03 de Fevereiro de 2012

Sexualidade e inocência

Manuscritos

Os paralelos entre a história de Gilgamesh e a de Adão e Eva fornecem respaldo à noção de que a intenção original da história bíblica era precisamente a mesma da história de Gilgamesh – enxergar a “queda” como infeliz, no sentido de que a inocência foi perdida, e como feliz, pelo menos no que diz respeito à ideia de que a humanidade ganha através dela o conhecimento do bem e do mal, que é divino.
 
Alan F. Segal
Life After Death – A History of the Afterlife in Western Religion

 

Há sempre um modo novo de se ler a mesma história. A história de Adão e Eva, contada por duas mil gerações e esmagada debaixo da mais exigente das ortodoxias, permanece exemplo dessa imorredoura fertilidade de significado que têm as narrativas.

Com o passar do tempo, no entanto, toda grande narrativa acaba se tornando máscara para nossas próprias prioridades, espelho para novas e sofisticadas preocupações. “O que nos ensina esta história?” é pergunta que cada época encontra um modo diferente de responder. Que a resposta seja muitas vezes independente do próprio texto é coisa ao mesmo tempo formidável e inevitável; Na Bíblia o sexo pertence à esfera da inocência, não à da transgressão.porém essa riqueza acumulada acaba despindo a história de sua singeleza original, sua vitalidade, sua inocência.

Em alguns casos é especialmente deplorável que seja assim; há, por exemplo, indícios de que o propósito original da narrativa de Adão e Eva tenha sido justamente ilustrar os perigos e as contradições da perda da inocência – e o paradoxo (porque em tudo há um paradoxo) reside em que esse coração mais inocente da história acabou se perdendo.

Adão e Eva são no começo da história singelos como crianças ou animais, e como crianças ou animais ignoram a sombra da culpa e a da própria nudez. Não têm recalques, não conhecem limites, não têm verdadeira noção do que é certo ou errado, e a história convida a refletirmos que em tudo isso se assemelham mais a crianças ou animais do que a Deus. O primeiro casal vive num playground inconsequente e idílico; Deus é o personagem maduro e consciente, que sabe que tudo tem consequências e quer manter as mais duras consequências sob controle.

Mas na narrativa, como na vida, todo mundo tem de crescer – ou, pelo menos, todos que querem crescer devem acabar conhecendo os custos dessa trajetória. A iniciativa de provarem o fruto proibido ocasiona a perda da inocência, o que fica emblemado no fato de que a árvore de que tomam o fruto é a do conhecimento do bem e do mal. Não é inconcebível que tenham feito antes coisas proibidas ou irresponsáveis, mas será somente esta fatídica transgressão aquela capaz de abrir-lhes os olhos. Perdem a inocência, e no processo ganham uma qualidade divina, que é sabedoria, e perdem uma qualidade divina, que é a imortalidade.

Nesse sentido a história de Adão e Eva tem muito em comum com os mitos fundacionais da perda da inocência de outras culturas, como os da Mesopotâmia e de Canaã, com que trazem muitos pontos em comum. O que a narrativa bíblica tem em particular é a posição do sexo e da sexualidade na história, e portanto na sua visão de mundo.

Na maior parte dos mitos fundacionais de outras culturas o sexo (bem como a violência) tem como função na narrativa causar uma rachadura no tecido das coisas, uma ruptura que acaba gerando uma cadeia de consequências e vai explicando algumas das características deste mundo.

No épico de Gilgamesh, por exemplo, Enkidu é um rapaz puro e inocente, que vive na natureza e conversa com os animais, até que Gilgamesh manda a ele uma prostituta para ensiná-lo nas artes do sexo – isto é, nos caminhos da maturidade e da civilização. Na história é esse encontro com a sexualidade que representa a perda da inocência e a ruptura do tecido das coisas para o protagonista. Uma vez apresentado ao sexo, Enkidu perde a capacidade de falar com os animais, porém a perda da inocência tem a sua compensação na aquisição da sabedoria (digamos, o conhecimento do bem e do mal): “você [agora] é sábio, Enkidu, você tornou-se como um deus”.

É portanto revelador que o sexo, que serve como símbolo de ruptura e como catalisador de conflito em inúmeras tradições formativas de outras culturas, tenha na Bíblia um lugar narrativo e simbólico muito diverso. No Gênesis o sexo pertence à esfera da inocência, não à da transgressão. O homem e a mulher estavam nus e não se envergonhavam.

Ao contrário do que costumam sugerir as interpretações mais populares, a narrativa se esforça para indicar que o sexo foi ao mesmo tempo legitimado por Deus e praticado pelo primeiro casal no âmbito da inocência (Gênesis 1:28 e 2:24), antes do momento da transgressão e da ruptura. O fruto proibido não foi o sexo, que nesta história não tem poder de ruptura, mas representou a apropriação infeliz ou inevitável de uma consciência que deixou a inocência para trás – ao mesmo tempo em que deu ao homem um vislumbre de como Deus pensa, age e se sente: um lampejo da sua sabedoria (“agora o homem é como nós, conhecendo o bem e o mal”).

E se a história bíblica se recusa a atribuir ao sexo um potencial de rompimento, é porque na sua visão de mundo a sexualidade deve ser algo ao mesmo tempo mais natural, menos preponderante e menos decisivo do que é para outras tradições. Quando comem o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão e Eva reconhecem imediatamente que estão nus; essa percepção por certo representa, ao menos em parte, um reconhecimento súbito e irreversível da sua própria sexualidade. Mas na história essa consciência serve apenas para contrastar com a era anterior, da inocência e da imaturidade, em que o sexo era exercido de modo natural e inocente, sem um verdadeiro vislumbre de que podia representar um constrangimento ou uma responsabilidade. Alan F. Segal: “Nas duas histórias [no épico de Gilgamesh e na história de Adão e Eva] vemos operando uma psicologia do desenvolvimento: a infância é idílica, mas a maturidade traz sabedoria.”

O problema de enxergarmos o consumo do fruto proibido como representando a descoberta do sexo (e a queda como sendo ocasionada por ela) é que essa interpretação simplesmente não faz justiça à singularidade da narrativa bíblica e à visão de mundo que ela nos convida a ponderar. Agostinho, que ansiava com todas as fibras do corpo e da alma que tivesse sido diferente, teve de reconhecer ele mesmo que Adão e Eva fizeram amor antes do terceiro capítulo de Gênesis; porém ele associou indelevelmente a queda ao exercício da sexualidade quando decidiu que só o sexo depois da queda, isto é, só sexo manchado pelo pecado, é que teria sido caracterizado também pelo prazer (o que deixa muito claro que Agostinho tinha problemas sexuais, que talvez fossem tão sérios e entranhados quanto os nossos).

Entre outras coisas, a visão de mundo bíblica é singular porque recusa-se a associar, como fazem praticamente todas as mitologias do mundo (inclusive a freudiana), sexo e morte. Sexo, violência, morte, fertilidade e criatividade são símbolos intercambiáveis em praticamente todas as tradições não-bíblicas. Para a Bíblia, o verdadeiro dilema humano não reside em domar ou reconciliar-se com a sexualidade, mas em domar e reconciliar-se com a sabedoria e com a mortalidade. É claro que o exercício do sexo mostra-se parte fundamental do problema de como agir com sabedoria, mas não consiste no problema e não o ocasionou.

O paraíso, assim ousa sonhar a Bíblia, seria um mundo não em que o sexo tivesse sido extirpado ou estivesse sob controle, mas um mundo em que a sexualidade pertencesse ao domínio de tudo que é natural e do que não representa constrangimento para ninguém. Naturalmente, e isso indica a mesma Bíblia, este mundo está para sempre perdido para gente adulta, porque crescer é fundamentalmente entender que tudo é bonito demais para não ter todo o tipo de consequências.

A tragédia de Adão e Eva ilustra que diante das contradições geradas pela mortalidade, pela consciência e pelo senso de responsabilidade, são poucos os aspectos da existência idílica e ideal do paraíso que se podem recuperar, mesmo que em parte, na experiência humana. Isso não muda o fato de que a Bíblia sonha, essencialmente, com um mundo em que o sexo não seja um problema insolúvel; pode parece ser um sonho imaturo, mas nós que não somos Bíblia não cessamos de sonhar a mesma coisa.

23 de Dezembro de 2011

A salvaguarda do sexo

Manuscritos

Quanto mais eu rezo, mais gente me escreve pra falar a respeito das suas questões e inadequações sexuais. Diz muito sobre este mundo (e sobre o mundo evangélico) que tanta gente só encontre brecha para falar sobre esse assunto com um cara que nunca viu pessoalmente, um nome na internet, um ilustre desconhecido, um não-rosto diante do qual encontraram a graça de sentir-se à vontade para falar.

Essa galera não tem como não sacar que não tenho como ser terapeuta de ninguém, e quem conhece a minha inclinação sabe que não tenho a mínima vontade de ser. Mas ainda assim me escreve contando as suas barbaridades, talvez na esperança de que eu fique devidamente chocado, ou intuindo que sou liberal o bastante para não condenar o seu desvio da norma.

Fico de fato sem saber se esperam que eu diga “abandone essa vida de pecado ou prepara-se para arder no inferno” ou “não se alugue que isso não é pecado não”. E fico de cara ao pensar que alguém pode de fato achar que eu (ou qualquer um) teria cacife para dizer a quem quer que seja uma coisa ou outra.

Naturalmente, e como vivo dizendo, é esperado que as neuras que venham à tona sejam de natureza sexual, porque o sexo é a última fachada moral da subcultura evangélica, que em todas as outras frentes abraçou a mais completa permissividade. Ninguém (nenhum evangélico, pelo menos) me escreve para dizer que está em crise porque está cobiçando um iPad, porque está servindo o exército, porque presta serviço para agências de propaganda, porque dói-se da desigualdade da distribuição de renda no Brasil, porque sente que não está contribuindo para um futuro sustentável, porque quer cometer uma empresa e enriquecer, porque queria ganhar mais de modo a poder contribuir com causas honrosas, porque estamos queimando o planeta e obliterando culturas, porque não dorme à noite de repulsa ao capitalismo, porque tem gente dormindo na rua, porque só tem uma vida para oferecer em trabalho voluntário, porque a igreja tira dinheiro dos pobres e dá aos ricos, porque o governo tira dinheiro dos pobres e dá aos ricos, porque o sistema tira dinheiro dos pobres e dá aos ricos. Não: o sexo é o único motor da culpa. O sexo que nos ocupa a mente é o sexo que não estamos fazendo. Não é à toa que as igrejas enfatizam esse ponto, pois do contrário perderiam o pouco lastro de influência que lhes resta no mundo e no rebanho.

Imagino que a maioria busque em mim a graça que todos podem encontrar nos terapeutas (e que idealmente seria de encontrar em todos os seguidores de Jesus), a dádiva simples e curativa de ser ouvido sem ser condenado ou julgado. Talvez, no fundo, sabem que nem desejam a orientação que estão pedindo.

E, de minha parte, gostaria de poder oferecer a todos uma solução simples e abrangente, tipo relaxe e goze ou quem ama espera, mas nem isso posso fazer. Não rola porque propor tanto uma coisa quanto a outra é colocar um peso sobre as costas de quem está ouvindo, e não tenho essa vocação. Dizer “quem ama espera” é esmagar o sujeito debaixo da norma, aquela do sexo-só-dentro-do-casamento-monogâmico-heterossexual, e toda norma ignora as nuanças: neste caso, as nuanças mais importantes da vida e da experiência, das inclinações e dos arrebatamentos, das travas e dos enlevos, da Bíblia e da história. Dizer “relaxe que isso não é pecado” pode fazer ainda mais mal, porque é atravessar e às vezes interromper um caminho que, se for necessário e possível, cada um tem de fazer por si mesmo. Para quem se importa com esse tipo de coisa, ouvir de outra pessoa que uma coisa não é pecado pode tanto produzir uma falsa culpa quanto solidificar a dúvida, em vez de gerar a libertação que se esperava.

Acima de tudo, essas duas soluções se atem ao aspecto exterior da coisa, a mera execução da ópera, e a tensão sexual é parte inseparável de nós mesmo quando estamos achando que a norma nos protege.

Primeiro porque o sexo que nos ocupa a mente é sempre o sexo que não estamos fazendo: o sexo que desejamos, o sexo que gostaríamos de estar fazendo, o sexo de que abrimos mão, o sexo que vamos fazer na internet, o sexo que vamos fazer quando casar, o sexo que vamos fazer neste verão, o sexo que achamos errado mas que nos atrai do mesmo jeito. Neste sentido, a obsessão com a castidade é uma perversão como qualquer outra, e talvez a pior, porque nos constrange a definir a identidade pela medida do sexo, e pelo sexo que não estamos fazendo – e a vida é ao mesmo tempo muito mais e muito menos do que sexo. Ninguém deveria ter de viver indefinidamente com menos do que sexo, mas também ninguém deveria se sentir constrangido a definir-se ou a ver-se rotulado por ele.

Não foi sem fundamento que Freud conseguiu traçar nossa epopeia interior pela matriz do sexo. Entre outras coisas, o sexo é o emblema mais fulgurante do grande desafio da condição humana, a eterna possibilidade de estabelecermos verdadeiro contato com outro ser humano. Vivemos sozinhos, todos nós, todos prisioneiros de nós mesmos, sonhando sempre e temendo sempre a ocasião de uma conexão – a vertigem de encontrarmos uma saída de nós mesmos e tocarmos por um momento que seja uma outra pessoa, sem por um lado esmagar essa pessoa e sem por outro nos perdermos para sempre nela.

A questão com o sexo é que ele ao mesmo tempo possibilita essa conexão e nos protege dela. Toda conduta sexual é uma fuga em potencial: a castidade, a homossexualidade, a masturbação, o papai-mamãe, a promiscuidade, a fidelidade, a infidelidade e todos os matizes intermediários. Somos sofisticados o bastante para procurar no sexo (ou na ausência dele) um modo de evadirmos à possibilidade de um contato com outra pessoa e portanto com o espelho. Em particular, nossa conduta sexual pode nos fornecer uma falsa culpa protetora – putz, estou sendo infiel à minha esposa com essa dona da internet, que traste que eu sou, – quando a culpa verdadeira é muito outra, e nos custaria muito mais encará-la de frente.

Idealmente o sexo, mesmo o mais casual, deveria poder ser exercido como celebração do contato entre seres humanos. Muitas vezes, mesmo entre gente casada, o sexo (ou sua ausência) só serve para marcar a distância.

É por esse motivo, por ser o emblema por excelência dos sagrados desafios e promessas do contato interpessoal, que o sexo pode representar coisa tão melindrosa em tantas esferas, e tanta coisa diferente para tantas pessoas. Todo contato interpessoal existe nesta tensão entre [1] manter-se confortavelmente distante e [2] aproximar-se ao ponto de sufocar e esmagar. A distância é sempre entre negar-se por completo e negar por completo a dignidade do outro, entre viver sozinho e colecionar conquistas sem qualquer chão. Os dois extremos são muito confortáveis e são ambos emblemas de poder: o papa e Don Juan extraem sua força da mesma obsessão sexual.

Aqui reside o fascínio de um cara como Jesus de Nazaré, que pelo que sabemos nunca transou mas que intuímos claramente que não vivia como nós debaixo da sombra do sexo que não estava fazendo. Nunca viveu sozinho mas nunca esmagou ninguém. Wilhelm Reich chegou a ponderar – e entendo bem de onde ele tirou essa ideia – que Jesus pode ter sido a pessoa “mais fálica” que jamais existiu: um cara que penetrava a realidade e encarava os relacionamentos de um modo muito positivo, natural, sem neuras, sem julgamentos, sem rancores, sem recalques, sem culpas. Jesus parece ter sido o cara resolvido por natureza, não porque deixava possivelmente de exercer o sexo ou porque quem sabe o exercesse em segredo, mas porque tudo que fazia no curso da vida era estabelecer conexões muito reais com gente, aquilo que vivemos sonhando que o sexo faça por nós, ou de que nos mantenha a salvo.

Leia também: Na cama com a Bíblia

17 de Dezembro de 2011

Sobre manipular antônimos

Manuscritos, Política

As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. Tem prazer em controlar, em impor sua vontade. Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro está resplandecendo ao seu redor, e o amor está sorrindo através de todas as coisas.

A narração inicial de Árvore da vida, de Terrence Malick

 

É sabido que critérios de classificação são coisa sempre arbitrária e artificial, pouco importando o que está sendo classificado, e que portanto as classificações prestam-se com facilidade a servir de ferramentas ideológicas de manipulação. Colocar rótulos sobre as coisas é simplificá-las, e simplificá-las é em si mesmo evitar uma discussão mais profunda (e possivelmente incômoda) sobre a natureza das coisas, do estado das coisas e do que é desejável e legítimo.

Mas não é só classificando, definindo e rotulando que se manipulam ideias e portanto pessoas; outro modo de sustentar uma ideologia é controlando-se os polos, manipulando-se artificialmente os antônimos de conceitos que são fundamentais para a manutenção do estado de coisas. “Qual é o contrário de [determinada coisa]” é uma pergunta que tem quase sempre uma resposta política.

Qual é o contrário de governo? Qual é o oposto de religião? Qual é o contrário de democracia1? As respostas ao mesmo tempo muito vagas e muito definidas que tendemos a imaginar para perguntas dessa natureza testemunham por si só o status de vaca sagrada de cada um desses conceitos, e explicam também porque é tão raro que nos façamos esse tipo de pergunta. “Qual é o contrário disso?” pode também significar “existirá uma alternativa a isso?”, e uma resposta não-determinada para questões desse tipo pode representar um risco muito real para o sistema.

Sendo assim, determinar-se em regime artificial o antônimo de um conceito pode equivaler a garantir que jamais se encontrará uma alternativa ideológica legítima para ele. É certificar-se que a reflexão não ameace o estado de coisas. Dizer-se, por exemplo, “o contrário de capitalismo é socialismo” é assegurar que grande parte da sociedade entenda que os horrores atribuídos ao segundo garantem que não há verdadeira alternativa para o primeiro.

Se digo tudo isso é só para declarar o óbvio, que o oposto de capitalismo não é socialismo. O oposto de capitalismo é vida, gentileza, liberdade e convivência – aquilo que em outro tempo se convencionava chamar de cristianismo.

Leia também:
O lado esquerdo de Hitler
Sobre dar nome a primatas
Sobre o costume de agrupar livros

NOTAS
  1. Ou, ainda, qual é o contrário de heterossexual? O termo oposto preferencial tem sido “homoafetivo”, que alia à baixeza do politicamente correto as vergonhas da simplificação e da incorreção. Porque os heterossexuais, em especial os homens, são em geral grandes homoafetivos – no sentido de que sentem-se mais à vontade para demonstrar verdadeiro afeto a outros homens do que a mulheres, e (sem contar os confortos ou as esperanças da cama) tendem a procurar mais a companhia de outros homens do que a de mulheres. []
30 de Setembro de 2011

Eva arrependida e de luto

Divino preconceito, Homens e Mulheres

Se houvesse sobre a terra uma fé tão grande quanto é a recompensa de fé aguardada no céu, nenhuma de vocês, amadas irmãs, desde o momento em que conheceram o Senhor e aprenderam [a verdade] sobre sua própria condição [isto é, a condição feminina], teria desejo por um estilo de vestimenta vistoso demais (para não dizer vaidoso demais).

Usariam, ao contrário, vestes humildes, de modo a transmitir uma aparência miserável, andando pelo mundo como Eva arrependida e de luto, a fim de através de toda veste de penitência expiar de modo mais completo aquilo que [cada uma de vocês] deriva de Eva:Você persuadiu aquele que o diabo não foi corajoso o bastante para atacar. a vergonha, quero dizer, do primeiro pecado, e a infâmia da perdição humana.

“Multiplicarei grandemente a dor da tua concepção e em dor darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.”

E vocês não sabem que são, cada uma de vocês, uma Eva? A sentença de Deus sobre o sexo de vocês persiste nesta era; necessariamente, a culpa persiste também.

Você, mulher, é o portão de entrada do inferno; é a descerradora da árvore [proibida]; é a primeira desertora da lei divina. Você persuadiu aquele que o diabo não foi corajoso o bastante para atacar. Você destruiu, e de modo tão frívolo, a imagem de Deus, que é o homem. Como consequência da sua deserção – isto é, a morte, – até mesmo o Filho de Deus teve de morrer.

E você pensa ainda em adornar-se acima e além de sua túnica de pele? Ora, imagino que se no princípio do mundo os milesianos já criassem ovelhas, os serianos já fiassem árvores, os tirianos já tingissem, os frígios já bordassem com a agulha e os babilônios com o tear; se pérolas já cintilassem, se pedras de ônix já reluzissem e se o ouro já tivesse brotado do solo; se o espelho já tivesse se tornado coisa tão comum, então Eva, mesmo depois de expulsa do paraíso, mesmo depois de morta, teria também cobiçado todas essas coisas.

Não mais, portanto, a mulher deve agora desejar ou conhecer, se é que deseja voltar a viver, aquilo que quando viva não possuía nem conhecia. Todas essas coisas são a bagagem da mulher em seu estado de condenação e morte, instituídas como que para acentuar a pompa de seu funeral.

Tertuliano (160-220 d.C.), pai da igreja,
em Sobre a indumentária feminina

Leia também:
Appoio moral (Tertuliano estava vivo e com saúde em 1926 – e em Pernambuco)
Sexo entre pares

28 de Setembro de 2011

Na cama com a Bíblia

Manuscritos

Os últimos quarenta anos testemunharam sensíveis impulsos de acomodação cultural por parte da igreja evangélica. Porém, na batalha contra a plena identificação com o mundo, a sexualidade é a última grande trincheira atrás da qual a igreja procura defender a sua identidade. Entendemos (e somos ensinados a entender) que um cristão pode ceder com relação a tudo que o Novo Testamento ensina – pode, por exemplo, encontrar lugar para abençoar a guerra ou a acumulação de bens, – mas não deve haver espaço para que se contornem as demarcações tradicionais do exercício da sexualidade.

Os fundamentalistas norte-americanos, dos quais herdamos essa postura geral, estão prontos para glorificar a rejeição e o ódio na celebração da guerra, mas não estão prontos para celebrar a mutualidade e o amor numa união homossexual. Estão prontos para condenar o sexo extra-marital consensual, mas celebram apaixonados a desigualdade na pedra de moer do neoliberalismo.

A ganância, a competitividade, a combatividade e os orgulhos nacionais – todos esses vícios apaixonadamente condenados pelo Novo Testamento, – foram adotados como virtudes unânimes pela cultura ocidental. A igreja não tem nada a dizer contra essas sacrílegas apropriações, tendo sido em grande parte responsável por elas, mas absolutamente não se cansa de doutrinar o mundo com a ideia de que a verdadeira moralidade diz respeito à coordenação dos intercâmbios genitais.

Por que a tradição acabou arrastando a Bíblia para a cama, e reduzindo o legado cristão a uma mensagem de pessimismo e repressão sexual? De que modo a moralidade cristã viu-se esgotada em uma única permissão sexual e em todo um rosário de proibições correspondentes? Por que os cristãos decidiram construir a sua identidade ao redor do sexo?

É no mínimo curioso que tenha sido a assim, porque a Bíblia não é, em peso ou em vocação, um livro sobre sexo. Não é sequer um livro sobre pureza. Não é, em particular, uma obra legislativa. O mundo esboçado pela sua mensagem não é um mundo em que todos coordenem esforços no sentido de policiar, conter e condenar a falta de pureza do próximo. Ao contrário: sua grande e desconcertante proclamação é o perdão universal dos pecados, não o regime universal da fiscalização das transgressões.

O próprio Antigo Testamento – o próprio Pentateuco – é muito mais complexo e nuançado do que um mero tratado de legislação. Sua porção regulamentar é explicitamente redimida e relativizada pela sua porção narrativa: no fluir da história, a misericórdia triunfa sobre o juízo.

Porém é no Novo Testamento, e em particular no Jesus dos evangelhos, que a Bíblia desconstrói e abre mão de qualquer postura regulatória. O rabi de Nazaré recusava-se a deitar regras ou mandamentos, a não ser aqueles que minavam os subterfúgios e instruíam as certezas geradas por alguma legislação anterior: “vocês ouviram o que foi dito; eu porém vos digo…” Consistentemente, suas injunções representam um chamado à inclusão e à misericórdia, e representam assim uma nítida sabotagem contra o regime vigente das regras de pureza – aquelas regras que, em vez de inclusão e misericórdia e vida, geram exclusão e castigo e morte.

A únicas normas de conduta endossadas inequivocamente por Jesus são em tudo abrangentes e em nada normatizadas: ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Cabia a cada ouvinte, e não ao legislador, determinar as implicações na vida real de preceito tão vago e inescapável, tão amplo e tão exigente.

Em resumo, Jesus propunha uma solução não legislativa, isto é, não condicionada, para os dilemas da conduta interpessoal. O amor e a mutualidade, ele ensinava, devem ser os únicos árbitros legítimos de toda conduta; diante da primazia desses dois princípios, a própria lei devia ser relativizada. Não ignorando que a mais bem intencionada das normas pode ser distorcida em ferramenta de opressão e injustiça, Jesus deixou como legado muitos relacionamentos, um punhado de histórias e regra nenhuma.

Mas o túmulo vazio mal havia esfriado e tudo isso já estava mudando. Como vimos, meros cento e cinquenta anos depois de Jesus o pessimismo sexual estava tão enraizado na tradição cristã que muitos cristãos não encontravam problema em aceitar que a promulgação do celibato universal era parte central da mensagem apostólica. Os cristãos não apenas estavam legislando sobre o sexo, estavam legislando sexo nenhum.

Muito já foi escrito na tentativa de determinar o que originou o caráter distintivamente pessimista da sexualidade cristã nos primeiros séculos. O mistério só aumenta quando se considera que não havia uma ênfase semelhante na tradição judaica, e que muito pouco do pessimismo sexual cristão parece ter se derivado diretamente do Novo Testamento.

Os que pesam o assunto creem que essa nova ênfase pode ser creditada em grande parte à influência das ideologias estoica e gnóstica sobre o pensamento cristão ao longo dos quatro primeiros séculos. Os filósofos estoicos viam a abstinência no casamento como virtude, e os gnósticos enxergavam o corpo e a realidade física como inerentemente impuros: tudo que diz respeito ao corpo era visto como maligno, e tudo que diz respeito ao espírito como de valor. Sob a tutela desses conceitos, a demonização do sexo pode ter sido resultado de uma ênfase destemperada na contraposição (já presente no Novo Testamento) entre carne e espírito.

Outro fator que pode ter pesado na guinada sexual (ou assexual) da postura cristã primitiva é que, tendo abandonado logo de início os rituais e regras alimentares que caracterizavam a experiência cotidiana do judaísmo, só restava aos cristãos a sua postura radical com relação ao sexo como base sobre a qual construir a sua identidade. Assim, na falta de outro símbolo visível (já que haviam aberto mão até mesmo a circuncisão), os cristãos podem ter aprendido muito cedo a usar o sexo – na realidade, a extrema domesticação do sexo – como grande distintivo da sua postura e da sua condição.

Além disso, alguns estudiosos têm observado que pode ter havido um elemento subversivo na ênfase cristã no celibato e na abstinência. Numa sociedade centralizada nas políticas do casamento, nos ritmos domesticados da família e em seus papéis e rumos predeterminados, uma asserção de celibato podia representar (especialmente para as mulheres, ainda mais para as solteiras) um protesto de rebeldia contra o sistema, uma declaração pública de independência e de autodeterminação.

Porém nada disso basta para explicar o que levou os cristãos a assumirem em primeiro lugar uma postura legislatória – com relação ao sexo primeiro, mas com relação a todo o resto – quando os evangelhos e o livro de Atos evitam-na com minúcia e deliberação. Na verdade, parte fundamental da originalidade e do poder persuasivo da notícia evangélica, como delineada por Jesus, consistia na sua recusa em reduzir as perspectivas e responsabilidades do reino a normas que pudessem ser tabuladas, memorizadas e seguidas.

Porém a brecha que não acharam nos evangelhos, os primeiros articuladores da instituição cristã encontraram nas cartas de Paulo. Porque Paulo (ou pelo menos uma porção do conteúdo que chegou até nós como de Paulo) caiu na tentação que Jesus resistiu até o final, e dispôs-se algumas vezes a normatizar o que a mensagem evangélica havia deixado sensatamente em aberto.

A contradição está em que Paulo pode ter sido o primeiro a diagnosticar e articular Jesus como o grande não-condicionado e a entender a mensagem de Jesus como um convite à construção de um mundo não-condicionado. Porém ele mesmo, Paulo, sendo um grande cara mas menos esperto que Jesus, acabou deixando para trás algumas legislações – resvalando desse modo no terreno do condicionamento e do controle.

O que Paulo não tinha como prever é que as poucas regras que deixou (e ele mesmo não deixa sempre claro se está proferindo o que crê ser uma norma universal ou o que sabe ser uma recomendação pessoal) acabariam recebendo maior atenção e gerando mais desdobramentos na vida real do que seu discurso central contra o legalismo e contra os sistemas de dominação, de alienação e de controle deste mundo.

O paradoxo, então, é que Paulo é lembrado como sistematizador de teologias e usado como precedente para um cristianismo legislativo e institucional, quando ele na verdade enxergava como parte essencial do seu chamado demolir por completo essas noções.1:

Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo. Já que morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: “Não manuseie!”, “Não prove!”, “Não toque!”? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne.

Mas agora fomos libertos da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos, para servirmos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.

O qual também nos capacitou para sermos ministros de um novo pacto, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito confere vida.

Para a liberdade Cristo nos libertou; permaneçam firmes e não se dobrem novamente a um jogo de escravidão. Pois toda a lei se cumpre numa só palavra, a saber: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.

 

A letra contra o espírito

Em retrospecto, não é de estranhar que a tradição cristã tenha se apegado à porção menos subversiva e menos controversa da mensagem de Paulo. A insistência dele em sugerir que lutar contra a letra (na forma de leis e regulamentos) equivale a lutar contra a própria carne deve ter parecido exigente demais.

É mais conveniente para a perpetuação do sistema que Paulo seja lembrado como legislador e como conservador, não como proponente da igualdade no âmbito coletivo e da autodeterminação no âmbito pessoal. É mais conveniente para o estado de coisas que Paulo seja lembrado como defensor da ordem e não como campeão da liberdade, que seja celebrado como bombeiro que nunca foi e não como o incendiário que era. Em particular, devemos distorcer sua mensagem até que ela pareça ser uma conclamação à perpetuação da letra, não um desafio perpétuo a deixarmos a letra para trás.

Isso porque, como tudo que os cristãos de legado protestante tomam por fundamental, a presente controvérsia sobre o exercício da sexualidade é essencialmente uma guerra de interpretação de textos. O modo como cada um de nós pesa o Novo Testamento é que decide se cremos que Jesus abençoaria um casal de homossexuais ou os abandonaria ao fogo eterno e o ranger de dentes. A própria posição conservadora reconhece esse ponto2:

O único obstáculo para que uma igreja que se diz cristã aceite o homossexualismo como uma prática normal é o conceito de que a Bíblia é a Palavra de Deus, inerrante e infalível, única regra de fé e prática para o povo de Deus.

Naturalmente, há mais de um modo de se aceitar que o texto bíblico é inerrante. Alguns de nós entendem que a Bíblia é especialmente inerrante quando ensina (e não só pela voz de Jesus, mas com muita ênfase pelo próprio Paulo) que sua verdade e sua mensagem não se esgotam no seu sentido literal e nem teriam como ser contidas por ele. Que a Bíblia é infalível quando declara sem rodeios que a realidade da boa nova reside no sopro de um espírito de novidade e de renovação, desafio que “a velhice da letra” (isto é, a perene caducidade de textos, palavras, regras e regulamentos, por mais bem intencionados e bem elaborados que sejam) não tem como comportar. Que Paulo deve ser entendido literalmente quando alerta que a letra mata mas o espírito confere vida.

Os fundamentalistas insistem que a Bíblia é inerrante nas legislações que contém; alguns de nós entendem que ela é inerrante quando informa que a boa nova não é que a verdade se fez Bíblia, mas que o Verbo se fez carne.

Porque, se o centro da boa nova é a notícia de que a Verdade tornou-se gente, nenhuma verdade expressa na forma de textos e conceitos tem depois disso cacife para se declarar normativa, perpétua ou suficiente. À luz da Encarnação, toda legislação deve estar pronta para ser relativizada – e que as coisas são assim fica comprovado em que, em seus dias na terra, Jesus fez muito pouco além de viver mostrando de quantas maneiras a lei é subalterna em relação ao homem.

A lei escrita pode se dar ao luxo de ser fora do tempo, mas uma pessoa se sujeita por necessidade às sempre cambiantes exigências dos relacionamentos, dos novos desenvolvimentos, das impensáveis reviravoltas. A lei é por definição condicionada; o desafio de Jesus, por vocação e por herança, é não-condicionado.

Não é acertado, portanto, dizer que ao aprovar ministros homossexuais a igreja presbiteriana norte-americana e a igreja da Escócia estão simplesmente deixando a Bíblia de lado e dobrando-se à pressão da cultura secular. Sua decisão está na realidade fundamentada numa ênfase presente na própria Bíblia, a da primazia do espírito sobre a letra. Ao proferirem a sua benção sobre uma família homossexual essas igrejas não ignoram estar relativizando a letra da Bíblia, mas creem estar honrando o quanto podem o seu espírito de aceitação, de pacificação e de amor. Creem que abençoar uma união homossexual estável e igualitária é honrar a mensagem central da Bíblia e de Jesus – seu espírito além e acima da rigidez letal da letra, – e que macular essa herança seria precisamente agir de qualquer outra forma.

Trata-se menos de discordar sobre se a Bíblia é ou não a Palavra de Deus do que discordar sobre o que essa palavra tem no fim das contas a nos dizer.

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NOTAS
  1. Colossenses 2: 16-17; 20-23. Romanos 7:6. 2 Coríntios 3:6. Gálatas 5:1,14. []
  2. Augustus Nicodemus Lopes, em Por que igrejas presbiterianas pelo mundo estão aceitando pastores homossexuais? []