Não falta quem discorde da tese de Weber de que a teologia calvinista acabou precipitando inevitavelmente a ascensão do capitalismo. A dúvida parece estar em se a ética protestante ocasionou o capitalismo ou se meramente facilitou-o. No que me diz respeito já é suficientemente desconcertante que ela não o tenha evitado.
Mesmo quem desconfia das conclusões de Weber não tem como negar que a rápida expansão do comércio e a ascensão do industrialismo coincidiram precisamente com o incêndio revolucionário da Reforma Protestante. Para o bem ou para o mal de sua reputação, a trajetória do cristianismo evangélico/protestante foi desde o princípio associada a uma postura agressivamente mercantilista, e o sucesso histórico dessa conjunção protestantismo/capitalismo é espetacularmente epitomizado nos nossos dias pelos Estados Unidos.
A expansão do comércio e a ascensão do industrialismo coincidiram com a Reforma Protestante.
Assim que surgiram em cena, na verdade, os protestantes roubaram do o mundo católico o monopólio da transação comercial e do fluxo de riquezas. Os agilíssimos holandeses, com o sucesso enxuto de suas gêmeas Companhias das Índias (Orientais e Ocidentais), desbancaram com facilidade os católicos portugueses – sendo que Portugal é que havia inaugurado e colocado em funcionamento a primeira rede comercial verdadeiramente internacional, com ramificações em todos os continentes.
A ascensão dos holandeses foi a primeira manifestação inequívoca de uma tendência que não seria mais revertida. A partir daquele momentos os países católicos, que haviam sido tradicionalmente ricos e pregadores da pobreza, tornaram-se tradicionalmente pobres e à margem da riqueza. Para ser realmente rico e desfrutar do grosso da riqueza tornou-se necessário, mais ou menos como nos nossos dias, nascer ou transferir-se para um país de tradição ou colonização protestante.
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Levada às últimas conseqüências, a visão de mundo protestante/capitalista gerou o nosso mundo e seu exigente culto da performance: a glorificação final do sucesso e do desempenho. Porque, como vivo dizendo, o capitalismo é religião; seu deus, ao contrário do que se pensa, não é o dinheiro, mas a performance.
Resta-nos pouca moral, mas o que nossa ética de fato cultua é o talento e o empreendorismo. Os heróis e santos contemporâneos são inequivocamente os vencedores, os talentosos, os empreendedores, os famosos, os bem-sucedidos. Esses, no nosso livrinho, é que são gente edificante, de valor, a ser admirada, seguida e – se tudo der certo – superada. O que temos no fim das contas não nos satisfaz, porque medimos nossa própria felicidade pela proporção em que nos conformamos aos padrões e precedentes estabelecidos pelos mais tecnicamente bem-sucedidos que nós.
Nossa teologia é o liberalismo econômico, nosso deus a performance.
É na verdade apenas essa crença no mérito inerente do desempenho que nos faz posicionar contra pecados modernos como a corrupção. O problema da corrupção, por essa nossa visão de mundo, é que ela impede o livre curso e a supremacia da performance – quando cremos que a performance é a verdadeira medida do valor. A corrupção nos parece ruim porque não permite que os verdadeiramente talentosos e esforçados sejam recompensados. E que os talentosos e esforçados devem ser recompensados e os incompetentes e preguiçosos punidos, é inquestionado item de fé da nossa religião.
Nossa teologia é o liberalismo econômico, nosso deus a performance.
Nosso panteão é por essa razão povoado por gente admirável como Ayrton Senna, Paul McCartney, Steve Jobs, George Clooney e Bill Gates – gente que se define pela naturalidade com que palmilha os átrios do talento e do empreendedorismo no templo do sucesso.
Naturalmente que nossa idolatria da performance é, por necessidade, contraditória e distorcida. Na mesma medida em que nos prostramos diante de santos contemporâneos como Senna, nos deleitamos na desconstrução pública de outros de nossos ícones. Acompanhamos com delícia e horror o espetáculo da auto-destruição de Michael Jackson ou a infâmia do mais recente ídolo do rock encontrado morto e drogrado e nu (não necessariamente nessa ordem) em sua banheira. Torcemos pela pobrezinha do Big Brother, e no momento seguinte vemos com um misto de inveja e indignação sua decisão de posar para a Playboy. Intuímos, no entanto, que faz tudo parte do espetáculo e que toda religião tem seus sacrifícios e vítimas.
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