12 de Maio de 2010

A fissura do mundo: política, polarização e paralisia

História, Política

Porque ninguém sobrevive impunemente à guerra, muito menos a esta. A guerra é de tal natureza que, não importa quão bem-intencionado tenha sido o vencedor, o bem nunca vence no final.

Os aliados vencedores ocupavam agora a Alemanha, e sua primeira medida foi a denazificação da sociedade. Ter sido nazista passou a ser o grande estigma da vez, e nas cortes temporárias estabelecidas pelos aliados os alemães sob suspeita tinham que comprovar sua pureza ideológica durante o regime de Hitler1. A igreja teria sido a entidade ideal para fornecer esses certificados de isenção, não fosse o fato de que – como não demoraram a apontar os rebeldes da Igreja Confessante – a própria igreja não estava isenta de culpa.

E, numa devastação de proporções tão descomunais, onde colocar a culpa? Onde não colocá-la? Depois de que impensável reparação um oficial nazista poderia voltar a frequentar a igreja que não hesitara em perseguir? Como se poderia esperar que um militante da resistência, trazendo no corpo e na mente as marcas da tortura, admitisse um ex-nazista em sua comunhão? Como poderia uma mãe perdoar-se por ter votado no ditador que despachara o seu filho para uma guerra da qual não tinha voltado? Quem estava pronto para reconhecer sua parcela de culpa? Quem estava pronto a perdoá-la?

Logo ficou claro que, estando todos os ressentimentos em alta, ninguém estava pronto para abraçar o fardo da culpa; não pelos horrores do nazismo. Uma declaração do Conselho da Igreja Evangélica Alemã, publicada em outubro de 1945 (portanto poucos meses depois do final da guerra), causou indignação e controvérsia ao sugerir uma medida de culpa coletiva:

Sabemos que nos encontramos não apenas numa comunidade de sofrimento, mas numa solidariedade de culpa. É com grande angústia que declaramos: através de nós incalculável sofrimento foi causado a diversos povos e terras. O que temos com frequência testemunhado diante de nossas congregações declaramos agora diante de toda a igreja: [...] somos culpados de não ter confessado de forma mais corajosa, de não ter orado de forma mais consciente, de não ter crido de modo mais jubiloso e de não ter amado de modo mais ardente.

A Declaração de Culpa de Stuttgart, como ficou conhecida, foi amplamente rejeitada na Alemanha assim que saiu a público, sendo considerada traição ao povo alemão e rendição às demandas dos ocupantes aliados. Ela, afinal de contas, trazia um doloroso “através de nós”, e ninguém estava disposto a admitir envolvimento direto com a máquina da morte. Cada sobrevivente de uma guerra que havia se mostrado custosa em todas as frentes podia elencar sua própria série de circunstâncias atenuantes: estavam protegendo suas famílias, estavam apenas sendo bons cidadãos, fizeram o que puderam mas estavam respeitando as leis de seu país, os russos também eram culpados de enormes atrocidades, e assim por diante.

Por outro lado os militantes da resistência, que haviam assumido impensáveis riscos pessoais durante o nazismo sem o apoio da igreja institucional, consideraram a Declaração de Culpa vaga e insuficiente. Só para citar um ponto fundamental, o documento não mencionava a fulgurante omissão da igreja na questão da exclusão e do extermínio dos judeus. Se reparações eram para ser feitas, alegavam os sobreviventes da resistência, todas as culpas e culpados deveriam ser trazidos à tona, por mais doloroso que fosse o processo. O sangue de mártires como Bonhoeffer exigia pelo menos essa hombridade tardia.

E, como observa Barnett, o que surgia na Alemanha de pós-guerra não era uma solidariedade de culpa, mas mais propriamente uma solidariedade de silêncio a respeito do passado recente. Os da maioria conservadora achavam que o país só voltaria a avançar se a mancha horrenda do nazismo fosse deixada de lado o mais cedo possível; incomodava-os ouvir a minoria radical, que insistia que não haveria verdadeiro progresso até que o passado fosse trazido publicamente à tona e publicamente tratado.

Nessa discordância inicial sobre a atribuição da culpa estava a semente de uma polarização que nos anos seguintes só iria se acentuar, mesmo entre os membros da Igreja Confessante. Os próprios cristãos que haviam concordado em se opor publicamente a Hitler, crendo que estavam nisso confessando a herança de Jesus, passaram a discordar muito gravemente a respeito de qual rumo a igreja deveria tomar agora que o regime havia caído.

De um lado postaram-se os conservadores, que criam que a fim de honrar o sacrifício da resistência a igreja deveria almejar uma completa “restauração” – isto é, um retorno à situação ideal que a nação e a igreja viviam antes da interrupção da guerra. Esses tradicionalistas abraçaram o discurso ocidental de democracia e “liberação”: ao mesmo tempo reassumiram o seu nacionalismo e se tornaram anticomunistas. Do outro lado, os militantes não-conformistas alegaram que havia sido muito claramente a própria posição conservadora da igreja a ter possibilitado impunemente os horrores de Hitler; o único modo da igreja honrar o legado da resistência seria lutar abertamente contra uma restauração nacionalista do status quo, mantendo sua postura de oposição mesmo no novo e confortável regime nacional financiado pelos aliados. Esses oposicionistas viam que a relação entre a guerra e o discurso nazista demonstrara além de qualquer dúvida que um retorno à tradição “pátria e família” era absolutamente impensável; tornaram-se antinacionalistas e pacifistas, e passaram a pender para a esquerda.

Para os conservadores, os não-conformistas estavam usando a igreja como plataforma de objetivos políticos (isto é, não-espirituais); para os não-conformistas, os conservadores estavam se rendendo a uma estrutura de poder que patrocinaria a seu tempo injustiças em tudo indistinguíveis às do nazismo. Agora que os mártires estavam mortos e não podiam advogar sua própria posição, quem podia dizer qual era a verdadeira herança da igreja que se opusera a Hitler? De que lado estavam os heróis2?

Como se não bastasse, a polarização ideológica entre tradicionalistas e radicais ficou logo dolorosamente ilustrada no mundo real. A Grande Guerra chegara ao fim, mas o país foi sequestrado internacionalmente para se tornar o ícone planetário de uma nova estirpe de guerra, a Guerra Fria, sendo fendida segundo os critérios ideológicos de seus ocupantes. Nasciam duas Alemanhas, a República Federal Alemã – ocidental, capitalista e anticomunista – e a República Democrática Alemã – soviética, comunista e anticapitalista. E, rasgada entre as duas, em termos ideológicos e geográficos, quedava a igreja evangélica alemã.

A divisão política da Alemanha garantiu, entre outras coisas, que o discurso interno da igreja, dos dois lados da fronteira (e logo dos dois lados do Muro) passasse a ser vivido e articulado exclusivamente a partir dessa polarização. Nenhuma das facções podia acreditar que o outro lado estava de alguma forma coadunando com o sistema: para os tradicionalistas, uma igreja comunista era uma contradição em termos3; para os não-conformistas, uma organização que se ajustasse confortavelmente a um sistema seletivo e opressor como o capitalismo era em tudo idêntica à igreja sob Hitler. Paralisada pelas limitações inerentes a esses discursos polarizadores, a igreja permaneceu durante décadas patinando entre direita e esquerda, inteiramente incapaz de sair do lugar.

Na narrativa de Barnett não há conversões nem redenção; conservadores morrem conservadores, militantes morrem militantes – cada um inteiramente incapaz de suportar a convivência mútua, cada um crendo que apenas o seu lado está sendo fiel à verdadeira vocação cristã e ao legado de oposição ao nazismo.

Os protagonistas dessa narrativa já abandonaram, em sua maioria, o palco dos acontecimentos e dos discursos, sendo que alguns morreram para pagar o preço de sua coerência interna, na esperança de poderem salvar o que para eles era futuro e que para nós é presente – mas suas conflagrações são também as nossas. De vez em quando sou lembrado, pessoalmente ou por e-mail, que cristão não deve ser de esquerda; eu mesmo, em contrapartida, posso passar horas explicando porque um cristão deveria se opor ao capitalismo. De um lado, os conservadores ainda proclamam aos quatro ventos que o ocidente defende os valores democráticos e portanto “cristãos”; por outro, os não-conformistas ainda intuem sem ruído o que afirmou Hans Iwand, militante da resistência alemã: “uma igreja confessante estará sempre na oposição, em todo partido, em todo sistema, em todo governo”. Os conservadores denunciam a teologia da libertação como lobo socialista em pele de cordeiro cristão, enquanto os esquerdistas condenam o capitalismo como abominação fascista mal ocultada. Quem está certo? Quem está realmente na oposição? Onde está o articulado questionador deste século? Quem é o verdadeiro promotor do reino?

Como enxergo a coisa, a história da igreja sob Hitler, bem como seus desdobramentos históricos, é capaz de acrescentar o que devem ser considerados novos fatores a essa discussão. Primeiro, deve ser capaz de estabelecer de uma vez por todas que a polarização entre esquerda e direita, na forma como a herdamos, é inteiramente condicionada; não apenas é um discurso que foi injetado externamente na tradição cristã, mas foi (e permanece sendo) utilizada por ambos os lados do espectro político como ferramenta de legitimação ideológica.

Segundo, é uma história que ilustra como o discurso político conduz invariavelmente à polarização – e a polarização, por sua vez, à paralisia (isto é, a omissão, e portanto o controle). O mal que o nazismo ocasionou não se restringe aos horrores literais do Reich, mas à divisão não menos literal a que o mundo foi submetido na mão dos vencedores. Esses venderam-nos a ideia de que um estava certo e o outro errado e, tendo gerado cada um o seu antagonista, garantiram a perpetuação de seus próprios sistemas. Com a queda do bloco soviético, o sistema sobrevivente procura incessantemente antagonistas que o legitimem – e faz isso porque absolutamente sabe que é só a polarização que pode salvar um discurso político. É vital que haja inimigos, por isso algumas vezes será necessário criá-los: Hitler sabia-o melhor do que ninguém. Enquanto permanecer politicamente útil, a polarização entre esquerda e direita continuará nos nossos lábios.

Finalmente, enxergo nessa narrativa um contraste trágico, inexcusável, entre as desventuras da igreja histórica e a posição apolítica de Jesus e dos primeiros cristãos – que, por sustentarem um modo de vida que ignorava faceiramente as soluções institucionais para “o problema da sociedade”, tornaram-se imediatamente ameaça aos discursos do sistema e a seus proponentes. Os primeiros cristãos sustentavam uma justiça que é intermediada através de indivíduos, não de instituições – e nessa postura estabeleciam um desconcertante reino que não é deste mundo.

E enquanto passamos a vida tentando determinar a posição de nossos antagonistas nos extremos do espectro político, mantemo-nos a salvo de assumir nós mesmos os riscos da verdadeira subversão cristã.

Porque, muito claramente, todas as culpas são coletivas, e uma consequência paradoxal disso é que só são concebíveis as bravuras individuais. Não existem soluções políticas, porque todas as soluções políticas são polarizadoras, e portanto paralisantes. O cristianismo que anuncia o fim de todos os governos faz isso demonstrando singelamente, na sua prática inargumentável, que qualquer discurso de redenção institucional é ilusório, servindo apenas de ferramenta aos poderes e potestades para nos manter sob o seu domínio. Como ensina o homem pregado na cruz e o sangue de todos os mártires, todas as bravuras são individuais. Arrepender-se é mudar o mundo a começar do nosso, e pecar é omitir-se.

A igreja e o Poder

  1. Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais
  2. A fissura do mundo: política, polarização e paralisia
  3. Capitalismo, socialismo, alienação e o capeta
NOTAS
  1. Como neste mundo nenhuma ironia se perde, mesmo oficiais nazistas de alto escalão esforçaram-se para obter o seu Persilscheine – certificado de isenção, – em alguns casos das próprias pessoas que haviam perseguido. []
  2. Barnett: “Membros de igreja que haviam criticado mais abertamente o regime nazista se mostraram posteriormente mais dispostos a criticar os governos de pós-guerra; aqueles que haviam se ajustado ao sistema durante o Terceiro Reich continuaram a fazê-lo depois de 1945″. []
  3. Num primeiro momento a igreja na Alemanha oriental não viu verdadeira incompatibilidade entre cristianismo e socialismo; ao contrário, enxergou no discurso coletivista uma possível alternativa à visão nacionalista de mundo que possibilitara a aberração nazista. Nas décadas que se seguiram, cerceada por um Estado cada vez mais totalitário, a igreja na Alemanha socialista manteve a vocação de oposição inaugurada pela Igreja Confessante, tornando-se catalisadora de protesto, resistência e desobediência civil até a capitulação do sistema. []
06 de Maio de 2010

Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais

História, Livros, Manuscritos

Nós e o cristianismo só temos uma coisa em comum:
exigimos a pessoa toda!

O juiz nazista Roland Freisler a Helmut Moltke,
durante o julgamento de Moltke pelo seu envolvimento
no atentado de 20 de julho

Eu estava a meio caminho da interminável biografia de Dietrich Bonhoeffer (que ainda não terminei) quando comecei a ler For the soul of the people: Protestant protest against Hitler [Pela alma do povo: Protesto protestante contra Hitler], da historiadora Victoria Barnett. Pus de lado esta semana a última página do livro, e posso dizer que encontrei o que não procurava – talvez justamente porque (e eis a necessária reviravolta) não encontrei o que procurava.

O título do livro é ao mesmo tempo enganador e significativo porque, como a autora vai deixando agonizantemente claro, não houve protesto protestante contra Hitler. Não na Alemanha nazista. Não quando era necessário. Não quando um protesto poderia fazer diferença. Não com qualquer ênfase ou visibilidade, não por parte de um grupo significativo e certamente não por parte da instituição como um todo.

O que houve, e disso a história fornece redentora e incômoda evidência, foi protesto individual de protestantes contra Hitler. A instituição essencialmente nada fez, mas naquele mais vigiado, preconceituoso, intolerante e opressor dos regimes levantaram-se uns poucos heróis solitários que, precisamente como Bonhoeffer, colocaram-se publicamente em pé diante da máquina simplesmente porque não concordavam com a direção em que ela estava indo, e por causa de quem estava sendo esmagado no caminho. A maioria desses, precisamente como Bonhoeffer, não escapou com vida para testemunhar a primavera de 1945, quando o planeta despedaçado acordou perplexo para o fim da inocência mundial.

É uma narrativa que confirma da forma mais excruciante o que venho intuindo há muito tempo (“repita comigo: as instituições não existem, só existem pessoas“) sobre a insuficiência das instituições e a facilidade com que podem tornar-se carimbos coletivos que o sistema usa para endossar a injustiça. Na história como apresentada por Barnett é terrível constatar o tempo que perde, esperando alguma reação ou posicionamento da igreja formal, o punhado de pessoas realmente disposta a se levantar contra o regime – ou, talvez ainda mais importante, disposta a ajudar quem está sendo prejudicada por ele. Mesmo os militantes mais radicais da resistência protestante na Alemanha nazista demoraram anos até passarem a questionar a omissão do sistema eclesiástico em público e em privado; todos, mesmo os terrivelmente lúcidos como Bonhoeffer, simplesmente queriam que a instituição funcionasse. Muitos deles ficaram querendo até o último momento.

A verdade que esta parábola deixa evidente é que a instituição não existe para defender uma causa ou sua coerência ideológica interna, mas para garantir sua própria perpetuação – pelo que seu modo de operação mais fundamental é a cautela. Quando o governo nazista decretou que os judeus estavam a partir de determinado momento desclassificados para determinadas posições públicas e privadas, não ocorreu à igreja questionar esse julgamento, mesmo quando os que queriam comprovar a sua ascendência ariana recorreram em massa aos arquivos eclesiásticos, que detinham os registros de nascimento – e cujos responsáveis tiveram de trabalhar em dobro (e em alguns casos contratar assistentes e secretários) a fim de suprir a nova demanda de verificação racial gerada pelo estado.

Quando os judeus convertidos ao cristianismo se tornaram um embaraço inequívoco também dentro das igrejas, muitos sugeriram singelamente que uma solução amorosa seria que esses cristãos de origem “não-ariana” abrissem uma igreja só para eles, onde não representariam ameaça para outros além de si mesmos. Isso enquanto toda uma ala da igreja evangélica alemã, a dos chamados “Cristãos Germânicos”, propunha a sumária eliminação do Antigo Testamento de todas as Bíblias, de modo a sinalizar sem margem de dúvida o rompimento do cristianismo com a herança judaica.

Diante do ensurdecedor silêncio da igreja perante esses procedimentos, uma facção dela decidiu que era necessário postar-se publicamente contra a onda de insanidade. Esses, mais ou menos liderados por Bonhoeffer, deram a si mesmos o nome de Igreja Confessante, porque criam que confessar o nome/pessoa de Jesus implicava em manifestar-se publicamente contra toda forma de injustiça, mesmo diante de riscos institucionais e pessoais.

O livro de Barnett explica como essas três facções da igreja alemã (a minoria dos Cristãos Germânicos, a maioria conservadora/cautelosa e a minoria confessante) combateram umas com as outras durante o regime nazista de modo a, no fim das contas, se sujeitarem mutuamente ao mais completo silêncio diante das injustiças de Hitler.

Parte essencial da história, na verdade, está em que logo ficou claro que havia diferenças irreconciliáveis de convicção e de estratégia entre moderados e radicais mesmo dentro da Igreja Confessante. Essa polarização apenas se acentuou com o cerrar do cerco nazista, até que aqueles dispostos ao martírio entenderam que mesmo o movimento confessante era insuficiente para se proferir no meio do caos a Palavra, e partiram para a carreira solo no acolhimento de perseguidos ou no terrorismo secular. Entenderam que se haveria uma igreja contra a qual as portas do inferno não resistiriam, essa se manifestaria através de indivíduos e não da instituição. Porém essa sua distração com a fé no sistema custou muito para eles mesmos e para outros: quando esses poucos caras – a dissidência da dissidência – sacaram que não podiam e não deviam contar com as soluções institucionais, era essencialmente tarde demais.

O cerne do problema parece ter residido no fato de que, numa tradição que se estendia praticamente até Lutero, igreja e líderes eclesiásticos alemães haviam durante séculos sido incentivados a declarar mútua lealdade para com “o trono e o altar”. Nessa visão de mundo governo e igreja eram considerados sistemas independentes, mas unia-os um acordo tácito pelo qual um se comprometia a não interferir nos negócios do outro, e pelo qual ambos se comprometiam a fornecer ao outro legitimidade. Em outras palavras, a igreja não se sentia particularmente devedora a qualquer manifestação do Estado, mas sentia-se menos ainda inclinada a a interferir em negócios que diziam respeito a “outro domínio” que não o espiritual. Seu papel cristão era, muito declaradamente, pregar o evangelho e distribuir os sacramentos. Insurreição, resistência, desobediência civil – numa palavra, protesto – não desempenhavam qualquer papel no vocabulário prático da tradição protestante.

Essa sacrílega cumplicidade entre igreja e estado tem, evidentemente, raízes ainda mais antigas do que a Reforma, que apenas inseriu na equação o fator competição [à Igreja Católica]. Em sua manifestação original o movimento cristão era apolítico, anti-imperialista e subversivo ao ponto da anarquia funcional, mas o sucesso espetacular da sistematização do cristianismo terminou por apagar por completo os efeitos dessa herança subversiva – até que, em Constantino, igreja e império se transformaram numa única e abominável coisa. Para o historiador cristão Eusébio, escrevendo no ano 336, o imperador Constantino (o primeiro a conceder favor estatal à fé cristã) representava o modelo do governante espiritual, um “amigo de Deus” que “arranja seu governo terreno de acordo com o padrão do original divino”. Para Eusébio, Constantino deveria ser visto pelos crentes como “nosso imperador divinamente favorecido”, que havia recebido “como que uma transcrição da soberania divina” a fim de conduzir “em imitação do próprio Deus a administração dos negócios do mundo”1 – nada muito diferente do que cristãos alemães opinariam séculos mais tarde a respeito de Hitler.

Nessa única transação com o Poder o movimento cristão passava de frágil a influente, de subversivo a inofensivo, de marginal a detentor do status quo, de incendiário a bombeiro, de incômoda ameaça aos poderes e potestades deste mundo a seu mais valioso selo de confirmação. As tremendas desventuras, grandes vergonhas e pequenas ousadias encenadas pela igreja evangélica alemã durante o regime nazista apenas demonstram o quanto há de contemporâneo e de diabólico nessa aliança, mesmo em regimes que professam oficialmente divisão entre igreja e estado.

É uma história que demonstra muito claramente que o problema não reside na separação entre igreja e estado, porque enquanto permanece como instituição a igreja é obviamente inseparável dos governos deste mundo. Uma instituição é basicamente uma entidade coletiva que tem algo a perder (mesmo que seja apenas sua própria autoridade), e o movimento cristão é por definição bíblica o movimento dos desbravadores do reino – isto é, o domínio em permanente insurreição dos que confessam não ter nada a perder, e sustentam ao mesmo tempo que o único modo de confessar isso é demonstrá-lo.

É algo ao mesmo tempo belo e terrível que a história do protesto protestante contra Hitler só tenha para contar omissões coletivas e bravuras individuais. A segunda metade do século XX e sua extensão no terceiro milênio são resultado sem escalas da experiência coletiva da Segunda Guerra, e sobreviver a ela ensinou-nos não só a questionar incessantemente qualquer ideologia (porque tememos outro Hitler), mas a duvidar da eficácia e da legitimidade de soluções intermediadas/institucionais.

Essa, no entanto, é uma lição de humildade que o terreno beligerante da tradição cristã irá até o último momento recusar-se a absorver. Prova disso é o que aconteceu logo depois – porque Barnett, para minha surpresa, não termina sua história com o final da guerra. E se o drama da igreja alemã sob Hitler havia confirmado minhas piores suspeitas, nenhuma expectativa me havia preparado para o que veio em seguida.

A igreja e o Poder

  1. Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais
  2. A fissura do mundo: política, polarização e paralisia
  3. Capitalismo, socialismo, alienação e o capeta
NOTAS
  1. Eusébio de Cesaréia, Discurso em louvor do imperador Constantino. Citado em Richard Fletcher, The Barbarian Conversion. Fletcher também observa que “não é para Eusébio que devemos recorrer para saber que Constantino assassinou seu sogro, sua esposa e seu filho”. []
17 de Junho de 2009

Somos mais sofisticados

História

A leitura de Hitler teve ajuda me deixou inquieto, e ver o texto arquivado aqui na Bacia deixou-me ainda mais. Embora Edwin Black tenha publicado alguns dos livros-denúncia mais obsessivamente bem documentados dos últimos anos, quando são expostas assim a seco, despidas de qualquer bibliografia, suas conclusões soam excêntricas e improváveis ao ponto do surreal. Com os erros dos nazistas, aprendemos a ocultar melhor os nossos rastros.Como acreditar que o nazismo existiu e persistiu por mais de uma década na forma como ele o descreve? Como crer que eram seres humanos os envolvidos naquela transação?

Pesquisas como as de Black fornecem indicações de que não é à toa que associamos, inconscientemente, as atrocidades do nazismo aos pecados desumanizadores da indústria. Era ainda 1943 e o desenho animado Der Fuehrer’s Face, dos estúdios Disney, já mostrava o Pato Donald vivendo na Alemanha nazista um pesadelo proletário debaixo de roldanas, esteiras, engrenagens e metas de produção.

Porém essas eram imagens, iconografias – talvez por demais inclementes, tendo em vista que os norte-americanos viviam naquela época debaixo de limites semelhantes e semelhantes promessas. Foram necessárias multidões áridas de documentos, como os levantados por Edwin Black, para mostrar sem equívoco o fundamento e as estranhas irmandades por trás da representação.

Hoje podemos concluir, com horrenda sobriedade, que o nazismo era uma indústria de morte e exclusão não porque era regido por loucos sem rédea, mas porque era regido literalmente pelo espírito do capitalismo.

Henry Ford, o americano obcecado com os méritos da performance, engendrou a moderna linha de montagem e dessa forma gerou tudo no nosso mundo: de tuíteres a iPhones, de ilustradores que vendem seu trabalho pela internet a fábricas chinesas que mais parecem campos de concentração. Adolf Hitler, o austríaco obcecado com os méritos da performance, tinha um retrato de Henry Ford em seu escritório de Munique, e dois anos antos de tornar-se chanceler revelou numa entrevista ter Henry Ford “como sua inspiração”.

Essa mostrou ser uma inspiração muito literal. Os campos de extermínio assemelham-se a fábricas de matar porque foram projetados tomando como modelo fábricas de verdade. Tudo nos campos nazistas foi inspirado nas luzes do recém-canonizado capitalismo industrial: as metas, a obsessão com a produtividade e com a limpeza, as chaminés, a sincronia na entrada de insumos, a eliminação eficiente de dejetos.

Porém Henry Ford e Adolf Hitler tinham em comum mais do que uma simpatia pela eficiência e um interesse nos prêmios da mecanização. Ambos compartilhavam de uma convicção mais essencial e mais próxima à raiz dos seus discursos: a crença de que uma raça superior, que fosse capaz de demostrar sua superioridade pela excelência de seu desempenho, merecia privilégios muito evidentes que todos os inferiores deveriam respeitar. Este, que prega o mérito auto-evidente do desempenho superior, não é apenas o espírito do nazismo, como demonstrado pela História, mas o espírito do capitalismo, como ocultado por ela.

Desprezamos Hitler porque sabemos que a superioridade racial que Hitler queria ver premiada não tinha fundamento científico. Sabemos hoje que ser ariano é não ser melhor do que ninguém. A superioridade pregada por Hitler era falsa, portanto as atrocidades realizadas em seu nome declaramos ilegítimas.

Aceitamos de bom grado o capitalismo porque sabemos que a superioridade que ele quer ver premiada tem fundamento no bom senso e na igualdade de oportunidades; ser trabalhador é, evidentemente, ser melhor de quem não quer trabalhar ou não foi capaz de mostrar o seu valor. Acreditamos que a superioridade pregada pelo capitalismo é verdadeira, por isso são legítimas as atrocidades realizadas em seu nome. Quem demonstra sua superioridade pela excelência do seu desempenho merece privilégios muito evidentes que todos os inferiores devem respeitar – e crendo nisso nos cremos muito diferentes de Hitler e tantas vezes mais esclarecidos do que ele, embora fosse essencialmente nisso que ele acreditava e sendo isso o que o movia.

A questão é que depois dos erros muito evidentes e públicos do nazismo aprendemos a ocultar melhor os nossos rastros. Onde os nazistas deixaram pontas soltas, somos mais sofisticados. Ninguém deverá ser capaz de rastrear nossos cadáveres, e nossos campos de concentração produzem oportunidades ao invés de montes de cinza.

A quem ousar acusar o capitalismo de alguma injustiça estaremos prontos a lembrar que o socialismo (como se capitalismo selvagem e socialismo cego fossem as únicas opções no mercado de destinos econômicos) gerou injustiças maiores. Aos que ousarem denunciar as condições desumanas de pobres e subempregados, lembraremos que as últimas décadas testemunharam um sensível aumento nos padrões de vida do mundo inteiro, e que mesmo os mais miseráveis estão sendo de alguma forma beneficiados.

O que permanecemos ocultando habilmente, com uma habilidade que os comparsas de Hitler saberiam admirar, é que a raça superior continua a desfrutar de seus merecidos privilégios. O rótulo é diverso, mas permanecemos fundamentados na mesma ideologia e instruídos na mesma tarefa de exclusão e morte.

20% da população do planeta consomem 80% dos recursos dele.Poderíamos de comum acordo decidir ignorar, por exemplo, que 2% da população mundial retém metade da riqueza do mundo. Esqueçamos isso. Sou o primeiro a admitir que “riqueza” é um conceito muito fluido, e que o valor do dinheiro é puramente convencional. Em termos estritos, dinheiro não vale nada.

Muito mais grave, mais irreversível e criminosa é a realidade subjacente, o fato de que 20% da população do planeta consomem 80% dos recursos disponibilizados por ele – coisas como água potável, ar respirável, madeira nativa, minério, metais, petróleo e biodiversidade.

Os premiados pela performance – nós, os membros da raça superior – sentimo-nos autorizados para não apenas confiscar, mas consumir numa transação sem volta os recursos que pertencem a todos.

Este é o nosso crime, e com o tempo os tribunais da sanidade saberão nos encontrar.

Leia também:
Em câmera lenta
O culto da performance

08 de Junho de 2009

Hitler teve ajuda

História, Quase Ciência

Adolf Hitler foi completamente responsável pelo Holocausto. Mas Hitler teve ajuda.

Henry Ford e os Protocolos dos Sábios de Sião

Quem forneceu a Hitler a base inicial a fim de trasmutar séculos de ódio religioso no novo antisemitismo político do século vinte? Foi Henry Ford, agindo diretamente através da Ford Motor Company. Em 1920 o crédulo porém arrebatado Ford adquiriu um texto datilografado forjado, que convenceu-o da existência de uma conspiração judaica maléfica e internacional, determinada a subjugar o mundo pela manipulação indireta de governos, jornais e sistemas econômicos. “Tenho Henry Ford como minha inspiração.”

Adolf Hitler
Essas revelações constavam do notório – e inteiramente falso – Os Protocolos dos Sábios de Sião.

A fim de abastecer o mundo com essa nova modalidade de ódio aos judeus, Ford comprou um jornal falido, o Dearborn Independent, que serializou Os Protocolos por 91 semanas. Sua empresa em seguida publicou a série sob a forma de livro, com o título O Judeu Internacional (The International Jew). Usando as técnicas de produção de massa, Ford pode expandir o alcance dos Protocolos, transformando-o de panfleto insignificante circulado entre uns poucos numa sensação nacional com tiragem de 500.000 exemplares. Ao devotar a força nacional de vendas e os ativos da Ford Motor Company à tarefa da hostilidade, Henry Ford foi o primeiro a organizar o antisemitismo político nos Estados Unidos. Acabou tornando-se, na verdade, herói dos antisemitas do mundo inteiro.

Na Alemanha, onde Ford era venerado, O Judeu Internacional foi traduzido e publicado em fevereiro de 1921. O livro conheceu seis edições em dois anos, com milhares de exemplares impressos. O livro de Ford tornou-se rapidamente a bíblia dos antisemitas alemães e das primeiras encarnações do partido nazista. Os nazistas distribuíam a obra país afora “aos borbotões”.

Entre os alemães que foram profundamente influenciados pelo livro estava Adolf Hitler. O Führer leu a obra pelo menos dois anos antes de escrever o Mein Kampf. E deixa claro que leu. No capítulo 11 do Mein Kampf Hitler escreveu: “Toda a existência deste povo é baseada numa mentira contínua, como demonstrado incomparavelmente pelos Protocolos dos Sábios de Sião. Com segurança absolutamente aterrorizadora, esses documentos revelam a natureza e a atividade do povo judeu, bem como seus objetivos últimos”. Hitler descreveu Ford como “seu herói”. Não é de admirar que Ford tenha recebido a Medalha da Águia Alemã de Hitler, numa suntuosa cerimônia em Berlim. A medalha era reservada para estrangeiros que prestavam serviços especialmente valiosos ao Reich.

O Instituto Carnegie e a ciência americana do melhoramento genético

Quem forneceu a Hitler as argumentações médicas pseudocientíficas que justificaram uma guerra a fim de gerar uma raça superior loira e de olhos azuis com o dever de obliterar as demais raças, tidas como inferiores? Foi o Instituto Carnegie (a encarnação filantrópica da maior fortuna de aço dos Estados Unidos), que propagou a eugenia, a letal ciência racial americana. A partir de 1911 os cientistas do Instituto Carnegie passaram a defender com sucesso a noção de que os milhões ao redor do mundo que não se conformavam ao estereótipo nórdico do loiro de olhos azuis não eram dignos de existir sobre a terra.

A ciência norte-americana da eugenia acreditava que traços sociais como a pobreza, a prostituição e a preguiça eram determinados geneticamente. A permanência de linhagens racialmente inferiores – uma faixa ampla, que abrangia 90 por cento da humanidade – devia ser combatida através de vários métodos. Esses métodos incluíam meticulosa identificação, apreensão de bens, proibição ou anulação de casamento, esterilização cirúrgica forçada, segregação em campos e câmaras de gás operadas pelo governo. Numerosas propostas de melhoramento genético foram promulgadas sob a forma de lei em 27 estados americanos. Em última análise, 60.000 pessoas foram esterilizadas a força, milhares foram encarceradas em campos estatais e inúmeras tiveram suas uniões civis anuladas, sendo, em alguns casos, sujeitas a negligência médica organizada e letal. O juiz Oliver Wendell Holmes, da Suprema Corte norte-americana, conferiu a essas práticas o status de lei legítima do país, declarando justificados atos dessa natureza. “Será melhor para todo o mundo”, escreveu Holmes, “se ao invés de esperar para executar uma prole degenerada pelos seus crimes, ou deixar que morram de fome por sua imbecilidade, a sociedade passe a impedir os que são manifestamente incapazes de darem continuidade à sua linhagem”.

O Instituto Carnegie e o movimento patrocinado por ele gastou milhões de dólares na tarefa de propagar as teorias americanas de melhoramento genético na Alemanha de pós-Primeira-Guerra, financiando programas de ciência racial em universidades e outras instituições oficiais. Essas teorias incluiam a idéia de que os judeus deviam ser eliminados.

Enquanto estava na prisão Hitler estudou com atenção a eugenia norte-americana. No Mein Kampf ele insistiria: “Existe hoje em dia um único Estado em que são detetáveis iniciativas hesitantes no sentido de uma concepção de qualidade superior. Esse Estado não é, obviamente, nossa modelar República Alemã, mas os Estados Unidos.” Hitler diria com orgulho a seus camaradas: “Tenho estudado com grande interesse as leis de diversos estados norte-americanos com respeito à prevenção da reprodução de gente cuja prole se mostraria, com toda a probabilidade, de pouco valor ou mesmo prejudicial à qualidade da raça”. Hitler teve apenas de substituir o termo norte-americano “nórdico” pelo termo nazista “ariano”, medicalizando em seguida seu antisemitismo virulento e pré-existente e seu fascismo nacionalista, a fim de formular o conceito da raça superior de cabelos loiros e olhos azuis glorificada por ele no seu Mein Kampf.

Hitler estava de tal modo mergulhado na ciência racial norte-americana que escreveu uma carta de fã entusiasmado ao lider eugenista americano Madison Grant, chamando sua obra de “minha bíblia”.

O terceiro Reich implementou todos os princípios eugenistas norte-americanos com enormes ferocidade e velocidade, respaldado por um exército conquistador. “Enquanto estamos aqui pisando em ovos”, incensou Leon Whitney, secretário executivo da Sociedade Norte-Americana de Eugenia, “os alemães estão dando nome aos bois”. Conforme insistia Rudolf Hess, adjunto de Hitler, “o nazismo nada mais é do que biologia aplicada”.

A Fundação Rockefeller e as experiências com gêmeos

Quem forneceu aos odiosos experimentos médicos de eugenia de Hitler os recursos para cometer crimes atrozes contra gêmeos inocentes? Foi a Fundação Rockefeller, a encarnação filantrópica da Standard Oil. A Fundação agiu como parceira integral do Instituto Carnegie no estabelecimento da eugenia na América e na Alemanha. Na busca do aperfeiçoamento da raça superior, milhões de dólares da era da Depressão foram transferidos por Rockfeller para os médicos mais antisemitas de Hitler. Nessa busca, uma espécie de cobaia era desejada acima de todas as outras: irmãos gêmeos.

Rockefeller patrocinou o principal eugenista de Hitler, Otmar Verschuer, e seus insaciáveis programas de experimentação em irmãos gêmeos. Acreditava-se que os gêmeos traziam em si o segredo da multiplicação industrial do arquétipo racial ariano e da rápida eliminação dos biologicamente indesejáveis. Verschuer tinha um assistente, Josef Mengele. O patrocínio de Rockefeller cessou durante a Segunda Guerra, mas àquela altura Mengele já havia se transferido para Auschwitz a fim de dar continuidade de forma monstruosa à sua pesquisa com gêmeos. Sempre o métodico eugenista, Mengele continuou mandando semanalmente minuciosos relatórios clínicos para Verschuer.

A General Motors e a Blitzkrieg

Quem tirou Hitler de cima de cavalos e colocou seus exércitos letais em caminhões de modo a travar sua Blitzkrieg – guerra relâmpago – contra a Europa? Foi a General Motors, que fabricou o caminhão Blitz para a Blitzkrieg. Na qualidade de maior fornecedora de carros e caminhões para o Reich, a GM tornou-se parceira indispensável da guerra de Hitler. Desde as primeiras semanas do Terceiro Reich o presidente da GM, Alfred Sloan, dedicou sua companhia e sua divisão alemã, a Opel, a motorizar uma Alemanha que ainda dependia substancialmente da tração animal, preparando-a dessa forma para a guerra. Antes disso a Alemanha tinha sido um país devotado a uma legendária engenharia automotiva, mas tratavam-se de carros construídos um a um, artesanalmente. A GM trouxe a produção de massa até o Reicch, convertendo-a de país puxado a cavalo a potência motorizada.

Sloan e a GM conscientemente prepararam a Wehrmacht para travar a guerra na Europa. Detroit chegou a tranferir volumosos estoques de peças de substituição dos veículos Blitz para a fronteira da Polônia na semana que antecedeu a invasão de 1º de setembro de 1939, de modo a facilitar a Blitzkrieg.

Fazendo uso de uma camada dissimulatória de reuniões a portas fechadas e comitês executivos especiais, Sloan manteve o papel da GM em segredo o quanto foi possível. Quando a Opel precisava de peças ou moeda estrangeira, Detroit mandava que outras subsidiárias internacionais prestassem socorro de forma clandestina.

Além de motorizar a força militar, Sloan encetou programas maciços de re-emprego, a fim de ajudar a reviver a economia nazista – isso enquanto a companhia recusava-se a recontratar americanos atingidos pela devastação da Depressão. O sucesso da GM gerou diretamente a necessidade da Autobahn. O executivo chefe da GM na Alemanha, James Mooney, recebeu a mesma medalha de Ford, por serviços prestados ao Reich.

A IBM e a solução final

Quem projetou sob medida e planejou em conjunto as soluções nazistas para o problema dos judeus? Foi a International Business Machines, inventora do cartão perfurado Hollerith, precursor do computador contemporâneo. A IBM desfrutava na época de completo monopólio sobre tecnologia de informação. Sob a microgerência de seu presidente, Thomas Watson, e anunciando-se como “uma empresa de soluções”, em 1933 a IBM alcançou o novo regime de Hitler, oferecendo-se para organizar e sistematizar qualquer solução que o Reich desejasse, inclusive soluções para o problema dos judeus.

Com a parceria da IBM o regime de Hitler consegiu automatizar e acelerar substancialmente todas as fases do Holocausto de doze anos: identificação, exclusão, confisco, guetoização, deportação e até mesmo o extermínio.

Como fazia com qualquer cliente, a IBM simplesmente perguntou ao regime de Hitler qual era o resultado desejado. Em seguida os engenheiros da companhia projetaram sob medida os sistemas de cartões perfurados que gerassem esses resultados. Em primeiro lugar, determinar quem era judeu e onde os judeus moravam – isso com exatidão. A solução da IBM: um censo racial e religioso projetado e tabulado pela companhia. Em segundo lugar, uma vez identificados, a expulsão sistemática dos judeus de todos os segmentos da sociedade. A solução da IBM: a criação de bases de dados que tabulavam e cruzavam as informações de toda sorte de organizações e comunidades, de relações de membros a listas de casamentos, mortes e nascimentos.

Em terceiro lugar, o confisco dos bens dos judeus. A solução da IBM: todos os bancos e instituições financeiras faziam uso dos cartões da IBM, que podiam ser programados para procurar nomes de judeus e suas contas bancárias para confisco. Quarto, a guetoização dos judeus. A solução da IBM: tranferir de modo cruzado quadros inteiros de famílias de suas residências atuais para para cortiços abarrotados, de modo que num único dia milhares de pessoas pudessem ser deslocadas do ponto A para o ponto B. Quinto, a deportação dos judeus. A solução da IBM: a maior parte das estradas de ferro européias tinha suas rotas determinadas pelos cartões perfurados da IBM. Estações especiais deveriam ser criadas, de modo a garantir que trens com vagões de gado pudessem ser disponibilizados para transportar judeus para os campos. Quando entravam, esses trens estavam abarrotados de pessoas impotentes. Quando saíam, estavam vazios.

Sexto: os judeus deveriam ser mortos de forma industrial e sistemática. Primeira solução da IBM: estabelecer diferentes códigos para a classificação de cada categoria de prisioneiros em campos de concentração. O Código de Prisioneiro 8 designava um judeu. O Código de Status 6 designava morte pela câmara de gás. Desse modo, o Reich sabia sempre quantos judeus estava matando. Nos campos de extermínio, quase todos os judeus eram mortos na chegada – pela cordenação de um sistema desenhado pela IBM, que regulava em sincronia letal a saída das vítimas dos guetos e sua viagem de trem até os campos de morte. Segunda solução da IBM: criar o programa de “extermínio por exaustão” através de programas de cartão perfurado que faziam a correspondência entre as necessidades de trabalho do Reich, onde quer que surgissem, e as habilidades dos prisioneiros judeus. Uma vez transferidos para o local de trabalho, os judeus trabalhavam até morrer.

Havia uma central de atendimento ao consumidor IBM em cada campo de concentração.

* * *

Não fosse o continuado e consciente envolvimento de icônicas corporações norte-americanas na guerra de Hitler contra os judeus, a velocidade, o formato e as estatísticas do Holocausto como o conhecemos teriam sido dramaticamente diferentes. Ninguém sabe dizer quão diferentes seriam, mas as dimensões astronômicas nunca teriam sido atingidas. Em sua maior parte, os colaboradores corporativos de Hitler nos Estados Unidos vêm tentando há muito tempo obscurecer ou ocultar os detalhes de sua conivência, fazendo uso das consagradas ferramentas de desinformação corporativa, contribuições financeiras e análises críticas compradas e pagas a historiadores. Porém, numa era em que as pessoas deixaram de acreditar nas grandes corporações, os pontos podem ser finalmente ligados, de modo a desvendar o perfil de uma indispensável conexão nazista.

Edwin Black, autor de A IBM e o Holocausto, em resumo do seu A Conexão Nazista

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08 de Setembro de 2008

Com Deus, Sem Deus

Goiabas Roubadas

Não temos como avançar nessa questão [de servir a Cristo no mundo] até que abracemos radicalmente a idéia de uma existência “sem Deus” no mundo. Isto é, até que nos recusemos a abraçar qualquer ilusão de sermos capazes de agir “com Deus” no dia a dia do mundo. Essa ilusão nos desencaminha vez após outra, fazendo com que abandonemos a justificação e a graça, levando-nos a adotar uma devoção artificial e uma ética legalista, convencendo-nos a abrir mão de nossa liberdade em troca de uma espécie de servidão às avessas.

Theodor Litt, na entrada de 24 de janeiro de 1941 de seu diário, depois de uma conversa com Dietrich Bonhoeffer

A presente terra pode ser levada a sério em sua dignidade, sua glória, sua maldição.

Dietrich Bonhoeffer, em carta de 1940 a Theodor Litt

Um cristão é um bicho estranho. Quisera Deus fossemos todos bons pagãos que seguissem a lei natural – para não falar na lei de Cristo.

Martinho Lutero, citado por Theodor Litt num cartão postal a Bonhoeffer, pouco antes de Bonhoeffer ser preso pelo seu envolvimento numa conspiração contra Hitler

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