29 de Março de 2012

Esquecimento

Goiabas Roubadas

O nome do autor é a primeira coisa a desaparecer
seguido obedientemente pelo título, o enredo,
a lastimosa conclusão, o romance inteiro
transforma-se de repente num livro que você nunca leu
nem ouviu falar,

como se uma a uma as lembranças que você costumava abrigar
decidissem retirar-se para o hemisfério meridional do cérebro,
a uma vilinha de pescadores que nem telefone tem.

Há tempo você disse adeus aos nome das nove musas
e observou a equação de segundo grau fazendo as malas,
e mesmo agora, enquanto memoriza a ordem dos planetas,

alguma outra coisa está escapulindo, a árvore que simboliza um estado talvez,
o endereço de um tio, a capital do Paraguai.

O que quer que você esteja lutando para lembrar,
não está suspenso na ponta da língua
ou espreitando num canto obscuro do baço.

Já boiou para longe descendo o sombrio rio mitológico
cujo nome se sua memória não falha começa com L,
estando você mesmo a caminho do esquecimento
onde se juntará a esses que esqueceram até como nadar e andar de bicicleta.

Não é de espantar que você acorde no meio da noite
para procurar a data de uma batalha famosa num livro de guerra.
Não é de espantar que a lua na janela pareça ter resvalado
de um poema de amor que você sabia de cor.

Billy Collins

30 de Maio de 2011

Irresponsabilidade

Goiabas Roubadas

Tudo apodrece à nossa volta, é verdade.
E todas as promessas se diluem
Na atmosfera, em ondas que se afastam.
Tudo é sonho.
Tudo é mentira.
Tudo decai.
Tudo permanece em semi-vida
E de tudo irradia aniquilação.
As flores murcham no seu prazer e os frutos ficam só pelo rascunho
De um carpelo murcho e atrofiado.
Tudo permanece em silêncio, amarrado a silêncio,
Tudo silenciado, a não ser o gesto.
O teu gesto de ser, de avançar,
De acreditar sem esperar.
Tudo é esperança, tudo é lembrança,
Tudo é passado, destruído, arrasado,
Tudo morre à nossa volta,
Tudo nasce com a certeza de que terá fim.
É por isso que não somos tudo.
Estamos à parte. Tudo à nossa volta morre.
Menos nós. Ainda mais quando antecipadamente
Já morremos.
Porque a nossa decadência é a seiva que perfuma o ar
De um instante que outros sorverão com nostalgia.
Morreremos, também, um dia.
Mas outros por nós viverão
E aspirarão o doce odor da nossa irremediável, irresponsável
Utopia.
É por esse instante, que sendo nosso,
Não viveremos, que prestamos, em silêncio,
O nosso rito, enternecido,
A um Deus de Amor que é um grito.
Há no nosso sonho aflito
O renascer de um Deus para nós desconhecido.
Tudo é sonho.
Tudo é, à partida, perdido.
A não ser que o queiramos agarrar sem o merecer primeiro.
E só o merecemos se o deixarmos por nós esperar.
Tudo morre, tudo é sonho.
Tudo.
Menos nós, que não somos tudo.
Somos a parte de tudo dar.

 

Manuel Anastácio, falando Da condição humana

11 de Abril de 2011

Juramento

Ilustração



Tu dizes oh Mariquinhas
Que não crês nas juras minhas,
Que nunca cumpridas são!
Mas se eu não te jurei nada,
Como hás de tu, estouvada,
Saber se eu as cumpro ou não?!

Tu dizes que eu sempre minto,
Que protesto o que não sinto,
Que todo o poeta é vário,
Que é borboleta inconstante;
Mas agora, neste instante,
Eu vou provar-te o contrário.

Vem cá, sentada a meu lado
Com esse rosto adorado
Brilhante de sentimento,
Ao colo o braço cingido,
Olhar no meu embebido,
Escuta o meu juramento.

Espera: – inclina essa fronte…
Assim!… – Pareces no monte
Alvo lírio debruçado!
- Agora, se em mim te fias,
Fica séria, não te rias,
O juramento é sagrado.

“- Eu juro sobre estas tranças,
“E pelas chamas que lanças
“Desses teus olhos divinos;
“Eu juro, minha inocente,
“Embalar-te docemente
“Ao som dos mais ternos hinos!

“Pelas ondas, pelas flores,
“Que se estremecem de amores
“Da brisa ao sopro lascivo;
“Eu juro, por minha vida,
“Deitar-me a teus pés, querida,
“Humilde como um cativo!

“Pelos lírios, pelas rosas,
“Pelas estrelas formosas,
“Pelo sol que brilha agora,
“- Eu juro dar-te, Maria,
“Quarenta beijos por dia
“E dez abraços por hora!”

O juramento está feito,
Foi dito co’a mão no peito
Apontando ao coração;
E agora – por vida minha,
Tu verás oh! moreninha,
Tu verás se o cumpro ou não!…

Rio, 1857
Casimiro de Abreu morreu em 1860, de tuberculose,
com 21 anos de idade.

06 de Março de 2011

O monoteísmo do coração e o politeísmo da imaginação

Goiabas Roubadas

Deste modo a poesia ganhará a mais elevada dignidade, e será mais uma vez no final o que foi no princípio: a professora da humanidade. Pois não há mais filosofia, não mais história: apenas a poesia restará quando tiverem desaparecido todas as ciências e todas as artes.

Ao mesmo tempo dizem-nos com tanta frequência que a grande multidão deveria ter uma religião que apele para a sensibilidade. Porém, não é só a grande multidão que precisa dela, mas também o filósofo. Eis do que precisamos: um monoteísmo da razão e do coração e um politeísmo da imaginação.

Quero em primeiro lugar apresentar uma ideia que, até onde eu saiba, não ocorreu ainda a ninguém. Precisamos de uma nova mitologia, mas uma mitologia que esteja a serviço das ideias; deve ser uma mitologia da razão.

Antes que tornemos as ideias estéticas, isto é, mitológicas, elas não terão qualquer atração para as pessoas. Do mesmo modo, se sua mitologia não é racional o filósofo deve envergonhar-se dela. Portanto o iluminado e o não-iluminado poderão finalmente dar as mãos: a mitologia deve ser filosófica para tornar as pessoas racionais e a filosofia deve ser mitológica para tornar os filósofos gente sensível. Então a eterna unidade reinará entre nós. Não mais haverá o olhar de desprezo, não mais o cego tremor das pessoas diante de seus sábios e sacerdotes. Só então poderemos esperar o desenvolvimento igualitário de todas as potencialidades, de cade indivíduo e de todos os indivíduos. Nenhuma potencialidade será mais reprimida, e portanto reinarão universais liberdade e igualdade para todos os espíritos. Um espírito elevado enviado do céu deve estabelecer essa religião entre nós: será a última e maior obra da humanidade.

Hegel (ou quem sabe Schelling, a autoria é controversa),
em Das älteste Systemprogramm des deutschen Idealismus (cerca de 1797)

28 de Novembro de 2010

Pelo menos a humanidade

Goiabas Roubadas

É da natureza do homem simpatizar apenas com as coisas que lhe dizem respeito, que tocam-no diretamente em algum ponto – por exemplo, o infortúnio. O céu, onde reina a felicidade ilimitada, encontra-se por demais acima da condição humana para que a alma seja vivamente afetada pela bem-aventurança dos eleitos; não conseguimos nos interessar mais do que moderadamente por seres perfeitamente felizes. É por essa razão que os poetas tem tido maior sucesso em descrever os infernos: pelo menos a humanidade está ali, e os tormentos dos culpados lembram-nos das misérias da vida.

François René de Chateaubriand (1768-1848) em O gênio do cristianismo