09 de Janeiro de 2012

O aniquilamento da não-violência

Manuscritos


Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade.
Bernard Charbonneau, falando em nome do anarquista cristão Jacques Ellul

 

Aquilo que o diabo sonhou por milênios, um mundo em que não fosse mais possível viver uma vida de não-agressão, o capitalismo neoliberal possibilitou, evangelizou e metastaseou planeta afora. O nosso é um mundo em que não há mais santos, pacifistas ou mesmo gente boa. Ele foi de fato concebido, no seu ventre ideológico, de modo a que não subsista a virtude nem tenha como subsistir.

Houve épocas em que bolsões de paz e de boa vontade, muitos deles sustentados diretamente pelo sopro de Jesus de Nazaré, proveram santuário a este mundo. Os ramos da família anabatista em particular (por exemplo, os irmãos menonitas) foram por séculos os portadores de uma longa e radical tradição cristã de não-violência – inspirando e sendo inspirados por gente como Erasmo, Tolstoi, Gandhi e Martin Luther King. Um fogo semelhante nunca deixou de arder no coração da experiência católica, encarnado (por exemplo) nas paixões de Francesco, no ideal da aventura monástica e na lucidez de Dorothy Day. A não-agressão está, além disso, muito entranhada no ideário de tradições religiosas não-cristãs, em especial no budismo e no jainismo.

Esses, no entanto, foram ideais e realidades de uma outra era, açudes esgotados e sonhos anulados pela amoral capitalista. Ninguém mais é livre, por isso ninguém mais tem como dar-se ao luxo de ser bom.

Oculta por trás de multiformes manifestações e múltiplos falsos destinos, o capitalismo tem uma só regra, mas é uma regra rígida: conforme-se. Não me interessa o quê, consuma. Acredite no que quiser, apenas compre. Quem não sabe comprar deve ser ensinado a aprender, e as culturas e pessoas que não estão interessadas em consumir ou em impor seu modo de vida às demais estão condenadas à execração e à morte social, cultural e econômica.

Resistir é inútil. A função da propaganda (e a propaganda ocupou cada centímetro do espaço social) é evangelizar você com a má nova de que você não é feliz, e de que não terá como ser feliz até aprender a comprar o quanto baste, isto é, sem parar. Olhe pra você. Você está longe de ter toda a autorrealização que pode comprar. Para imprimir credibilidade à sua mediocridade você deve consumir. Para se destacar você deve fazer como todos.

A questão central, que as luzes do shopping simplesmente não nos deixam enxergar, é que consumir é agredir, especialmente num mundo interligado como o nosso. Não restam pessoas pacíficas entre nós, nem uma sequer. Não há gente não-violenta, porque todos consumimos.

Há inúmeros sentidos em que, dentro de um capitalismo global, consumir é agredir. Talvez baste citar dois.

Primeiro há a questão dos recursos naturais, e mesmo aqueles dentre nós que creem que o espírito empreendedor não tem limites deveriam poder entender que os recursos têm. Se 20% da população da Terra consomem 80% dos recursos disponibilizados pelo planeta, resulta em primeiro lugar que os bem-sucedidos dentre nós são os que desfrutam muito desautorizadamente do que não é seu. Não importa o que você acredite, o seu MBA não o qualifica a usar o recurso planetário que pertence tanto a você quanto ao seu irmão de um dos sertões do mundo. Na marca dos 7 bilhões de condôminos, a Terra é um cortiço que está ficando pequeno, e nesse condomínio uma minoria dilapida segundo os seus (os nossos) próprios caprichos um patrimônio que é comum, e despeja ao mesmo tempo o seu (o nosso) lixo sobre a cabeça de uma minoria que absolutamente não é responsável por ele.

Além disso, a presente taxa de utilização dos recursos naturais representa não apenas um ultraje para o presente, para gente que está viva agora, mas uma ameaça para o futuro – uma ameaça para os que nascem hoje e terão de encontrar espaço de vida e de dignidade amanhã. Não há como não concordar com os que alertam que é tarde demais para ser pessimista: “sustentável” é menos uma diretiva do que um sonho. Sustentável é o que o futuro seria na melhor das hipóteses, se o nosso presente também fosse. Consumir é agredir porque é de fato consumir, fazer desaparecer – é queimar um mundo que não nos pertence, e como se não houvesse amanhã.

Em segundo lugar, consumir é agredir porque, num espaço de produção globalizado, você não é obrigado a testemunhar as injustiças que patrocinam os seus hábitos de consumo. O capitalismo não apenas alienou o trabalhador do fruto do seu trabalho, conforme diagnosticado por Marx, mas separou também o consumidor da realidade do valor e da produção. Amigo, nada neste mundo custa 1,99. Tudo neste planeta é muito valioso. Tudo é caríssimo, em especial as horas-gente e as horas-futuro, que são horas-vida. Acredite, a máquina fotográfica que você tem no bolso é uma milagre e o seria em qualquer tempo e qualquer universo; se você paga por ela coisa de 30 almoços é porque alguém está pagando o restante do valor – e via de regra é o chinês apertado numa fábrica, com as mesmas condições de conforto e o mesmo espaço para se esticar que o frango industrial de que você comprou ontem o filé. E os operários em todo o mundo se sujeitam a esse tipo de indignidade apenas porque vendemos a eles, constantemente e com toda a eficiência, o sonho de aprenderem a comprar com a mesma eficácia que nós mesmos. E quem não gostaria de estar no nosso lugar? Todos os que consumimos, de iPads a goiabinhas Piraquê, somos senhores de escravos.

Desse modo não é difícil entender, com Jean Baudrillard, porque discriminação e exclusão são consequências diretas e imediatas da globalização. O capitalismo tecnológico quer impor sobre as culturas e sobre os indivíduos uma solução de vida sem verdadeira alternativa; todos os que não se submetem ou não desejam esse modo de vida estão por definição discriminados e excluídos. E mesmo os que se sujeitam a desejar a solução indiferenciada tem de submeter-se ainda à pedra de moer da eterna insatisfação: a máquina capitalista só funciona enquanto e porque todos nos sentimos pelo menos um pouco discriminados e excluídos, e entendemos que o consumo do produto almejado nos curará dessa inadequação. Gente satisfeita com o que tem (ou com o que não tem) representa a morte do capitalismo; não é à toa que o capitalismo esteja tão bem de saúde.

Não foi à toa que Gandhi entendeu depressa que para abraçar adequadamente o ideal da não-agressão não bastava baixar as armas e oferecer a outra face: era preciso afastar-se deliberadamente das cadeias do consumo e adotar um modo de vida ao mesmo tempo responsável e sustentável. Ele intuiu que a verdadeira não-violência, no seu sentido mais radical da coisa, requer consumir o que se planta, vestir o que se fia, assumir a responsabilidade pelo próprio lixo, abrir mão das ilusões do consumo, abandonar as armadilhas da novidade e ignorar a ficção útil da propriedade privada1. E o capitalismo está construído de modo a que você permaneça convencido de que não tem liberdade para fazer qualquer uma dessas coisas.

A perfeição do mecanismo está em que somos nós mesmos nossos catequizadores. Nosso modo de vida insiste, na verdade ele comprova, que não existe uma alternativa ao moinho do consumo. Você não é livre e jamais será, mas não vai sentir falta da liberdade enquanto estiver com um cartão de crédito ou sonhando com um.

Como resultado, a violência foi efetivamente institucionalizada, tendo se tornado o combustível até mesmo dos mais inocentes. A liberdade que temos, quando temos, é a de escolher, a cada momento, a agressão menor – e mesmo essa frágil decisão está se tornando cada vez mais difícil e improvável. As cadeias são cada vez mais eficazes e os encadeamentos cada vez mais complexos. Quem pode nos ensinar a viver de outra forma? Somos paupérrimos, só sabemos comprar para viver. O ciclo de agressão da produtividade e do consumo está entranhado em tudo que fazemos, tudo que desejamos, tudo que sonhamos. Os mais carolas, amantes de paz e inofensivos dentre nós patrocinam a agressão aberta e foram para sempre maculados por ela. Somos todos cúmplices e vítimas da mesma violência capital.

A tragédia está em que o amor não foi capaz de nos unir, mas a complacência universal com a injustiça nos tornou irmãos. Somos a máfia, e na máfia todos se cuidam, para que a máfia não tenha como mudar. Da máfia ninguém sai.

NOTAS
  1. Uma aspiração e um recuo semelhantes caracterizam o movimento evangélico do neomonasticismo. []
17 de Outubro de 2011

Dexter Morgan, padroeiro do século XXI

Manuscritos, Recomendações

Não chegou até mim arte televisiva contemporânea mais bem escrita do que Dexter, o seriado norte-americano sobre um assassino em série que mata assassinos em série. E não se trata só dos enredos bem amarrados, do uso inteligente e bem-humorado das narrações em off, das ambições shakespearianas dos arcos narrativos e da construção de edifícios de suspense mais altos do que se considerava humanamente concebível. Há a questão do discurso além do discurso, a questão de um arranque criativo semiconsciente que mostra-se tanto uma precisa captura do espírito da época quando uma inclemente reflexão sobre ele.

Sinto-me tentado a escrever volumes sobre Dexter; permita-me impor uma página ou duas.

Dexter, sumo sacerdote da violência redentora

Os norte-americanos, ainda mais do que o restante dos homens, são obcecados com as possibilidades redentoras da violência. Dessa obsessão nascem as paixões nacionais pela pena de morte, pelos super-heróis, pelas glórias militares, pelos filmes de terror, pelo oeste sem lei. A mesma fé no poder redentor da violência inspira os adeptos do vigilantismo (aquelas ordens civis que fazem a justiça com as próprias mãos), inflama os tiroteios suicidas nas escolas e anima as aspirações dos assassinos em série.

Em sua qualidade de assassino impiedoso de assassinos impiedosos, Dexter Morgan é a encarnação de todas as seduções dessa teologia. Impossível não dobrar-se de prazer quando o Dexter elimina um criminoso culpado com a mesma minuciosa crueldade com que o criminoso que está sendo eliminado costumava matar gente inocente. Há algo de irresistivelmente justo e congruente e libertador nessa simetria; como seres humanos somos incapazes de resistir a uma história que nos conduza até um lugar em que ela possa ser devidamente celebrada.

Dexter nos leva a esse lugar todas as vezes. Quando deixamos de acreditar nas possibilidades da justiça efetuada pelas mãos de homens, não é como se não tivéssemos um sumo sacerdote que se compadecesse de nós. Dexter, que o rubro céu o proteja, é a incorporação da guerra justa e da violência redentora justamente quando podíamos ser tentados a deixar de acreditar nela. Pelos heróis que nascem banhados em sangue, rogai por nós.

Dexter, patrono do gerenciamento de múltiplas identidades

Desde pelo menos Jekyll e Hyde, de cujo legado se apropriaram tantos super-heróis e supervilões, a ficção tem brincado com as possibilidades metafóricas e dramáticas de uma dupla identidade. O jogo cambiante das máscaras pode ser, na verdade, retraçado como o mistério impulsionador de todo teatro e de todo o drama.

Porém, com a extravagante entrada em cena da internet, vive-se o primeiro momento da história em que o homem comum pode se ver pessoalmente envolvido com as tentações e complicações do gerenciamento de identidades. A internet, que é repleta de destinos mas não confere passaportes, é um um convite aberto para que desenvolvamos vários rostos.

É coisa mais do que corriqueira cultivar mais de um blog, sustentar mais de uma conta no Google ou usar nomes diferentes em diferentes redes sociais, cada uma dessas instâncias voltada para um interesse ou para um público. Há o cara da foto no Facebook, que pode não querer usar o mesmo nome quando entra num ambiente da internet em que se folheia pornografia, em que se compartilha conteúdo pirata ou em que se discute a sua preferência sexual. Na verdade, cada vez que precisa escolher um nome de usuário você está sendo convidado a assumir uma nova identidade, a desenhar um novo círculo que não necessariamente interceptará aqueles que em você, sob algum nome, já existe.

Na prática, as contas de usuário servem menos para proteger a sua privacidade do que para orientar a publicidade que será despejada na sua direção, mas a sedução de cada nova máscara permanece. Ninguém precisa mais contentar-se em ser uma pessoa só1.

Na narrativa de Dexter, a centralidade do problema do gerenciamento de identidades reflete as complicações dessa nossa nova condição. Dexter é na luz do dia um policial quietão mas gente boa, profissional de primeira, amigo leal e pai de família, mas no abrigo da noite persegue sem trégua a sua obsessão, o “passageiro sombrio” que exige recorrentes derramamentos de sangue para manter-se mais ou menos sob controle. Nas histórias de super-heróis a problemática da identidade dupla é em geral tratada com leveza de farsa e descartada sem maiores problemas, mas a iminente e impensável sobreposição de mundos opostos é o que define toda a tensão na trajetória de Dexter.

Acompanhamos os seus trabalhos no sentido de manter as suas esferas separadas, mas entendemos simultaneamente que ninguém tem como manter partes de si mesmo independentes por tempo indeterminado. Por outro lado, as ferramentas da internet tem nos dado tamanha tarimba na prática da compartimentalização que nos tornamos incapazes de considerar como desejável a perspectiva de abrir mão de qualquer uma de nossas identidades paralelas.

Se o grande desafio da maturidade psicológica é o que Jung chama de individuação – o processo de nos tornarmos um in-divíduo, harmonizando num todo não-dividido as partes de nós mesmos que vivem em esferas separadas, – Dexter serve de formidável parábola sobre as dificuldades desse processo na presente experiência. Os dois mundos de Dexter não têm como colidir sem catástrofe; da mesma forma, temos aprendido a sustentar uma árvore inteira de narrativas pessoais que em outro tempo seriam consideradas irreconciliáveis. Pelos desafios do gerenciamento de identidades, rogai por nós.

Dexter, santo protetor dos alienados e perplexos

O aspecto mais ressonante e original da narrativa de Dexter, no entanto, é sua alienação essencial do mundo que o rodeia. Tendo sua estrutura psíquica precariamente organizada depois de sobreviver a um devastador trauma de infância, Dexter não sabe e não entende o que o mundo exterior espera dele. Não sabe sentir ou agir “naturalmente”. Suas reações são todas simuladas, fundamentadas na observação. Incapaz de encontrar dentro de si uma fonte genuína de convicção e de sentimento, seu método é oferecer em cada momento ao mundo o que ele imagina que o mundo espera dele naquele momento – e surpreende-se quando funciona na maioria dos casos. As pessoas ao seu redor o tomam por um cara um pouco esquisito mas simpático, sensível e de confiança – porém ele mesmo entende ser uma completa farsa.

É por esse milagre, pela sua ascendência como ícone espetacular de nossa própria alienação essencial, que vejo em Dexter a figura altaneira do padroeiro deste século.

Eis um cara que, como grande parte de nós, ou como todos nós grande parte do tempo, relaciona-se com o mundo como um observador, não como um participante. Dexter vive imerso numa experiência que lhe parece inteiramente estranha e impenetrável. Não tendo sido poupado de enxergar o caráter arbitrário e artificial das reações e princípios que tomamos por naturais, ele aprendeu a resignar-se a olhar o mundo com o fascínio e o horror com que observaríamos uma civilização extraterrestre.

O poder da metáfora está em que, devido a uma vasta cadeia de causas interligadas, nenhum conceito representa com mais acerto a condição do habitante deste milênio do que este: alienação. Não importa quão saudável ou natural lhe pareça o seu cotidiano, nosso próprio modo de viver está inteiramente permeado de pacotes de estranheza e de distanciamento. Karl Marx entreviu o capitalismo como fonte inexorável de alienação, mas absolutamente não tinha como prever os extremos vertiginosos aos quais içaríamos essa tendência.

Não há como não identificar-se em alguma medida com Dexter e sua precária relação com um mundo alheio e indecifrável. Tornamo-nos, no modo que vida que aprendemos a tolerar, gente assim. Como os personagens de um mau filme de ficção científica da madrugada, aprendemos a nos relacionar uns com outros e com o mundo pela intermediação de máquinas, tendo perdido a arte do contato direto com o que quer que seja. Nada no mundo real gera em nós uma verdadeira conexão, e todas as nossas reações dentro dele são simuladas. Onde deixei o meu celular? Pelo horror de um mundo que não nos diz respeito, rogai por nós.

NOTAS
  1. Na verdade, uma pequena e inflamada revolta coletiva permanece sendo lançada contra o recém-lançado Google+, porque essa rede social exige formalmente (ao contrário do que na internet é a prática usual) que seus usuários utilizem o seu nome verdadeiro para identificar o seu perfil. Depois que aprendemos a viver sob a luz eles, a treva do banimento dos pseudônimos nos parece inteiramente incompreensível e inaceitável, coisa que se espera mais de um governo totalitário do que de uma corporação moderna e antenada. []
15 de Janeiro de 2011

Os pássaros de Beebe

Goiabas Roubadas

E que dizer dos milhares de pássaros que morreram de repente em Beebe, no Arkansas, na véspera de Ano Novo? Alguns dizem que foi causado por fogos de artifício. Outros afirmam que é mais provável que tenha sido granizo ou relâmpago. E, naturalmente, sempre haverá os que atribuirão o ocorrido àqueles impertinentes alienígenas (porque não nos deixam em paz?).

Ora, outra opção foi recentemente trazida para a mesa para nossa cuidadosa consideração. Cindy Jacobs, amplamente respeitada como profetisa em círculos carismáticos, produziu um vídeo em que sugere que o bizarro acontecimento foi um sinal de Deus expressando sua desaprovação diante da recente revogação da política “Don’t Ask Don’t Tell” (que proibia os homossexuais de declararem abertamente a sua orientação enquanto servissem nas forças armadas norte-americanas). Como evidência para confirmar a sua conclusão, Cindy observa que a política foi colocada em vigor pelo presidente Bill Clinton, que – talvez recorde o leitor – é natural do Arkansas.

Tomou?

Vamos deixar claro, minha gente, o que implica essa revelação. Aparentemente Deus NÃO VÊ problema em nossas operações militares em geral. Nenhum pássaro foi sobrenaturalmente abatido quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, o Afeganistão, Granada ou lançaram a bomba em Hiroshima. E, pelo que sabemos, nenhum pássaro foi abatido diante do nosso orçamento militar de meio trilhão de dólares, enquanto um bilhão de vizinhos carece de alimento e de abrigo no nível mais básico. O Todo-Poderoso não vê problema nisso. Foi só depois que permitimos que nossos soldados homossexuais deixem de dissimular que ele desfechou o massacre de pássaros de Beebe.

Basicamente, todos esses pássaros abatidos foram o modo que Deus encontrou para dizer: “Soldados, podem continuar matando, mas voltem já para o armário!”

Gente, quantos pássaros inocentes vão ter de morrer antes que aprendamos essa lição?

Greg Boyd, em seu blog

13 de Outubro de 2010

A pastoral do medo

Divino preconceito, Política, Sociedade

Há um bom motivo pelo qual o alarmismo é contagioso e irresistível, e se espalha como a peste pelas veias da internet; há um motivo pelo qual os pregadores invariavelmente demonizam seus adversários, e afirmam haver gigantes insaciáveis onde ficará demonstrado haver moinhos de vento: semear o medo torna as pessoas vulneráveis, e gente vulnerável pode ser manipulada.

O medo só é capaz de dominar quem tem alguma coisa a perder; quem não tem nada a perder não tem a nada temer. Esta é uma equação delicada, especialmente num país como o Brasil, em que a distribuição de renda está entre as dez mais desiguaisA igreja vive de elencar os medos que a sociedade deve ter. do mundo (e é um mundo grande): há sempre o risco de que os que não tem nada a perder se levantem contra os que tem tudo a perder.

Em todo o mundo, mas especialmente num país com a nossa história, a classe média ocupa mais ou menos o espaço que ocupava a nobreza nos tempos medievais e coloniais. E, como sabemos o que aconteceu à nobreza em insurreições como a Revolução Francesa, a classe média adentrou a era moderna imbuída de um medo que lhe é absolutamente característico e essencial: o medo da perturbação social.

A classe média sabe desejar o progresso e é capaz de assimilar a mudança, porém (exatamente como a nobreza antes dela) tem absoluto horror à desordem. Seu mundo de shopping centers, de ambientes de ar condicionado e de seguranças na porta (a fim de manter os incompatíveis à distância) deve ser resguardado a todo custo. Passeatas, quebra-quebras, invasões de sem-terra, ladrões que levam o iPad e revoluções de gente faminta devem pertencer ao domínio ilustrativo dos filmes de zumbi. Na verdade, já o constrangimento de ser abordado por uma criança de rua na esquina deve ser aplacado pelo uso preventivo de carros blindados e vidros escuros.

A estabilidade social, entendida como a manutenção de um estado de coisas em que uma minoria administre e se beneficie de recursos que são de todos, é o valor por excelência da classe média. Não há outra verdade eterna que ela esteja disposta a defender.

O medo da perturbação social, no entanto, é genérico demais e precisa encontrar ícones que os encarnem de modo satisfatório. É preciso pulverizar o nosso medo essencial atribuindo-o a culpados e demônios.

E, se quisesse manipular nos nossos dias uma burguesia absolutamente aterrorizada diante da possibilidade de perturbações sociais, que alvos você elegeria? Deixe-me ajudá-lo: elejamos os homossexuais, os que defendem o aborto, os sem-terra, os comunistas1.

Cada uma dessas categorias representa, à sua maneira, uma formidável possibilidade de perturbação social; cada uma, à sua maneira, materializa uma ameaça à tranquilidade O que a classe média teme são perturbações sociais. sanitizada do indefectível universo burguês, em que nada é sujo, nada é feio, nada é controverso e nada é constrangedor.

E que ameaça maior do que um mundo em que a união civil entre homossexuais denuncie diariamente o caráter relativo e historicamente determinado de soluções de convívio que a sociedade toma por normativas? O que parecerá mais perturbador do que um mundo em que gente do sexo masculino ouse definir a sua relação mútua pela afetividade e não pela agressividade e pela competição? Um mundo em que mulheres ousem prescindir do homem para encontrar a sua satisfação sexual e emocional?

Do mesmo modo, será preciso avaliar a ameaça de um mundo em que o aborto exista sequer como possibilidade. Porque este mundo irá postular como legítimo que a mulher exerça controle sobre seu próprio corpo e sobre seu próprio prazer, e esses domínios pertencem por tradição ao âmbito do seu homem.

E que dizer dos sem-terra e dos comunistas, que blasfemam do próprio capitalismo e querem virar o mundo do avesso, ignorando os privilégios milenares da propriedade, da classe social e do lucro, e isso em favor de uma ameaça tão declarada quanto a “igualdade social”? O que pode ser mais inaceitável do que esse ataque direto à estabilidade – à própria existência – do mundo entrincheirado da burguesia2?

Se é para preservar o presente mundo das perturbações sociais, será necessário negar qualquer igualdade de direitos civis aos homossexuais, chamando sua demanda de ditadura gay; será preciso abominar o aborto acenando com a bandeira pró-vida, ao mesmo tempo em que escondemos atrás dela os recursos que financiam a morte nas guerras e o horror das crianças vivas que passam fome patrocinada pelo capitalismo; será preciso rejeitar qualquer iniciativa que altere desfavoravelmente (para nós) a distância de segurança entre as castas, tachando-as de paternalismo, assistencialismo, compra de votos e introdução gradual da doutrina comunista3.

Pelo menos desde a Idade Média o papel da igreja foi fundamental na definição e na propagação de medos expiatórios como esses. Num sentido muito profundo, a igreja vive de elencar os medos que a sociedade deve ter. Coube tradicionalmente a ela fornecer os demônios cuja execração garanta a continuidade do estado de coisas – e resguarde, no mesmo pacote, a influência que a própria igreja exerce sobre as pessoas.

Aqui está Jean Delumeau, notável mapeador de medos, falando da cidade sitiada que era a sociedade medieval:

Os homens da igreja levantaram os males que [Satã] é capaz de provocar e a lista de seus agentes: os turcos, os judeus, os heréticos, as mulheres (especialmente as feiticeiras). Operaram uma triagem entre os perigos e assinalaram as ameaças essenciais, isto é, aquelas que lhes pareceram tais, levados em conta sua formação religiosa e seu poder na sociedade. Uma ameaça de morte viu-se assim segmentada em medos, seguramente temíveis, mas “nomeados” e explicados, porque refletidos e aclarados pelos homens da igreja. Essa enunciação designava perigos e adversários contra os quais o combate era, se não fácil, ao menos possível, com a ajuda da graça de Deus. Desmascarar Satã e seus agentes e lutar contra o pecado era, além disso, diminuir sobre a terra a dose de infortúnios de que são a verdadeira causa. Essa denúncia se pretendia, pois, liberação, a despeito – ou melhor por causa – de todas as ameaças que fazia pesar sobre os inimigos de Deus desentocados de seus esconderijos.

Basta que se troquem os rótulos – saem turcos, judeus, heréticos e feiticeiras e entram comunistas, homossexuais, feministas e muçulmanos – para que se veja que a igreja permanece elegendo “ameaças essenciais” de modo a beneficiar-se do pavor que a sociedade tem de perder os privilégios da familiaridade.

A igreja formal contemporânea dispõe de uma parcela de poder infinitamente menor do que a medieval, mas isso não torna os seus esforços menos enfáticos. Ao contrário, para resguardar o pouco poder que lhe resta, os homens da igreja se entregarão com paixão inquisitorial à tarefa de elencar demônios e exercer sua faculdade autoimposta de polícia social. E, como observado por Delumeau, parte essencial dessa estratégia é manter os cristãos com uma certa dose de medo de si mesmos – medo de serem contados entre o inimigo, medo de não defenderem com suficiente ardor uma pureza nominal, medo da rejeição institucional e de seus preços.

O problema de uma comunidade dominada pelo medo é que ela pode ser manipulada a ceder a gravíssimas injustiças em nome da preservação de sua tranquilidade idealizada. Dessa forma a Alemanha abraçou de bom grado o discurso nazista, por medo das perturbações sociais encarnadas na ameaça do comunismo e numa suposta dominação judaica mundial. Dessa forma a Itália dobrou-se servilmente ao fascismo e o Brasil à ditadura militar, porque esses autoritarismos berravam ameaças de uma impensável sublevação e de uma horrendo nivelamento societário. E, como era de se esperar, esses movimentos de terror contaram com o apoio aberto – e, em alguns casos, o constrangido silêncio – da igreja.

Em que somos menos manipuláveis do que a Alemanha nazista, se tememos as mesmas coisas? Os nazistas temiam que os judeus imprimissem no mundo seus valores, sua supremacia e sua estética, e nós tememos que os homossexuais implantem nele a sua agenda; os nazistas temiam que os comunistas aplainassem as classes ao ponto de uma completa descaracterização nacional, e nós tememos a mesma coisa. Somos nós a cidade sitiada, e o que nos conforta são os gritos do clero explicando o que devemos temer – e assim o que devemos odiar.

A ironia da participação da igreja na disseminação desses terrores está em que o movimento cristão nasceu e se desenvolveu num ambiente caracterizado por formidáveis perturbações sociais. Jesus ganhou fama de rei numa Palestina ocupada em que vinham periodicamente à tona levantes e guerrilhas dirigidas contra os romanos e sua opressão imperialista. O Templo dos judeus não sobreviveu ao sangrento confronto do ano 70 desta era, e poucas décadas mais tarde os próprios cristãos viram levantar-se contra o seu mundo uma longa e implacável perseguição.

Ainda mais paradoxal é reconhecer que, se devemos dar crédito ao Novo Testamento, a maior e mais radical fonte de perturbação social naqueles anos foi o próprio movimento cristão. Dos apelos de João Batista por justiça social até as mesas comunitárias do livro de Atos, passando pelos confrontos de Jesus com todas as elites do seu tempo, o movimento do reino representou uma intransigente e contínua sublevação societária.

Em conformidade com a herança de seu mestre (e causando o mesmo tipo de constrangimento), os colonos do reino levavam por onde passavam as demandas por justiça, por fraternidade universal e pelo amor incondicional entre os homens. Quando a boa nova chegou a Tessalônica, na pessoa de Paulo e Silas, seus adversários não poderiam ter escolhido melhor as palavras para descrever a ameaça de perturbação social que representavam: “esses que estão virando o mundo de cabeça para baixo chegaram também aqui”.

Quando adotamos o discurso do medo, portanto, estamos tentando imprimir sobre a proposta impoluta e subversiva do reino marcas que são incompatíveis com a sua essência e com a sua herança. Porque o Novo Testamento não deixa espaço para dúvida: igreja não é quem teme a perturbação social, mas quem a provoca. Igreja não é quem promove o medo, mas quem o aplaca e o anula pela inclusão e pelo amor. “O amor lança fora todo o medo”, ousou proclamar a provisão imprudente do Espírito.

E nós, o que fazemos? Enquanto a igreja exemplar do livro de Atos aprendia, passo a passo, a incluir o diferente e o tido previamente como inaceitável (a mulher, o aleijado, o eunuco, o gentio), nós demonizamos como inaceitável o homossexual. Enquanto a igreja exemplar do livro de Atos adotava todo o tipo de medidas distributivas e postulava um reino definido pela equidade, nós condenamos como comunismo e como Satanás a mínima provisão que vise apenas desbastar os abismos da distribuição de renda.

E nisso, que fique muito claro, vamos escolhendo aqueles medos que nos mantenham a salvo da nossa vocação.

Leia também:
Ainda sobre a ameaça muçulmana
Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente

 

NOTAS
  1. Na Europa e nos Estados Unidos seria necessário incluir nesta lista os muçulmanos e os imigrantes. []
  2. Uma sociedade justa é uma em que, por definição, não existe mão de obra barata. Conversei esta semana com um empresário que estava estarrecido diante da sua dificuldade de encontrar gente disposta a trabalhar na base da pirâmide pelo salário que ele costumava oferecer. Diante de seguranças de fundo como Seguro-Desemprego e Bolsa Família, os desqualificados do sistema estão pensando duas vezes antes de se submeter a uma posição desumanizante e pouco promissora. Esse empresário sentia-se pressionado a ou aumentar os seus salários ou diminuir a sua margem de lucro, e ambas as soluções o apavoravam, porque emblemavam e estavam fundamentadas numa perturbação social. Seu mundo de enriquecimento rápido baseado na submissão voluntária dos mais fracos estava sendo ameaçado, e seu patrimônio corre o risco de não dobrar nós próximos anos. Nada o deixava mais desconcertado e temeroso. []
  3. Pode ser necessário lembrar que o anarquista que existe em mim recusa-se a reconhecer a legitimidade de soluções legislativas ou políticas para quaisquer dessas questões. Na verdade rejeito a supremacia de qualquer solução política. O que reconheço é que o movimento colocado em movimento por Jesus e por suas testemunhas (movimento que aclamava contra o senhorio de César um rei primeiro descalço, depois invisível, e maquinava a implantação nesta terra de um reino que não é deste mundo) pressupõe e instaura o fim de todos os governos. []
30 de Setembro de 2010

O Jesus pugilista desafia o Cordeiro

Goiabas Roubadas

Numa entrevista que deu há alguns anos para a Relevant Magazine, Mark Driscoll (conhecido pastor de Mars Hill, em Seattle) afirmou:

Em Apocalipse, Jesus é um boxeador profissional com tatuagem na perna, espada na mão e o empenho de fazer alguém sangrar. Esse cara eu consigo adorar. Não consigo adorar o Cristo hippie, de fralda e de aura, porque não consigo adorar um cara que eu mesmo surraria com facilidade.

Tenho dificuldade em entender como um discípulo de Jesus pode se considerar incapaz de adorar um cara que “surraria com facilidade”, sendo que cada discípulo de Jesus já o crucificou. Também não consigo enxergar o que há de digno de adoração em alguém que empunha uma espada “com o empenho de fazer alguém sangrar”. Dito isso, não me surpreende que Driscoll acredite que o Apocalipse apresente Jesus como um “boxeador profissional”. Essa imagem violenta de Jesus, fundamentada numa interpretação literalista de Apocalipse, é muito comum entre cristãos conservadores, tendo sido em especial popularizada pela notavelmente violenta série Deixados para trás.

O aspecto mais infeliz dessa leitura errônea, como revela o comentário muito explícito de Driscoll, é que o retrato de Jesus como “boxeador profissional” facilmente perverte o Jesus dos evangelhos, que escolhe morrer de amor por seus inimigos em vez de usar seu poder contra eles, e que manda que seus discípulos façam o mesmo (ver, por exemplo, Mateus 5:43-45; Lucas 6:27-36). Na verdade, lendo-se com cuidado essas passagens percebe-se que Jesus faz de amar os inimigos e de rejeitar toda a violência o pré-requisito para sermos considerados filhos de Deus. Amar os inimigos como ordenado por Jesus (e pelo restante do Novo Testamento; por exemplo Romanos 12:14, 17-21; 1 Pedro 2:21-23) requer que crucifiquemos o impulso de recorrer à violência, enquanto o modelo de Jesus como “boxeador profissional” com “o empenho de fazer alguém sangrar” permite que nos entreguemos candidamente a ele. Se podemos descartar o Jesus amante da paz como “um Cristo hippie, de fralda e de aura,” estamos também livres para infligir vingança sobre nossos inimigos a nosso bel prazer – sentindo-nos inteiramente justificados nisso.

Ora, não há como negar que o livro de Apocalipse está cheio de imagens de violência. Porém a interpretação literal dessas imagens não apenas contradiz o Jesus dos evangelhos e o ensino de não-violência do restante do Novo Testamento, mas ignora também o gênero e o contexto histórico do livro. Não apenas isso, a abordagem literal de Apocalipse deixa de atentar para os detalhes do uso que João faz uso de simbolismo apocalíptico e do Antigo Testamento.

Por exemplo: como já observado por uma multidão de estudiosos, Jesus não traz a sua espada em punho, como alega Driscoll; ela, ao contrário, sai da sua boca (1:16; 2:16; 19:15,21), querendo dizer que Jesus derrota seus inimigos pelo mero ato de falar a verdade. Do mesmo modo, os santos não alcançam a vitória através de armas físicas, mas pelo “sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho” (12:11). Na mesma linha, é significativo que na cena climática de batalha em Apocalipse 19, o guerreiro Jesus vista uma túnica banhada de sangue mesmo antes que a batalha comece (versos 13 e seguintes). O sangue, muito claramente, não é de seus inimigos, que ele está ainda por combater. O que o simbolismo sugere, em vez disso, é que Jesus vai à batalha e em última instância reina supremo pelo derramamento de seu próprio sangue.

Isso está relacionado diretamente com aquela que talvez seja a imagem mais importante do livro. É crucial entender que o guerreiro banhado de sangue que batalha com as palavras da verdade é o Cordeiro abatido de Deus (por exemplo, 5:6-13). O Cordeiro assenta-se no trono e é o único “digno” de abrir o livro que revela o modo de Deus governar o mundo e derrotar a perversidade. Na verdade, muitos estudiosos argumentam que todo o propósito do livro do Apocalipse é defender diante das críticas o modo divino, sacrificial e semelhante a um cordeiro, de vencer o mal. Ou seja, o método de Deus, de vencer o mal pela disposição de morrer em vez de conquistar pela violência, deixa a impressão de que ao longo da história ele esteja sendo derrotado – porém todos verão que ele triunfa no final.

De qualquer modo, se interpretamos o Apocalipse em conformidade com seu gênero e dentro de seu contexto histórico original, e se atentamos para os modos engenhosos com que João utiliza o simbolismo tradicional, fica claro que João está se apropriando das imagens violentas do Antigo Testamento e dos apocalipses e revertendo-as por completo. Sim, há uma guerra de agressão e há derramamento de sangue; esta, porém, é uma guerra em que o Cordeiro e seus seguidores triunfam porque lutam contra o diabo e contra a Babilônia (representando todos os sistemas de governo) entregando fielmente suas vidas por amor à verdade – “o sangue do cordeiro e a palavra do testemunho deles”.

Gregory A. Boyd, em seu blog