor. Será de espantar que os homens se tenham ofuscado e cegado e clamado contra ele? Mesmo seus discípulos clamavam em protesto quando ele não os poupava da luz. Será de espantar que os sacerdotes tenham percebido que entre este homem e eles mesmos não havia outra escolha, senão que ele ou o sacerdócio teriam de perecer? Será de espantar que os soldados romanos, confrontados e estupefatos diante de algo que se alçava muito além da sua compreensão e ameaçava todas as suas disciplinas, tenham buscado refúgio na risada selvagem, tenham-no coroado de espinhos e vestido de púrpura e feito dele uma versão de César da qual pudessem caçoar? Pois levá-lo a sério era adentrar uma vida estranha e intimidadora; era abandonar hábitos, controlar instintos e impulsos, era ensaiar uma incrível felicidade.

H. G. Wells, Breve História do Mundo (1922)

Wells encontra Jesus

  1. Uma ousada e intransigente demanda
  2. Mapeando o Deus que não faz barganhas
  3. Nenhum motivo e nenhuma recompensa
11 de Novembro de 2009

Mapeando o Deus que não faz barganhas

Goiabas Roubadas, Manuscritos

Falar é interpretar, escrever é ler, e todo vocabulário contém em si sua própria mitologia1. Na literatura recente e emergente de espiritualidade cristã, um dos modos mais populares de se descrever a postura divina está na idéia de que – para usar a expressão do modo como a uso sempre (por exemplo, aqui e aqui) – Deus não faz barganhas.

Quem interpreta a coisa dessa forma enxerga com dardejante clareza que, como apresentado na Bíblia (ou, pelo menos, nos evangelhos), o Deus da Bíblia (em contraposição ao mais inofensivo – e, digamos, mais pagão – Deus do cristianismo institucional) absolutamente não se dobra barganhas: não as oferece, não as estimula e, no fim das contas, não as aceita.

Esta, que eu saiba, é uma leitura muito recente do texto bíblico. Pode ter espreitado desde sempre, em regime potencial, nas páginas da Bíblia; pode ser uma leitura acurada,«Não há privilégios, não há abatimentos e não há desculpas no reino do céu.» coerente e no fim das contas muito natural, mas penso só ter sido articulada com a devida contundência em tempos recentes. Na verdade, pode ser que tenha sido apenas recentemente que a humanidade tenha adquirido as ferramentas necessárias para apreender este aspecto da revelação na inteireza de seu caráter revolucionário e desconcertante beleza. A noção de um Deus que não faz barganhas encontra muita ressonância na cínica e generosa cosmovisão pós-moderna, pois propõe ou demonstra uma divindade inclusiva e subversiva, inteiramente à margem das estruturas e sistemas usuais de poder. Fala de um Deus livre, gratuito e libertário: free as in beer, free as in freedom.

Um dos maiores campeões contemporâneos desta leitura do Deus cristão e de sua Bíblia é o insubmisso Brennan Manning, que em provocações como O Evangelho Maltrapilho propõe aos seus ouvintes um retorno radical à mais radical das idéias cristãs: a da graça pura, simples (“e sem gelo”) – aquela que não requer nada em troca e por isso abomina e exclui qualquer mecanismo de retribuição, negociação, crédito ou descrédito.

No Brasil, provavelmente ninguém trabalhou mais para divulgar esta singela revolução do que o sempre incandescente reverendo Caio Fábio. Um de seus livros mais populares,«Todos que acolhe em seu reino Deus serve da mesma forma.» escrito em 2002 mas que recupera idéias de obras anteriores, chama-se precisamente Sem barganhas com Deus. O evangelho, explica Caio Fábio, existe para denunciar e reverter a Teologia Moral de Causa e Efeito, que permanece sendo, em última análise, a teologia da igreja cristã – “uma quase-graça que, não sendo totalmente-graça, é des-graça”. E, dizendo isso, o brasileiro Caio Fábio ecoa sem ruído o norte-americano Manning: “Dito sem rodeios: a igreja evangélica dos nossos dias aceita a graça na teoria, mas nega-a na prática. Dizemos acreditar que a estrutura mais fundamental da realidade é a graça, não as obras – mas nossa vida refuta a nossa fé”.

Se digo tudo isso é para fazer uma confissão e para dar um testemunho.

A confissão é que embora endosse a idéia como se fosse minha e tenha me tornado praticamente incapaz de ler a Bíblia sem que seja através da sua lente, não cheguei por mim mesmo à noção do Deus que não faz barganhas.

O testemunho é que não foram Caio Fábio ou Brennan Mannigan que me conduziram a ela, mas – mais uma vez – a prosa lúcida do agnóstico H. G. Wells. Em outro trecho de sua Breve História do Mundo (1922), que segue ao parágrafo que citei anteriormente, Wells segue expondo sua visão sobre as impensáveis demandas do ensino de Jesus:

Os judeus estavam persuadidos de que Deus, o único Deus do mundo inteiro, era um Deus justo – mas achavam também que fosse um Deus negociador, que fizera acerca deles uma barganha com seu patriarca Abraão (uma barganha na verdade muito favorável para eles), de alçá-los por fim à supremacia sobre a terra. Com horror e ódio eles ouviram Jesus varrendo para longe essas suas acalentadas seguranças. Deus, ensinava ele, não fazia barganhas; não havia povo escolhido nem favoritos no reino do céu. Deus era o pai amoroso de toda a vida, tão incapaz de demonstrar favoritismo quanto o universal sol.

Todos os homens eram irmãos – tanto os pecadores quanto os filhos amados – desse divino pai. Na parábola do bom samaritano Jesus lança seu escárnio contra nossa tendência natural a glorificar nossa própria gente e minimizar a virtude dos povos de outros credos e raças. Na parábola dos trabalhadores ele rejeita a pretensão obstinada dos judeus de possuírem um crédito especial diante de Deus. Todos que Deus acolhe em seu reino, ensinava ele, Deus serve da mesma forma; não há distinção no seu tratamento, porque não há medida para sua liberalidade. De todos, além disso – como dá testemunho a parábola dos talentos e reforça o episódio da moeda da viúva, – ele exige o absoluto máximo. Não há privilégios, não há abatimentos e não há desculpas no reino do céu.

Porém não era apenas o patriotismo tribal dos judeus que Jesus ultrajava. Os judeus eram um povo que valorizava intensamente a lealdade familiar, e Jesus queria que a estreiteza das restritas afeições familiares fosse levada de arrasto pela grande torrente do amor de Deus. Para os seus seguidores, “família” deveria ser o reino do céu inteiro.

Jesus não se contentava ainda em investir contra o patriotismo e contra os laços de família em nome da paternidade universal de Deus e da irmandade de toda a humanidade; fica claro que seu ensino condenava também todas as gradações do sistema econômico, toda a riqueza privada e todas as vantagens pessoais. Todos os homens pertenciam ao reino; todas as suas posses pertenciam ao reino; o modo de vida íntegro para todos os homens, o único modo de vida íntegro, era o serviço de Deus com tudo que temos, com tudo que somos – pelo que, vez após outra, Jesus denunciava as riquezas privadas e as reservas de qualquer vida privada.

Finalmente, em sua tremenda profetização desse reino que consistia em todos os homens unidos em Deus, Jesus reservava pouca paciência para com a integridade de barganha da religião formal. Uma porção significativa de suas palavras registradas nos evangelhos está dirigida contra a meticulosa observância de regras por parte dos seguidores da piedosa carreira.

Leia também:
Em seis passos que faria Jesus

Wells encontra Jesus

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NOTAS
  1. No bom sentido, e também o único, da palavra. []
05 de Novembro de 2009

Uma ousada e intransigente demanda

Goiabas Roubadas

Uma das consequências de termos, ao longo dos séculos, restringido a ameaça de Jesus com o enforcador da erudição cristã está em que aqueles que enxergam com verdadeira limpidez as desconcertantes exigências do ensino de Jesus encontram-se, regra geral, fora das portas dos arraiais cristãos. São agnósticos e ateus, que residem numa terrível esfera de lucidez em que o efeito domesticador da ortodoxia cristã não tem o poder de impedi-los de enxergar o que está de fato acontecendo nos evangelhos.

Dentre esses está o inquieto e irascível H. G. Wells (1886-1946), celebrado autor de ficção científica (bastará citar O Homem Invisível e A Máquina do Tempo, que não são nem mesmo suas melhores histórias), divulgador incansável de ciência e de história, socialista, pacifista, ardente defensor da teoria da evolução, consistentemente hostil ao cristianismo institucional e gravemente agnóstico com relação a essas coisas de religião. Em sua Breve História do Mundo, no capítulo sobre o ensino de Jesus, espreita uma passagem que me faz estremecer todas as vezes que recorro a ela e à qual, como verá o impenitente leitor, estou condenado a voltar inúmeras vezes:

A doutrina do Reino do céu, em que consistia o principal ensino de Jesus, foi certamente uma das mais revolucionárias doutrinas a já terem desafiado e alterado o pensamento humano. Não é de se admirar que o mundo tenha deixado de captar o seu significado completo, e recuado em horror diante até mesmo da apreensão parcial dos seus tremendos desafios aos hábitos e instituições estabelecidos da humanidade. Pois a doutrina do Reino do céu, como Jesus parece tê-la pregado, era nada mais nada menos do que uma ousada e intransigente demanda por uma completa mudança e purificação de nossa arquejante raça: uma purificação total, interior e exterior.

Wells encontra Jesus

  1. Uma ousada e intransigente demanda
  2. Mapeando o Deus que não faz barganhas
  3. Nenhum motivo e nenhuma recompensa