28 de Julho de 2006

O culto do ócio

Brasil, Sociedade

Antes de encerrar esta série sobre o papel do espírito protestante na formação e na glorificação do capitalismo (a despeito do choque muito evidente com a pregação de Jesus a respeito da acumulação de riquezas), não tenho como não enfatizar que tudo que discutimos até aqui aplica-se diretamente apenas às nações ocidentais do hemisfério norte.

Nosso aquário ideológico aqui no Brasil é outro, e é apenas recentemente (digamos, sessenta anos) que a pregação americana do culto da perfomance tem alcançado verdadeira penetração entre nós – especialmente na metade meridional do país e nas capitais em geral – e, mesmo assim, com assimilação e resultados mistos.

Eu não ganho pra isso.

Graças a uma colonização diferente, o que professamos e praticamos aqui é uma postura virtualmente oposta a de americanos e europeus: eles têm o culto da performance, nós temos o culto do ócio.

Fomos colonizados por senhores católicos e portanto latinos; o espírito protestante não deixou mais do que uma marca de dente nos anos da nossa história colonial. Nossos colonizadores criam de todo o coração em desfrutar das riquezas deste mundo, mas desconfiavam com a mesma convicção do mérito do trabalho. Sujar as mãos era coisa de escravo, e trocar a nossa roupa e dar-nos banho trabalho de criado. A agenda do senhor colonial era bocejar entediado, fazer o filho de cada dia, olhar pela janela e ver o espetáculo dos que davam o sangue para acumulhar riquezas em seu nome.

O culto do ócio é a crença de que feliz mesmo é quem é rico sem ter de trabalhar. Pela sua onipresente influência, vivemos todos no Brasil a eterna expectativa de ganhar na loteria, de arranjar algum emprego público, de granjear um cargo de confiança, de encontrar o padrinho perfeito, de descansar numa aposentadoria precoce. Eu não ganho pra isso – é sua rancorosa profissão de fé.

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29 de Maio de 2006

O culto da performance

Fé e Crença, Sociedade

Não falta quem discorde da tese de Weber de que a teologia calvinista acabou precipitando inevitavelmente a ascensão do capitalismo. A dúvida parece estar em se a ética protestante ocasionou o capitalismo ou se meramente facilitou-o. No que me diz respeito já é suficientemente desconcertante que ela não o tenha evitado.

Mesmo quem desconfia das conclusões de Weber não tem como negar que a rápida expansão do comércio e a ascensão do industrialismo coincidiram precisamente com o incêndio revolucionário da Reforma Protestante. Para o bem ou para o mal de sua reputação, a trajetória do cristianismo evangélico/protestante foi desde o princípio associada a uma postura agressivamente mercantilista, e o sucesso histórico dessa conjunção protestantismo/capitalismo é espetacularmente epitomizado nos nossos dias pelos Estados Unidos.

A expansão do comércio e a ascensão do industrialismo coincidiram com a Reforma Protestante.

Assim que surgiram em cena, na verdade, os protestantes roubaram do o mundo católico o monopólio da transação comercial e do fluxo de riquezas. Os agilíssimos holandeses, com o sucesso enxuto de suas gêmeas Companhias das Índias (Orientais e Ocidentais), desbancaram com facilidade os católicos portugueses – sendo que Portugal é que havia inaugurado e colocado em funcionamento a primeira rede comercial verdadeiramente internacional, com ramificações em todos os continentes.

A ascensão dos holandeses foi a primeira manifestação inequívoca de uma tendência que não seria mais revertida. A partir daquele momentos os países católicos, que haviam sido tradicionalmente ricos e pregadores da pobreza, tornaram-se tradicionalmente pobres e à margem da riqueza. Para ser realmente rico e desfrutar do grosso da riqueza tornou-se necessário, mais ou menos como nos nossos dias, nascer ou transferir-se para um país de tradição ou colonização protestante.

* * *

Levada às últimas conseqüências, a visão de mundo protestante/capitalista gerou o nosso mundo e seu exigente culto da performance: a glorificação final do sucesso e do desempenho. Porque, como vivo dizendo, o capitalismo é religião; seu deus, ao contrário do que se pensa, não é o dinheiro, mas a performance.

Resta-nos pouca moral, mas o que nossa ética de fato cultua é o talento e o empreendorismo. Os heróis e santos contemporâneos são inequivocamente os vencedores, os talentosos, os empreendedores, os famosos, os bem-sucedidos. Esses, no nosso livrinho, é que são gente edificante, de valor, a ser admirada, seguida e – se tudo der certo – superada. O que temos no fim das contas não nos satisfaz, porque medimos nossa própria felicidade pela proporção em que nos conformamos aos padrões e precedentes estabelecidos pelos mais tecnicamente bem-sucedidos que nós.

Nossa teologia é o liberalismo econômico, nosso deus a performance.

É na verdade apenas essa crença no mérito inerente do desempenho que nos faz posicionar contra pecados modernos como a corrupção. O problema da corrupção, por essa nossa visão de mundo, é que ela impede o livre curso e a supremacia da performance – quando cremos que a performance é a verdadeira medida do valor. A corrupção nos parece ruim porque não permite que os verdadeiramente talentosos e esforçados sejam recompensados. E que os talentosos e esforçados devem ser recompensados e os incompetentes e preguiçosos punidos, é inquestionado item de fé da nossa religião.

Nossa teologia é o liberalismo econômico, nosso deus a performance.

Nosso panteão é por essa razão povoado por gente admirável como Ayrton Senna, Paul McCartney, Steve Jobs, George Clooney e Bill Gates – gente que se define pela naturalidade com que palmilha os átrios do talento e do empreendedorismo no templo do sucesso.

Naturalmente que nossa idolatria da performance é, por necessidade, contraditória e distorcida. Na mesma medida em que nos prostramos diante de santos contemporâneos como Senna, nos deleitamos na desconstrução pública de outros de nossos ícones. Acompanhamos com delícia e horror o espetáculo da auto-destruição de Michael Jackson ou a infâmia do mais recente ídolo do rock encontrado morto e drogrado e nu (não necessariamente nessa ordem) em sua banheira. Torcemos pela pobrezinha do Big Brother, e no momento seguinte vemos com um misto de inveja e indignação sua decisão de posar para a Playboy. Intuímos, no entanto, que faz tudo parte do espetáculo e que toda religião tem seus sacrifícios e vítimas.
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O rico e seu camelo

  1. O Rico e seu Camelo
  2. A teologia do Capital
  3. O culto da performance
  4. O culto do ócio