05 de Abril de 2012

O arco e as promessas

Manuscritos

Ah, tantas histórias… caro e impenitente leitor, tantas histórias. Certo sobre o homem que tem muitas histórias para contar é que vai morrer sem contá-las todas.

Os norte-americanos, que aprenderam a dissecar cada sucesso de modo a serem capazes de reproduzi-lo, usaram a dura alquimia do século XX para transformar o ofício de contar histórias num negócio e numa técnica. Reduziram a arte da narrativa a um programa de quatro ou cinco linhas que pode ser rodado sem grande margem de erro na produção de blockbusters e de best-sellers, e nisso não apenas garantiram o sucesso das histórias que estão vendendo, mas garantiram também que todas as histórias que produzem se assemelhem rigorosamente entre si.

Parte essencial dessa fórmula determina que uma boa história, uma grande história, é aquela em que os eventos externos ao mesmo tempo proporcionem e reflitam o crescimento interior do protagonista. A esse processo de transformação, essa trajetória pessoal de autodescoberta e de autoexpressão, os americanos chamam de character arc – “arco de personagem” ou, quem sabe também, “arco de personalidade”.

No confinamento de 88 minutos do filme básico de Hollywood, o character arc não encontra tempo para mais do que esboçar a conversão o crescimento do protagonista como pessoa. Mesmo aqueles de nós que nunca ponderaram o assunto estão mais do que suficientemente familiarizados com a fórmula: o solitário acaba encontrando uma família, o promíscuo acha o caminho para a monogamia, o cético encontra a fé, o avarento encontra a generosidade, o travado se solta, o inconsequente se reconcilia com a responsabilidade. Não importa se se trata de um desenho animado (A Nova Onda do Imperador), uma comédia (Tootsie) ou um drama (Rain Man); no final da história, quando o arco se fecha, o protagonista (um egocêntrico imperador sul-americano destronado por um golpe, um ator machista que se vê obrigado a se vestir de mulher para conseguir trabalho, um yuppie ambicioso que se vê obrigado a cuidar do irmão autista) torna-se via de regra uma pessoa melhor, tendo aprendido a lição às custas do conflito e de sua resolução.

Seria mais fácil descartar esse artifício como simplista se ele não fosse tão eficaz. O sucesso da fórmula apenas demonstra o quanto somos facilmente atraídos e dobrados por histórias de conversão. A noção de que as pessoas possam de fato mudar é capaz de tocar em nós uma corda muito profunda, talvez porque não abandonamos jamais a esperança de mudar nós mesmos – ou, mais provavelmente, porque nos custa abandonar a ilusão de que os outros terminarão por mudar (isto é, terminarão por ver as coisas como nós vemos).

O que não quero perder de vista é que os estudiosos parecem concordar que a ascensão do character arc é algo relativamente recente na história da ficção. Embora não desconheça narrativas de crescimento e de conversão (veja-se o Buda, veja-se Moisés), a maior parte do tempo a literatura ocupou-se de contar a história de gente que permanece essencialmente a mesma ao longo da narrativa. Em termos gerais, os grandes épicos da humanidade falam de personagens estáveis, de gente que não muda de personalidade, de convicção, de postura ou de opinião mesmo depois de espetacularmente apertada pelo seu conflito peculiar. Essas velhas histórias parecem partir do pressuposto que ninguém de fato muda: que somos o que somos desde o princípio até o último instante. Mesmo quando tudo muda ao seu redor, cada personagem permanece o mesmo: o desprezível é desprezível desde que pisa o palco pela primeira vez, o herói mostra-se herói desde o berço, o indeciso encontra a ruína na sua indecisão e o rei demonstra postura de rei mesmo quando é ainda um pastor de ovelhas.

O mistério do protagonista que não muda será talvez mais profundo e mais ressonante com a realidade do que o do personagem que deixa sua personalidade ceder à curva graciosa do arco. Num certo sentido, não mudar exige mais recursos do que ceder e transformar-se; não mudar representa um desafio maior e mais exigente, ou quem sabe uma neurose mais profunda.

Às vezes penso que na vida real ninguém de fato muda, e que tudo que empreendemos e tudo que somos está relacionado às tentativas recorrentes que fazemos de materializar as promessas que proferimos a nós mesmos na mais tenra infância. Somos essencialmente incapazes de dar ouvidos a outras promessas que não aquelas antigas e primeiras, meio esquecidas e meio subterrâneas mas sempre presentes, que fermentaram e ainda fomentam todos os nossos sonhos posteriores. Vamos morrer tentando ver essas sementes douradas florescendo do modo como imaginamos, e nossa intuição mais profunda, nossa crença mais inconsciente e impronunciável, é de que não existe maneira mais legítima e integral de viver do que morrer tentando.

Talvez daí nasça aquela tendência, diagnosticada e popularizada pela psicanálise, de cometermos circularmente os mesmos erros ao longo da vida. Muito claramente, esses enganos brotam do fato de que não desistimos de buscar os acertos míticos que prometemos a nós mesmos no reino dourado da infância. Repetimos incessantemente as mesmas fórmulas porque cremos que a repetição obediente do feitiço acabará por trazer à luz a magia necessária e curativa com que ansiamos desde sempre. Nossos erros brotam todos da insistência infantil em consertar.

E, se parece que estamos mudamos tudo ao nosso redor, é apenas como parte do projeto maior de permanecermos os mesmos.

Ignoro qual metáfora, a do arco ou a das promessas, o leitor terá considerado mais cara ou mais precisa. Quanto a mim, não é impreciso dizer que desconheço por completo a curva redentora do character arc. Já fui um cara muito quieto e depois me tornei um cara muito desbocado, mas só cedi a esse ajuste cosmético para que não tivesse que alterar em nada a arquitetura aqui de dentro. Escrevo nesta Bacia desde 2004, e nesse período fiz com que muito mudasse ao meu redor, mas foi muito claramente no esforço mais ou menos desesperado de permanecer a mesma pessoa. Em sete ou oito anos deitei no mar da internet milhares de mensagens na garrafa e a salvação beijou-me de todos os lados – mas se conheci gente extraordinária que inclinou-se graciosamente para me abraçar e acolher, o processo acabou me tornando mais apadrinhado e mais patife do que jamais fui (mas provavelmente não tanto quanto já sonhei).

Não registro nenhum crescimento pessoal, nenhuma ternura adicional, nenhuma milagrosa generosidade, nenhuma espiritualidade recuperada – e secretamente me congratulo, miserável homem que sou, diante dessa estagnação. O magnífico arco exterior foi erguido com recursos faraônicos de modo a manter artificialmente intacta a curvatura interior.

Sei que a obra está inconclusa: permanecer o mesmo vai custar tudo de mim, até o último momento. E neste ponto, nesta precisa encruzilhada, não sei dizer o que seria mais improvável ou mais nobre: mudar ou permanecer. Talvez, em determinados casos, em determinados vértices – porque somos na melhor das hipóteses apenas o fugaz ponto de contato entre contrastes – as duas metáforas se anulem ou se completem.

01 de Dezembro de 2011

Deus não escreve não-ficção; por que alguém deveria?

Traduzindo Borges

Enquanto um autor se limita a narrar acontecimentos ou a traçar os tênues desvios de uma consciência, podemos supô-lo onisciente, podemos confundi-lo com o universo ou com Deus; quando se rebaixa a raciocinar, sabemo-lo falível. A realidade procede dos fatos, não dos raciocínios; a Deus toleramos que se afirme “eu sou o que sou” (Êxodo 3:14), não que declare ou analise, como Hegel ou Anselmo, o argumentum ontologicum. Deus não deve teologizar; o escritor não deve invalidar com razões humanas a momentânea fé que exige de nós a arte. Há outro motivo: o autor que mostra aversão por um personagem parece não terminar de entendê-lo, parece confessar que este não é inevitável para ele. Desconfiamos de sua inteligência, do mesmo modo que desconfiaríamos da inteligência de um Deus que mantivesse céus e infernos. Deus, escreveu Spinoza (Ética 5:17), não odeia ninguém e não deseja ninguém.

Jorge Luis Borges, explicando porque os primeiros livros de H. G. Wells, que limitam-se a contar histórias e não se rebaixam a defender teses, são superiores aos demais. No processo, acaba esclarecendo porque Jesus só contou histórias. Ainda Otras Inquisiciones (1952).

20 de Junho de 2011

Longe de um jardim

Manuscritos

Como eu ia dizendo, tudo é irrecuperável. Tudo se perde. Talvez nem tudo seja inevitável, mas sem qualquer dúvida tudo é irreversível. Esta é a maldição deste universo, e também sua mais desconcertante fonte de beleza.

Há uma visão a respeito de Deus que poupa a divindade precisamente desse constrangimento – poupa-o da irreversibilidade que caracteriza a essência da experiência humana e da realidade. Essa é provavelmente a visão mais popular a respeito de Deus, talvez por dar a impressão que, tornando tudo no universo recuperável para Deus, está fazendo um grande favor à reputação da grandeza divina.

Segundo essa visão, Deus é onipotente no sentido em que é capaz de, em cada momento da história e até o fim, reverter qualquer injustiça, reparar qualquer erro, anular qualquer deslize, ressuscitar qualquer personagem, engendrar qualquer final feliz. Para os que abraçam essa visão, Deus pode se quiser apagar os horrores do nazismo e cancelar o embaraço das cruzadas e das inquisições. Pode apagar toda a história que nos separa da Queda ou do Caos (a mesma história que nos une a eles). Pode apagar todos os traços do constrangedor experimento que é o nosso universo e deixar a lousa imaculadamente limpa para outra tentativa. Se não o faz permanece sendo questão da inegociável autonomia divina; porém devemos entender como magnífico consolo saber ou acreditar que, caso quisesse, ele poderia.

Esse Deus fora do tempo e segurado contra terceiros é uma curiosidade filosófica e existe inteiramente à margem do testemunho apaixonado da narrativa bíblica. O Deus da Bíblia conhece plenamente e sabe lamentar pungentemente o peso do que é irreversível; ele conhece a vastidão da sepultura, a assolação das omissões, o abismo profundo das ausências, a cicatriz sem consolo das violências, o terror sagrado das traições. E em Jesus, para quem acredita nele, Deus experimenta na própria carne cada uma dessas desolações.

O Deus da Bíblia é um marido traumatizado pela deslealdade da esposa, um homem marcado pelo abandono dos amigos, um visionário ultrajado pelo fogo da traição e da incompreensão; é um ressuscitado com cicatrizes muito visíveis, um idealista que não desconhece a amargura, um leão vivo que é também um cordeiro que conheceu a morte. Se não deixa em momento algum de amar, não é por ter o conforto de poder restaurar a qualquer momento o que foi perdido, mas por saber que tudo no universo e na história que não foi redimido pelo amor é para sempre irrecuperável.

Como tudo é irrecuperável, segue-se que tudo é santo, mesmo aquilo que a experiência humana tem de mais abominável e aterrador. Santo, numa palavra, quer dizer singular. Cada momento é santo porque é singularíssimo e irrecuperável, cada injustiça é santa porque reside num momento que poderia ter sido vivido de outra forma e nunca será. Nunca mais.

Talvez seja esse o sentido e a necessidade do lago de fogo postulado pelo Apocalipse, o lago de enxofre que arde dia e noite para todo sempre, paralelamente aos esplendores do paraíso e quem sabe ajudando a iluminá-los. Os momentos abomináveis da história humana – os momentos abomináveis da minha história – são irreversíveis e a justiça ausente deles é para sempre irrecuperável. O lago de fogo existe para que sejam eternamente lamentados, isto é, eternamente celebrados, e esse incansável ranger de dentes talvez seja o mais próximo que esses momentos chegarão da redenção.

Seria ao mesmo tempo injusto e inconcebível que o Paraíso prescindisse dessa eterna dor, da qual brota a flor mais imaculada e cegante da sua beleza. As folhas da árvore da vida curam as nações, mas não mudam a história de suas enfermidades. A ressurreição injeta vida no que era inerte e estéril, mas não apaga as cicatrizes da violência e as reminiscências da morte.

10 de Maio de 2011

Inseridas e entrelaçadas

Goiabas Roubadas, Quase Ciência

Ora, qual pessoa provida de entendimento irá considerar admissível a declaração de que o primeiro, o segundo e o terceiro dia, nos quais são mencionados tanto tarde quanto manhã, tenham existido sem sol, lua e estrelas – o primeiro dia até mesmo sem um céu? E quem se mostrará ignorante o bastante para supor que Deus, como se fosse um lavrador, tenha plantado árvores no paraíso, no Éden no leste, e nela uma árvore da vida – isto é, uma árvore de madeira visível e palpável, da qual quem comesse com dentes físicos obteria vida, e se comesse também da outra árvore, adquiriria o conhecimento do bem e do mal? Não creio que alguém duvidará de que a declaração de que Deus caminhava ao entardecer no paraíso, e que Adão tenha se escondido debaixo de uma árvore, estejam narrados figurativamente na Escritura, e que algum significado místico esteja sendo indicado por ela. O afastamento de Caim da presença do Senhor irá manifestamente levar o leitor atento a ponderar sobre o que é a presença de Deus, e de que forma alguém pode afastar-se dela. Porém, sem estendermo-nos além dos devidos limites na tarefa que temos diante de nós, será muito fácil, para quem quiser, distinguir na Escritura sagrada aquilo que está registrado como tendo de fato acontecido, mas que no entanto não se pode crer tenha ocorrido de modo racional e concebível da forma como foi historicamente narrado.

O mesmo estilo de narrativa escritural ocorre abundantemente nos evangelhos, como quando se diz que o diabo levou Jesus a uma montanha muito alta, a fim de mostrar-lhe dali todos os reinos do mundo e a glória deles. Como poderia ter literalmente acontecido, quer que Jesus se deixasse levar pelo diabo a uma montanha muito alta, quer que o diabo pudesse mostrar a ele todos os reinos do mundo (como se jazessem todos debaixo de seus olhos mortais, e adjacentes à montanha), isto é, os reinos dos persas, dos citas e dos hindus? Como poderia ter-lhe mostrado os modos pelos quais os reis desses reinos recebem glória dos homens? E tantas outras instâncias similares a esta se podem encontrar nos evangelhos por qualquer um disposto a lê-los com atenção, que notará que nas narrativas que parecem ter sido ser literalmente registradas estão inseridas e entrelaçadas coisas que não podem ser admitidas historicamente, mas podem ser aceitas num sentido espiritual.

Orígenes de Alexandria (185-254 d.C.), em De Prinicipiis (livro IV)

13 de Dezembro de 2010

A verdade na assembleia dos discordantes

Manuscritos

No princípio eram os judeus; isso foi antes dos cristãos.

Séculos antes que os cristãos inventassem o dogma, a teologia e a declaração de fé, os judeus já lutavam para encontrar, apresentar e preservar a verdade, e se mostravam (e provavelmente permanecem) mais interessados do que nós na questão de como aplicar na vida real a verdade que percebiam.

Porém as culturas utilizam diferentes ferramentas na tarefa de manejar a verdade, e os judeus usam desde sempre uma ferramenta que a cristandade e o ocidente em grande parte abandonamos: o diálogo. Os cristãos enxergam a verdade como pertencente ao dogma, os judeus como pertencente ao diálogo.Essencialmente, o método judeu de encontrar a verdade é associar-se com quem possa discordar apaixonadamente a respeito dela.

Os cristãos em geral enxergam a verdade como coisa dogmática – isto é, pertencente ao dogma, – mas os judeus tradicionalmente veem a verdade como coisa dialética – isto é, pertencente ao diálogo. Na prática, isso quer dizer que a tradição judaica não apenas tolera e incentiva a convivência e o respeito mútuo entre gente que discorda a respeito de questões fundamentais; ela pressupõe essa convivência e exige esse respeito.

Para o judeu da tradição rabínica, a fim de se encontrar a verdade (e não só isso, também a fim de se ensiná-la) é preciso adentrar e aprender a habitar um mundo de deliberações abertas, um mundo de tradições e autoridades que se respeitam mas se contradizem, um universo interligado e indeciso de interlocutores. Nesse universo, discordar, fazer perguntas e questionar respostas não será jamais visto como insubmissão ou incômodo. Nesse mundo, o questionamento sistemático não é visto apenas como o único modo de se encontrar a verdade (porque isso um cristão seria capaz de admitir); é tido também como o único modo de se expor a verdade.

Durante séculos esse diálogo entre os luminares do pensamento judaico aconteceu e foi transmitido de modo oral ou, como diríamos hoje, offline. Foi só a partir da destruição do templo, em 70 d.C., que esse legado e esse método passou a ser registrado por escrito, primeiro na Mishná e em seguida no seu comentário, o Talmude (concluído entre 400 e 600 d.C.).

Cada página do Talmude é uma explicação desse método dialético de se tratar a verdade, e um tributo a ele. Página após página o texto retraça cada laborioso passo sucessivo num processo de argumentação e contra-argumentação a respeito de cada mínima questão. Porém a originalidade do Talmude e do método que representa não está na apenas na apresentação de posições contrárias e na exposição dos pontos fracos e fortes de cada uma (operações que o Direito não desconhece) mas na sua recusa em apontar uma decisão final ou superior. Todas os pontos de vista são apresentados (e isso um cristão poderia tolerar, se não compreender), mas – pasme-se – as questões e decisões permanecem em aberto, aguardando o engajamento e o posicionamento de um novo interlocutor: o próprio leitor e sua época. Debaixo dessa ortodoxia generosa, as autoridades não servem para decidir em nosso lugar, servem para nos ajudar a pensar.

Para dar testemunho da intensidade e da ambivalência desse diálogo, inquiro uma página retirada mais ou menos ao acaso do Talmude Babilônico. Sublinho os interlocutores apenas para salientar a sua abundância:

Quando veio à Palestina, R. Dimi disse em nome de R. Johanan: Tudo isso foi dito quando não havia um decreto civil por parte do governo que violasse os deveres religiosos; porém, se houvesse, seria obrigatório sacrificar-se até mesmo pelo mais leniente dos mandamentos. E, quando veio, Rabbin disse em nome da mesma autoridade: Mesmo se não houvesse um decreto perverso dessa natureza, a pessoa poderia descumprir o mandamento em privado; porém, publicamente, é obrigatório sacrificar a vida, mesmo se for para cumprir o mais leniente dos mandamentos. O que se entende por “o mais leniente dos mandamentos?” Disse Rabba b. R. Itz’hak em nome de Rabh: Nos dias da perseguição religiosa é obrigatório resistir, mesmo que a exigência diga respeito a um cadarço de sapato. E o que é considerado “publicamente”? Disse R. Jacob em nome de R. Johanan: Se for feito na presença de não menos do que dez israelitas. R. Jeremias questionou: E se houvessem nove israelitas e um pagão? Vinde ouvir o que ensinou R. Janai, irmão de R. Hyya b. Aba: Podemos inferir que, como no caso de Corá não havia menos de dez israelitas, o mesmo se aplica no caso de santificação em questão. Mas Ester não foi compelida a pecar com Assuero, na presença de mais de dez israelitas? Disse Rabha: No caso de o fazerem em seu próprio benefício é diferente; se não fosse esse o caso, de que modo poderíamos emprestar vasos de cobre para os persas para que encham suas casas de oração com brasas vivas por ocasião de seus festivais? Mas como é para o benefício deles, não é considerado transgressão. Rabha concorda com essa teoria em outro lugar, quando afirma que se um pagão mandar um israelita cortar feno no sábado para o gado dele, com a ameaça de matá-lo, ele deve cortar o feno para não ser morto. Mas se o homem disser: “Corte o feno e jogue no rio”, no que se pode ver que ele quer apenas vencer os seus escrúpulos religiosos, será melhor para esse israelita resistir e ser morto do que obedecer àquela ordem.

E outro do Gênesis Rabá:

Quando foram criados os anjos? R. Johanan disse: Foram criados no segundo dia, como está escrito, És tu que pões nas águas os vigamentos da tua morada, (Salmo 104:3), seguido por, Fazes dos ventos teus mensageiros (v. 4). R. Hanina disse: Foram criados no quinto dia, pois está escrito, E voem as aves acima da terra no firmamento do céu (Gênesis 1:20), e está escrito, E com duas voava (Isaías 6:2). R. Luliani b. Tabri disse em nome de R. Isaac: Quer aceitemos a opinião de R. Hanini ou a de R. Johanan, todos concordam que nenhum anjo foi criado no primeiro dia, do contrário estaria dito que Miguel estendeu o mundo ao sul e Gabriel ao norte, enquanto o Santo, bendito seja, media no meio, mas [está escrito], Eu sou o Senhor que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus, e espraiei a terra – quem estava comigo? (Isaías 44:24).

E assim por diante, porque o fio não se interrompe onde o deixei. Como se vê, a ideia subjacente não é resolver a discussão, mas perpetuá-la. É inevitável neste ponto mencionar a história do rabino a quem um cristão perguntou porque ele sempre respondia uma pergunta com outra pergunta. O rabino, muito previsivelmente, respondeu: E por que não?

Essa obsessão com a discussão aberta e com o diálogo não é apenas casual; ela faz parte de todo um modo de pensar e ver o mundo. Há ecos dela nas discussões de Jesus com os fariseus e nos raciocínios de Paulo, e ainda na decisão do concílio de Jerusalém, cujo resultado exigiu o convívio entre gente que discordava sobre coisas que considerava de importância absolutamente vital.

Do modo como o Talmude preservou essa tradição, o estudante não é apenas obrigado a conhecer e aprender a demonstrar a supremacia de uma decisão. Ele é convidado a retraçar, reconstruir e entender todos os raciocínios ligados a cada questão; aprende a pesar ambivalências e a conviver com contradições. É tremendamente custoso aproximar-se desse legado, porque ele requer não apenas fé, mas uma participação ativa na sua constituição. A fé que o método dialético do Talmude exige e pressupõe é a fé no intelecto humano, a fé na capacidade de julgamento das gerações posteriores.

Ao contrário dos cristãos, que se levantariam mais tarde para propor e defender uma verdade que é essencialmente conceitual, para a tradição rabínica o método de se conhecer a verdade passa por discutir exaustivamente as suas implicações. De fato, a ideia subjacente é que só podemos ter um vislumbre da verdade pela análise inclemente das suas implicações – e uma única mente, uma única linha de pensamento, não bastará para esgotá-las todas. Para preservar a natureza da verdade, será necessário manter debaixo de uma única tradição todas as vozes que discordam a respeito dela.

Para que todos sejam um: da agremiação dos discordantes à tolerância zero

  1. A verdade na assembleia dos discordantes
  2. A árvore com muitos ramos
  3. Os discursos da reforma