11 de Fevereiro de 2012

Noite estrelada

Pormenor

14 de Novembro de 2011

O novo céu

Quase Ciência

Meu amigo Ricardo Quadros Gouvêa, que comete diariamente a indiscrição de ser mais erudito e antenado do que eu, reagiu por email ao meu O crepúsculo dos deuses oferecendo uma sacada ao mesmo tempo brilhante e simples: descartado o sonho da exploração do espaço, o destino de migração redentora da cultura ocidental passou a ser o mundo cibernético — o universo da internet, da nuvem, dos smartphones, das redes sociais e dos computadores.

Hoje a ficção científica tem explorado outros reinos, como o da computação e virtualização. Creio que é aí, Paulo, que está acontecendo a construção de um novo mito redentivo — conforme Charles Stross, Vernor Vinge e até mesmo William Gibson e Bruce Sterling.

Agora que o Gouvêa me abriu os olhos para o evidente, não consigo pensar em outra coisa: se cada época tem seu próprio “mito de migração redentora”, subalterno ao seu mito principal, o “lugar melhor” das nossas presentes esperanças e ilusões é o espaço cibernético.

Porque não deve haver dúvida, antes de tudo, que a internet (nossa grande janela comunitária para essas realidades) é para nós um lugar. Embora seja na verdade uma rede incorpórea e espiritual de zeros e uns, falamos da internet como de um mar em que se navega: um domínio geográfico com legítimos destinos, endereços e pontos de referência. Aqui há sítios que se pode visitar, bibliotecas que se pode vasculhar, parques de diversões em que se pode viver, pontos de encontro em que se pode rever os amigos. Um ciberespaço, para usar o termo de William Gibson.

Também não deve haver dúvida de que enxergamos nesse universo alternativo um destino redentor. Essa expectativa se aplica e se manifesta em pelo menos dois níveis.

No primeiro nível o mundo virtual é um destino redentor porque é para ele que podemos fugir, agora mesmo, das aflições mais imediatas da existência. Se a experiência cotidiana nos derruba e oprime, no abrigo da internet podemos ser finalmente quem somos, livres das limitações e constrangimentos da vida real.

Na internet ninguém precisa envelhecer, e você pode usar para identificar o seu perfil aquela foto boa de 2002. Os relacionamentos virtuais dispensam os embaraços, cheiros, ruídos e usanças da vida real: você não precisa fechar a porta do banheiro, pode sair da conversa tão repentinamente quanto quiser, é livre para deixar a escova de dentes em cima da pia, tem autonomia para descartar um parceiro em favor de outro sem precisar mover-se da cadeira.

No oásis do ciberespaço alguém está sempre pronto pra te entender e pra te desejar: aqui você encontra gente apaixonada por aqueles assuntos interessantes que sua família e seus amigos insistem em ignorar, e acha estímulo e vazão para todas as suas imaginações sexuais.

Resistir é inútil: estar sozinho com a internet é ter toda a companhia e todo o conforto que alguém pode desejar. Ninguém na sua casa te entende, mas @pikachu1981 quer te levar para a cama. Você pode se sentir solitário, mas o Matheus Feltrinelli acaba de visitar o seu perfil no Facebook. As raposas tem suas tocas e as aves tem seus ninhos, mas aqui você tem onde reclinar a cabeça. A Terra pode estar encolhendo, mas o universo da internet está em permanente expansão, e só estamos contemplando os primeiros segundos de seu irresistível Big Bang.

Este domínio de plenitude e de realização, que está em todo lugar estando em lugar nenhum, é o céu do terceiro milênio. E, com um novo céu desses, quem precisa de uma nova terra?

Nosso interesse nas possibilidades e contradições desse paraíso se manifesta claramente no segundo nível, o nível literário, da articulação dessa mitologia. Porque nos últimos anos a ficção científica tem adotado o espaço cibernético como um destino de migração redentora no sentido mais literal da coisa. Na cultura pop a profecia mais antiga dessa visão foi articulada pelo filme Tron, de 1982, em que o protagonista é sugado para aventuras dentro do “mundo eletrônico” do computador. Nas décadas seguintes o sonho de uma realidade virtual pesada, indistinguível da experiência da realidade física, voltou à superfície em O passageiro do futuro, de 1992, e encontrou o seu pleno esplendor em Matrix (1999), que gerou mil filhos e está longe de perder a fertilidade.

Este representa, no entanto, o aspecto mais superficial dessa discussão, aquele que emerge para o grande público através de Hollywood. Como bem lembrou o Gouvêa, grande parte da literatura de ficção científica das últimas décadas, desde pelo menos a década de 1980, tem de uma forma ou de outra se ocupado da temática das realidades virtuais que a tecnologia pode desvendar ao homem e além do homem.

Tendo nossa cultura se desiludido do sonho da exploração do espaço, na literatura mais recente de ficção científica apocalíptica a migração redentora da humanidade passou a ser representada, alternativamente, como [1] um encontro com a eternidade pelo mergulho definitivo no mundo cibernético, onde estaremos para sempre livres das limitações da carne, ou [2] a criação, como resultado do avanço da tecnologia, de uma nova inteligência que nos ultrapassará e nos justificará eternidade adentro.

Na linguagem de Vernon Vinge esse segundo apocalipse se chama Singularidade: o momento futuro ou iminente em que a tecnologia humana acabará produzindo uma inteligência sobre-humana, inteligência cuja entrada em cena produzirá consequências que nós — meramente humanos que somos — somos estruturalmente incapazes de prever.

Isso para não falar de gente como Nick Bostrom, professor de Filosofia da universidade de Oxford, que parou um dia para ponderar a probabilidade de que eu e você já estejamos, neste momento, vivendo numa simulação dentro de um espertíssimo computador criado por uma civilização avançada. Porque, afinal de contas, “é em princípio inteiramente possível implementar uma mente humana num computador suficiente rápido”. Se os computadores que temos hoje em dia são capazes de simulações incrivelmente complexas, explica Bostrom, a lógica exige que tomemos como verdadeira uma das seguintes três informações:

  1. As chances de que uma espécie no nosso atual nível de desenvolvimento seja capaz de alcançar a maturidade tecnológica, evitando a extinção, são incrivelmente pequenas;
  2. Praticamente nenhuma civilização tecnologicamente madura demonstra interesse em rodar simulações computadorizadas de mentes como as nossas;
  3. Você com quase toda a certeza existe dentro de uma simulação.

Ou seja, no estágio tateante em que se encontra, a tecnologia já nos forneceu metáforas — desafios e ferramentas — que são, por assim dizer, pós-humanas. Com elas nos tornamos capazes de pulverizar a realidade e sonhar o momento talvez não muito distante em que seremos, nós mesmos, tecnologia obsoleta e ultrapassada. Graças a essas ferramentas, ganhamos ainda a terrível clareza da incerteza: nenhum de nós tem mais como dizer ao certo se está dentro ou fora do que costumávamos chamar de realidade, ou de que lado da Singularidade está olhando para a experiência.

Leia também:
O evangelho de Google
Só os nerds são felizes
O crepúsculo dos deuses

29 de Outubro de 2010

O advento do Scrivener

Recomendações

Não custa repetir: o MS Word não foi feito para escritores. Se quer escrever um livro ao invés de uma carta ou um relatório, você precisa ao mesmo tempo de muito menos e muito mais do que o MS Word foi desenhado para oferecer.

Como máquina de escrever, tenho usado o writemonkey (gratuito), e para organizar séries mais longas, o Notebox Disorganizer (gratuito). Nem mesmo o Disorganizer, no entanto, foi capaz de me ajudar a levar avante projetos mais complexos (sim, estou falando com você, Ciro).

Para levar avante projetos como esse, fiquei sonhando por mais de dois anos com o lançamento da versão para Windows do mítico Scrivener (US$ 40,00), o mais desejado dos programas desenhados para escritores, que até agora estava reservado para os usuários do Mac.

Projetado para acompanhar autores em projetos de qualquer complexidade, o Scrivener gosta de deixar que você componha o seu texto (seja poema ou odisseia) em porções menores que podem ser tão pulverizadas quanto você quiser (seja um capítulo ou um parágrafo) e rearranjadas (via outline ou cartões num quadro de cortiça) como melhor lhe parecer. Em qualquer momento as unidades que compõem o seu texto/projeto podem ser visualizadas e editadas individualmente ou em conjunto, e ainda exportadas para destinos menos nobres como o Word.

A notícia que venho dar é que a primeira versão beta/teste do Scrivener para Windows acaba de ser lançada, e pode ser baixada aqui. O programa fala inglês, mas seu grau de desajuste com a língua não deve impedi-lo de tentar.




Nem sei o que dizer.

Visite:
Scrivener for Windows

01 de Agosto de 2010

Minha máquina de escrever

Pormenor

Minhas primeiras ferramentas de escrever foram caneta e caderno; mais tarde apropriei-me da Olivetti Studio 44 que a General Motors deixou que meu pai levasse para casa.

Então, quando meu tio Carlos comprou o primeiro computador da família, ainda numa era pré-Windows, fui apresentado ao WordStar, depois ao brasileiro Fácil, que rodavam na tela escura do DOS. Passei a visitar a casa do Carlos com maior frequência, e usava o WordStar para fazer de modo mais cômodo o que já fazia na máquina de escrever: reescrever um número limitado de páginas um número ilimitado de vezes.

E no dia em que o Windows passou a habitar minha própria casa, com suas paredes cobertas de hieróglifos que se chamavam ícones, sentei-me pela primeira vez diante do Microsoft Word.

Durante anos usei o Word para escrever. O MS Word (bem como seus concorrentes menos unânimes, como o WordPerfect da Corel e o gratuito Write da suíte OpenOffice) pertencem a uma categoria de programas aos quais os norte-americanos deram o nome de processadores de texto – word processor, um daqueles termos cujo poder deve ter se perdido por completo na tradução. Quem iria pensar que uma abstração como “processador de texto” serve para escrever?

E, na verdade, não serve. Com o tempo – muito tempo – acabei concluindo que os recursos do Word se interpunham no caminho da redação, ao invés de facilitá-la. Um programa como o Word brilha no que veio a ser conhecido como formatação, e é o ofício de deixar um texto visualmente agradável.

O problema do Word está em que enquanto você fica escolhendo a fonte para o seu título, definindo estilos para o corpo do texto, posicionando a numeração de páginas e estabelecendo a distância em milímetros entre o limite do texto e as notas de rodapé você simplesmente não está escrevendo. E o que você quer – pode ser necessário lembrar – é escrever; a formatação pode ficar para depois ou para outra pessoa.

O paradoxo, portanto, é esse: quem quer realmente escrever precisa de um programa com menos recursos, não mais. Precisa de um programa com poucas distrações, não muitas. Precisa de uma máquina de escrever.

Hoje em dia minha máquina de escrever é o WriteMonkey, um programa que não oferece nenhum recurso de formatação e que salva os arquivos no mais básico dos formatos – “somente texto”, ou txt. Em compensação, o WriteMonkey oferece uma tela em que você fica bem-aventuradamente sozinho com o seu texto – um ambiente que em inglês, língua que dá nome a tudo, deu-se o nome de distraction-free, isto é, livre de distrações.

No WriteMonkey você escolhe a fonte, as margens e as cores (da tela e não da página), e só lhe resta escrever, amigo. Quase de volta ao bom e velho Wordstar.

Em seu favor o WriteMonkey ainda:
> pode salvar automaticamente o seu arquivo, inclusive quantas cópias de segurança você quiser, na pasta em que você quiser;
> não precisa de instalação e pode ser levado num daqueles chaveiros USB;
> pode também rodar numa janela, se você descobrir que fica com claustrofobia no modo tela cheia;

> pode fazer barulho de máquina de escrever quando você escreve;
> pode mostrar numa barra de status a informação que você escolher, coisas tipo a hora do dia e o número de palavras do seu texto;
> pode ocultar automaticamente a barra de status quando você começa a escrever, no melhor estilo distraction-free;
> é gratuito.

* * *

A página do Writemonkey na internet:
www.writemonkey.com

As limitações:
> só roda em Windows;
> requer o pacote .net framework 3.5, que você pode não ter instalado na sua máquina, mas pode baixar da Microsoft:
.net framework 3.5

* * *

Alternativa para o Mac:
Writeroom (na verdade, o primeiro do gênero)

Alternativa para o Linux:
Pyroom

Outros programas parecidos para Windows:
Q10
Dark Room
Focus Writer

 

11 de Julho de 2009

Você já abandonou o seu Internet Explorer hoje?

Recomendações

 

Firefox 3.5
Mais seguro, mais rápido, customizável e com mais efeitos especiais. Baixe aqui.

Google Chrome
Mais rápido, mais estável, futura sede do recém-anunciado sistema operacional da Google. Baixe aqui.

Atualização de 14 de julho
Alguns usuários indignados escreveram perguntando porque não mencionei o maneiríssimo
Opera
Rápido, leve, estável, frequentemente um passo à frente da concorrência. Eu mesmo uso tanto o Firefox quanto o Opera. Baixe aqui.

Transfira os seus favoritos para o seu novo favorito, e não olhe para trás.

Leia ainda:
Qual é o melhor navegador?