24 de Outubro de 2011

A aplicação dos méritos

Manuscritos

Uma das coisas que separou católicos de protestantes desde o início é que os católicos têm um complexo sistema teológico e litúrgico construído ao redor da questão de mérito pessoal, enquanto os protestantes rejeitam a ideia por completo. Para um católico, o mérito é um lastro de merecimento que o cristão vai angariando através da acumulação de sacrifícios, de orações, de esmolas, de abstinências e de atos de caridade. Esse depósito espiritual pode ser contabilizado, acumulado, armazenado e eventualmente aplicado; é pessoal, mas transferível.

Este é um componente fundamental da noção católica de purgatório: a ideia de que os méritos dos cristãos vivos podem ser aplicados na compensação dos pecados não ressarcidos dos cristãos mortos, de modo a acelerar a sua entrada no Paraíso. Isso se faz oferecendo-se missas, ofertas e orações – não aos mortos, mas em favor deles.

Essa aplicação dos méritos é a transação que faz a fila do purgatório andar. Se não contarem com a intervenção indenizadora dos vivos, as almas do purgatório terão de purgar suas dívidas através de seus próprios sofrimentos, processo que é tão dolorido quanto demorado. Nessas horas vale mais ter um amigo na terra do que um no céu. Santa Teresa de Ávila1:

Recebi a notícia da morte de um religioso que havia sido padre provincial naquela província, mais tarde também em outra. Embora esse homem fosse louvável por muitas virtudes, fiquei apreensiva pela salvação da sua alma, pois ele havia sido Superior pelo espaço de vinte anos, e sempre temo muito pelos encarregados com o cuidado de almas. Muito aflita, fui até um oratório, onde supliquei que nosso Divino Senhor aplicasse em favor desse religioso o pouco bem que eu havia praticado durante a minha vida, suprindo o restante por seus infinitos méritos, a fim de que essa alma pudesse ser liberta do purgatório. Enquanto buscava essa graça com todo o fervor de que era capaz vi à minha direita essa alma surgir das profundezas da terra e ascender ao céu num arrebatamento de júbilo.

Tirando de lado por um momento a própria ideia de purgatório, que requer tratamento mais generoso do que o que podemos dar aqui, para nós de herança protestante parece haver algo de inerentemente perverso e inaceitável na lógica do acúmulo e da aplicação de méritos pessoais. Algo de, para dizer o mínimo, pouco neo-testamentário. Então o Novo Testamento não ensina que não há um justo sequer? Não ensina que as obras são mortas, inteiramente incapazes de produzir qualquer crédito em nosso favor? Não ensina que o único mérito pelo qual acessamos a salvação é o de Jesus, creditado em nosso favor mediante a fé nele? Não foi essa própria sacada, a da salvação pela fé e pela graça, que impulsionou a Reforma?

Não há aqui espaço para retraçar de que modo a igreja católica desenvolveu a sua teologia do mérito, ou de que modo a Reforma a demoliu. O certo é que essas duas ortodoxias produziram culturas e visões de mundo muito diversas.

Do nosso lado, a ênfase da Reforma na salvação pela graça acabou meio que banindo as boas obras do ideário protestante. Lembramos constantemente que “pela graça sois salvos, por meio da fé; isto não vem das obras, para que ninguém se glorie”, mas esquecemos com facilidade que o verso seguinte explica que “fomos criados para boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas”. Criados para as boas obras talvez nos pareça exigente demais; por certo nos parece legalista demais. Preferimos parar em “salvos por meio da fé”.

A teologia reformada, que gerou a seu modo protestantes e evangélicos, deixou-nos como herança a constrangedora hesitação que temos diante de fazer a coisa certa. Não queremos usurpar em nada a divina primazia nessa área, pelo que tomamos a humilde resolução de sequer desejar para nós mesmos uma bondade ativa e positiva. Nos casos mais extremos, a mera possibilidade de fazer atos meritórios nos causa repulsa e indignação. Como estamos convictos de que nada há de verdadeiramente meritório nas boas obras, fazer o bem não apenas nos interessa: em certo sentido enxergamos a coisa como verdadeira tentação.

Historicamente, esse banimento teológico da generosidade gerou a proverbial vacilação calvinista em ajudar os pobres e envolver-se em projetos assistenciais – tarefas que preferimos deixar a católicos que não sabem o mal que estão fazendo. Não é de admirar, diante desse cenário, que o reformado sinta-se teologicamente constrangido a permanecer politicamente de direita. Qualquer tentativa de mudar o mundo pela via das boas obras e da distribuição de renda é interpretada como usurpação de uma bondade e de um mérito que cabem apenas a Deus. Quem somos nós, meros humanos e pecadores, para nos arvorarmos a fazer a coisa certa?

Essa postura, ao mesmo tempo, não é mera curiosidade histórica. Há nos nossos dias pensadores reformados que defendem seriamente a tese de que a generosidade para com os pobres, quer exercida em nível pessoal ou institucional, representa na realidade uma perversa usurpação da autoridade divina. Nenhum rico deve sentir-se culpado pela sua opulência ou constrangido a dividi-la, porque foi a divina soberania quem decidiu em favor do rico e contra o pobre. Não devemos absolutamente deixar que a tentação da generosidade nos leve a desafiar ou alterar a justa ordem daquilo que Deus predeterminou.

Evangélicos e pentecostais, que são em geral menos ricos do que os reformados e não podem contar com o refrigério econômico de sua teologia, preferem investir o dinheiro que lhes resta em campanhas institucionais de prosperidade – enchendo o bolso de pastores que lhes oferecem, incessantemente, a promessa de ser tornarem tão ricos e bem sucedidos quanto sonham.

Em resumo, as chances de que protestantes e evangélicos sejam apanhados fazendo alguma obra meritória são pequenas. A bondade cristã é um serviço sujo que, se alguém tem de fazer, que sejam em sua cegueira e idolatria os católicos.

Por outro lado, apesar de nossa hesitação ideológica em angariar méritos pela acumulação de boas obras, a verdade é estamos longe de rejeitar a prática da aplicação de méritos em favor de uma causa específica.

A primeira diferença está em que, ao contrário de Teresa de Ávila e dos católicos em geral, os créditos que pedimos que Deus aplique para a realização de nossas súplicas não são os que nós mesmos acumulamos (porque, como vimos, não nos rebaixaríamos a tanto), mas os de Jesus. A mecânica subjacente é a mesma da oração de Teresa, mas não requer esforço nenhum de nossa parte. Quando a questão é mérito, com Jesus não dá pra competir, por isso decidimos nem tentar.

A segunda diferença (e esta talvez seja ainda mais reveladora) está em que Teresa pedia em favor de outra pessoa, alguém que ela cria estar precisando de mais auxílio do que ela mesma – e nós em geral suplicamos em favor de nós mesmos e de nossos próprios interesses. Nossas orações são saques que fazemos de uma conta celestial com fundos inesgotáveis (quem ousaria encontrar um fim para os méritos do Filho!), e esses cheques saem mundo afora, milhões deles, todos assinados em nome de Jesus. O curioso é que, embora creiamos ter toda essa formidável riqueza a nosso dispor, é muito raramente que nos ocorre pedir a Deus que aplique esses recursos em favor dos outros. Que Deus não esqueça de proteger a minha casa, de abençoar a minha família, de dar a mim um bom emprego, de conservar-me com saúde, de conceder-me prosperidade e de aumentar a minha fé.

Se é tão raro que peçamos a Deus em favor dos outros também é porque, no mero ato de enumerar as necessidades dos outros correríamos o risco de trazer ao nível da consciência aquilo que nós mesmos poderíamos fazer por eles; poderíamos nos ver até mesmo tentados a cometer um ato meritório ou dois, e Deus nos livre de sujar as mãos com a virtude. Queremos manter a nossa integridade.

Os católicos, portanto, ousam pedir a Deus em favor dos outros com o lastro de méritos que eles mesmos acumularam. Mais humildes e mais cristãos, preferimos pedir a Deus em nosso próprio favor com o lastro do mérito dos outros. Quem poderia nos condenar?

Não ousamos sequer acompanhar a nossa súplica de uma promessa, como por vezes fazem os católicos – porque, veja bem, fazer o bem em reposta à bondade comprovada de Deus seria muita arrogância da nossa parte.

NOTAS
  1. Citada por F. X. Schouppe em seu Purgatório. []
24 de Julho de 2011

Protestantes no purgatório e católicos no inferno

Divino preconceito

Comparecem como menos que coadjuvantes, no livro que estou escrevendo sobre a relação entre protestantes e a igreja católica, algumas das crenças e práticas que desde a infância tenho invejado no catolicismo. De meu posto de observação na árida e antisséptica sala de espera que é a liturgia protestante, passei a vida admirando catedrais e cobiçando secretamente determinadas doutrinas católicas que me pareceram desde sempre igualmente terríveis, incompreensíveis e atraentes.

Há, por exemplo, o purgatório, a condição intermediária de purificação a que são submetidos os que foram poupados do inferno mas não se mostraram merecedores de uma transferência sem escalas para o céu.

Como venho aprendendo com O nascimento do purgatório de Jacques Le Goff, a noção de purgatório, por mais alienígena e arbitrária que pareça aos que habitam este lado da represa da Reforma, nasceu menos de uma forçação de barra teológica do que como produto e extensão da ênfase católica na ideia de comunidade – a Igreja como a inabalável, ininterrupta e indestrinçável comunhão dos santos.

O purgatório é em parte o resultado da arrojada crença de que nem mesmo a morte pode separar os salvos e interromper a comunhão dos santos. Como o Redentor enxertou a vida eterna no coração do mundo e anulou para sempre o poder da morte, a separação entre vivos e mortos é mera ilusão: faz todo sentido que os vivos continuem a interceder em favor dos mortos1:

Nossos votos e ofertas pelos mortos são mais agradáveis a Deus do que nossas orações e boas obras pelos vivos, pois as pobres almas do Purgatório estão mais perto de Deus, carecem de auxílio mais premente e são incapazes de ajudar a si mesmas.

Não custa lembrar que santa Anne Catherine Emmerich (1774-1824), informada por suas visões, explica-nos que “as almas dos protestantes sofrem por mais tempo e com maior intensidade no purgatório, por contarem normalmente com poucos amigos e parentes para orarem por eles”2.

Ao contrário do que possa parecer, há nessa visão do sofrimento dos protestantes no purgatório mais gentileza e graça do que verdadeiros desprezo e rejeição. Menos clementes e mais dogmáticos, os protestantes ao longo dos séculos têm preferido ser visitados por visões de católicos no inferno.

NOTAS
  1. Thomas A. Nelson, na sua introdução ao Purgatório do padre F. X. Schouppe. []
  2. Nelson, op. cit. []
17 de Setembro de 2007

Você não acredita para onde vai

Heresias Sensacionais

É no entanto coisa inteiramente natural para os seres humanos crerem no purgatório, pois é conceito completamente lógico e justo – mesmo sem levar-se em conta que trata-se de doutrina católica transmitida a nós pelos apóstolos e que aparece também nas sagradas escrituras. Hoje em dia pode soar como revelação para muitos católicos que para ser católico é preciso acreditar-se na existência do purgatório, pois a existência do purgatório é dogma da Igreja, e para ser católico é preciso endossar todas as doutrinas que a Igreja estabelece como dogmáticas.

A verdade é a verdade, não importa o que alguém pensa ou acredita sobre o assunto. Que muitos não falem hoje em dia a respeito do purgatório não esvazia a sua realidade. O purgatório existe, porque a Igreja ensina que existe, e foi Cristo que o ensinou à Igreja.

As almas dos protestantes sofrem por mais tempo e com maior intensidade no purgatório.

Sabemos que os “reformadores” protestantes do século XVI rejeitaram a doutrina católica do purgatório, embora, como admite Calvino, tenha sido sempre uma crença comum. A venerável Anne Catherine Emmerich discorre com freqüência sobre o purgatório, e dentre as suas revelações uma das mais tristes é que as almas dos protestantes sofrem por mais tempo e com maior intensidade no purgatório, por contarem normalmente com poucos amigos e parentes para orarem por eles. Os “protestantes” que salvam suas almas mas não merecem o céu diretamente acabarão no purgatório como todo mundo. O fato de não crerem no purgatório não os absolve da necessidade de irem para lá. A verdade de Deus permanece a verdade, não importa o que nós como indivíduos possamos crer a respeito.

Thomas A. Nelson, na sua introdução ao Purgatório do padre F. X. Schouppe

Leia também:
Simplesmente uma nova vida

08 de Maio de 2007

Simplesmente uma nova vida

Divino preconceito, História

Se alguém afirmar que depois do recebimento da graça da justificação a culpa é de tal forma expiada e o débito da punição eterna de tal forma perdoado em favor de cada pecador arrependido que não resta qualquer débito de punição temporal para ser ressarcido, quer neste mundo quer no Purgatório, antes que sejam abertos os portões do Céu, que seja anátema.

Cânone XXX, Sessão VI
Concílio de Trento, 13 de janeiro de 1547

Se alguém afirmar que Deus sempre perdoa o castigo por completo em conjunto com a culpa, e que o ressarcimento oferecido pelos penitentes nada mais é do que a fé pelas quais eles entendem que Cristo efetua ressarcimento em favor deles, que seja anátema.

Se alguém afirmar que o ressarcimento dos pecados, no que diz respeito ao seu castigo temporal, não é de modo algum efetuado a Deus pelos méritos de Cristo pelas punições infligidas sobre ele e pacientemente suportadas, ou por aquelas impostas pelo sacerdote, ou até mesmo por aquelas assumidas voluntariamente, como através de jejuns, orações, esmolas ou outras obras de piedade, e que portanto a melhor penitência é simplesmente uma nova vida, que seja anátema.

Se alguém afirmar que os ressarcimentos pelos quais os penitentes oferecem reparação pelos seus pecados através de Cristo não são adoração a Deus mas tradições de homens, que obscurecem a doutrina da graça e a verdadeira adoração de Deus e a própria beneficência da morte de Cristo, que seja anátema.

Itens 12, 13 e 14 dos Cânones referentes à penitência.
Sessão XIV do Concílio de Trento, 25 de novembro de 1551

01 de Junho de 2005

O purgatório é aqui

Heresias Sensacionais

Aos cristãos, que são tecnicamente interditados de acreditar na reencarnação (“é dado aos homens morrer uma única vez”, diz o Novo Testamento), restou sempre brincar com as possibilidades da pré-encarnação – a exata natureza da alma antes da existência.

Os teólogos já queimaram muitos neurônios tentando imaginar o que Deus fazia antes de criar o universo. Mais pessoal seria perguntar o que você fazia antes que sua mãe desse à luz a você – mas igualmente problemático responder sem recair numa heresia ou duas.

Há basicamente duas teorias: a primeira sustenta que todas as almas humanas foram criadas num passado remoto por Deus, que retira itens desse banco de almas (sou tentado a dizer “bacia”) para implantar em cada ser humano que nasce. A segunda defende que as almas são criadas segundo a demanda, em regime just-in-time, no exato momento em que o espermatozóide vencedor adentra em triunfo os átrios do óvulo, fecundando-o – ou talvez algumas semanas depois.

Segundo a lógica exigente das teologias, ambas as teorias são problemáticas. Se as almas não existem desde sempre, argumentam alguns, como Deus pode ter predestinado alguns? Como pode Jesus ter morrido por uma alma que tecnicamente não existia?

Para contornar essas heresias inventaram-se desde cedo heresias novas. Um dos primeiros bastiões da idéia da preexistência das almas foi Orígenes(185-254 d.C.), de resto um sujeito muito sensato.

Orígenes não se limitou a propor que as almas foram criadas numa única fornada antes que a primeira delas encarnasse em Adão. Ele também sustentava que as almas preexistentes possuíam consciência e livre-arbítrio – e que, nesse imponderável período antes da história, todas acabaram de alguma forma caindo e rebelando-se contra Deus. As almas que pegaram leve viraram anjos; as que pecaram de modo moderadamente grave encarnaram em corpos humanos, e as almas realmente perversas e toscas viraram demônios.

Segundo essa interessante teoria, nossas desventuras terrenas são reflexo de um karma que trazemos de uma preexistência desencarnada anterior. Se sofremos aqui é porque pisamos seriamente na bola do lado de lá. Ali se faz, aqui se paga.