16 de Novembro de 2011

A distância entre caridade e justiça

Goiabas Roubadas

Nos textos que seguem procuro empregar o Novo Testamento e alguns elementos das tradições cristãs a fim de complicar a correspondência que costumamos crer existir entre caridade e justiça social. Embora um bom número dos cristãos que trabalham em organizações de caridade tenha sido atraído para esse trabalho inspirado por um compromisso com a visão bíblica de justiça, acontece que com frequência essas organizações de caridade – quer sejam ou não cristãs – estão na verdade envolvidas na perpetuação e na consolidação da injustiça, da exploração e da opressão. Consequentemente, aqueles que estão pessoalmente comprometidos com a justiça acabam tornando-se inadvertidamente instrumentos de injustiça; ou, para usar uma linguagem um pouco diversa: os que desejam conceder vida acabam se tornando traficantes de morte.

Dizendo de modo mais sucinto, pretendo levar aqueles que trabalham numa organização de caridade a ponderar qual é a relação dessa sua obra com [a] conferir vida aos outros e [b] seguir Jesus. Com esse fim, procurarei contrastar algumas características da caridade, como praticada hoje, com algumas características do ministério de Jesus.

Antes de fazer isso, no entanto, quero fazer uma única observação sobre a linguagem que estou empregando. Prefiro em geral evitar o termo “justiça” em conversações como esta. Estou incluindo o termo aqui logo de início porque creio que seja um tema importante neste curso de discussão. Porém prefiro não usar essa terminologia, porque a considero popular entre gente que gosta de falar muito e acaba confundido falação com atitude concreta. Muita gente parece achar que se torna mais “justa” A caridade é hierárquica; Jesus operava numa comunidade não hierárquica de gente pobre que buscava a mudança de baixo para cima.porque fala ou pensa a respeito de “justiça”, por isso é às vezes necessário mudar os termos da discussão.

Semelhantemente, muita gente tem ideias estranhas sobre o que constitui “justiça”. Alguns cristãos conservadores, por exemplo, acham que o trabalho das sweat shops do terceiro mundo – fábricas com péssimas condições de trabalho e baixo salário, onde são manufaturados grande parte dos bens consumidos no ocidente – é um modo “justo” de se desenvolver outras economias e uma alternativa “justa” para quem poderia estar se prostituindo ou algo semelhante. Outros acham ainda que estamos lutando uma guerra “justa” contra o terror no Afeganistão ou, aliás, contra o povo do Haiti, da Palestina e da Líbia.

Por essa razão, em vez de usar esses termos, prefiro falar em termos de vida e morte. Na qualidade de seguidores de Jesus e de adoradores do Deus que chamava Jesus de seu Amado, creio que somos chamados a dar testemunho e participar da (nova) criação de um mundo em que uma vida abundante esteja ao alcance de todos, e não seja simplesmente apoderada por uns poucos às custas de muitos. Esse chamado requer duas posturas correlatas: devemos produzir e participar daquilo que confere vida e devemos resistir, subverter e destruir aquilo que propicia a morte. É isso o que requer não apenas a visão bíblica de “justiça”, mas a mais fundamental visão bíblica do que significa ser filho Deus e, num nível ainda mais básico, do que significa ser humano.

Isso, creio, é especialmente verdadeiro no que se refere às maneiras como entendemos “caridade” hoje em dia, por isso quero destacar alguns dos modos em que a caridade resvala no terreno daquilo que propicia a morte, em contraste com as posturas doadoras de vida da comunidade reunida ao redor de Jesus. Isso se faz através da análise de sete contrastes.

Primeiro contraste:

A caridade é hierárquica, fluindo de cima para baixo, e essa estrutura e disposição asseguram a sua impotência.

Jesus operava numa comunidade não-hierárquica de gente pobre que buscava a mudança de baixo para cima, e essa estrutura e disposição asseguravam a possibilidade a criação de mudança que confere vida.

À primeira vista esse contraste pode não parecer tão importante quanto é, em termos de participar daquilo que confere vida ou contribuir para aquilo que propicia a morte. Diversos contrastes importantes, no entanto, são desdobramento deste. É necessário observar e questionar, portanto, a diferença entre as posições sócio-econômicas e suas correspondentes trajetórias de mudança – de baixo para cima e de cima para baixo.

Começando com a caridade – e uso o termo para referir-me àquele tipo de coisa que fazem agências como The Gateway e a Yonge Street Mission, – há uma hierarquia muito clara em vigor, uma hierarquia que ao mesmo tempo imita e sobrepõe-se à hierarquia estrutural da sociedade.

O modo mais evidente de se observar isso é levantando-se perguntas relacionadas a dinheiro, acesso a informação e o poder de efetuar mudanças dentro da organização. Quem ganha quanto? Quem sabe o quê? Quem pode fazer o quê? As respostas a essas perguntas revelam de que modo o poder está distribuído e onde está concentrado, a despeito da retórica que os serviços sociais amam empregar, de que todos os envolvidos são estimados igualmente. Se fosse verdade, todos receberiam o mesmo, teriam igual acesso à informação e teriam a mesma autoridade pare efetuar mudança dentro da organização. O mesmo, naturalmente, é válido para qualquer cristão que fala sobre “liderança de serviço”, “valores do reino” ou o quer que seja. Qual foi a última vez que você viu um “líder servo” recebendo salário menor do que os membros da sua equipe? Qual foi a última vez em que você conheceu um “líder servo” que limpava os banheiros do dormitório ou do escritório?

Portanto, quando analisamos a questão do dinheiro, do acesso à informação e do poder de efetuar mudanças, encontramos na caridade o mesmo tipo de hierarquia que prevalece em empresas, governos e outras instituições. Com respeito a isso, é sempre instrutivo comparar-se, por exemplo, os quatro níveis de pessoas dentro de uma organização dessa natureza. Quanto ganham os assistidos? Quando ganham os zeladores? Quanto ganham os envolvidos na linha de frente? Quanto ganha o diretor executivo?

Você provavelmente não sabe a resposta a essas perguntas, porque não se espera que as pessoas na base da pirâmide saibam o quanto ganham os demais – o que demonstra o meu segundo ponto. Quanta informação a respeito do funcionamento interno da instituição de caridade podem acessar os assistidos, os zeladores, os funcionários da equipe de atendimento e o diretor executivo?

Em terceiro lugar, quanto poder têm os assistidos, os zeladores, a equipe de atendimento e o diretor executivo para mudar as coisas dentro da instituição?

Essas três áreas demonstram uma hierarquia muito claramente demarcada operando dentro de instituições de caridade cristãs, replicando os modelos hierárquicos estabelecidos da sociedade.

Outro exemplo dessa imitação está em que aqueles que ocupam as posições mais altas tendem a ter de um perfil socioeconômico mais elevado do que aqueles que ocupam posições inferiores, e tendem também a ter um nível mais alto de escolaridade. A profissionalização das obras de caridade tem se difundido rapidamente nas últimas décadas. Por um lado, isso praticamente assegura que os funcionários de linha de frente provenham quase todos de uma classe social diferente da dos assistidos que servem – alienando deste modo ainda mais a caridade da efetiva comunidade que alega servir, e garantindo também que a equipe assistencial esteja provavelmente mais entranhada dos valores dominantes da sociedade. Por outro lado, isso assegura que aqueles em cargos de gestão tenham recebido a maior parte da sua instrução na área de administração de negócios – garantindo desse modo que os valores e a cultura de classe dos encarregados da direção sejam ainda mais distantes daqueles dos assistidos do que os da equipe de atendimento.

Essencialmente, a direção de uma instituição de caridade tende a ser composta por gente bem intencionada que vive tão distante das realidades da vida nas ruas e do que poderia de fato representar incremento de vida às pessoas marginalizadas que acabam fazendo mais mal do que bem (para mais sobre esse assunto recomendo enfaticamente a coletânea The Revolution Will Not Be Funded: Beyond the Non-Profit Industrial Complex).

É interessante observar que essa estrutura hierárquica esteja tão fortemente entranhada nas caridades cristãs. Mover-se dentro desse tipo de ambiente é ser simplesmente ensinado a partir do pressuposto de que o funcionamento natural das coisas requer que algumas pessoas tenham um salário bem maior que as demais, que algumas pessoas saibam bem mais do que as demais e que algumas pessoas tenham mais poder para efetuar mudança do que as outras.

Embora um grande número de instituições da caridade cristãs alegue ter como propósito assistir os necessitados e eliminar certas linhas divisórias, elas ainda assim reproduzem e aceitam como coisa natural muitas das linhas demarcatórias mais centrais da nossa sociedade – como, por exemplo, aquela entre uns poucos ricos e poderosos e uma maioria pobre e sem voz ativa.

Que isso é um fato consumado fica bem ilustrado no livro de Greg Paul, The Twenty Piece Shuffle: Why the Poor and Rich Need Each Other. Greg, como se sabe, escreveu esse livro na qualidade de diretor da Sanctuary, e creio que a obra funciona um pouco como uma apologética da classe média; parece ter sido o modo pelo qual Greg procurou conciliar o seu modo de vida confortável com o fato de viver cercado de gente pobre. Assim, Greg explica que somos todos gente falha, e fala do modo como os pobres são capazes de impactar positivamente as falhas dos ricos e vice-versa. Desse modo, escreve ele, os pobres e os ricos precisam uns dos outros. O pressuposto não-declarado é que é na verdade necessário que exista gente rica e gente pobre. Faria mais sentido se Greg tivesse escrito um livro que se perguntasse por que existe gente pobre e gente rica em primeiro lugar, e por que não podemos fazer alguma coisa para criar um espaço neste mundo em que não haja nem pobreza nem riqueza, mas o suficiente para todos. Isso, na minha opinião, estaria mais alinhado com a visão bíblica de como devemos estruturar nossa vida comunitária.

Dito isso, apesar da profissionalização da obra social, apesar das boas intenções de todos os envolvidos, apesar do estabelecimento de hierarquias projetadas para dar autonomia aos indivíduos certos e apesar da abundância de instituições de caridade existentes hoje em dia, aparentemente não estamos fazendo muita diferença. A elite dos poucos continua a se tornar cada vez mais rica. A maioria pobre continua a crescer e a ficar mais pobre. A cada ano o número de sem-teto é maior. Cava vez mais gente recorre à cesta básica. Cada vez mais gente vive à distância de um cheque de perder sua casa.

A caridade tem se mostrado positivamente incapaz de realizar algo de significativo – além de, naturalmente, dar a gente como eu e você um crescente mercado de trabalho e um pouco mais de segurança financeira. Alguns diriam que a resposta ao problema da impotência da caridade está em articular mais conexões com a elite, em angariar mais dinheiro e trabalhar por um maior nível de profissionalização. Porém eu gostaria de sugerir que a impotência das iniciativas de caridade é, em parte, gerada pelas conexões com a elite, pelo dinheiro angariado e pelos profissionais envolvidos.

Com isso em mente, devemos examinar a posição e a estrutura do movimento que aglutinou-se ao redor de Jesus.

Para começar, pode ser necessário mencionar que no tempo de Jesus havia estruturas de caridade hierárquicas similares às que temos hoje. Os sistema de clientelismo e de beneficência – pelos quais os abastados ajudavam a cuidar dos menos afortunados ou faziam doações públicas a cidades inteiras – estavam bem estabelecidas ao longo de todo o mundo mediterrâneo. Em retribuição, os ricos e poderosos podiam esperar lealdade e serviço de seus vassalos, bem como reverência e honra em questões tanto públicas quanto privadas. Desse modo, aqueles que com frequência saqueavam cidades inteiras eram publicamente honrados como moralmente superiores aos outros. Os ricos e poderosos apropriavam-se não apenas de bens, mas ainda do próprio bem. Deve ser também dito que, à parte as obras públicas como aquedutos e fontes, essa forma de caridade era exercida quase exclusivamente em favor dos pobres “que mereciam”, sendo negada aos que eram considerados “não merecedores”.

É interessante notar como o movimento de Jesus recusa-se por completo a participar desse sistema de patronagem, a fim de criar um modo alternativo de estruturar a vida comunitária. Assim, por exemplo, Jesus encoraja as pessoas a dar sem esperar retribuição (Lucas 6:34-36) – uma forma de partilha que contradiz por completo a lógica da patronagem, passada ou presente. Jesus, além disso, apela para uma ética e uma economia fundamentada na noção de jubileu; em especial o perdão de débitos monetários (Lucas 4:18-19; 11-14) vai de encontro a qualquer forma de caridade praticada naquela época. Isso não é caridade, é redistribuição econômica em favor dos necessitados (ver o comentário de Joel Green sobre o evangelho de Lucas; também o livro de Bruce W. Longenecker, Remember the Poor: Paul, Poverty and the Greco-Roman World).

Ou seja, ao contrário de participar das consagradas práticas hierárquicas de assistência que existiam em sua sociedade, Jesus escolheu participar da criação de uma comunidade igualitária que compartilhava uma solidariedade vivida com os pobres.

A fim de focalizar essa solidariedade vivida devemos, em primeiro lugar, observar que Jesus não interagia com os pobres e marginalizados à distância. Assim, em Lucas 9:58 ele declara: “As raposas tem suas tocas e as aves do céu tem seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. Jesus não trabalhava com os outros; ele era, ele mesmo, o outro com o qual trabalhamos. O mesmo é válido para a comunidade ao redor dele. Em sua companhia vemos prostitutas lavando seus pés com lágrimas e enxugando com o cabelo. Vemos terroristas como Simão, o zelote, lado a lado com pelegos e reacionários como Mateus, lado a lado com gente proletária como Pedro e João. Vemos os intocáveis e os enfermos sendo acolhidos como tocáveis e saudáveis. Vemos os pecadores e os malditos acolhidos como perdoados e salvos. Tudo considerado, um observador de fora provavelmente descreveria essa como uma comunidade de fodidos, desajustados, criminosos e idiotas – não exatamente o tipo de companhia que encontramos no quadro de funcionários de uma instituição de caridade. Ainda assim esses eram os amigos, a família, os companheiros e os amantes de Jesus. Não eram seus assistidos.

Em segundo lugar, essa era uma comunidade não-hierárquica. Embora alguns deles competissem constantemente para serem vistos como mais prestigiosos do que os outros – como quando Tiago e João pediram para sentar-se à sua direita e à sua esquerda (Mateus 20:20-28) – Jesus era inflexível em sua postura de que todos os membros da comunidade deveriam esforçar-se para ser escravos dos outros, honrando os outros mais do que a si mesmos, mesmo que isso significasse tarefas humilhantes e vergonhosas como lavar os pés de outra pessoa (conforme João 13:1-17).

Com a vida comunitária estruturada dessa forma, os que haviam sido marginalizados na sociedade recebiam posições de proeminência ao lado de todos os demais. Por exemplo, vemos que as mulheres desempenhavam um papel de destaque no movimento de Jesus. Não apenas exerciam liderança, mas eram tidas como dignas de maior honra do que homens. Na cruz apenas as mulheres ficaram perto de Jesus. Não é de se surpreender, portanto, que quando Jesus ressurge dos mortos são as mulheres a ter o privilégio de receber a mensagem da notícia. São elas as primeiras a agirem na qualidade de apóstolos, pregando as boas novas aos onze e ao restante dos integrantes do movimento. É por isso que Jesus disse que é necessário que sejamos eunucos pelo reino de Deus (Mateus 19:12): ele não quis dizer que os homens devem abrir mão de suas bolas; ele quis dizer que os homens precisavam abrir mão da autoridade que sua cultura lhes concedia, e passar a relacionar-se com as mulheres como iguais.

É claro que falar de líderes – sejam mulheres ou não – parece contradizer a ideia de uma comunidade não hierárquica, então é importante enfatizar que a modalidade de liderança praticada nos primórdios do movimento de Jesus não era institucionalizada e não era restrita a determinadas pessoas e determinadas classes de pessoas. Emprestando o termo de Max Weber, tratava-se do que os sociólogos chamam de “liderança carismática”. Essas são pessoas que operam em papéis de liderança porque algo nelas diz algo ou ressoa de modo poderoso diante do restante da comunidade. Desse modo, sua liderança depende estritamente da aprovação comunal de suas palavras e suas ações. É por isso que Paulo, em suas cartas e apesar de todas as alegações que faz sobre ele mesmo e seu papel, está constantemente pedindo para ser ouvido. Ele só tem autoridade porque a comunidade escolhe dar a ele autoridade, e essas autoridade pode ser revogada a qualquer momento.

Se os líderes representavam a comunidade, eram aceitos; se deixavam de representar a comunidade, perdiam toda a autoridade. Não é de se admirar, portanto, que os que tendiam a ser aprovados como líderes nas assembleias locais dos seguidores de Jesus eram aqueles que mais e melhor serviam essas assembleias. Se fossemos compor uma lista contemporânea de “líderes” como os mencionados nas cartas de Paulo, faria mais sentido se elencássemos nossos zeladores, não nossos diretores ou membros do conselho.

Além disso, os ricos e poderosos, os compassos morais da sociedade, os que receberam uma boa instrução e aqueles que orquestravam as formas mais institucionais de caridade – os profissionais – estão notavelmente ausentes dos primórdios do movimento de Jesus. Isso não quer dizer que Jesus não recebia assistência ocasional de doadores ricos, como as mulheres mencionadas em Lucas 8:2-3, e outras casas que o hospedavam. O que quer dizer é que os que apoiavam o movimento desse modo não deviam esperar receber coisa alguma em troca (conforme Marcos 3:32; Lucas 9:4; 10:38). Sendo assim, dado que nenhum patrono da antiguidade prestava assistência aos verdadeiramente miseráveis, mas fazia o que eram meramente “investimentos racionais”, prover o movimento de Jesus com riqueza e bens traria na verdade vergonha e desonra sobre qualquer doador, além de causar a perda de uma parte da sua riqueza. Essa atitude seria vista como uma tentativa de envergonhar aqueles em posição mais elevada na hierarquia do poder, que esperavam que a riqueza e os bens se fluíssem sempre na sua direção.

Essencialmente, fazer doações a Jesus e a seu grupo seria visto como dar uma banana aos poderosos, e isso invariavelmente traria repercussões negativas para qualquer um que desse apoio a Jesus. Essa postura os arrastaria para um processo de declínio sócio-econômico.

Desse modo, qualquer doação externa era realizada a fundo perdido – um investimento desperdiçado que envergonhava os doadores, levava-os a perder tanto dinheiro quanto status e prejudicava as suas próprias relações com outros ricos e poderosos. Perceba quão radicalmente diferente é isso do que acontece com os que apoiam hoje em dia as nossas instituições de caridade. Veremos num momento qual é a causa disso.

Por enquanto, o que vemos em Jesus é um movimento não hierárquico que existe em solidariedade vivida com gente pobre e sem instrução. Marcadamente ausentes estão aqueles que prestam assistência profissionalmente – e os que apoiam o movimento financeiramente sofrem um bocado por fazê-lo. No entanto, talvez seja em parte essa a razão pela qual o movimento de Jesus foi bem sucedido de tantas maneiras em que os nossos próprios esforços têm falhado. Isso veremos.

 

Daniel Oudshoorn, numa palestra apresentada
a assistentes sociais que trabalham na Yonge Street Mission em Toronto,
uma das mais respeitadas e antigas instituições de caridade
engajadas na assistência a moradores de rua daquela cidade.

03 de Janeiro de 2011

A sucessora

Política

Ma otto son lunghi
Adriano Celentano, em O rapaz da via Gluck

 

Agora que o presidente desceu a rampa, recebi permissão para falar.

Como se sabe, meu cinismo essencial não apenas estende-se à política, mas deve-se em grande parte a ela. Sobre democracia não chego a compartilhar todas a descrenças de Lovecraft, mas endosso sem qualquer dúvida a iluminada desilusão de Tolkien. Como a esta altura também ninguém deve ignorar, não me considero de esquerda, mas pendo periodicamente em direção a ela devido à minha impenitente simpatia para com o cristianismo e sua insensata ênfase distributiva; pela mesma razão, não sou de direita e nem teria como ser.

Meu respeito para com o ideal cristão, no entanto, é grande demais para que eu me contente com a esquerda; como já devo ter dito antes, o problema com o socialismo é ser ao mesmo tempo idealista demais e de menos. Em termos políticos, só me resta afirmar um anarquismo cristão como esboçado no Novo Testamento, que entende a implantação do reino de Deus como o fim de todos os governos: a formidável negação de toda estrutura de poder e de dominação, em todos os níveis, por mais bem-intencionadas que se mostrem. A negação da legitimidade dos poderes, ao contrário do que tememos os fariseus de todas as eras, não é o reinado do caos: é o intransigente reino da liberdade, da ternura e da responsabilidade universais, em que o regime do amor se prova mais severo do que o da justiça. Muito declaradamente, Deus esvaziou-se em Jesus a fim de mostrar que onde não há poderes, há o reino de Deus. Deus é Despoder.

Naturalmente, um regime subversivo dessa natureza só pode ser implantado de baixo para cima. Por definição os anarquistas não devem se organizar, pelo que a do reino, por vocação, é a revolução que não será televisionada.

Enquanto isso os poderes continuam a dançar, e é uma dança de discursos e portanto de polarização. No que diz respeito à recente ascensão da esquerda no Brasil, interessa-me menos a esperança (quem sabe infundada) que despertou em alguns do que o temor que despertou em outros.

Porém o fascínio de Lula é maior do que o da esquerda; sua importância não se esgota na sua lealdade (ou não) ao ideal socialista. Em grande parte, a singularidade desses oito anos reside no espaço negativo que circundou a figura do ex-presidente – na natureza daquele vasto tudo-aquilo-que-não-é-Lula. Faz pouca diferença se você enxerga Luis Inácio da Silva como uma estrela cujo brilho ofuscou todas as outras ou como um buraco negro que arrastou para dentro de si as energias que serviriam para iluminar o mundo. São anos que ficarão marcados menos pelo que Lula fez ou deixou de fazer do que pelo que ele gerou (e deixou de gerar) ao redor de si.

Em primeiro lugar, o duplo mandato de Lula deixou claro que a democracia no Brasil basta para permitir que qualquer um chegue efetivamente ao poder; essa mesma revelação mostrou ser motivo de júbilo para uns e de horror para outros. Nesse sentido, foram oito anos de comunitária nudez, a reação que oferecemos à ascensão e à postura de Lula dizendo sempre mais sobre nós mesmos do que sobre ele.

Em segundo lugar, há o fato incontornável (já observado por habitantes dos dois hemisférios da esfera política) de que o governo Lula não teve oposição organizada. Trata-se de feito singular por muitas razões, e a menor delas não está em que – depois de duas décadas do seu exemplo – a direita poderia ter aprendido com o PT como se faz oposição eficaz.

Nesses oito anos a direita teve o lastro da revista VEJA, de Reinaldo Azevedo, de Diogo Mainardi, de Olavo de Carvalho, de um canal de TV ou outro, de articuladíssimo blogueiros, de milhões de dólares em empresários e de setecentos milhões de mensagens de email circularmente encaminhadas. Essas vozes denunciaram o presidente Lula como um analfabeto, um despreparado, um vagabundo, um bêbado e uma vergonha nacional, mas deixaram de produzir a derradeira evidência que seria capaz de comprovar o seu próprio cacife para emitir essas opiniões. Os letrados, os preparados, os trabalhadores, os sóbrios e os notáveis da direita mostraram-se incapazes de espremer de suas fileiras uma única voz – uma que fosse, minha gente, dentre tanta gente preparada – capaz de articular publicamente a sua posição e de representar uma alternativa ao governo e oferecer-lhe verdadeira oposição. Durante décadas Lula representou a oposição e falou em nome dela; durante o seu governo não houve um único candidato a candidato a expressar com um pingo de carisma ou autoridade a posição e as ressalvas da direita.

Acho isso grave porque estou também absolutamente convicto que não faz bem a ninguém governar sem oposição – mesmo que se trate de um governante tão claramente bem-intencionado quanto Lula. Cheguei a cogitar de, por amor à esquerda, fundar um articulado partido de extrema direita, para que Lula pudesse beneficiar-se de uma oposição e do saudável contrapeso de um adversário. Mas o que deixei de fazer por amor à esquerda os direitistas mostraram-se incapazes de fazer por amor à sua própria causa. Lula manteve a sanidade e o equilíbrio mesmo sem um opositor para refreá-lo, coisa que não pode ser dita sobre os governantes que o antecederam.

Finalmente, há o enorme espaço que Lula deixou para trás agora que passou de si a faixa. A lacuna é tão grande que Dilma Roussef, mesmo que tivesse em seu favor alguma visibilidade anterior e algum carisma pessoal, não teria como começar a preencher. Por décadas Lula representou o carisma na oposição e por oito anos no poder; agora que desceu a rampa, deixou-nos sem o conforto de um ou de outro.

Dilma nunca foi minha candidata (muito menos Serra, fique claro) e não a conheço; só sei dela que Lula por alguma razão (talvez bem-intencionada, mas sem dúvida política) impôs sobre ela sua benção. Será injusto esperar que qualquer outro representante da esquerda se mostre tão terno e equilibrado quanto Lula; será inocente esperar que qualquer representante da esquerda sem o seu carisma seja tolerado por tanto tempo por uma direita que representa os que têm tanto a perder.

Deste posto, do terceiro dia de quatro anos dos quais nada sei, só posso prever que Dilma, se sobreviver até o final de seu mandato, será inevitavelmente seguida por um candidato de direita.

Há, porém, uma esperança: talvez Lula, o despreparado filho do Brasil, se levante para preencher a lacuna que seus adversários se mostraram impotentes para oferecer. Se quiser, Lula pode muito bem representar a oposição capaz de manter o equilíbrio de Dilma. Quem sabe Lula seja grande o bastante para fazer aquilo de que nenhuma esquerda do mundo foi capaz: assegurar simultaneamente a perpetuação e a singeleza do seu ideal.

Leia também:
Capitalismo, socialismo, alienação e o capeta
Anarquia e cristianismo

24 de Setembro de 2010

Capitalismo, socialismo, alienação e o capeta

Manuscritos

Cada discurso de libertação traz dentro de si a semente de uma nova servidão; em cada esforço de justiça está encapsulada a ameaça – talvez a promessa – de uma nova injustiça jamais sonhada.

Quando pisou o palco da história, na esteira da Reforma e do Renascimento, o capitalismo representou a implantação no âmbito econômico – e portanto na vida real – dos ideais de liberdade e de igualdade articulados pelo Iluminismo e adotados pela Revolução Francesa.

O capitalismo salvou o mundo das estruturas do feudalismo, que dividiam a sociedade em compartimentos estanques dos quais ninguém podia sonhar escapar. No mundo medieval, pré-capitalista, os pobres nasciam pobres e morriam pobres, enquanto os nobres nasciam nobres e viviam ricos. Esse estado de coisas era mantido, por um lado, pela força bruta e pela tradição; por outro lado, dependia da intimidação e do aval fornecido pelo clero e pelas demais estruturas da igreja medieval.

O sistema estava em vigor há quase mil anos e nada parecia ser capaz de ameaçar a sua supremacia, até que uma série de novidades mais ou menos interligadas (entre elas a invenção da imprensa, a divulgação dos clássicos gregos e a própria Reforma) acabou injetando na sociedade uma série de noções revolucionárias. O Humanismo fez com que o homem baixasse os olhos do céu pintado do teto da igreja e olhasse para aquela belíssima criatura no espelho; inspirado por sua vez no que viu no rosto do homem, o Iluminismo desenhou os ideais de cidadania, igualdade e direitos inalienáveis.

As revoluções constitucionais e republicanas representaram a aplicação desses ideais nos contextos das nações, mas foi preciso o dinheiro – isto é, a ascensão do capitalismo – para legitimar o sonho democrático de mobilidade social no mundo real. Porque, com o capitalismo, estava aparentemente tudo resolvido; o mundo era finalmente um lugar justo, em que qualquer um podia enriquecer e ascender a escala social pelos seus próprios méritos. As hierarquias tradicionais perdiam a sua validade num mundo conduzido por um mercado cada vez mais exigente e influente, inteiramente pronto a premiar qualquer um que satisfizesse os seus caprichos ou – talvez melhor – fosse capaz de lhe oferecer caprichos novos.

Neste novo mundo o menos sofisticado dos mercadores podia pisar o mais requintado dos salões, demonstrando com o tilintar de moedas esse seu direito. O valor de um notável foi transferido da pureza do seu sangue para o saldo da sua conta bancária, onde permanece até hoje.

Em muitos sentidos o capitalismo foi portanto um milagre e uma manifesta vitória, os quais ainda não nos cansamos de celebrar. Serviu para denunciar mecanismos de dominação que eram tidos como evidentes e naturais mas que eram, na realidade, meras fabricações ideológicas. Como todos os discursos, apresentavam-se como sãos e bem-intencionados, porém serviam para sustentar um estado de coisas muito injusto e artificial. A desigualdade requer uma ideologia para manter seu perverso equilíbrio, e as noções medievais de honra, tradição, autoridade religiosa, sangue e hierarquia (entre outras) garantiam que o povo comum continuasse sendo explorado, ao mesmo tempo em que a renda e o poder se mantinham concentrados nas mãos seletas da nobreza e do clero.

Ainda mais do que as revoluções nacionais, a ascensão do capitalismo alterou para sempre o tecido dessa realidade, servindo para expurgar e anular dos anais da aceitabilidade condutas e opiniões que eram anteriormente tido como norma e decência, como o próprio curso natural das coisas. Ao denunciar e reverter o caráter artificial dos scripts que faziam rodar o sistema medieval, o capitalismo mudou o eixo do mundo, tornando-o para todos os efeitos mais justo e menos arbitrário.

Porém as soluções que são discursos (e, no fundo, o capitalismo é uma construção arbitrária e artificial como o feudalismo) acabam gerando injustiças pelo menos tão atrozes quanto as que se prontificou a corrigir.

Coube a Karl Marx observar que as soluções de um mercado nominalmente “livre” acabam criando novas e severas formas de dominação e de alienação. O capitalismo traiu quase que imediatamente as boas intenções do seu discurso. O poder que atribuiu ao mercado acabou transformando o desejo numa força disciplinatória e coerciva ao invés de (como gostaria de ser e como se apresenta) libertadora e criativa. Por depender delas para se sustentar, o capitalismo patrocinou desde cedo (e cada vez mais) a alienação, a exploração e a exclusão em todas as suas formas. Aprendeu a aplacar o homem com a satisfação de necessidades menores, ao mesmo tempo em que mantem o sistema rodando pela introdução de necessidades novas e artificiais; essas, uma vez legitimadas pela adoção dos ricos, geram desejo nos menos ricos, que gastarão a vida tentando acompanhar os que se mostram melhores consumidores do que eles. Enquanto todos correm em perfeita sincronia atrás do que não precisam, passando por cima dos que não tem, a distância entre trabalho e capital é perpetuada: a igualdade, a liberdade e a mobilidade social permanecem uma ilusão, e o poder descansa concentrado como na mais imperial das hegemonias.

Em outras palavras, o capitalismo forjou um novo script, e um capaz de sustentar uma realidade tão implacável e arbitrária quanto a medieval, ao mesmo tempo em que dá a impressão de que tudo está correndo do modo mais justo e natural.

O comunismo foi postulado para corrigir essas distorções, levando à sua consequência natural os princípios de igualdade pregados pelo Iluminismo. No mundo ideal projetado por Marx a propriedade privada continuava a existir, mas os bens de produção – cujo monopólio, explicava ele, acaba perpetuando a desigualdade feudal – passavam a pertencer a todos. Neste mundo cada um trabalharia num espaço produtivo e criativo que seria muito literalmente seu, reaproximando o trabalhador do fruto do seu trabalho e anulando a força degradadora da alienação pessoal e coletiva.

Tratava-se de um projeto belíssimo e com um impecável embasamento teórico; porém, como se sabe, as tentativas revolucionárias de se implantar o comunismo produziram sucesso (para dizer o mínimo) questionável. Com ainda mais rapidez e intensidade do que o capitalismo, o comunismo revolucionário traiu suas boas intenções e foi utilizado como ferramenta de dominação e de exploração. O poder permaneceu concentrado, a continuidade do estado de coisas passou a depender da propaganda mentirosa e da intimidação, e a frustração coletiva diante das falhas do sistema acabou produzindo alienação em grau pelo menos tão devastador quanto a que gerava o capitalismo.

O comunismo, nascido na denúncia apaixonada das ideologias, havia se tornado apenas mais uma, gerando seu próprio script ideológico e seu próprio mundo condicionado e alienante. O primeiro projeto humano que propunha a implantação deliberada e generalizada de um mundo justo passou a representar, para muitos, sinônimo de abominação e de terror.

É uma história que ainda não acabou, mesmo porque que desenvolveram-se nesse intervalo muitas estirpes de socialismo e de capitalismo, algumas das quais aprenderam a sentar-se na mesma mesa para conversar. Por outro lado, capitalismo e comunismo ficaram conhecidos pelo modo praticamente oposto com que propõem-se a defender os mesmos princípios de liberdade e de igualdade. Uma resolução desse conflito (e da resultante polarização) parece pertencer a um horizonte distante.

O que ficou demonstrada, no entanto, é a capacidade humana de torcer o mais equilibrado e bem-intencionado dos discursos de modo a moldá-lo em ferramenta de dominação e exploração. O projeto que foi estudado à minúcia para garantir a justiça será fatalmente usado para perpetuar o seu oposto. Nossa intenção de salvar acaba matando, e o sonho de remendar acaba rasgando. Num livro de 1995, Howard Bloom dá a essa tendência contraditória e irresistível o nome de Princípio Lúcifer:

Um resultado: nossas melhores qualidades acabam despertando o pior de nós. De nossa ânsia em reunir e consolidar vem nossa tendência a separar e destruir. De nossa devoção a um bem maior vem nossa propensão às mais vis atrocidades. De nosso compromisso com ideais elevados vem nossa desculpa para odiar. Desde o princípio da história temos sido cegados pela capacidade do mal em assumir um disfarce de abnegação. Temos sido incapazes de enxergar que nossas qualidades mais admiráveis conduzem-nos muitas vezes às ações que mais abominamos: assassinato, tortura, genocídio e guerra.

Não será mero exagero ou retórica associar essa tendência (de usar o que é bom para perpetuar o mal) a Satanás, porque num sentido muito profundo essa tendência é Satanás. René Girard sugere algo parecido quando explica os mecanismos de demonização e de vitimização que mantem as sociedades ao mesmo tempo apaziguadas e injustas. Apegar-se a boas intenções que acabam produzindo terror e injustiça não é só coisa do diabo; esse processo, aparentemente, é o próprio diabo, e não pode ser revertido ou contornado por qualquer discurso acessível aos homens. O capeta se esconde nos nossos sonhos mais elevados e nas demandas mais puras.

Jesus, o não-condicionado, aparentemente não ignorava essas coisas, porque recusou-se consistentemente a articular um discurso. Não chegamos a conhecer sua “proposta”, o reino de Deus, por algo além de comparações e parábolas (que não permitem compreensão mais do que transversal), e pela sua própria e irrepreensível conduta. Grande parte da sua vida foi dedicada a denunciar e condenar os scripts institucionais de dominação, porém ele mesmo não rebaixou-se a sugerir um discurso substituto, porque sabia que qualquer ideologia pode ser (e será) usada como ferramenta ideológica nas mãos de Satanás1.

O que Jesus deixou-nos como herança é o reino de Deus, um local ou condição que não pode ser adequadamente descrito ou atingido. O reino está em perpétuo tornar-se, em perpétuo devir, e espreita “dentro de nós” e “entre nós” aguardando o momento de ver Satanás despencando como um relâmpago. O reino de Deus não pode ser fundado nem implantado nem articulado nem encontrado; só pode ser buscado, e diz-se que para os que o buscam – e para os tocados pela sua obsessão de dividir – todas as coisas serão acrescentadas.

NOTAS
  1. O que Jesus recusou-se a prover a igreja, naturalmente, se dispôs a tabular e graciosamente oferecer, com a maior das boas intenções e os mais trágicos resultados. []
16 de Setembro de 2010

11 de setembro

Goiabas Roubadas, Política, Sociedade

Um dos modos mais poderosos de se perpetuar e fortalecer uma ideologia é obtendo-se controle sobre o calendário e sobre o modo como as pessoas marcam a passagem do tempo, recordam eventos passados e celebram momentos sagrados. Desse modo, por exemplo, a cristandade tomou posse dos dias santos do paganismo e converteu-os em festivais cristãos (Natal, Páscoa e assim por diante). Então, em nossa própria época, o capitalismo global tomou posse dos dias santos do cristianismo e converteu-os em festivais de consumo e de acumulação de débito (fazendo o mesmo com os dias santos da nação-estado).

Em qualquer dia marcado como santo – ou designado como momento de se recordar um evento passado – vale lembrar que algumas coisas estão sendo lembradas, enquanto outras estão sendo esquecidas. Certas facções da sociedade têm sempre um interesse velado em moldar nossa memória desta forma, e acontece de serem as mesmas facções que têm o poder de impor sua própria versão da história sobre nós.

Pegue hoje, 11 de setembro. 11/9. Que evento momentoso aconteceu no dia de hoje?

A verdade é que mais de um evento momentoso aconteceu neste dia no curso da história. Em 11 de setembro de 1973 o golpe de Pinochet derrubou no Chile o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Durante os anos subsequentes de seu governo, entre 9.000 e 30.000 pessoas foram assassinadas ou “desapareceram”, dezenas de milhares mais foram torturadas ou aprisionadas, e centenas de milhares experimentaram “situações de trauma extremo”.

Levando-se em conta a maciça perda emocional colocada em andamento pelos eventos de 11 de setembro de 1973, poderia ter ocorrido a alguém marcar cada 11 de setembro com alguma espécie de memorial. Isso, no entanto, não aconteceu, e tampouco a data será lembrada dessa forma. Por quê? Porque o golpe de Pinochet contou com o apoio da CIA, seu domínio foi sustentado pelo governo americano, seus torturadores foram treinados por oficiais americanos e sua economia implacável (que triturou o povo de seu país de modo a vender seus recursos a corporações externas) foi dirigida por economistas americanos (Milton Friedman comunicava-se pessoalmente com Pinochet, encorajando-o a manter-se fiel ao capitalismo de livre-mercado sem deixar-se distrair pelos sofrimentos do povo chileno).

Por essa razão, aqueles com o poder e os recursos para conduzir as narrativas públicas e as versões da história a que somos submetidos – aqueles que criam os dias especiais que marcam nossos calendários – tomaram providências para que o 11 de setembro permaneça um dia em que esse evento é apagado da história. Ao invés de ser um dia de se lembrar, é um dia de se esquecer. Esqueçamos Allende. Esqueçamos Pinochet. Esqueçamos a destruição da democracia na América Latina. Esqueçamos os modos injetores-de-morte com os quais os Estados Unidos e o resto do Ocidente têm tratado o resto do mundo. Deus sabe que a lembrança dessas coisas poderia inspirar alguns sujeitos a bater com aviões em prédios (embora, pode ser necessário notar, estou convicto de que estariam agindo errado se o fizessem).

Há nove anos, no entanto, alguns caras de fato pilotaram aviões de modo a que colidissem com prédios, e é isso que somos ordenados a lembrar no dia de hoje. É uma opção sem dúvida superior, porque nela nasce a América como vítima inocente – uma vítima que, renascendo das cinzas, permanece ainda disposta a oferecer-se em sacrifício de modo a levar gratuitamente a liberdade e a sabedoria (McDonald’s e Coca-Cola) ao resto do mundo. América, o herói longânimo. América, nosso próprio Cavaleiro das Trevas.

O interessante é que o ano em que tudo isso aconteceu é normalmente removido do vocabulário. As pessoas se referem ao “11 de setembro” ou a “11/9″; não se fala em “11 de setembro de 2001″ ou “11/09/2001″. Desse modo os eventos daquele dia adquirem uma espécie de atemporalidade e adentram um processo de recorrência eterna. A remoção do ano traz o episódio para perto de nós e faz com que pareça que tudo aconteceu um minuto atrás. Isso não apenas acentua a manipulação emocional produzida por espetáculos memoriais, mas também nos ajuda, de modo muito conveniente, a esquecer tudo que aconteceu desde então. Deste modo, lembramos os americanos que sofreram e morreram injustamente. Lembramos o heroísmo dos bombeiros de Nova Iorque.

O que não lembramos são os 100.000 civis que morreram mortes violentas no Iraque desde a invasão americana. Também não lembramos os civis (entre 14.000 e 35.000) que morreram até agora no Afeganistão (isso sem falar no incalculável número daqueles deixados feridos, incapacitados, sem filhos, órfãos ou traumatizados nesses dois países). O que não lembramos é o número incontável de inocentes raptados e torturados por soldados americanos desde 11/9 – em Abu Ghraib e Guatanamo, de Bush, e na prisão “super-Guatamano” de Obama na base da Força Aérea em Bagram.

O que não lembramos é que o governo americano investiu 1.078.552.000.000 de dólares (e contando) nessas guerras. É dinheiro dos contribuintes, mas não lembramos o quanto essas guerras estão contribuindo para a crise econômica nos Estados Unidos, aos cortes orçamentários relacionados a casas populares, escolas públicas, rodovias, iluminação pública e serviços sociais. O que não lembramos é que Bush mentiu ao começar essas guerras e que a administração de Obama mentiu quanto a dar um fim a elas.

Portanto, hoje seremos lembrados a “nunca esquecer” os eventos que ocorreram nove anos atrás. Porém o mandato de lembrarmos determinados eventos de determinadas formas, com a exclusão de todo o restante, é na verdade um modo muito poderoso de se produzir o esquecimento em massa.

Daniel Oudshoorn
Poser or Prophet