02 de Julho de 2012

Uma catástrofe gentil

Manuscritos

Uma pessoa inteligente que preze a sua tradição religiosa não vai aproximar-se a sério da ideia messiânica, porque o vento messiânico traz invariavelmente a ameaça de perturbações e de inovações teológicas – colocando desse modo em risco as tradições que definem e sustentam a própria religião.

Uma pessoa boa que se importe com a gente comum não vai se aproximar a sério da ideia messiânica (não vai em especial se colocar numa posição em que possa ser considerada ela mesmo o messias) porque ninguém ignora que na própria noção de messianismo está, em termos históricos e ideológicos, embutida a necessidade de violência.

No fim das contas, o messianismo é a expectativa de uma resolução violenta – isto é, não consensual ou gradual – para as tensões que apertam uma determinada subcultura. A realização sem trâmites da utopia encontra todo o tipo de resistência, exigindo desse modo grande dispêndio de energia. Por esse motivo, quando foram tentados na prática os movimentos messiânicos mostraram-se quase invariavelmente associados a revoluções, ao recrudescimento de tensões raciais e sociais e ao derramamento de sangue.

E só se pode dizer “quase invariavelmente”, claro, por causa de Jesus.

Jesus, pelo que sabemos, era um cara inteligente que prezava a sua tradição religiosa e um homem bom que se importava com a gente comum, mas isso não o impediu de aproximar-se do terreno minado da ideia messiânica. O que distingue o movimento inspirado por ele dos outros desse gênero que vieram antes e depois não está em que Jesus se abstinha de pregar ou anunciar a catástrofe – mas em que ele anunciava a gentil catástrofe da irmandade universal.

E, não importa o que você pense, o mundo estava mais preparado para a notícia de um império mundial controlado pela fria espada de um descendente de Davi no trono de Jerusalém do que para a noção de que todos os seres humanos são irmãos livres debaixo da aprovação invariável de um mesmo Pai.

A mensagem de Jesus de Nazaré era tão desarmantemente original, tão exigente e radical em apresentação e em desdobramentos, que manteve seu cerne não-violento mesmo depois que seu proponente saiu de cena e deixou de controlar a coisa toda pessoalmente. Até ser engolido, assimilado e vomitado em forma inversa pelo Império, no quarto século, o movimento de Jesus manteve-se consistentemente não-violento e popular – e isso numa época em que era raríssimo que as duas coisas andassem juntas.

Gente como nós, criada no leite inofensivo da ideologia pop da não-violência, pode ter perdido a capacidade de assombrar-se diante do quanto soava improvável e radical, dois mil anos atrás, a ideia de um movimento popular não-violento. Pode ser útil lembrar que uma postura radical de não-violência era coisa improvável há meros cem anos, e que em tantos sentidos permanece sendo nos nossos dias.

Claro que Jesus mal havia não esfriado no túmulo e começou a circular a versão de que sua passagem pela terra não havia sido suficiente, isto é, que seu método não devia ser considerado válido. O messianismo não-violento de Jesus não podia ser tolerado, pelo que ficou resolvido que sua visita pacífica tinha sido apenas a primeira – o que anulava em grande parte a sua singularidade. Decidiu-se que ele deve voltar desta vez valendo, de espada na mão, pra mostrar quem é que manda e botar ordem neste barraco.

28 de Março de 2012

A quieta virtude do corpo aberto

Manuscritos

Não encontro outra maneira de dizer: algumas pessoas tem corpo aberto, e com isso quero dizer que algumas pessoas você sente intuitivamente que não se importam de ser tocadas. A maioria de nós – embora eu talvez esteja falando apenas da minha mínima fatia de ocidente – tem corpo fechado: preferimos não ser tocados, especialmente por estranhos, e largamos no caminho deste mundo indícios muito claros disso.

Mas o milagre, o improvável milagre, é que entre nós existem pessoas de corpo aberto. Sem que digam nada, você acaba sacando que pode tocá-las no braço para estabelecer um contato e transmitir uma ênfase, mesmo se for a primeira vez que estiverem conversando. Se você estiver sentado no chão e a pessoa de corpo aberto estiver sentada numa poltrona, você sentirá como coisa muito natural a ideia de recostar as costas junto às pernas dela. Uma pessoa de corpo aberto não vai se importar se você de repente capturar-lhe um dedo, tocar-lhe as costas da mão, encostar o seu braço no dela, apertar-lhe os ombros para uma massagem sem método e sem motivo.

É importante que eu deixe logo claro que não estou falando daquelas pessoas-que-pegam-em-você, muito menos justificando esse método de invasão territorial. As pessoas-que-pegam-em-você não respeitam os conceitos mais fundamentais de autonomia e de civilidade, e nisso negam sua própria autonomia e sua própria civilidade. Pegam em você não para estabelecer contato, mas para invadir e explorar, espoliar e possuir, e para isso não há justificativa.

A uma pessoa de corpo aberto jamais ocorreria invadir: muito pelo contrário. Sua luz, sua atração e seu método residem na sua autossuficiência. Como um distraído deus, a pessoa de corpo aberto é tão senhora do seu mundo que sinaliza gentilmente que nada pode violar a sua soberania. Não transmite convites, mas comunica muito serenamente a abolição das interdições usuais. Trata-se de uma transmissão quieta, jamais alardeada verbalmente, mas que você acaba percebendo, muitas vezes imediatamente.

Embora a mulher tenha demorado milênios a conquistar o direito sobre a posição do próprio corpo na geografia social, esta não é e nunca foi uma questão de gênero; há homens de corpo fechado e mulheres de corpo aberto. Não é uma questão de classe social; há pobres de corpo fechado e ricos de corpo aberto. Não é uma questão de idade; há jovens de corpo fechado e velhos de corpo aberto. Não é uma questão de humor; há gente dulcíssima de corpo fechado e gente irritadiça de corpo aberto. Não é uma questão de orientação sexual; há homossexuais de corpo fechado e heterossexuais de corpo aberto. Não é questão de estado civil; há gente solteira de corpo fechado e gente casada de corpo aberto. E, sempre, em todos os casos, vice e versa.

Se estou dizendo isso é porque muitas vezes me ocorreu que ter o corpo aberto é uma virtude cristã, talvez a virtude cristã por excelência, porque é ao mesmo tempo a mais recatada e a mais escancarada, a mais humilde e a mais ambiciosa, a mais invisível e a mais revolucionária, a mais sofisticada e a mais acessível da virtudes. Que as verdadeiras luzes da herança de Jesus – digamos, na falta de outras, São Francisco, – tinham corpo aberto, se intui mesmo por aqueles que conhecem minimamente a sua história; e sem que pensemos muito nisso, acabamos entendendo que essa gentileza de corpo, essa disponibilidade do abraço, fazia parte absolutamente essencial da sua mensagem e do seu impacto através das eras.

Há, é claro, solenes e numerosos indícios de que o próprio Jesus tenha tido corpo aberto em seus dias na Terra (e, talvez mesmo depois, como encena continuamente a narrativa de Tomé). Na sociedade do tempo de Jesus a política do corpo era pelo menos tão complexa e exigente quanto a da nossa; acho irresistível que os evangelistas tenham considerado as violações de Jesus à política vigente do corpo singulares e significativas o bastante para terem-nas deixado registradas nos evangelhos. De fato, uma das coisas que fazem com que os evangelhos como gênero literário se diferenciem por completo da literatura da sua época é a sua disposição em pausar para discorrer sobre as questões do corpo. Que o tráfico entre corpos – a lavagem de pés, o beijo, o partir do pão, a saliva curativa, o amigo que se reclina sobre o peito – pudesse fazer parte integrante ou essencial de uma biografia ou de uma mensagem profética é coisa que a própria figura de Jesus parece ter inspirado. Aparentemente nenhum corpo havia inspirado as mesmas associações antes, e permanecem raros – e num certo sentido divinos – os que as inspiram depois.

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A paixão de Francesco

09 de Março de 2012

Uma tarefa para os pequeninos

Goiabas Roubadas

Entre o judaísmo de Jesus e o cristianismo de Paulo há um intervalo considerável o bastante para modificar historicamente a configuração do modelo de organização dos futuros seguidores do Evangelho. Intervalo tanto no sentido espaço-temporal quanto no sentido semântico.

O jovem artesão da Galileia viveu profundamente enraizado em seu mundo, encharcado por sua cultura, no bojo de sua época. Jesus não se esquivou da religião de seu povo nem tentou destruí-la: a maneira como escolheu vivenciá-la é que provocou uma ruptura irremediável para os que com ele mantinham contato. A boa notícia que Jesus anuncia refere-se à vivência da religião como a forma mais profunda de liberdade e de amor, experimentados para além dos parâmetros de um rito, de uma lei ou de uma história. A boa notícia é baseada na descoberta e no anúncio de que há um Deus que nos ama antes de mais nada, nos ama de forma despudorada e alegre, e nos ama de graça, por sua graça, sem que haja para ele alteração no seu amor em razão do que quer que tentemos fazer para ganhá-lo; um Deus que é como um Pai. (Por conta do revestimento viciado dessa terminologia durante dois milênios parece não nos causar tanto impacto que alguém se relacione com um deus chamando-o de papai, que é mais ou menos a tradução de Abba. Diríamos então que o anúncio do Deus Paizinho de Jesus soaria para nós como se um ex-presidiário saísse nas cidades do país anunciando que há uma Deusa, Mãe Paciente, que nos ama graciosamente; ela quer que espalhemos esse amor gratuito sendo todos como crianças de orfanato, ansiosas pelo amor da Mãe, e que seremos mais apaixonados pela Vida que ela nos dá quando tivermos a alegria de um travesti, a esperteza de um bêbado e a espontaneidade de um malandro.)

O Reino de Deus é este tempo em que se descobre que a vida é uma graça, que a presença ausente de Deus envolve tudo em todo tempo e lugar e que, por isso mesmo, toda vida deve ser preservada, promovida, amada e vivida de modo pleno. A boa notícia de Jesus é que chegara a hora em que todos poderiam saber disso e viver conforme essa novidade. O Reino estava inaugurado. “Viver conforme residentes do Reino” era toda a pregação de Jesus: converter-se. Viver conforme a descoberta do amor sem condicionamentos, do amor do Divino por nós e do nosso amor pela vida, com todas as fragilidades, com todos os defeitos, com todas as ambiguidades.

A pregação de Jesus pressupõe a disposição de assumir a religião como uma ética e não como um código jurídico, assumir uma forma de vida e não um tratado dogmático. A salvação de quem aceita a realidade do Reino não é uma decisão jurídica baseada numa troca entre iguais: é um presente que se manifesta numa maneira de estar no mundo. E Jesus não impõe nenhum critério para que alguém acesse o Reino, senão o da aceitação total. A crise que essa mensagem provoca se instala justamente nos centros de poder que necessitam, para manterem-se e se reproduzirem, da criteriosa separação, da concessão de privilégios, da barganha de considerações. Esses centros de poder estão encravados nas relações inter-pessoais e, portanto, estão na própria tessitura da linguagem e da sociedade. Por isso que é provocante e assustadora, para qualquer um que a escute, a ternura louca do Evangelho que Jesus anuncia. Assumir aquele estilo de vida supõe a negação espontânea de todos os aparatos de poder a que o indivíduo é educado a desejar. Esses aparatos de poder e o desejo de possuir o poder como uma mercadoria carregam consigo a destruição da vida e das possibilidades infinitas de viver a vida e de desejar vivê-la, sendo, portanto, o desejo de poder o cerne da infidelidade à graça da vida.

O poder, sendo uma categoria das relações da linguagem, passa a ser o alvo da crise que o Evangelho anunciado provoca, sem que pra isso haja deliberações e montagem de estratégias por parte de Jesus e de seu grupo de amigos. Jesus, pelo simples fato de viver o instante de modo pleno e por demonstrar serena e fortemente o gozo da vida e da aceitação do Amor Incondicional, instala o rasgão na forma de ver e de estar no mundo daqueles que com ele mantém o mínimo contato.

A vitalidade da pregação e da vivência de Jesus queima a alma de quem o escuta como um chamado forte de retorno à vocação da vida que é a liberdade e a gratuidade. Assumir essa forma simples e livre de viver, para o entendimento de Jesus, era uma tarefa que só poderia ser levada a cabo por aqueles que se desembaraçassem de suas regras pesadas, do emaranhado das leis que regem cada centímetro do corpo e da vida; uma tarefa para os pequeninos, os analfabetos, os que não esperam mais nada da vida, os que perderam a oportunidade de vencer na vida, os que não gozam da reputação outorgada pelos outros, os viciados, os corrompidos, os desesperados, os abobalhados, os de quem todos esperam mancadas.

Esses, por nada terem que resguardar, podem abrir-se escancaradamente, com seus erros e com suas feridas, ao amor incondicional da Vida e esses podem descobrir a abundante vida que surge de dentro da opressão. Esses entendem que o caminho para salvar a alma, segundo a Boa Notícia, começa por não pensar em salvar a alma.

Paulo, rasgado de paixão por essas novidades, arma-se de cuidados para que a mensagem seja levada ao máximo de pessoas no menor tempo possível e que a mensagem chegue carregada de testemunho a qualquer recanto de qualquer povo e qualquer religião. Paulo não admite barreiras para o anúncio da Boa Notícia do Reino. Por isso, toda a sua pregação baseia-se na universalidade do Cristo. A categoria Cristo para Paulo invoca a pessoa de carne e osso que foi Jesus de Nazaré e, para além, invoca o espírito da atuação de Jesus, que deve presentificar-se em quem quer que assuma a vivência do Reino. Cristo é Jesus em nós. Paulo preocupa-se com a eficiência da pregação do Evangelho e da vivência do Reino, por isso pressupõe que devam ser criadas comunidades estáveis, que se reúnam periodicamente e, para avivar a mensagem da salvação, celebrem, isto é, ritualizem. A preocupação de Paulo, óbvio, é válida e muito pertinente, mas não se pode deixar de ver que aqui se desenha a diferença entre a vivência da religião segundo Jesus e segundo Paulo.

Os elementos da vida em comunidade – reuniões e rituais – são a célula do surgimento de uma institucionalização da mensagem, especialmente quando começa a se debater sobre a escolha de critérios para a admissão de pessoas. As pessoas para terem acesso à vida daquela comunidade precisam moldar-se ao seu estilo de vida, que, paulatinamente, vai se homogeneizando. O problema aqui não é o da pureza ou impureza das pessoas que fazem a instituição que está surgindo; este problema da separação entre puro e impuro já fora abolido por Jesus, vide a parábola do trigo e joio. O problema reside na formatação criteriosa para a admissão do postulante, que responde a um código de poder instalado no miolo da linguagem e que vai se consolidando de modo unívoco. Paulo consegue, sem dúvida, manter a vitalidade da mensagem do Evangelho ainda diante da nascente institucionalização, mas não conseguiu garantir que assim fosse na posteridade.

As comunidades posteriores, especialmente depois do terceiro século, no período de decadência do Império Romano, deslumbradas com a possibilidade de tornarem a Boa Notícia hegemônica urbi et orbi, inflaram a prudência sensata de Paulo e minimizaram a escandalosa insensatez de Jesus, achando melhor para os seus fins adotar um modo mais organizado e estruturado de resguardar a mensagem; a isso corresponde a escolha criteriosa dos textos a serem outorgados o sobrenome de Sagrados e o esforço em criar uma história de unificação triangular, ou melhor, piramidal, de códigos, costumes e, principalmente, de organismos. Mas, segundo uma leitura menos aparelhada dos escritos sobre o Evangelho de Jesus, pode-se perceber uma certa dose de voluntarismo dos escritores quando pretendem basear em Jesus a fundação de uma instituição que deveria tomar conta de sua mensagem. Os textos em que Jesus funda sua igreja apostólica estão dissonantes dos acontecimentos precedentes e da trajetória da pregação da Boa Notícia. Ainda assim estes textos não conseguem conter a voracidade com que o comportamento e as palavras de Jesus incendeiam tudo.

A vivência de Jesus da religião não prescreve a estrita necessidade de uma instituição para resguardar a sua Boa Notícia. Pelo contrário, o estritamente necessário era a abolição de qualquer estrutura de poder que tomasse para si a posse do Divino e estabelecesse o mínimo de critério que fosse para o acesso à Liberdade e ao Amor. Nesse sentido, a Igreja de Jesus estava presente em qualquer mínima comunidade que mais se empenhasse em fazer como ele, em qualquer tempo e lugar, do que em preservar um possível mito. A Igreja de Jesus – ou seja, as pessoas e as comunidades que se empenhariam em propagar a Boa Notícia de que o Reino chegara – adota um método parecido com a fissão nuclear em que a explosão de um átomo é a causa da explosão dos dois átomos vizinhos e assim sucessivamente. Ou ainda, como uma sala repleta de ratoeiras armadas, se uma ratoeira desarma e cai em cima de outra, todas as ratoeiras da sala tendem a ser atingidas pela síndrome do desarmamento. Isto é, a Boa Notícia do Reino baseia-se em dois meios: o anúncio e a vivência. Viver conforme o Reino e anunciar a sua presença, sem mais. Quem ouvisse o anúncio e para si assumisse a residência no tempo do Reino, deveria viver conforme um residente do Reino e anunciá-lo a outros e assim por diante… É isso que dá sentido ao koan que Jesus aplica nos seus amigos quando eles reclamam que há pessoas fora do grupo originário que estão atuando em seu nome, isto é, estão anunciando e vivendo conforme o Reino. Jesus responde: “Aquietem-se! Quem não espalha o que ajunto, está ajuntando comigo.” Digamos que para nós soe assim: “Aprendam! Quem assumiu o tempo do Reino como seu tempo, e o anuncia, e vive conforme isso, não precisa estar babando de sentimentalismo aos meus pés, não precisa confinar-se entre as colunas de um templo majestoso, não precisa demonstrar que é meu amigo com palavras arrogantes e fartas de adjetivos laudatórios, não precisa participar de rituais que em nada lhe sublima o espírito, não precisa defender leis anacrônicas criadas em meu nome. Olhem para eles e vejam vocês o quanto é preciso livrar-se de um peso do qual eu lhes ajudei a se safar, e que vocês, por medo da liberdade, colocaram de novo em suas costas.”

O insubmisso Rondinelly Gomes Medeiros, em 2009,
pensando alto na companhia de Alysson Amorim

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Notas para uma leitura de Paulo

08 de Fevereiro de 2012

Bíblia e contracultura

Manuscritos

O consolo de Gilgamesh é a cidade – as realizações humanas da edificação de cidades, do governo e da lei [...]; é esse o seu conforto diante da perda de seus amigos e da consciência da morte.
 
Alan F. Segal
Life After Death – A History of the Afterlife in Western Religion

 

A história dos primórdios em Gênesis e as antigas narrativas das tradições mesopotâmicas (como aquelas preservadas no Épico de Gilgamesh) parecem compartilhar uma lição central, a de que a mortalidade é componente inseparável da condição humana, e de que sua contrapartida é o dom divino da sabedoria – sabedoria que é concedido ao homem exercer e desfrutar interinamente.

Já foi observado que este não é o único ponto que ambas as tradições tem em comum, mas também já foi observado que mais reveladoras do que as semelhanças talvez sejam as diferenças entre ambas. Porque, falando em termos gerais, aquilo em que a tradição do Gênesis difere das tradições mesopotâmicas (com que parece ter em mais em comum do que com qualquer outra) ela também difere das demais culturas do Oriente Médio e da maioria das mitologias deste mundo. A Bíblia é relutante para endossar a ideia de civilização.A Bíblia sonha desde o princípio um sonho singular.

Um exemplo especialmente relevante dessa singularidade está no modo como o Gênesis – e, na verdade, a Bíblia toda – se mostra resistente para endossar o conceito clássico de civilização. No Épico de Gilgamesh a sociedade civilizada e urbana é apresentada como um dos grandes e autorizados confortos de que a humanidade pode desfrutar diante do estorvo da mortalidade. A narrativa em si está emoldurada entre dois poemas idênticos que exaltam a cidade de Uruk, governada por Gilgamesh. É uma história que começa e termina com a exaltação das conquistas da vida urbana:

Observe seus muros, cuja orla superior é como bronze;
contemple sua muralha interior, a que obra nenhuma pode se pode comparar.
Toque o limiar de pedra, que é antiquíssimo;
aproxime-se da Eanna, habitação da deusa Ishtar,
obra que nenhum rei entre os reis mais recentes pode igualar.
Suba as muralhas de Uruk, caminhe ao longo do topo,
inspecione a base, veja o lavor dos tijolos.
Não é o seu próprio interior feito com tijolos queimados no forno?
Quanto à sua fundação, não foi depositada pelos sete sábios?
Uma parte cidade, uma parte pomar, e uma parte cava de argila.
Três partes, incluindo a cava de argila, compõem Uruk.

A ideia central é vender a ideia de civilização (e portanto da sociedade organizada e urbana) como valor, como destino glorioso e como justificação da humanidade.

A postura geral do Gênesis sobre a questão (e não é preciso ir longe para entender) é precisamente oposta. A passagem paralela no livro de Gênesis é aquela em que os templos da Mesopotâmia, as torres dos zigurates, são transfigurados em Torre de Babel. Nesta narrativa, os esforços dos homens para se organizar em sociedade e executar grandes obras representam não uma façanha admirável ou uma conquista que produz segurança, mas uma afronta a Deus, fadada por esse motivo ao mais embaraçoso fracasso.

Na tradição preservada no livro de Gênesis a civilização não indica conforto e não assinala valor. Nessa visão de mundo o progresso deve ser sempre colocado entre aspas, porque não representa um verdadeiro avanço; ao contrário, a vida civilizada é o começo da corrupção. O construtor da primeira cidade é o maldito Caim (Gênesis 4:17), e são os seus descendentes a inventar os primeiros instrumentos musicais (v. 21) e implementos de metal (v.22).

Mais tarde a narrativa vai se esforçar para contrastar a vida pura – sem garantias e sem adornos – do povo de Israel em sua travessia pelo deserto com a vida sofisticada, arrogante e sedentária da civilização egípcia que deixaram para trás e da qual foram salvos.

Talvez o emblema mais antigo da aversão bíblica à vida sedentária (e portanto à civilização e os resultantes centros urbanos) esteja preservado na história de Caim e Abel. A oferta de Abel é aceita porque ele personifica a vida pastoril, nômade e sem afetação, capaz de evocar uma idade do ouro em que a vida era mais simples e as pessoas andavam mais perto de Deus porque dependiam mais de perto dele. Caim é rejeitado porque sua oferta de cereais sugere o começo da sociedade sedentária e tudo que a vida civilizada tem de corruptor e de destemperado. A eterna tentação gerada pela segurança e pelas distrações da vida urbana é a do homem esquecer-se dos valores eternos – e portanto de si mesmo, do seu próximo e de Deus.

Essa relutância em admitir a civilização explica porque na Bíblia os grandes heróis são em geral pastores como Abraão, Moisés e Davi, gente que vive uma vida singela e autêntica longe da força corruptora de centros urbanos como Sodoma, Gomorra e Nínive. Até mesmo por ocasião do nascimento do messias, com tanta gente neste mundo para ser informada da boa nova, a glória divina demonstrou sua predileção pelos pastores da Judéia, que a narrativa concede que testemunhem a majestade que nenhum homem civilizado já viu.

Naturalmente a Bíblia não tem como contornar indefinidamente o fascínio da civilização e da vida urbana; com o tempo até mesmo Deus vai fazer concessões e terá sua própria cidade e o seu grande edifício em Jerusalém, devidamente providos de sacerdotes, muralhas, exércitos, cortesãos, reis e cavas de argila. Mas as tradições de contracultura preservadas na Bíblia se esforçam para declarar que toda a glória de Jerusalém, tanto o seu trono quanto o seu templo, não são a comprovação da supremacia e dos confortos da sociedade organizada – tratam-se realmente de concessões feitas em favor dos homens por uma glória muito acima da terrena. Deus absolutamente não cabe em templos feitos por mãos humanas (1 Reis 8:27), e os reis são um contratempo e um estorvo do qual a divindade preferiria ter poupado o seu povo (1 Samuel 8:6-20). A grandeza de Jerusalém não está em ser uma cidade civilizada, mas em ser a honorária habitação divina.

Porém a admissão da vida urbana não quer dizer que a sociedade de Israel será como as demais civilizações. A tradição bíblica busca consistentemente sustentar uma polêmica com os discursos deste mundo, e estabelece inúmeros mecanismos para garantir a singularidade (e portanto a marginalidade) da sociedade israelita. Israel será desde seu berço ideológico uma anti-civilização, uma contracultura, divinamente impedida de tornar-se como as outras.

Israel será para sempre uma civilização sem escultura, sem pintura, sem teatro – uma cultura inteira sem belezas distraídas, lascivas ou arbitrárias. Todas as suas manifestações artísticas (por exemplo, musicais e arquitetônicas) serão religiosas, e por fim até mesmo isso será tirado dela, porque a história sequestrará para si o Templo e a própria cidade da divina habitação.

No final, Israel só terá um livro (isto é, uma memória) ao redor do qual construir e sustentar a sua identidade. Enquanto os impérios ao redor levantam escolas arquitetônicas, deitam filosofias, dividem espólios, aperfeiçoam as artes plásticas e refinam as artes da urbanidade, Israel se manterá um país imaterial de verbos e de letras, uma cultura de interpretações e de memórias.

E finalmente, quando a narrativa deixa claro que Israel já se reconciliara com o seu destino e já reconhecia a si mesmo como o povo do livro e como a civilização da palavra, a contracultura bíblica chega ao seu apogeu no Novo Testamento, quando até mesmo essa singularidade é rejeitada em favor… da mera existência.

“A Palavra se fez carne” é (literalmente) a última palavra da tradição bíblica em sua polêmica contra a civilização. O entendimento de que Jesus é a palavra de Deus encarnada representa o esvaziamento final de significado, a pá final de terra na trincheira divina contra a sofisticação e os supostos confortos da vida civilizada. Se até mesmo o verbo tornou-se carne, o último grande valor da cultura de Israel, isto é, sua familiaridade e seu apego com a palavra, é negado, esgotado e tornado obsoleto.

A Bíblia é essa grande obra de anarquismo e de contracultura, e seu sonho é desiludir o ser humano das supostas seguranças e méritos da vida civilizada. O que nos parecem seguranças e conquistas, advertem-nos os idealizadores da Bíblia, não passam de discursos, e todos os discursos escravizam e matam. Para ser salvo o homem deve ser de carne, isto é, manter-se livre – ao mesmo tempo acima e abaixo do regime dos discursos.

É isso, finalmente, o que fazem os que foram tocados pela implacável lucidez do Espírito no Pentecostes: despem-se da civilização, negam o mérito de tudo que tinham e abraçam uns aos outros sem critério que não seja o fato de serem gente de carne. Abrem mão das ambições usuais para tornarem-se pastores de si mesmos e uns dos outros, e entendem que não há destino mais elevado: que não há destino mais simples e humano e portanto mais divino.

19 de Janeiro de 2012

Enquanto resta alguma lei neste mundo

Goiabas Roubadas

PILATOS. Você está desrespeitando seu pai e sua mãe. Está desrespeitando a sua Igreja. Está violando os mandamentos do seu Deus, e alegando ter direito a agir assim. Está pleiteando em favor dos pobres, e declarando que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no paraíso de Deus; apesar disso você banqueteou-se na mesa dos ricos, e encorajou meretrizes a gastar em perfume para os seus pés o dinheiro que poderia ter sido dado aos pobres, deixando nisso o seu tesoureiro tão revoltado que ele o traiu ao Sumo Sacerdote por um punhado de prata. Ora, banqueteie-se o quanto quiser: não culpo você por recusar-se a fazer-se de faquir e a tornar-se exposição ambulante de austeridades tolas. Porém preciso impor um limite quando você promove tumulto no templo e arremessa o dinheiro dos cambistas para ser disperso entre os seus simpatizantes. Tenho uma lei para administrar. A lei proíbe obscenidade, sedição e blasfêmia, e você foi acusado de sedição e de blasfêmia. Você não as nega: você fala sem parar sobre a verdade, que acontece de ser apenas aquilo em que você gosta de acreditar. Sua blasfêmia não representa nada para mim: toda a religião judaica, do começo ao fim, é blasfêmia do meu ponto de vista romano; mas significa muito para o Sumo Sacerdote, e não posso manter a ordem em meio aos hebreus a não ser lidando com os tolos judeus de acordo com a tolice judaica. Já a sedição diz respeito a mim e ao meu cargo muito de perto. Quando você promete suplantar o Império Romano com um reino em que é você e não César a ocupar o trono, torna-se culpado da mais grave sedição. Sou avesso a mandar crucificá-lo; embora seja judeu, e como se não bastasse jovem e imaturo, percebo que você é à sua maneira judia um homem de qualidade. Não me sinto à vontade em atirar à multidão um homem de qualidade, mesmo que sua qualidade seja meramente judaica. Pois como aristocrata sou eu mesmo um homem de qualidade, e falcão não arranca olho de falcão. Na verdade, se condescendo em parlamentar com você tão extensamente é na misericordiosa esperança de encontrar uma desculpa para tolerar sua blasfêmia e sedição. Em sua defesa você oferece apenas uma frase vazia sobre a verdade. Sou sincero quando digo que desejo poupá-lo, porque se não libertá-lo terei de libertar aquele patife Barrabás, que foi mais longe do que você e cometeu assassinato, enquanto entendo que você só ressuscitou dos mortos um judeu. Então, pela última vez, faça seu juízo funcionar, e encontre-me uma razão sólida para deixar partir em liberdade um blasfemador sedicioso.

JESUS. Não peço que me liberte; também não aceitaria minha vida ao preço da morte de Barrabás, mesmo se acreditasse que você tem poder para revogar o suplício ao qual estou predestinado. Mas para satisfazer seu anseio pela verdade, direi que a resposta às suas questões está em seu próprio argumento de que nem você nem o prisioneiro que você está julgando são capazes de provar que têm razão; sendo assim você não deve me julgar, para não ser julgado. Sem sedição e blasfêmia o mundo permaneceria imóvel, e o reino de Deus nunca chegaria a estar um estágio mais próximo. O império romano começou com uma loba dando de mamar a duas crianças. Se essas crianças não tivessem sido mais sábias do que sua madrasta, seu império seria uma matilha de lobos. É por crianças que são mais sábias que os pais, por súditos que são mais sábios que seus imperadores e por mendigos e vagabundos que são mais sábios que seus sacerdotes que os homens alçam-se de serem animais predadores a crerem em mim e serem salvos.

PILATOS. O que você quer dizer com “crer em você”?

JESUS. Ver o mundo como eu vejo. O que mais poderia significar?

PILATOS. E você é Cristo, o Messias, certo?

JESUS. Se eu fosse Satanás meu argumento permaneceria válido.

PILATOS. Devo então poupar e encorajar todo herege, todo rebelde, todo transgressor e todo velhaco, porque ele pode acabar se mostrando mais sábio do que todas as gerações que fizeram o Direito Romano e construíram sobre ele o Império Romano?

JESUS. Pelos frutos você os reconhece. Cuidado quando você mata um pensamento que é novo pra você; esse pensamento pode ser o fundamento do reino de Deus na terra.

PILATOS. Pode ser também a ruína de todos os reinos, de toda lei, de toda sociedade humana. Pode ser o pensamento do animal predador lutando para voltar.

JESUS. Não é o animal predador que está lutando para voltar; é o reino de Deus que está lutando para vir. O império que olha para trás com terror dará lugar ao reino que olha para a frente com esperança. O terror enlouquece os homens; a esperança e a fé dão-lhes sabedoria divina. Os homens que você enche de temor não se intimidarão diante de nenhum mal e perecerão em seu pecado; os homens que encho de fé herdarão a terra. A você eu digo: expulse o medo. Pare de me dizer coisas vãs sobre a grandeza de Roma. Aquilo que você chama de grandeza de Roma não passa de medo: medo do passado e do futuro, medo dos pobres, medo dos ricos, medo dos sumos sacerdotes, medo dos judeus e gregos que são cultos, medo dos gauleses e dos godos e dos hunos que são bárbaros, medo da Cartago que vocês destruíram para salvá-los do medo que tinham dela e que agora temem mais do que nunca, medo do César imperial, o ídolo criado por vocês mesmos, e medo de mim, o vagabundo sem um tostão, espancado e ridicularizado, medo de tudo exceto o domínio de Deus: fé em coisa alguma que não seja sangue e ferro e ouro. Você, representando Roma, é o covarde universal; eu, representando o reino de Deus, enfrentei tudo, perdi tudo, e ganhei uma coroa eterna.

PILATOS. Você ganhou foi uma coroa de espinhos, e vai usá-la na cruz. Você é um sujeito mais perigoso do que eu imaginava. Com sua blasfêmia contra o deus dos sumos sacerdotes pouco me importo: no que me diz respeito você pode espezinhar a religião deles até o inferno. Mas você blasfemou contra César e contra o Império; e falou sério, e tem poder para dobrar o coração dos homens contra ele, como dobrou o meu. Devo portanto por um fim em você, enquanto resta alguma lei neste mundo.

JESUS. A lei é cega sem conselho. O conselho com que concordam os homens é vão: não passa do eco de suas próprias vozes. Um milhão de ecos não irão ajudá-lo a governar com justiça, mas quem não tem medo de você e mostra o outro lado é uma pérola do maior valor. Mate-me e você ficará cego, para sua própria condenação. O maior dos nomes de Deus é Conselheiro; quando o seu império for pó e o seu nome uma lembrança, entre as nações os templos do Deus vivo ecoarão ainda o louvor a ele como Maravilhoso! Conselheiro! O Pai da Eternidade, o Príncipe da Paz.

Bernard Shaw, no prefácio de On the rocks (1933)

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