24 de Janeiro de 2011

O profeta e a revolução

Manuscritos

Fui a Jaraguá do Sul visitar um cliente, coisa que raramente faço, e fui de terno e gravata, coisa que jamais voltarei a fazer. Quando sai da fábrica era o meio da tarde e pensei em dormir numa pousada em Pomerode, depois de encher a carne na Torten Paradis e beber uma imaculada série de Weiss no deque da cervejaria Schornstein.

Eu já estava em Pomerode, naquele cruzamento na frente da delegacia, quando olhou-me de repente a placa da saída para Timbó; lembrei-me inevitavelmente de Rio dos Cedros e de seu profeta, e decidi alongar a viagem por meia hora – ver se encontrava coragem para encarar novamente o homem que olhou o pecado no meu rosto e não viu nada de mais no que viu.

Avancei sem parada na tarde oblíqua e dourada, cruzando arrozais de um verde-limão inclemente e casinhas vermelhas encravadas em jardins de rosas. Quando fechei atrás de mim a última porteira e fiz o Corsa descer crepitando a curva ladeada de jerivás, faltava pouco para as seis da tarde.

Eu havia tirado meias e sapatos assim que entrara no carro, portanto antes de sair só afrouxei a gravata e enrolei duas vezes a barra da calça. Caminhei descalço pelo caminho de lousa até o portãozinho da cerca do jardim, gritei ô de casa, e quando venci os dois degraus da varanda já havia terminado de dobrar até os cotovelos as mangas da camisa branca.

Todas as portas e janelas da casinha de madeira estavam abertas, pelo que demorei a entender que estava vazia. Na varanda de trás (dei a volta por fora) encontrei uma mesa de madeira maciça, um fogão a lenha e um tanque escavado em pedra, abastecido sem trégua pela água de um aqueduto de meia taquara que desaparecia em direção ao morro vizinho. Retirei uma caneca de metal do prego em que pendia e bebi.

Devolvi a caneca, ponderando voltar para o carro e refazer o caminho, anulando por completo aquela tentativa e ganhando pontos para dizer um dia estive aqui e você não estava. Olhei o relógio do celular: cinco e quarenta e quatro. Decidi ir embora imediatamente e em outra ocasião explicar que havia esperado em vão das cinco e meia até as seis. Nesse ponto, no interior da casa, alcançou-me da mesa da cozinha uma visão potente o bastante (talvez a única) para me fazer abandonar o plano de fuga: uma pilha de livros.

O profeta de Rio dos Cedros entrou em casa meia hora depois, batendo uma contra a outra as solas de suas botas de borracha, e encontrou-me lendo fábulas de La Fontaine na mesa da sua cozinha. Os outros livros eram Sobre a origem da desigualdade, de Rousseau, A origem da família, da propriedade privada e do estado, de Engels, Almas Mortas, de Gogol e – o único que eu ainda não havia lido – o panfleto de quatro páginas Teses sobre Feuerbach, de Marx.

– Brabo, você voltou – ele disse, e parecia sinceramente feliz, mas antes de entrar lavou no tanque lá fora as mãos, os pés e uma braçada de raízes de aipim que trouxera numa sacola.

– Meu amigo proletário João do Pó! Desculpe aí ir entrando desse jeito – eu disse, mas ele desconsiderou com um balanço da cabeça e produziu de detrás de uma cortina estampada uma gamela com ameixas vermelhas e pêssegos.

Dez minutos depois as mandiocas cozinhavam no fogão e cada um de nós tinha diante de si um copo com partes iguais de Campari, gelo, vinho branco barato e água com gás, consagrados com uma fatia de laranja.

– E eu que não tinha lido esse livrinho de Marx – eu disse, querendo desviar a conversa. – Quando vi a casa vazia estava decidido a ir embora, mas tive de ficar pra falar com você sobre ele.

– Confesso que não li nada desse teólogo de quem Marx está falando, mas parece que não é preciso ter lido para entender.

– Você vai gostar de Feuerbach, mas sim, Marx está aparentemente falando consigo mesmo – puxei o panfleto do topo da pilha de livros e deixei que abrisse pousado na minha mão aberta. – A prática revolucionária. Eu não conhecia esse lado politizado de João do Pó.

Ele limitou-se a sorrir e sorver um gole.

– Pelo que entendi Marx está enfezado com o materialismo – ele opinou, – que embora seja a mais desiludida e terra-a-terra das ideias, ainda assim não passa de uma ideia. Nada no mundo dos conceitos basta para produzir a prática revolucionária que pode mudar o mundo, et cetera.

– Exato. Até aquele ponto a história da filosofia havia representado uma revolução arquival, por assim dizer. Os filósofos tinham em seu favor haver catalogado todos os problemas, todas as causas e todas as soluções, mas nada daquilo corria o risco de vazar dos arquivos das ideias para o mundo real.

– Como é mesmo que ele diz no final? – ele riu consigo mesmo, passando a mão pela cabeça raspada. – A última coisa?

– “Os filósofos têm se limitado a interpretar o mundo de maneiras diferentes” – eu li, imprimindo o devido drama ao cenário de dois homens discutindo filósofos mortos numa casinha de madeira no meio do nada debaixo de um céu límpido orlado por iminentes tempestades de verão. – “A questão, porém, é transformar o mundo.”

– É quase “a fé sem obras é morta”, não é verdade? – ele provocou, e ignorei a provocação.

Nesse momento a luz na cozinha piscou duas ou três vezes antes de apagar por completo, e ouvimos a geladeira tremer e silenciar. Agora só se ouviam os sapos que malhavam ferros no banhado entre o morro e a casa.

– Está sempre chovendo em algum lugar – ele lembrou.

– O bastante para sempre apagar a luz de outro – eu disse, e coloquei o celular em cima da mesa para que ele nos cinzelasse minimamente com sua vigília azul.

– Enfim – ele disse, brincando com a tampa de Campari como se quisesse fechar a garrafa, sem nunca chegar a concluir a tarefa, – houve uma época em que o que a revolução desejava era remover um sistema estabelecido de coisas e colocar outro sistema no lugar. Se a realidade resistisse à mudança, como costumava fazer, para promover a revolução era tido como necessário apelar para a violência.

– Como assim, “houve um tempo”? Não é mais assim?

– Faz algum tempo que não – ele olhou-me muito sério para confirmar. – O capitalismo, que se apropria de tudo e reverte em seu favor, apropriou-se por inteiro do discurso da revolução.

– Che Guevara é uma marca numa camiseta que você quer comprar.

– Justamente – ele ajeitou-se na cadeira, – mas não só isso. A revolução está em todo lugar; impossível agora é escapar dela. A mudança é o presente sistema, e o capitalismo se alimenta precisamente disso. Hoje um produto é que é “revolucionário”. A internet é revolucionária. Os conservadores costumavam ser os que resistiam à mudança; hoje em dias, conservadores são os que creem que a mudança é a única coisa que existe.

– Tornando dessa forma a verdadeira revolução impossível.

– Não completamente. Hoje em dia para fazer violência ao sistema é preciso rejeitar a mudança em vez promovê-la.

– Uma violência de abstenção? – bebi um gole para dissimular um mal-estar que eu sabia só tendia a crescer.

– Para fazer violência contra a revolução do capitalismo é preciso abrir mão da revolução. É preciso escolher as margens. É preciso pisar para fora do sistema.

Ele silenciou, arrependido do uso excessivo de ênfases, mas aparentemente muito interessado na minha reação.

– Não me parece muito eficaz a sua revolução – fiz com um copo um gesto que abarcava a propriedade. – Você não tem televisão em casa, mas um bilhão de brasileiros está assistindo o Big Brother.

– É como uma revolução qualquer – ele relaxou na cadeira. – Para que funcione é preciso ver mais gente aderindo à violência contra o sistema. Abster-se da revolução é agora a prática revolucionária.

Baixei o copo e ponderei um longo tempo o que queria dizer.

– Nas revoluções anteriores era muito fácil conseguir a adesão das massas, porque o novo sistema a ser implantado oferecia vantagens muito evidentes. Já ninguém vai querer abrir mão da tecnologia e do capitalismo, como você faz, porque não há vantagem nenhuma nisso. Nenhuma vantagem evidente, quero dizer.

– O problema é que o capitalismo é uma revolução que esconde os próprios custos. É um produto que cada um deve vender a si mesmo, por assim dizer, um dia após o outro. E todos compram, porque o dia seguinte depende dessa venda.

– Tenho de reconhecer – baixei a voz, mas foi sem querer, – que a mais simples das operações, que é manter-se vendável (isto é, manter-se produtivo), requer o espaço da vida inteira. Mas, para quem está dentro, apenas o custo de sair do sistema parece maior. Tecnicamente todos sabem que não precisam de um novo celular, mas a revolução é exigente. E talvez por isso irresistível.

– Você entende agora por que O Senhor dos Anéis é uma metáfora tão adequada para o nosso tempo? – ele finalmente fechou a garrafa e colocou-a de lado. – Entende por que a trilogia de Tolkien exerce um fascínio tão grande, mesmo sobre os que não sabem articular a coisa nos nossos termos?

Levantei as sobrancelhas, sinceramente embaraçado, porque não via a conversa tomando aquela direção.

– Não tenho certeza – concedi. – A coisa que mais gosto no livro é que a solução corporativa falha miseravelmente, e o herói remanescente e eficaz só sobrevive inteiramente marcado pela amargura.

Ele sorriu.

– É formidável, mas não é disso que estou falando.

– E do que estamos falando?

– Da revolução – João do Pó cortou mais uma fatia de laranja e derrubou no seu copo. – Tolkien moldou sua história a partir dos grandes épicos e clássicos que tanto admirava, mas com uma diferença. As antigas epopeias narravam a busca por algum objeto poderoso, e as dificuldades que os heróis encontravam no caminho.

– Entendi – senti o rosto queimar, mas entendi também que o profeta faria questão de articular por completo o seu argumento.

O Senhor dos Anéis é precisamente o contrário. Se você pensar, é uma anti-busca. O desafio dos heróis é destruir um objeto poderoso, não encontrá-lo.

– E fica demonstrado que não é nada fácil.

– Especialmente porque o poder representa uma tentação para os próprios heróis. Quem vai querer abrir mão de um artefato que representa uma vantagem tão evidente?

– Pouca gente – concordei. – E mesmo os que o fizerem estarão marcados para sempre pela tentação de possuí-lo.

– O desafio da nossa era – ele disse – não é outro.

Nesse momento um vaga-lume aceso, que não tínhamos notado quando entrara, voou ao redor de nós como uma fada e pousou precisamente no topo da garrafa que nos separava.

Calamos os dois, o pensador de gravata e o pensador com terra debaixo das unhas das mãos. Estávamos ambos descalços, e de fato nossos pés se tocavam sem grande constrangimento debaixo da mesa, mas aparentemente não seguíamos para o mesmo lugar. Ou a mesma pessoa.

Então, pela moldura de tela que protegia a porta aberta da frente, vi que alguém se aproximava pelo pasto escuro guiado por uma lanterna.

– Você está esperando alguém para jantar? – eu perguntei, e meu tom, para meu embaraço, foi quase de repreensão.

– Nunca espero ninguém, mas isso não quer dizer que qualquer um não possa chegar – ele explicou, e ouvimos que se abria o portãozinho do jardim.

Cinco minutos mais tarde esvaziei o copo, pedi licença e lembrei que estava na hora de ir indo.

24 de Dezembro de 2010

A divina claridade

Gírias e Falares, Manuscritos

Em seu encorpado The Road to Middle-Earth, Tom Shippey revisa laboriosamente e termina por demonstrar a noção de que Tolkien construiu o mundo de O Senhor dos Anéis a partir das palavras – seu peso, seu som, e em particular a sua história, – e não meramente através delas, como faria (ou pelo menos acreditaria) um autor comum.

Se forçados a tanto, podemos chegar a admitir que as palavras foram criadas e persistem não para que objetos sejam nomeados, mas para que histórias sejam contadas. Alguns dentre nós somos capazes de crer que as narrativas são essenciais o bastante para que as palavras existam meramente a fim de mantê-las vivas.

Tolkien, no entanto, dava sinais de crer em algo mais ousado e, para o resto de nós, menos intuitivo. Para ele, as palavras não apenas existem para perpetuar histórias isoladas, mas as histórias se perpetuam elas mesmas em palavras isoladas.

Tolkien enxergava as palavras não como entidades estanques e mortas, mas como células vivas, portadoras de um DNA etimológico passível de análise, comparação e compreensão. Para usar uma metáfora contemporânea, ele via cada palavra como um arquivo compactado de computador, um daqueles arquivos (também pouco intuitivos) que escondem dentro de si arquivos mais numerosos e que ocupam mais espaço na memória do que eles mesmos. Para aqueles que sabem descompactá-las, cada palavra – digamos, “Tolkien”, “Shippey”, “benedetto”, “brabo” ou “sertão” – mostra ter embutida em si não apenas o seu significado (que é, por assim dizer, sua camada mais evidente), mas também a história de suas alterações, de seu emprego e de sua origem.

O Senhor dos Anéis foi concebido e executado a partir dessa crença de que as palavras são tão poderosas que histórias inteiras podem caber dentro delas. Em As duas torres, Barbárvore professa algo parecido quando afirma: “Nomes verdadeiros contam a história das coisas a que pertencem, no meu idioma.” Como demonstrado por Shippey, Tolkien acreditava que, em certa medida, o mesmo era verdadeiro para todas as línguas.

Se for assim, num certo sentido todas as palavras são autoexplicativas, em qualquer que seja o idioma, e toda tradução é uma desnecessária redundância. Em conformidade com essa crença, Tolkien não se preocupou em apresentar ao seu leitor a tradução de alguns dos sonoros poemas recitados pelos elfos em seus idiomas nativos – muito embora na altura das primeiras edições da trilogia ninguém no mundo, além do próprio Tolkien, fosse capaz de interpretá-los.

Se digo tudo isso, e hoje, é porque acabei concluindo que a história do Natal e, portanto da encarnação, está de fato compactada nas palavras que usamos para contá-la – coisas como estrela, paz e boa-vontade, mas também pastores, panos, cidade, presentes.

E isso, muito evidentemente, em todas as línguas. No nono verso do segundo capítulo do evangelho de Lucas, na versão da Vulgata, está escrito:

Et ecce angelus Domini stetit iuxta illos et claritas Dei circumfulsit illos et timuerunt timore magno.

Está aqui, muito evidentemente, toda a história; tudo que veio antes e tudo que veio depois, da criação do mundo à precária luz que persista talvez neste preciso momento. Para ser honesto à visão de Tolkien, esta tudo embutido neste único claritas.

Agora que penso nisso, vejo como tremendo desafio não encontrar na claritas que circundou os pastores, apavorando ao mesmo tempo em que iluminava, todas as coisas. Estão aqui toda a lucidez, toda a glória, todo o desafio, todo o temor, todo o convite à coragem e cada “não tenham medo”, que antes de estarem no anjo já estavam em Jesus, e antes de serem descompactados em Jesus já corriam livres no sonho de Deus.

Leia também:
Uma mesma flor
O dia mais banal

14 de Abril de 2005

Aldeia Padrão

Goiabas Roubadas

“Suponho, no entanto, que o único resultado certo [da vitória iminente dos aliados na Segunda Guerra] será um crescimento ainda mais acentuado dos grandes amalgamentos padronizados, com suas noções e emoções massificadas.”

Tolkien em 1944, lamentando profeticamente o mundo que transformaria em superprodução o seu O Senhor dos Anéis.

27 de Março de 2005

O momento

Fé e Crença

A Páscoa é, evidentemente, idéia mais momentosa e alucinante do que o Natal. Ninguém pode nos ensinar a nascer, mas Jesus pode me ensinar a morrer, o que, neste mundo que prefere ignorar até mesmo a sua incapacidade de lidar com a última certeza, talvez seja o ensino mais útil de todos.

Bastaria na verdade saber como morrer para viver em “novidade de vida”, mas a Páscoa me toma pela mão e me faz percorrer terreno ainda mais improvável e sublime: obriga-me a contemplar a possibilidade mais improvável e a reviravolta mais desejada de todas: a ressurreição. Nenhum final é suficientemente trágico enquanto estamos vivos, porque se vemos e choramos diante de Romeu e Julieta mortos no palco, sabemos que nós mesmos estamos ainda vivos. Mas quando os atores levantam-se para receber os aplausos, algo estranho e sublime acontece. Talvez, passa pela nossa cabeça, alguém seja capaz de segurar a espada da morte e voltar depois que as cortinas caem para receber os aplausos. A bondade de Shakespeare mantém Romeu e Julieta vivos e de certa forma eternos – e, por vias sempre misteriosas, a encenação repetida da mesma tragédia transforma-os num estranho emblema de esperança. Talvez nenhum veneno seja plenamente eficaz; talvez uma bondade extrema faça a adaga perder para sempre o seu fio.

É a respeito desse improvável momento que Tolkien diz:

Pois essa história em particular é suprema – e é verdadeira. A Arte foi comprovada. Deus é Senhor de anjos, homens e elfos. Lenda e História encontraram-se e fundiram-se.

A morte pode não ser a última a sorrir.

15 de Março de 2005

Um hobbit na Segunda Guerra

Goiabas Roubadas, Política

6 de maio de 1944

Porém, sendo os seres humanos o que são, [a vida militar] é inevitável, e a única cura (fora uma conversão universal) seria não se ter guerras – nenhum planejamento, nenhuma organização, nenhuma arregimentação. (…) Porém todas as coisas planejadas ambiciosamente tem mesmo esse efeito para os que são bucha de canhão, embora de modo geral funcionem e façam o seu trabalho. Um trabalho que é, no fim das contas, maligno, pois estamos tentando vencer Sauron com o Anel. Estamos tentando vencer Sauron com o Anel.
E seremos (ao que parece) bem-sucedidos. Porém a penalidade, você descobrirá, é gerar novos Saurons, e transformar lentamente Homens e Elfos em Orcs. Não que na vida real as coisas sejam tão preto no branco como na história, sendo que também começamos com muitos Orcs do nosso lado. Aí está você: um hobbit em meio aos Urukhai. Preserve um coração de hobbit, e pense que é assim que todas as histórias se parecem quando estamos dentro delas.

Tolkien, escrevendo ao seu filho Christopher, que combatia como soldado pelos aliados na Segunda Guerra Mundial