02 de Novembro de 2011

A onipotente irrelevância dos fatos

Goiabas Roubadas

Deixamos de viver numa época em que os fatos valham alguma coisa por si mesmos. Muito pouca gente se deixa convencer por dados e estatísticas, porque alguém sempre acaba trazendo à luz (ou produzindo sob encomenda) dados e estatísticas que provem o argumento contrário. Chegamos a um ponto em que os candidatos do partido republicano à presidência mentem de forma consistente nos debates – não meramente faltam com a verdade, não meramente tergiversam, mas descaradamente mentem – sobre os fatos que cercam a sua posição e a realidade dos problemas norte-americanos. E as instituições – a política, a mídia, a democracia e em especial a imprensa, acorrentada à falsa objetividade de “ele disse, ela disse” – permanecem fundamentalmente incapazes de lidar com a questão.

A mim parece que as teorias de conspiração, a mentira e a desinformação sejam todas terrivelmente difíceis de combater. Veja-se a questão dos que negam o aquecimento global ou dos que defendem o criacionismo. E não estou certo de que levar-se os argumentos do outro lado a sério o bastante para refutá-los – ao contrário de simplesmente ignorá-los – seja a melhor postura a se tomar.

Isaac Butler, refletindo sobre como refutar os que insistem
que não foi Shakespeare quem escreveu as peças que levam o seu nome

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05 de Julho de 2010

O papel das narrativas: descartando absolutos

Goiabas Roubadas

À medida em que o ocidente continua a afastar-se da cristandade, a igreja não pode esperar apelar a absolutos metafísicos ou morais a fim de dar suporte à sua proclamação enquanto se engaja com a sociedade. Dentro de uma sociedade pluralista esse tipo de realidade universal simplesmente não existe. Isso é assim porque a narrativa cristã deixou de funcionar como a metanarrativa social. Os cristãos não podem simplesmente recomendar a ética cristã àqueles fora da narrativa cristã, porque não existe um código moral universal. Noções como “amor”, “paz” e “justiça” não são realidades universalmente compreendidas, mas derivam seu significado e inteligibilidade de uma narrativa construidora.

Nesse sentido é importante entender que toda vida humana está fundamentada em narrativas. Narrativas não são substitutos para fatos ou verdades abstratas; antes, são um sistema de referência para a compreensão do mundo, e não podem ser reduzidas a máximas. O estado caótico moral do mundo ocidental reflete uma sociedade que parece ter perdido qualquer forma de narrativa estruturadora. Uma sociedade como essa subsiste apenas com “os fragmentos de um esquema conceitual, partes que agora carecem dos contextos dos quais sua significância era derivada”. A erosão dos símbolos e de uma linguagem de significado, aliada ao foco no eterno como agora e à desvalorização da tradição e da história, resultaram numa perda de narrativa. Cada pessoa abraça uma narrativa de sua própria escolha, ou abraça um modo de vida definido pela crise – em que não resta tempo de se perceber, ou de ater-se ao fato de que, está faltando uma narrativa estruturadora. A igreja não pode mais apelar para quaisquer absolutos dentro do modo de agir, pensar e sentir da sociedade pluralista contemporânea.

Daniel Oudshoorn
Poser or Prophet

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20 de Julho de 2009

Pequenas narrativas parciais

Goiabas Roubadas, Sociedade

A modernidade dos tempos recentes é inquieta, desordenada. De fato, alguém poderia argumentar que “pós-modernismo” é apenas o nome que damos a essa perturbação. Como observa Lyotard, o pós-moderno é “aquilo que, dentro do moderno… nega a si mesmo o conforto de formas positivas [good forms]; que busca novas formas de apresentação, não a fim de desfrutá-las, mas a fim de comunicar um senso mais acentuado do que não tem como ser apresentado“. Apesar da (e devido à) hegemonia do capitalismo global, o mundo contemporâneo é fragmentado pelo multiculturalismo, pelo pós-colonialismo e pelo fundamentalismo. Embora um império capitalista cada vez mais monolítico domine nosso mundo, múltiplas realidades culturais e psicológicas O pós-modernismo busca a parábola ao invés do mitoe tentativas desesperadas e polêmicas de defender determinada ideologia em detrimento de todas as outras vão fraturando-o cada vez mais. A pós-modernidade pertence a esse mundo, embora questione a verdade de qualquer totalização dele. Na verdade, o pós-modernismo deleita-se nessa multiplicidade e no estado instável da modernidade. Por essa razão, muitos teóricos descrevem a pós-modernidade usando vários termos com o prefixo grego para (junto, ao lado de). Parasita é um dos mais reveladores desses termos porque expressa muito bem a posição do pós-modernismo dentro do moderno. O pós-modernismo é a estática (em francês, parasite) inerente à mensagem modernista, o convidado indesejado que serve-se da comida do anfitrião.

Dessa forma, o pós-modernismo não é algo “outro” que o modernismo, como se se tratassem de dois movimentos filosóficos e eras históricas distintos. O pós-modernismo não existe fora do modernismo. Apesar disso, o pós-modernismo não aceita acriticamente o mito moderno com suas inclusões e exclusões. Como mencionado anteriormente, a postura básica do pós-modernismo é a suspeita, e isso inclui, e na verdade enfatiza, uma auto-suspeita crítica. Ele resiste ao anseio por uma metanarrativas míticas, dando preferência ao invés disso a uma multiplicidade de pequenas narrativas parciais. O pós-modernismo desafia as fronteiras do moderno, brinca com esses limites e demonstra finalmente seu caráter fictício e arbitrário. Ele desafia todas as oposições binárias –A postura básica da pós-modernidade é a da suspeita coisas como história e mito, mito e verdade e até mesmo moderno e pós-moderno, – tornando o suprimido manitesto e recuperando o marginalizado.

Seguindo uma distinção feita por Crossan nos anos 1970, podemos usar outro dos termos para e dizer que o pós-modernismo busca a parábola ao invés do mito. Segundo Crossan, o mito é uma narrativa que fornece suporte ao status quo cultural (o dominante), enquanto a parábola é uma narrativa que desafia a presunção definitiva do status quo sem endossar qualquer narrativa alternativa ou contramito. A párabola é uma “pequena narrativa” que existe parasiticamente ao lado da metanarrativa dominante. A insubordinada presença da párabola torna impossível a totalização mítica e ajuda portanto a gerar um conscientização do status fictício do mito. A parábola reside no mito dominante, mas também expõe suas lacunas e incoerências; dessa forma ela aponta para o mito como narrativa, levando as pessoas a hesitarem em sua fidelidade ao mito.

An Elephant in the Room:
Historical-Critical and Postmodern Interpretations of the Bible

George Aichele, Peter Miscal, Richard Walsh
Journal of Biblical Literature, 128, no 2 (2009)

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15 de Julho de 2009

Pucca e os contadores de histórias

Pense comigo

No princípio as histórias se começavam pelo começo, mas esse tempo não é mais o nosso; corta para semana retrasada e o Brabo sentado no sofá do sotão assistindo na TV um episódio da Pucca, inteiramente comprimido no abraço de uma sobrinha e dois priminhos na faixa entre 10 e 12 anos de idade. Todos no sofá estão deliciados com as dádivas da tela, mas apenas o Brabo está perplexo, e esta é a moral da história.

No princípio as histórias se contavam pela boca e por encenações ao vivo. Foi só mais tarde que vieram as letras, que emprestaram às histórias uma sacrílega permanência: através da escrita as narrativas podiam ser pela primeira vez invocadas dos mortos e da matéria morta.

Então, quando o protagonista não precisava de nada, alguém inventou o cinema, e transtornou a arte de contar histórias pelo menos tanto quanto a escrita havia feito. Foram as possibilidades e as necessidades da linguagem cinematográfica que levaram os contadores de histórias (primeiro os próprios cineastas, depois os demais) a ponderarem sobre a importância dos cortes (ou seja, as transições entre uma porção da história e a seguinte) e da montagem (ou seja, a ordem e o ritmo em que as partes da história são contadas).

Em cinema um corte é simplesmente a transição entre uma cena e outra. Chama-se corte porque em sua forma mais simples é feito recortando-se uma extensão de filme e colando-se a outra, resultando numa transição brusca e sem firulas, o chamado corte seco. Digamos, filmei o incêndio de uma casa e filmei o rosto do protagonista iluminado pelas chamas. Se recorto o trecho de celulóide que contém a cena do rosto e colo seu primeiro quadro logo depois do último quadro da cena do incêndio, o que estou fazendo é editando o filme1, isto é, ordenando cenas de modo a contar uma história. O espectador vê uma casa em chamas e em seguida o rosto do protagonista iluminado pelo fogo, e é levado a crer que as duas coisas acontecem mais ou menos ao mesmo tempo (mesmo que as cenas tenham sido filmadas num intervalo de meses ou em diferentes locações).

Há outras formas de montar essa mesma história, isto é, outras formas de contá-la em linguagem de cinema. Posso colocar primeiro a cena do rosto, depois a cena do incêndio; e posso ainda decidir excluir por completo o incêndio, crendo que o rosto do protagonista iluminado pelo fogo bastará para contar a história. Mas estou me adiantando, e antigamente isso não se fazia.

Durante as primeiras décadas do cinema as transições entre as cenas eram anunciadas muito explicitamente, de modo a que não gerassem qualquer dúvida no espectador. Era a época do cinema mudo, e a cena em que o personagem chegava em casa do trabalho era precedida por um quadro que dizia muito claramente DEPOIS DE UM DIA EXAUSTIVO NO ESCRITÓRIO NOSSO HERÓI CHEGA EM CASA, E AGUARDA-O UMA SURPRESA. Para anunciar um sonho, era preciso mostrar o sonhador dormindo na cama e, antes da cena seguinte, explicar NAQUELA NOITE ELE TEVE UM SONHO.

Quando entraram em cena os filmes falados e os quadros explicativos foram abolidos, os cineastas tiveram de encontrar outras formas para instruir o espectador sobre o que estava acontecendo. Para demarcar uma sequência de sonho, por exemplo, o que se fazia era emoldurá-la com nuvens ou sobrepô-la sobre um fundo aquoso translúcido; valia também mostrar a sequência do sonho em preto e branco num filme de resto colorido, ou o contrário. As histórias eram via de regra contadas cronologicamente, e quando era preciso esclarecer um intervalo, o quadro explicativo do filme mudo podia voltar dos mortos para dizer coisas como ENQUANTO ISSO, NO SANATÓRIO ou TRÊS ANOS DEPOIS… – sendo às vezes substituído nessa função pela voz de um narrador.

Se hoje em dia essas medidas nos parecem primárias ou redundantes não é porque sejamos mais brilhantes do que nossos antepassados, mas porque conhecemos um idioma que eles não conheciam. Incontáveis horas de exposição ao televisão e ao cinema nos adestraram na linguagem cinematográfica, e conhecemos agora todos os seus acentos, pontos e inflexões.

Para entendermos que determinada sequência é um sonho, basta que o diretor mostre o protagonista despertando na cena seguinte; muitas vezes, basta menos do que isso.

Vemos um adulto caminhando pelo corredor de uma escola solitária; vemos uma criança saindo com seus amigos de alguma sala do mesmo corredor no que é evidentemente um dia animado de aula. Quando o corte seguinte leva-nos de volta à figura do adulto sozinho no corredor, entendemos imediatamente que a cena intermediária representou uma recordação: o protagonista estudou naquela escola anos atrás e a criança que acabamos de ver era ele mesmo anos antes. É inteiramente arbitrário interpretar a interpolação de uma única cena fazendo a conexão entre o passado e o presente do protagonista; em termos estritos, há dezenas de interpretações possíveis para a mesma sequência de cortes, mas o cinema trabalhou anos ensinando-os a ler suas mensagens a partir de seus próprios pressupostos e precedentes.

Num filme de longa metragem há inúmeras, quase infinitas instâncias dessas interpretações determinadas pelo idioma da montagem. Como somos muito fluentes na coisa, fazemos todas essas conexões num nível subconsciente. Longe vai o tempo em que requeríamos quadros explicativos para entender em que sentido a narrativa está caminhando.

Com o acúmulo dessa esperteza, fomos ficando impacientes. Um filme da de cinquenta anos atrás nos parece “lento” porque para estabelecer cada elemento da narrativa o diretor deixa que ele permaneça na tela por um minuto ou dois, às vezes mais. Um filme contemporâneo como Tranformers, por outro lado, tem uma montagem tão vertiginosa que alguns de seus minutos contam mais de sessenta cortes – ou seja, o espectador é submetido a mais de uma cena diferente por segundo. E, apesar dessa correria, sabemos ainda (mesmo que parcialmente) quem está sendo destruído e em que progressão; quem está correndo perigo e quantos milissegundos faltam para chegar a ajuda.

Com o passar dos anos, então, a principal questão na montagem de um filme deixou de ser transição (e portanto compreensão) e passou a ser ritmo. Diretores e montadores aprenderam a manipular ângulos e cortes de modo a valorizar determinadas sequências. A cena do chuveiro, em Psicose, comprime dezenas de ângulos num intervalo confinado de tempo e de espaço; a sequência do tiroteio na escadaria, em Os Intocáveis, manipula a percepção usual da passagem do tempo, de modo a acentuar o suspense. Graças à destreza rítmica da montagem, um minuto de ação pode durar uma eternidade, e uma eternidade pode ser eficientemente resumida num único minuto.

A fronteira final, no entanto, é mais recente, e diz respeito ao momento em que os contadores de histórias, devidamente iluminados pela linguagem do cinema, entenderam que, como toda narrativa é composta por um conjunto limitado de porções mais ou menos estanques – em dialeto de cinema, cenas, – a mesma história pode ganhar novas feições e novos pesos a partir da ordem e do ritmo em que essas porções são apresentadas ao espectador/leitor: sua montagem.

Esta percepção gerou narrativas pós-modernas como O Paciente Inglês (o romance e o filme), que conta, de modo fragmentado e rigorosamente não-cronológico, histórias vagamente cruzadas. Gerou romances como O Dicionário Kazar, que vai apresentando sua história a partir dos verbetes de um dicionário – e pode ser portanto lido em qualquer ordem, segundo o arbítrio do leitor. E gerou filmes como Amnésia e Irreversível, que escolhem expor sua narrativa em ordem cronológica inversa, começando pelo final e seguindo inexoravelmente até o começo.

Em grande escala, nenhuma obra explorou mais e melhor as possibilidades narrativas de uma montagem pós-moderna – isto é, fragmentária e não cronológica – do que o seriado norte-americano Lost. Em Lost, as percepções do espectador sobre o caráter dos protagonistas e o rumo da história vão sendo constantemente alterados pela ordem particular em que as porções passadas, presentes e futuras da narrativa vão sendo apresentadas. A ordem dos fatores altera irreversivelmente o produto.

Tomadas em conjunto, essas obras pós-modernas representam uma formidável crítica ao modo usual de interpretarmos a realidade. Nossa leitura cotidiana “dos fatos” é tão convencional e arbitrária quanto a proposta pelas convenções idiomáticas de Hollywood, e essas obras pós-modernas servem para expo-lo sem qualquer clemência.

O fato é que a partir das “cenas” que experimentamos, encenamos ou recordamos, construímos a nossa realidade com ainda mais deliberação e agilidade do que um montador de Hollywood. Todas as vezes que contamos uma história, estamos construindo a realidade; cada vez que evocamos uma recordação, estamos alterando-a.

A moral da história (e agora estou de volta ao sofá) está em que desenhos animados contemporâneos como a Pucca – agilíssimos, fragmentários, inclementes, irresistíveis, repletos de referências internas e externas, estruturados de modo a que a graça de cada cena seja explicada pela cena seguinte, e não o contrário – estão preparando novas gerações para uma leitura ainda mais sofisticada da realidade, ao mesmo tempo mais cínica e mais compassiva.

Minha sobrinha e meus primos já falam esse idioma; eu acabo de descobrir que ele existe.

NOTAS
  1. Há naturalmente transições mais suaves do que o corte seco. Uma cena pode ir desaparecendo enquanto a outra vai se sobrepondo a ela; pode ainda dissolver-se sobre um fundo preto (ou branco) e o fundo ser substituído gradativamente por uma nova cena, e assim por diante []
19 de Março de 2008

O holocausto da Alma

Goiabas Roubadas, Pense comigo

Em que fica demonstrado que a Reforma foi responsável pela destruição de todos os símbolos, pelo esvaziamento dos significados e pela materialização da experiência.

As verdades voam prontas pelo mundo, sem nome e sem rótulo, muito antes que alguém seja capaz de capturá-las no ar e articulá-las. Um artigo de um certo Peter Harrison, da Bond University, ajudou-me a solidificar uma conclusão que apenas entrevi em The Decline of Magic, de Keith Thomas.

Foram necessários 58 anos do século XX para que C. P. Snow articulasse, em The Two Cultures and the Scientific Revolution, uma condição que já seria possível diagnosticar pelo menos no século anterior: a fratura cada vez mais acentuada entre as ciências humanas e a ciência propriamente dita. “Creio que a vida intelectual da civilização ocidental está cada vez mais dividida entre dois grupos polarizados: de um lado os intelectuais literários, do outro os cientistas”. Snow fez bem em se maravilhar diante dessa ruptura, porque a filosofia, a arte e a ciência andaram juntas na maior parte da história (para demonstrá-lo bastará a análise mais superficial da produção de gente como Newton, Leonardo Da Vinci e Pascal).

A tese de Harrison é simples. Para ele, o início dessa fratura deve-se àquele momento particular da história em que, ao contrário do que acontecia anteriormente, palavras e coisas passaram a receber tratamento diferente (as palavras, sem as coisas, acabariam degenerando em ciências humanas; as coisas, sem as palavras, degenerariam em ciência).

Esse momento pode ser determinado com alguma facilidade, pois corresponde ao surgimento da Era Moderna, em algum momento processual entre os séculos XVI e XVII. A novidade da posição de Harrison (e, depois de articulada, ela me parece ao mesmo tempo elegante e evidente) está em que, segundo ele, o golpe certeiro que originou a rachadura teria vindo diretamente da Reforma Protestante – mais especificamente, das novas lentes com as quais as Escrituras passaram a ser lidas pelos teólogos e pensadores protestantes.

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