07 de Março de 2012
Encarnar é apresentar-se a si mesmo como um corpo, como este particular corpo, sem ser identificado com ele nem distinto dele – sendo que identificação e distinção são operações correlatas que só tem significado no âmbito dos objetos.
Gabriel Marcel, existencialista cristão, em Creative Fidelity (Du Rufus à L’Invocation)
Joseph Campbell sugeria e utilizava duas chaves básicas para a interpretação da linguagem figurada dos mitos, das parábolas e das profecias: quando fala sobre o futuro, o mito está na verdade falando sobre o presente; quando fala de coisas que acontecem no mundo exterior, o mito está na verdade falando de coisas que acontecem no mundo interior. Nesse sentido, a linguagem figurada do Apocalipse de João não aponta para eventos catastróficos que devem abalar o mundo físico no futuro: ele fala de eventos catastróficos que devem revolucionar o nosso mundo interior hoje mesmo.
Em Life After Death, seu polpudo empreendimento em traçar a geografia e a história da vida após a morte no ocidente, Alan F. Segal propõe um princípio que ao mesmo tempo complementa esses de Campbell e os acompanha em sua lógica paradoxal: quando falam da vida após a morte, as culturas estão na verdade falando daquilo que consideram importante nesta vida.
A vida eterna não é o que costumava ser, nem mesmo dentro da tradição cristã. O céu já foi o retorno ao jardim do Éden, já foi a cidadania exercida dentro dos limites da Jerusalém celeste, já foi uma vida muito física numa versão reabilitada deste planeta, já foi um mergulhar indistinto na rosa mística da divindade, já foi uma paz indistinguível do tédio entre harpas e nuvens, já foi trabalho braçal e já foi existência desencarnada, já foi um banquete e um oceano e um coro e uma aventura e um esquecimento e uma biblioteca e um mutirão e uma plenitude e um recuperar de saudades esquecidas. A geografia do além-túmulo alargou-se na Idade Média para poder abrigar o purgatório; em compensação, muitos mapas recentes tem se recusado a encontrar espaço na vida futura para o inferno. Ao longo dos séculos o conteúdo do que esperamos encontrar na vida eterna alterou-se continuamente porque foi acompanhando aquilo que os seres humanos consideram ter valor eterno nesta vida – na nossa vida.
O desenho coletivo que fazemos da vida após a morte sublinha o que acreditamos deve ser preservado eternidade adentro da experiência deste mundo. A vida no além fala daquilo em nós mesmos que acreditamos que deve permanecer, por isso acaba revelando aquilo que acreditamos que somos. O que esperamos ver preservado na transição da morte é nossa verdadeira essência, nosso eu mais fundamental: ou seja, a paisagem da vida eterna ajuda-nos a revelar para nós mesmos os contornos da identidade.
E qual é a parte de nós que melhor nos representa, aquela porção que merece permanecer? Se o que resta depois da morte é a faceta mais essencial de nós mesmos, o que exatamente deve restar? O que exatamente somos?
A resposta que os gregos da antiguidade tendiam a apresentar a essa pergunta é a de que o que permanece é a alma. Para os antigos gregos o corpo se corrompe e passa, mas a alma é imperecível e eterna – o que deve ser considerado uma boa notícia, porque o corpo é a porção mais casual e embaraçosa da experiência, e a alma é a nossa verdadeira essência. Para os gregos, o corpo é uma prisão e um acessório e uma casca; a alma é divina e alada e central. A alma é o que somos, por isso somente a alma sobrevive a transição e o crivo da morte, a viagem definitiva que elimina o contingente e o supérfluo e só deixa espaço para o essencial.
Curiosamente, a tradição cristã acabou adotando essencialmente a resposta grega para a questão do que merece sobreviver à morte. Para a maioria dos cristãos ao longo dos séculos, o que deve ser salvo para a vida eterna é a alma; a preservação do corpo é raramente mencionada.
Especialmente revelador é que essa ênfase denuncia, a partir do princípio de interpretação sugerido por Segal, que para os cristãos a alma é aquilo que realmente somos. A visão de mundo de todas as facetas do cristianismo popular é a de que não somos em nenhum sentido importante os nossos corpos, do contrário a vida eterna proveria a preservação deles.
É curioso e paradoxal que a resposta grega à questão do que essencialmente somos tenha sido adotada pela cristandade, porque a resposta bíblica para essa mesma pergunta é muito outra. Na visão de mundo bíblica, o corpo é muito claramente preservado para a vida eterna; ou, para dizer de outra forma, para a Bíblia o corpo é parte essencial – em sentido nenhum é um acessório – daquilo que realmente somos.
Os gregos falavam da vida eterna em termos de imortalidade da alma; os judeus e os primeiros cristãos falavam da vida eterna em termos de ressurreição do corpo. Em todos os sentidos, há um abismo de diferença entre uma noção e a outra. Se Alan F. Segal está certo, e nossa visão da vida após a morte revela aquela que consideramos ser nossa verdadeira identidade nesta existência, para a Bíblia a identidade reside no corpo. Para a Bíblia, o ser humano é indivisível do corpo; o corpo não nos contém, o corpo somos. Eu sou o meu corpo e você o seu.
É o tipo de coisa que quando articulada soa quase revolucionária, quase reviravolta barata de livro de Dan Brown, porque ninguém ignora que por milênios a igreja se mostrou inimiga contumaz de tudo que diz respeito ao corpo. O cristianismo se ocupa de pregar um modo de vida desencarnado nesta vida, que dizer do além-túmulo, espaço antisséptico para o qual reservamos a perfeição.
O paradoxo, claro, está em que por milênios os cristãos têm se ocupado em salvar as suas almas e em desembaraçar-se de seus corpos, quando a Bíblia dá a entender de muitas maneiras de que na verdade nós somos os nossos corpos, e de que o espaço da vida eterna, longe de representar uma oportunidade para nos livrarmos finalmente do corpo, deve ser ocasião para abraçarmos o corpo em sua plenitude, e em regime definitivo. Para a Bíblia o corpo estará conosco para sempre, porque ele no fim das contas é o que somos.
É claro que a Bíblia fala também de uma bem-aventurança de corpos transformados, isto é, usa a metáfora de uma existência corpórea aperfeiçoada, de um corpo livre dos percalços da corrupção. Mas se essas imagens insistem na restauração do corpo e na reabilitação da existência física é justamente porque o corpo é tão fundamental dentro da visão de mundo bíblica.
É pelo mesmo motivo que nas narrativas dos evangelhos Jesus se rebaixa a fazer milagres – e são, na quase totalidade dos casos, milagres que concentram-se na reabilitação do corpo humano, e portanto da identidade. Um milagreiro é um cara incômodo porque insiste que a realidade física precisa ser corrigida, ou seja, que a realidade física é uma coisa importante. No Novo Testamento o mundo dos sentidos não é uma ilusão – não é uma tentação ou uma distração, como sugerem outras tradições.
Na postura de Jesus o mundo dos sentidos é nosso único espaço de vida e de identidade. É por isso que Jesus perde pouco tempo pregando a salvação de almas (no sentido incorpóreo da palavra) e investe grande parte do seu tempo útil na reabilitação e no sustento de vidas (no sentido integral da palavra, em que a noção de corpo é fundamental). É por isso que o rabi pausa para dar comida, para tocar leprosos, para realinhar membros, para despertar mortos, para aceitar massagens, para servir de travesseiro, para fazer vinho.
É por isso que o verbo se fez carne e é por isso porque o corpo ressuscitado de Jesus tem as cicatrizes da cruz. O corpo é eterno, e tudo que fazemos dura para sempre, porque ele somos nós. Desta vida tudo se leva, porque neste velho corpo carregamos tudo conosco.
O grande peso e o grande paradoxo da condição humana não está em que este corpo mortal não tem vocação para a imortalidade, mas precisamente no contrário: o peso de ser gente está em que tudo que o corpo sabe experimentar é eternidade.

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As narrativas da criação em Gênesis, na verdade todos os onze primeiros capítulos do livro, nada mais são do que mitos contados como se fossem história. Ironicamente, no entanto, o efeito do mito tem sido muito mais forte na nossa sociedade do que na dos israelitas. Não é com frequência que os israelitas mencionam o jardim do Éden na literatura subsequente; nós, porém, sobrepomos de tal modo a história do jardim do Éden com comentários, remitologizamos de tal modo a narrativa, que os próprios hebreus provavelmente acabariam por considerá-la irreconhecível, para não dizer embaraçosa.
Nenhuma outra história teve efeito mais importante sobre o pensamento ocidental do que a narrativa do jardim do Éden. Em sua versão cristã, em especial, ela tem sido fonte das concepções ocidentais a respeito de vida, morte, imortalidade e sexualidade. Porém muito daquilo que associamos à história está ausente do texto em si; essas associações foram supridas por diversos contextos interpretativos ao longo dos séculos [...], por crentes piedosos que tentavam decifrar essa narrativa simples e até mesmo ingênua. Enquanto isso, os sutis sentidos originais foram removidos por nossas conceitualizações mais amplas.
A história explica acima de tudo que o discernimento moral nos confere uma natureza divina.
O próprio tema da aliança na Bíblia hebraica exige que os homens tenham discernimento moral. A aliança é um acordo formal entre Deus e a humanidade, e requer que os seres humanos o abracem por sua livre vontade. Para adentrar-se a aliança requer-se discernimento moral; ele é absolutamente necessário para a tarefa. Nesse sentido, a história de Adão e Eva, longe de ser apenas a história de como perdemos a imortalidade, pode ser melhor descrita como sendo “a história de como somos capazes de viver corretamente”, tendo recebido a faculdade crítica do discernimento moral e desenvolvido desse modo a habilidade de obedecer à aliança.
E não é só isso. Não apenas a capacidade de discernir certo e errado é a marca do ser humano maduro, mas há outro modo engraçado em que a história do jardim diz respeito à psicologia do desenvolvimento. Precisamente como crianças, o primeiro casal aprende o que é certo e o que é errado recebendo uma regra para obedecer, transgredindo essa regra e sendo punidos por essa razão. A narrativa está fundamentada na simples observação do modo como ensinamos nossos filhos a fazer os mesmos discernimentos.
Alan F. Segal, Life After Death
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Porém o mito nunca se contenta em simbolizar um processo uma única vez. Quer os mitos que temos sejam ou não combinações de incontáveis mitos locais, o efeito final é de que os aspectos cruciais da vida são simbolizados vez após outra, de diversas maneiras correlatas, como se, nas palavras de Levi-Strauss, duas pessoas estivessem tentando se comunicar separadas por uma ruidosa catarata. A mensagem é repetida muitas vezes de diferentes modos e com diversos símbolos diferentes porque, na avaliação de Levi-Strauss, o nível de interferência na comunicação cultural é muito alto.
Alan F. Segal, em Life after Death (2004)

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Não chegou até mim arte televisiva contemporânea mais bem escrita do que Dexter, o seriado norte-americano sobre um assassino em série que mata assassinos em série. E não se trata só dos enredos bem amarrados, do uso inteligente e bem-humorado das narrações em off, das ambições shakespearianas dos arcos narrativos e da construção de edifícios de suspense mais altos do que se considerava humanamente concebível. Há a questão do discurso além do discurso, a questão de um arranque criativo semiconsciente que mostra-se tanto uma precisa captura do espírito da época quando uma inclemente reflexão sobre ele.
Sinto-me tentado a escrever volumes sobre Dexter; permita-me impor uma página ou duas.
Dexter, sumo sacerdote da violência redentora
Os norte-americanos, ainda mais do que o restante dos homens, são obcecados com as possibilidades redentoras da violência. Dessa obsessão nascem as paixões nacionais pela pena de morte, pelos super-heróis, pelas glórias militares, pelos filmes de terror, pelo oeste sem lei. A mesma fé no poder redentor da violência inspira os adeptos do vigilantismo (aquelas ordens civis que fazem a justiça com as próprias mãos), inflama os tiroteios suicidas nas escolas e anima as aspirações dos assassinos em série.
Em sua qualidade de assassino impiedoso de assassinos impiedosos, Dexter Morgan é a encarnação de todas as seduções dessa teologia. Impossível não dobrar-se de prazer quando o Dexter elimina um criminoso culpado com a mesma minuciosa crueldade com que o criminoso que está sendo eliminado costumava matar gente inocente. Há algo de irresistivelmente justo e congruente e libertador nessa simetria; como seres humanos somos incapazes de resistir a uma história que nos conduza até um lugar em que ela possa ser devidamente celebrada.
Dexter nos leva a esse lugar todas as vezes. Quando deixamos de acreditar nas possibilidades da justiça efetuada pelas mãos de homens, não é como se não tivéssemos um sumo sacerdote que se compadecesse de nós. Dexter, que o rubro céu o proteja, é a incorporação da guerra justa e da violência redentora justamente quando podíamos ser tentados a deixar de acreditar nela. Pelos heróis que nascem banhados em sangue, rogai por nós.
Dexter, patrono do gerenciamento de múltiplas identidades
Desde pelo menos Jekyll e Hyde, de cujo legado se apropriaram tantos super-heróis e supervilões, a ficção tem brincado com as possibilidades metafóricas e dramáticas de uma dupla identidade. O jogo cambiante das máscaras pode ser, na verdade, retraçado como o mistério impulsionador de todo teatro e de todo o drama.
Porém, com a extravagante entrada em cena da internet, vive-se o primeiro momento da história em que o homem comum pode se ver pessoalmente envolvido com as tentações e complicações do gerenciamento de identidades. A internet, que é repleta de destinos mas não confere passaportes, é um um convite aberto para que desenvolvamos vários rostos.
É coisa mais do que corriqueira cultivar mais de um blog, sustentar mais de uma conta no Google ou usar nomes diferentes em diferentes redes sociais, cada uma dessas instâncias voltada para um interesse ou para um público. Há o cara da foto no Facebook, que pode não querer usar o mesmo nome quando entra num ambiente da internet em que se folheia pornografia, em que se compartilha conteúdo pirata ou em que se discute a sua preferência sexual. Na verdade, cada vez que precisa escolher um nome de usuário você está sendo convidado a assumir uma nova identidade, a desenhar um novo círculo que não necessariamente interceptará aqueles que em você, sob algum nome, já existe.
Na prática, as contas de usuário servem menos para proteger a sua privacidade do que para orientar a publicidade que será despejada na sua direção, mas a sedução de cada nova máscara permanece. Ninguém precisa mais contentar-se em ser uma pessoa só.
Na narrativa de Dexter, a centralidade do problema do gerenciamento de identidades reflete as complicações dessa nossa nova condição. Dexter é na luz do dia um policial quietão mas gente boa, profissional de primeira, amigo leal e pai de família, mas no abrigo da noite persegue sem trégua a sua obsessão, o “passageiro sombrio” que exige recorrentes derramamentos de sangue para manter-se mais ou menos sob controle. Nas histórias de super-heróis a problemática da identidade dupla é em geral tratada com leveza de farsa e descartada sem maiores problemas, mas a iminente e impensável sobreposição de mundos opostos é o que define toda a tensão na trajetória de Dexter.
Acompanhamos os seus trabalhos no sentido de manter as suas esferas separadas, mas entendemos simultaneamente que ninguém tem como manter partes de si mesmo independentes por tempo indeterminado. Por outro lado, as ferramentas da internet tem nos dado tamanha tarimba na prática da compartimentalização que nos tornamos incapazes de considerar como desejável a perspectiva de abrir mão de qualquer uma de nossas identidades paralelas.
Se o grande desafio da maturidade psicológica é o que Jung chama de individuação – o processo de nos tornarmos um in-divíduo, harmonizando num todo não-dividido as partes de nós mesmos que vivem em esferas separadas, – Dexter serve de formidável parábola sobre as dificuldades desse processo na presente experiência. Os dois mundos de Dexter não têm como colidir sem catástrofe; da mesma forma, temos aprendido a sustentar uma árvore inteira de narrativas pessoais que em outro tempo seriam consideradas irreconciliáveis. Pelos desafios do gerenciamento de identidades, rogai por nós.
Dexter, santo protetor dos alienados e perplexos
O aspecto mais ressonante e original da narrativa de Dexter, no entanto, é sua alienação essencial do mundo que o rodeia. Tendo sua estrutura psíquica precariamente organizada depois de sobreviver a um devastador trauma de infância, Dexter não sabe e não entende o que o mundo exterior espera dele. Não sabe sentir ou agir “naturalmente”. Suas reações são todas simuladas, fundamentadas na observação. Incapaz de encontrar dentro de si uma fonte genuína de convicção e de sentimento, seu método é oferecer em cada momento ao mundo o que ele imagina que o mundo espera dele naquele momento – e surpreende-se quando funciona na maioria dos casos. As pessoas ao seu redor o tomam por um cara um pouco esquisito mas simpático, sensível e de confiança – porém ele mesmo entende ser uma completa farsa.
É por esse milagre, pela sua ascendência como ícone espetacular de nossa própria alienação essencial, que vejo em Dexter a figura altaneira do padroeiro deste século.
Eis um cara que, como grande parte de nós, ou como todos nós grande parte do tempo, relaciona-se com o mundo como um observador, não como um participante. Dexter vive imerso numa experiência que lhe parece inteiramente estranha e impenetrável. Não tendo sido poupado de enxergar o caráter arbitrário e artificial das reações e princípios que tomamos por naturais, ele aprendeu a resignar-se a olhar o mundo com o fascínio e o horror com que observaríamos uma civilização extraterrestre.
O poder da metáfora está em que, devido a uma vasta cadeia de causas interligadas, nenhum conceito representa com mais acerto a condição do habitante deste milênio do que este: alienação. Não importa quão saudável ou natural lhe pareça o seu cotidiano, nosso próprio modo de viver está inteiramente permeado de pacotes de estranheza e de distanciamento. Karl Marx entreviu o capitalismo como fonte inexorável de alienação, mas absolutamente não tinha como prever os extremos vertiginosos aos quais içaríamos essa tendência.
Não há como não identificar-se em alguma medida com Dexter e sua precária relação com um mundo alheio e indecifrável. Tornamo-nos, no modo que vida que aprendemos a tolerar, gente assim. Como os personagens de um mau filme de ficção científica da madrugada, aprendemos a nos relacionar uns com outros e com o mundo pela intermediação de máquinas, tendo perdido a arte do contato direto com o que quer que seja. Nada no mundo real gera em nós uma verdadeira conexão, e todas as nossas reações dentro dele são simuladas. Onde deixei o meu celular? Pelo horror de um mundo que não nos diz respeito, rogai por nós.

NOTAS
10 de Outubro de 2011
A eremita trouxe as xícaras de chá e sentou-se de frente para o adolescente na mesa de madeira debaixo da pérgula, junto de onde ele tinha deixado a bicicleta. Tomaram um gole em sincronia e resvalaram numa página de silêncio enquanto observavam o ocre sem limites de Val d’Orcia.
– Em que você está pensando? – ela disse.
– Que talvez Deus não exista.
Ele tomou mais um gole, mas ela franziu um pouco a testa e não soube preservar o silêncio que ele talvez esperasse.
– Eu às vezes oro para que Deus não exista – ela disse de repente, a xícara junto ao peito como uma vela numa procissão.
– Como assim?
– Não sei. Às vezes penso que seria belíssimo se Deus fosse uma invenção dos homens.
– Não sei – ele coçou a barba rala. – Eu preferia que Deus fosse mais importante do que uma boa alucinação.
– É que – ela gastou um instante juntando palavras para descrever o irromper de sangue que trazia dentro do peito – isso se ajustaria perfeitamente ao Deus que eu gostaria de adorar e servir. Um Deus que se permitisse criar. Que se permitisse aperfeiçoar.
– Mas, que se fosse assim, seria para sempre subalterno aos homens.
– Não vejo porquê – ela foi sincera. – Talvez tudo no universo seja subalterno aos homens, menos esse Deus.
– Você está de novo entrando em terreno de excomunhão.
– E você veio buscar companhia num eremitério – ela explicou, vagamente irritada.
E voltaram a habitar o silêncio. Ele arriscou olhá-la por um instante, depois fechou os olhos e meneou a cabeça para capturar o dia no cheiro do vento.
– Acho que tudo está ligado – ela não resistiu – a essa coisa humana de contar histórias. Histórias que tenham começo, meio e fim. O desejo de ouvir e contar histórias é parte da nossa própria estrutura. O homem é maior que os anjos, mas interrompe o que estiver fazendo para dobrar-se à superioridade da narrativa. O universo inteiro é menor que a menor parábola.
– Você está querendo dizer que Deus é uma ficção.
– Não, estou dizendo que as histórias podem ser indicação de Deus – ela corrigiu, e apertava a xícara entre os dedos como se o calor da tarde não bastasse para aquecê-la. – E que nós, seres humanos, somos feitos de tal forma que o universo é regido de acordo com as histórias que contamos. Quando as ficções mudam, o mundo muda em conformidade.
– Isso é porque contamos histórias para inventar um sentido para o mundo – ele conformou-se ao papel de antagonista que no rumo da conversa ela havia destinado para ele. – A ficção dá a ordenação que o mundo por si mesmo não tem. Para ouvir histórias é preciso contribuir com uma espécie de “submissão experimental”, uma ingenuidade assumida de caso pensado. Fazemos isso na esperança de encontrar um sentido para a coisa toda. O que você está dizendo é que Deus não passa do resultado mais elevado desse tipo de experimentação. A maior história jamais contada, por assim dizer.
– Quero dizer que acho que Deus existe mesmo, mas que só se manifesta na ficção.
– O que é absurdo – ele disse, e imediatamente lamentou não ter um argumento melhor para interpor.
Ele mudou de posição no banco e uma perna roçou por um instante a meia preta dela. Ela recuou imediatamente, mas mais por coordenação fraternal do que por verdadeiro constrangimento. Nunca falariam a respeito disso, mas sabiam que não fosse a diferença abismal de idade teriam juntos explorado em redemoinho as camas do verão. Nem os votos dela nem o constrangimento dele teriam se colocado no caminho.
– E há algo sobre Deus que não seja absurdo? A ortodoxia, que é conservadora, insiste nisso. A liturgia. Nossa amizade é absurda.
Ele tomou o último gole e afastou a xícara para o centro da mesa. Depois alçou uma perna para cima do banco, apertou-a junto do corpo e apoiou o queixo no joelho. Ela olhava com um vago sorriso para um ponto no ar.
– Estou aqui tentando lembrar o nome de uma história de Jorge Luis Borges sobre um agente secreto num país estrangeiro que mata um homem só por causa do nome dele. Eles conversam um pouco sobre destino, vida e morte e depois o sujeito mata esse civil desconhecido só porque o nome dele, quando a notícia do assassinato saísse no jornal, serviria de senha para que a organização do agente deslanchasse alguma mobilização de guerra.
– E por que você quer lembrar o nome da história?
– Não sei. É que a ideia do conto se tornou de imediato uma obsessão para mim, essa de matar uma pessoa só para passar uma mensagem – ela finalmente olhou diretamente para ele. – Você me mataria para passar uma mensagem? Como posso saber se você não tem um revólver nessa mochila?
– Você não tem o nome certo – ele disse, e procurou o horizonte. – Não é a mensagem que eu quero passar.
Ela baixou a cabeça e sorriu, imediatamente irritada por ter se permitido irritar tão facilmente. Ela às vezes esquecia que ele era homem, mas isso só até que ele a fizesse lembrar do jeito mais inequívoco. Que os homens cedessem tão facilmente ao seu próprio arquétipo era, por si mesmo, o grande arquétipo masculino.
– A pergunta que você na verdade quer me fazer – ele adivinhou, – é se eu mataria Deus para passar uma mensagem.
E olhou para ela.
– A pergunta que eu quero fazer – ela exigiu, muito empertigada, – é se Deus se deixaria matar para passar uma mensagem.

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