26 de Março de 2011
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Ilustração que fiz para o podcast em que Allyson Irlesh, Zé Márcio e Rondinelly Gomes Medeiros, do seu quartel-general no sertão da Paraíba, reviram o túmulo vazio da série Lost sob a luz inclemente de Nietsche, Freud, René Girard, Jesus, Borges, a religião egípcia, teoria literária, o eterno retorno, a espiritualidade hindu, a blogosfera brasileira e o sertão. Duas horas dessa conversa parecerão muito, mas só para quem não sente na brisa mais inesperada a inequívoca nostalgia da Ilha. Este é provavelmente só para os apreciadores de Lost, mas esses serão talvez mais numerosos entre nós do que nosso silêncio deixa entrever.
Deixo-vos com um aperitivo de três minutos, que saberá impactar os não-iniciados e deverá bastar entre outras coisas para comprovar a vertigem que é ouvir o Rondinelly pensando alto.
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E o link para a coisa toda sem cortes:
Lost is everything, but not all is lost – Podcast em duas partes ancorado no tecno-arretado Jerimum Beta

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01 de Janeiro de 2011
Aí vem você argumentar que é o Estado – o monstro opressor – que dá dinheiro dos contribuintes para os miseráveis gastarem com cachaça e não trabalharem – e eu lhe pergunto três coisas: por que é inadmissível que os pobres não possam ser preferidos pelo governo, pela igreja, pelo Estado, por quem quer que seja, se do ponto de vista do cara mais revolucionário que já houve não há nunca imparcialidade, são as vítimas sempre a serem preferidas? E, além do mais, se o governo está fazendo aquilo que você deveria fazer – dar o dinheiro aos pobres? De onde saiu a regra de que pobres não podem ter seu dinheiro de forma autônoma? A regra de que eles precisam ser porteiros, empregadas domésticas, babás, motoristas, de que eles só valem quando vendem sua força, seu vigor e seu saber prático para o gozo dos poucos de sempre? De onde saiu a regra de que os pobres não podem gastar seu pouco dinheiro da forma que bem entenderem, assim como eu e você gastamos insensatamente o nosso salário?
O princípio mais demoníaco dos últimos dois séculos é o da igualdade de oportunidade. Igualdade de oportunidade é como colocar pra concorrer numa prova de atletismo um rapaz de cadeira de rodas e um atleta. As oportunidades são iguais, as condições, não. Além do mais não gosto da igualdade por si mesma: eu gosto das diferenças! (Veja, eu não disse desigualdade – que é terrível – mas diferenças). E a luta por igualdade é justamente a luta para que os diferentes possam igualmente manifestar sua vida e seu modo de estar, de falar, de cantar, de abraçar, de se vestir, de dançar e de tomar banho. Nesse caso, eu quero um Estado que trate os desiguais como desiguais: a quem tem menos (dinheiro, poder, saber, espaço) seja dado mais e primeiro; quem tem mais, já tem sua recompensa! Eu quero um país das cotas raciais e do ProUni (porque negros e brancos, alunos de escolas niveladas e de escolas modelares, nunca tiveram igualdade de condições e não teriam oportunidades iguais), quero o país da Bolsa-Família (porque pobres e ricos nunca comeram as mesmas coisas e não poderiam gozar do mesmo sabor de gastar o seu dinheiro como bem entendem), quero o país das comunidades quilombolas, das reservas indígenas, dos assentamentos bem-estruturados, da agricultura familiar camponesa (porque esses povos nunca tiveram as mesmas condições dos brancos, ricos, urbanos e agroindustriais).
[...]
Na verdade, eu quero o Não-Estado, o Despoder; eu quero a festa de corpos livres, de desejos ardentes, de danças, de músicas, de comida farta, de uma mesa única com todo mundo junto; mas essa realidade que parece impossível, é o Reino do Deus do impossível, que trabalha por nossas mãos, sua por nossos poros e chora com nossos prantos, e que não acontecerá sem a luta incessante contra aqueles que querem acumular, que criam barreiras de separação, que não gostam da inclusão de mais gente, que não querem a participação dos pobres, dos pretos, dos bêbados, dos analfabetos, das crianças, dos poetas e das mulheres! Por ora, enquanto o Reino não chega, só devemos manifestar a festa da vida em nossa vida, junto de quem está perto de nós, contra a discriminação e a repressão, pela liberdade, pelas diferenças, pela diversidade. Agora, o momento é de não permitir que as forças reacionárias do escuro impeçam a aurora de continuar a clarear o dia. A salvação não virá do governo, mas a continuidade de um governo que permite a liberdade ampla da expressão, que distribui renda, que tira pobres da pobreza e dá voz a quem não tinha é fundamental para destruirmos esse Brasil capenga, dividido e opressivo e tirar de dentro dele o outro Brasil vibrante, colorido, dançante e flamejante, contra o poder e com sabor de vida!
Rondinelly Gomes Medeiros, aplicando curativa Soda Cáustica
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30 de Abril de 2010
Não creio que o que vou dizer esteja convictamente firmado para mim, embora seja coerente o bastante para ser dito. O desenvolvimento da teologia da redenção pela cruz, do sacrifício perfeito, tornou-se um álibi poderoso e eficaz contra a narrativa do evangelho e o seu modus vivendi a todos oferecido – o que o vício não deixa mais ver na expressão “Reino de Deus”. A teoria da morte salvífica de Cristo, isto é, a morte que uma só vítima perfeita deveria sofrer em favor de todos, de um lado propicia um esquecimento sutil das razões históricas que levaram aquele rapaz para a cruz – a saber, a sua forma insensata de viver e promover vida – e de outro, censura veladamente a necessidade ou o perigo da imitação daquela vida. Se a agonia de Cristo é redentora (e o dogmatismo faz isso ser entendido de forma absurdamente transcendental a qualquer significado existencial) e se ele foi destinado para isso, estamos todos livres do sacrifício; e se a morte dele foi provocada pela forma de vida que ele vivia e promovia, estendemos até aí a nossa isenção. Eis a construção de um silogismo falso (e extremamente conveniente): se B (a morte) não nos pertence mais, e B (a morte) é uma extensão inevitável de A (a vida), então A (a vida) também não nos pertence mais. A redenção é consequência de uma forma de estar nesse mundo.Se não preciso imitar ao Cristo sacrificado, não preciso imitar, tampouco, ao Jesus vivo. Girardianamente falando, o bode já foi sacrificado.
O rapaz monstruosamente torturado na cruz, que pouco antes encantava com seus gestos nobres e perturbava com suas palavras precisas, a quem atribuímos uma natureza divina, não permitiu durante todo o seu ensino errático ser alçado sozinho à condição de salvador, convidando, pelo contrário e a todo momento, a segui-lo, a imitá-lo, a fazer como ele fez. Como bem percebeu Irineu e Atanásio (para ficar nos mais antigos), queria nos fazer participar de sua condição; sendo ele o ponto de partida, o primeiro entre todos, o Desbravador, sabia que a redenção não é uma mágica, muito menos um absurdo sacrifício: ela se dá num contraste impossível de expressar, entre a conversão interior a cada pessoa e a irradiação irrefreável dessa postura no meio do mundo; a redenção é consequência de uma forma de estar nesse mundo. Por isso ele quer que a sua proposta continue com aqueles que a aceitaram. E a proposta historicamente localizada para o judaísmo legalista helenizado e romanizado do seu tempo é a irradiável e irremediável e graciosa generosidade de Deus, testemunhada no fato de que a vida, o sol e a chuva, são dados todo dia sem nenhuma exigência de pagamento – seja em boas intenções, seja em boas obras. Isso bate de frente com o ensino dogmático de um deus mesquinho e antropomórfico, que faz barganha, exige pagamentos. Entretanto, a Generosidade, que no fim das contas tomará conta de tudo e todos, precisa antes disso que os que a descobriram e a ela aderiram livremente vivam como se já estivessem lá naquele futuro. Ou seja, se acreditamos num Deus generoso, seremos divinamente generosos e portanto humanos em tudo, e isso vai ser irradiado. E é aqui que chega o “porém”…
Esse tipo de anti-teologia, no contexto em questão, só pode partir dos que nada têm a perder, e quando começar a irradiar vai fatalmente atingir quem quer que esteja numa posição de poder e obtenha ganhos com a teologia da culpa e da barganha com um deus implacável, mais juiz que Pai. Ou seja, isso vai atingir de cheio os poderosos do contexto em questão. Caso ocorra da forma convencional, esses caras vão fazer de tudo para manterem seu poder, inclusive matar os que se atreverem a ser generosos e bondosos. E é o Poder, qualquer poder que inflija culpa, separação e desigualdade, que os Desbravadores da Generosidade terão que negar e enfrentar, apenas portando a generosidade de um deus, o que pode levar à morte.
Portanto, a cruz não é necessária em si, sendo essa conclusão fruto da teologia pagã do mérito. A cruz é conseqüência de um confronto direto entre a Generosidade e o Poder, o Humano e o Satânico, dois elementos antagônicos da trama novelesca em que a vida se desenrola. O dramático é que para a Generosidade se livrar da cruz tem que usar um expediente de Poder e, assim, ser transformada no seu oposto. Pra permanecer generosa a Generosidade tem que se despir de qualquer poder. Sendo assim, e aplicando a anti-teologia a um caso específico, o de onde ela nasceu, Jesus não morreu piedosamente por mim, morreu desgraçadamente porque esses conceitos – Poder e Generosidade – não são entidades transcendentais, são atos e inclinações de gente humana; morreu tragicamente pelas mãos dos teólogos dogmáticos de seu tempo, judeus e romanos; morreu terrivelmente porque escolheu a Generosidade enquanto todos escolhiam o Poder, e morreu assustadoramente porque combateu o Poder com a Generosidade, morreu, enfim, pela covardia dos que escolheram o Poder.
Uma escandalosa corrupção do evangelho foi utilizar como sacrifício redentor a morte desnecessariamente dolorosa de quem abolira a necessidade de sacrifícios redentores. Assim como a mensagem do evangelho de Jesus é totalmente circunstancial e histórica, espalhando-se dentre a história de várias maneiras, também são circunstanciais e históricas sua tortura e sua morte. A cruz para Jesus, como tinha sido a cicuta para Sócrates, como foi a má-fama para Francisco de Assis, o desprezo para Nietzsche, a bala para Gandhi (para ficar nos mais famosos), nada disso era necessário, embora já estivesse cotado nas apostas deles mesmos como consequências. Deus aparece no anti-poder não por necessidade intrínseca a ele, mas por necessidade circunstancial, porque não pode deixar de ser Deus, ou seja, Generosidade. E para permanecerem na Generosidade, todos estes apresentadores de Deus julgaram necessário não abrir mão de abrir mão de qualquer poder, cada qual a seu modo, cada qual com sua linguagem, cada qual com sua cruz.
Não sei se eu percebi errado, mas me parece que o rapaz que foi crucificado propunha que se eu gostasse da sua proposta e escolhesse a Generosidade em vez do outro lado, teria que incluir essa fatalidade nas minhas pretensões. É bem possível que essa seja a causa de eu ser tão indeciso e errático e de eu carregar essa tendência pagã de freqüentar igrejas onde a imagem da cruz e as dores do crucificado são arrancadas do seu terrível significado histórico e alçadas à dignidade farisaica de universais.
Rondinelly Gomes Medeiros,
destilando santa inquietação
no Soda Cáustica

11 de Dezembro de 2009
Hoje é, no dizer de meus avós, dia grande. Para aqueles que não têm vergonha de se dizer cristãos católicos, é dia da solene celebração da imaculada concepção da Virgem Maria, afastada, desde o útero de sua mãe, da mancha do pecado original; para aqueles que não têm vergonha de assumir alguma religião afro-brasileira, é dia de Iemanjá, rainha do mar, vestida com o mesmo esplendor da Virgem, cheia do mesmo doce mito de pureza festiva. À parte as tentativas aleijadas dos teólogos de afinar o discurso dogmático, sem pé nem cabeça, com proposições científicas; à parte as proposições científicas; e, por fim, à parte as afirmações dogmáticas desvinculadas de qualquer verossimilhança, é a figura de Maria, lindamente imóvel naquela estátua, que me encantava; é ela, de quem, quando pequeno, não queria saber se havia ou não pecado – fosse o que fosse o pecado – mas por cujos olhos brilhantes, por cujas estórias singelas, por cujas canções seresteiras, me apaixonava todos os anos, repetidamente.
A festa da Padroeira é uma marca inapagável para qualquer um que foi criança do interior, quando e onde se pode encantar inocente e lindamente com o brilho dos parques, a demora das novenas, as serestas depois das missas, as cantigas cantadas pelas beatas velhas, os leilões e foguetórios, as rezas apressadas de terços, os algodões-doces, as procissões com devotos descalços, o pavilhão e o pastoril… Por dentro de tudo isso estava a religiosidade sem dogma dos mais empobrecidos e desgarrados sertanejos e sertanejas, tragados pela figura de carnalidade e beleza tremendas contadas na história de uma simples jovenzinha dona-de-casa no interior de um sertão distante que, por ter sido mãe do homem terrível e heróico de quem a todo custo e inutilmente queremos esquecer, deve ter contribuído de alguma forma significativa para a humanidade inapelável daquele deus de pés descalços, mãos ásperas e sorriso largo.
Maria, a mulher sem teologia, igreja, seminário ou missa, foi uma jovenzinha destinada a casar com um homem que não conhecia, mas a quem talvez, pelo zelo, aprendeu amar; não foi uma mala que desceu do céu com a segunda pessoa da Santíssima Trindade dentro, como bem entendeu Alberto Caeiro; foi uma mulher que sentia prazeres e dores, próprios da gente pobre e limitadamente feliz da palestina antiga – ela deve ter sentido o prazer de conceber um filho e a dor de pari-lo; deve ter sonhado namorar com algum jovem bonito, deve ter sentido muita raiva dos soldados romanos que estupraram uma sua amiga; deve ter ensinado ao seu filho pequeno os horrores do império da maldade e o horror dos religiosos poderosos a ele aliados; deve ter chorado amargamente quando seu jovem rebelde saiu de casa; deve ter amaldiçoado Javé quando ele enlouquecera a andar com prostitutas, pescadores, zelotas; deve ter acalentado o orgulho muito feminino quando seu filho providenciou muitos tonéis de vinho para alegrar a festa de casamento de seus amigos; deve ter ficado com ciúme daquela Madalena perto demais do seu menino; deve ter gritado e dilacerado os cabelos ao pé da cruz; deve ter desconfiado do consolo muito óbvio da ressurreição; e só deve ter acreditado nisso naquele dia de Pentecostes, cheio da explosão confusa de subjetividades da qual seu filho lhe falava desde a mocidade como sendo o sonho de Deus que ele havia sonhado; e deve ter morrido lembrando, em delírio, do seu amado José e de seus pequenos filhos, com a lembrança agora especial daquele menino travesso, brincando no terreiro de casa, na aldeiazinha de Nazaré. É essa mulher que vejo de brilho nos olhos, imóvel naquela estátua.
Rondinelly Gomes de Medeiros,
ajustando no dia 8 de dezembro o pH do Soda Cáustica
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Mas você foi amar Maria
17 de Novembro de 2008
O projeto de esperar a outra vida me cansou, e resolvi abraçar esta. Gostar da simples existência, amar a vida e querê-la de todo jeito, mas do jeito em que se possa gozá-la melhor. [...] E comecei a achar um banho de chuva melhor do que a missa; a reunião inútil com meus amigos na praça, melhor do que a falsa utilidade da reunião de catequese; uma cerveja a sós, escutando Chico Buarque ou Mônica Salmaso ou João Sebastião Bach, me caíam bem mais em conta para um prazer do que a palestra que me havia sido incumbida proferir no ECC (sim, eu era o menino de ouro, o protegido prodígio da Diocese, porque aos 17 anos já ministrava cursos de teologia, e palestras doutrinárias em todo tipo de reunião). Entendi, desse modo, como era maior a tal da Teologia da Libertação, maior do que a paroquialização das CEB’s e do que a cooptação do discurso “libertador” por amplos setores das igrejas. Não era possível promover “justiça social”, lutar pela “democracia popular”, conquistar “direitos sociais”, enfim, não era possível mudar o mundo, se não se mudasse o criadouro de mundos que é a religião, ou melhor, a religiosidade. De nada adianta trocar os mandatários se nunca muda a relação que constitui por dentro o poder, e que baseia-se, obviamente, na “metafísica” subjacente a tudo.
Para ser como ele é preciso esquecê-lo.
[...] Ieshua era pra mim, de verdade, um Mestre nisso. Mas o problema é que não sabia a dosagem de seu esquecimento. Sabia que lembrar-se muito dele atrapalharia tudo, porque é preciso ser como ele e não para ele. E, para ser como ele, é preciso esquecê-lo, docemente esquecê-lo. Esquecê-lo é colocá-lo além da memória, é encarná-lo. Como as pernas e os braços que a gente tem e não se lembra, desde que não haja problemas com isso. Lembrá-lo traz sempre à tona aquelas ridículas desencarnações dele, as imagens de um modelo hollyoodiano loiro, sem força na fala, sem dramaticidade nos gestos, com uma falsa simplicidade, que denota mais os riquefifes de um nobre barroco do que o sorriso largo e companheiro de um artesão do interior.
O que, talvez, ele dissera, era verdade: ele estaria conosco, mas não da forma pessoalmente espiritual como quiseram as Instituições, mas da forma sublime que ele denominou de espírito santo – prefiro escrever com minúsculas, porque é menos hierárquico: isto é, fazendo-nos esquecer dele, para nos encontrarmos com a vida e com a sua realidade fantasiosa. Dando-nos, a qualquer um que o queira, o nosso espírito de volta, isto é, a carne com a saudade e a fantasia que ela traz.
Rondinelly Gomes Medeiros,
de seu posto no sertão paraibano, entre São Mamede e Patos,
em e-mail que mandou-me semana passada

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