31 de Maio de 2009

História universal do sarcasmo de Lutero

Divino preconceito

Nenhum autor da Reforma abraça retórica mais mesquinha do que Martinho Lutero – e é certamente por essa razão que com nenhum outro me identifico mais. Lutero é em muitos sentidos meu freio; não fosse a repugnância que causam-me os seus, meus próprios textos rebaixariam-se a indignidade ainda maior.

Thomas More, Calvino e Erasmo não desconheciam o uso do insulto e a ironia, e nisso abraçavam o espírito e a retórica do humanismo que os gerara. Lutero, no entanto, não se contentava com menos do que o sarcasmo. Muitas vezes corrosivo, muitas vezes violento, ocasionalmente grosseiro e chulo, Lutero gostava (como costumo fazer) de dar a impressão de ser duro consigo mesmo, mas era invariavelmente mais duro com os outros.

Eu poderia começar por virtualmente qualquer página sua, mas talvez seja mais instrutivo pensar na disputa entre Lutero e Erasmo de Roterdã sobre a questão do livre-arbítrio. Erasmo era avesso por princípio e por propensão a abordar teologia e doutrina de forma direta; porém, incomodado diante dos furores categóricos de Lutero sobre a soberania divina, publicou em setembro de 1524 a reflexão Diatribe sobre o livre-arbítrio (De libero arbitrio diatribe).

O que se seguiu não foi uma disputa de idéias, verdades ou ortodoxias, mas um conflito de mentalidades, uma peleja de retóricas.

Na Diatribe Erasmo não defende pessoalmente a idéia do livre-arbítrio. O holandês detestava a dissensão e intuía que todos os radicalismos eram arbitrários; numa palavra, era sofisticado demais para rebaixar-se à execração categórica de Lutero. O que ele faz é apresentar ambos os lados da argumentação de forma que julga suficientemente imparcial. Sua conclusão é que a Escritura e o bom senso dão evidência tanto do livre-arbítrio humano quanto de um rigoroso controle de Deus sobre as coisas – pelo que ninguém pode ser condenado por sustentar como verdade uma coisa ou outra.

Para Lutero, que não suportava meios-termos, a conclusão aberta de Erasmo era abominação. O que Erasmo tinha de cauteloso e conciliador, Lutero tinha de inflexível e opinioso. Apelava sem rodeios à autoridade e não tinha qualquer paciência para com quem abordava os dois lados da questão. Quem não estava com ele estava contra ele; quem não estava com Deus estava com o Diabo.

Em dezembro do ano seguinte, em resposta à Diatribe, Lutero deu ao mundo O arbítrio como escravo (De servo arbitrio), e o mundo não teve dúvidas sobre quem havia vencido a disputa. O livre-arbítrio encontrara o seu algoz.

Lutero encontrou na moderação de Erasmo o terreno perfeito para espojar-se em sua retórica de renitência. Erasmo era fraco, ele era forte; Erasmo era hesitante, ele era categórico. Para Lutero, essa diferença de tonalidade e de espírito dizia tudo sobre a verdade inenerente às convicões de ambos. Tudo que ele precisava fazer era deixar isso claro, e não era homem de meias medidas.

O que aprendi com os parágrafos que seguem (os primeiros da obra de Lutero), e que pode ser acrescentado às 38 maneiras de se vencer uma argumentação?

1. Transforme o que poderia ser encarado como uma desvantagem estratégica (neste caso, a demora de Lutero em responder as objeções de Erasmo) num argumento em favor da fraqueza do seu oponente.
2. Cometa elogios que não demorem a explicar-se como insultos.
3. Recorra à compaixão como máscara da superioridade.

Tendo em vista a natureza da controvérsia, devo reconhecer que a ressalva “seja por sorte, acidente ou destino” é toque especialmente inclemente e bem executado.

* * *

Como demorei tanto a responder a sua Diatribe sobre o livre-arbítrio, meu venerável Erasmo, [. . .] alguns podem talvez ter se mostrado prontos a perguntar-se se [. . .] “então esse Macabeu, esse assertor inflexível, encontrou finalmente um antagonista digno, alguém contra quem não ousa abrir a sua boca.”

Não tenho como culpar esses homens, porque estou pronto eu mesmo a dar-lhe a mão à palmatória, como jamais fiz com homem algum. Admito não apenas o quanto você me excede em eloquência e genialidade; admito também que foi bem-sucedido em desarmar o meu espírito e minha inclinação em respondê-lo, tendo me deixado sem qualquer ânimo para a batalha. E isso você fez de duas formas: primeiro, pela sua arte de defender a sua causa do começo ao fim com tão admiráveis controle e moderação, que tornou impossível para mim ficar furioso com você; e, em segundo lugar, por ter, seja por sorte, acidente ou destino, conseguido não dizer coisa alguma sobre esse importante assunto que já não tenha sido dito antes.

Na verdade, você diz tão pouco de novidade em favor do livre-arbítrio, em relação ao que os sofistas já fizeram antes de você, que pareceu-me inteiramente desnecessário responder os argumentos que eu mesmo já refutei tantas vezes e que já foram pisoteados e reduzidos a átomos pelo invencível Lugares Comuns de Philip Melanchton. Na minha opinião essa obra merece ser não apenas imortalizada, mas canonizada. Tão mesquinha e sem valor pareceu-me a sua, comparada àquela, que enchi-me de sincera compaixão por você, por ter poluído sua dicção engenhosa e elegante com argumento tão indecoroso; indignei-me sobremaneira com a imundícia do seu assunto, por ser apresentado numa sorte de eloquência tão ricamente ornamentada. É como se a sujeira da casa ou do estábulo fosse carregada nos ombros de homens em vasos de ouro e prata.

13 de Junho de 2008

Toda história sobre transgressão

Manuscritos

22

Toda história sobre transgressão é na verdade sobre a possibilidade e as implicações do livre-arbítrio.

Imaginemos o reverso: imaginemos uma narrativa em que os primeiros seres humanos, confrontados diante das mesmas facilidades e do eloqüente esplendor do fruto proibido, ousam um passo definitivo para trás. Por virtude ou timidez, preferem não conhecer o sabor da transgressão: recuam à casa, para o familiar abraço de Deus e sua irrestrita aprovação.

Nessa versão não contada da história os protagonistas viveriam em bem-aventurança eterna, mas o leitor – e a narrativa, será preciso constantemente lembrar, existe para o leitor – seria deixado em dúvida circular sobre o ponto essencial da trama.

O problema está em que, em termos dramáticos, nenhum final é verdadeiramente feliz antes que o conflito seja confrontado, antes que a verdadeira natureza do obstáculo seja encarada de frente. Nessa versão corrigida e correta da história o conflito teria sido apenas contornado; não teria sido vencido, pelo que a condição final dos protagonistas não poderia ser considerada literariamente satisfatória (emocionalmente satisfatória para o leitor). Em termos literários sua condição não teria, na verdade, como ser considerada final. Se o conflito não os aperta ao ponto do rompimento, se não os leva a experimentar o que poderiam efetivamente perder, somos levados a ler como ilusórios tanto a posição do obstáculo na história quanto sua resolução feliz.

E, por deixar o leitor em dúvida com relação a esse ponto fundamental, essa versão da história seria bem menos inofensiva do que parece. Teriam sido Adão e Eva verdadeiramente livres? Se o desenrolar da trama não permite que escolham o que não deve ser escolhido, como de fato saber?

Não se trata, mais uma vez, de conferir à história uma essência moral, coisa que a narrativa por si mesma não se rebaixa a fazer, mas de reconhecer nela a mais antiga especulação literária sobre a natureza da realidade. Que forças determinam a condição do ser humano? O homem é controlado pelo destino (isto é, por forças irresistíveis e externas a ele mesmo) ou pelas suas próprias escolhas? O livre-arbítrio existe ou é uma ilusão? Se existisse, quais seriam as suas consequências? Se existisse, a condição humana poderia ter um final feliz?

Para nos levar a esse espaço de simultâneos terror e legitimidade, o protagonista precisará avançar o limiar da sua zona de conforto. Para dar-nos indícios de que ele é livre e para que ele mesmo possa conhecer o terrível preço da liberdade, o conflito precisará apertar o protagonista ao ponto do irremediável. Adão e Eva precisam saber quem realmente são, e é somente depois que o narrador dirá deles que “seus olhos foram abertos”. Para conhecer quem realmente é Jonas terá de conhecer o ventre da baleia. No universo da narrativa, a transgressão é metáfora necessária para o autoconhecimento.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
02 de Abril de 2007

O inevitável e aquele outro

Fé e Crença

NOTA PARA MIM MESMO: escrever sobre o livre-arbítrio quando quiser despertar muitos comentários e apaixonados.

Minha intenção em O karma do livre-arbítrio era essencialmente expor a distinção técnica entre dois modos distintos de se pensar sobre determinismo, o científico e o teológico. Com o risco de dissipar a nuvem de mistério que deve acompanhar minha opinião pessoal sobre o assunto, permitam-me acrescentar uns poucos parágrafos a respeito da minha posição.

Será útil que concordemos, antes de tudo, sobre a distinção entre o que está predestinado e o que é inevitável. Segundo o determinismo teológico calvinista, as coisas acontecem de modo inexorável porque foram pré-dispostas pela inteligência de Deus a acontecerem dessa forma precisa; cada momento é previsível porque está predestinado. Para o determinismo científico, por outro lado, nada é conscientemente escolhido pela inteligência divina ou pela nossa. Ao contrário, tudo é rigorosamente fortuito. As coisas são previsíveis não porque exista por trás delas um planejamento prévio, mas porque, dadas as mesmas condições do sistema, aconteceriam inevitavelmente da mesma forma. Cada momento é previsível porque, dentro das variáveis de um sistema simples como o nosso, é inevitável.

Para o determinismo teológico, seremos capazes de prever o futuro sempre que Deus no-lo revelar. Para o científico, poderemos prever o futuro sempre que tivermos um conhecimento adequado das variáveis envolvidas e da relação entre elas.

Para um calvinista estava sim previsto por Deus, desde antes de toda a eternidade, que o Vinicius estaria escrevendo o seu comentário às 15:03 do dia 28 de março de 2007 enquanto tomava tererê na tarde quente de São Paulo. O cientista cognitivo, por outro lado, opinaria que o Vinicius tomava tererê porque estava quente; que escreveu as 15:03 porque não pudera escrever antes; e que era inevitável que alguém com as suas inclinações e bagagem de experiências acabasse se pronunciando sobre o assunto, e precisamente da forma como fez.

Dito isto, posso afirmar que creio muito mais no conceito de inevitabilidade do que no de predestinação, na forma como os expusemos aqui. Penso estar claro que o mundo vive debaixo da sombra da inevitabilidade. Dado o universo ser como é, as leis da física serem como são e os seres humanos serem de carne como são, o mundo da nossa experiência não tinha como ser diferente. São inevitáveis as coisas que sabemos que nos matam: as injustiças, os assassinatos, os roubos, as invejas, as cobiças, os capitalismos e as guerras. São inevitáveis as coisas que cremos que nos redimem: as gentilezas seletivas, as bondades direcionadas, a proteção dos amigos, o corporativismo entre semelhantes, os preconceitos e as preferências – coisas que, naturalmente, acabam patrocinando todas as injustiças mencionadas no item anterior. Não há predestinação nisso e ela é mesmo desnecessária.

Não é preciso predestinação para que Caim mate Abel, para que Isaque prefira Jacó, para que Jacó prefira José, para que José seja vendido pelos irmãos. Não é preciso predestinação para que tudo dê errado.

Não é preciso predestinação para que Caim mate Abel.

Minha postura sobre a predestinação está ligada precisamente a esta relação do ser humano com o que inevitável. Com Tolkien e Jacques Ellul, penso que a característica mais curiosa da nossa condição (e o mais convincente indicador da existência de Deus ou de algo que o valha) está em que “o ser humano pode sempre colocar em andamento eventos além daqueles que parecem inevitáveis”.

Creio que se como seres humanos somos predestinados a alguma coisa, é a fazer frente à grossa maré da inevitabilidade que tolhe os nossos movimentos e os de todos à nossa volta. Havendo um Deus, esse nos chamou a todos e a cada um para afundarmos nesse mundo de forma positiva, gerando soluções criativas (e em grande parte paliativas) para o velho problema do que não pode ser evitado. Quando lutamos contra a eloqüência do inevitável estamos fazendo aquilo para que somos escolhidos e predestinados; quando não, escolhemos nos conformar a este simulacro de vida, inteiramente esvaziados do espírito criativo do destemor de Deus.

Ecos desse chamado e da singularidade dos que o ouvem aparecem nas lendas de todas as culturas: o herói é invariavelmente chamado para deter o que não pode ser detido. Ele pode ser pequeno, despreparado e insignificante, mas sua singularidade está em levantar-se contra a maré; essa é em muitos sentidos a sua vitória, sua única vitória. E os heróis nos fascinam porque sentimos que é dessa forma que poderíamos – que deveríamos estar vivendo.

O Sermão do Monte, a história de Gandhi e a vida de Madre Teresa são testemunhos eloqüentes da possibilidade de uma vida postada conscientemente contra a torrente da inevitabilidade. E são, ao mesmo tempo, exemplo da quase completa futilidade desses esforços. Todos esses “lutaram contra a carne”, isto é, lutaram contra as paralisantes limitações inerentes à condição humana, mas não conquistaram muita carne além da sua. Tanto Jesus quanto Gandhi e Madre Teresa deixaram poucos discípulos no que diz respeito ao seu despejo em enfrentar o inexorável.

Não há naturalmente mérito em limitarmo-nos ao sabor do inevitável. Sendo o Brabo quem é, seria inevitável que ele levantasse esta Bacia e depositasse nela este tipo de coisa. Será porém inevitável que eu coloque em prática alguma coisa do que recomendo? De modo algum. Isso requeriria uma estirpe de coragem que não tenho e não quero ter.

No que me diz respeito não há história que reflita mais claramente a glória e os perigos desse trajeto do que o ciclo O Senhor dos Anéis, de Tolkien. A trilogia dá testemunho do trajeto de uns poucos heróis em sua luta contra a inevitabilidade. É inevitável que o Anel do Poder produza algum estrago no universo. É inevitável que Frodo seja contaminado pela posse do Anel. É inevitável que sejamos irremediavelmente contaminados pela existência. É inevitável que sejamos traídos e abandonados por um obsceno número de aliados. É inevitável que tenhamos de encarar de frente a morte, e que a esperança seja encarada, até por nós mesmos, como tolice. É inevitável que a eternidade seja maculada pela amargura que nos marcou a ferro e fogo. Mas quando houver glória, quando houver coragem, quando houver lealdade – ah, essa será como uma estrela resplandecendo na mais impensável escuridão.

28 de Março de 2007

O karma do livre-arbítrio

Pense comigo, Quase Ciência

Photo by Mamluke

O ser humano está predestinado a discutir incessantemente sobre o livre-arbítrio. Somos realmente livres para escolher o nosso destino, ou está tudo escrito nas estrelas, nos genes ou nos dutos elétricos do sistema nervoso?

Durante milênios a discussão permaneceu, no ocidente cristão, essencialmente teológica. O livre-arbítrio era em geral considerado uma impossibilidade ou uma heresia porque implicava num descuido da divindade. Um Deus realmente soberano, argumentam ainda hoje os calvinistas, não poderia deixar brecha alguma no seu plano. Na opinião dos teólogos reformados tudo está determinado: não há espaço para improviso no controle que Deus exerce sobre o universo, por isso o livre-arbítrio que parece caracterizar a nossa experiência no mundo é ilusão, mero truque de espelhos para nos distrair da dura verdade da predestinação.

Em meados do século XIX, com a ascensão do movimento libertário na política, o livre-arbítrio passou a ser festejado e explorado como discurso em diversos níveis. Cem anos depois o livre-arbítrio alcançava a glorificação final no conceito inescapável de amor-livre, que apenas transferia para o campo da conduta sexual as noções já consagradas de liberdade individual, decisão consensual e auto-determinação.

Porém, justamente quando se havia libertado das amarras da teologia e encontrado consagração na sociedade, o conceito de livre-arbítrio passou a receber impiedosos ataques, e do mais inesperado dos adversários: a ciência. O determinismo teológico foi substituído pelo determinismo científico.

O primeiro baque veio da pena singela de Freud, que ousou opinar que o livre-arbítrio, se existe, é exercido inconscientemente – ou seja, não é para todos os efeitos livre-arbítrio algum. Os verdadeiros golpes, no entanto, vieram dos campos da neurologia e da física, que apenas confirmaram as suspeitas mecanicistas de Julien Offray de La Mettrie em O Homem como Máquina.

Grande parte dos cientistas contemporâneos (dos envolvidos diretamente com o assunto, a maior parte) desconfia da noção do livre-arbítrio com a mesma austera convicção com que os reformados duvidavam dele – mas por motivos inteiramente diferentes, quase opostos. A posição oficial sobre o novo determinismo está bem resumida na sentença do biólogo evolucionário Richard Dawkins: “Como cientistas cremos que os cérebros humanos, embora talvez não funcionem como computadores feitos pelo homem, são tão certamente quanto eles governados pelas leis da física”. A implicação é clara: num sentido muito profundo, somos tão capazes de auto-determinação quanto um palmtop.

Thomas Metzinger, presidente da Sociedade Científica Alemã de Ciência Cognitiva, coloca a coisa nos seguintes termos:

Para objetos de tamanho médio a meros 37° centígrados, tais como o cérebro humano e o corpo humano, o determinismo é obviamente verdadeiro. O estado seguinte do universo físico é sempre determinado pelo estado anterior. Dados um determinado estado cerebral e um determinado ambiente, você não teria como ter agido de outra forma; uma assombrosa maioria de especialistas aceita isso como evidente no atual debate sobre o livre-arbítrio. Embora o seu futuro esteja em aberto, isso provavelmente significa também que para cada pensamento que você tiver e para cada decisão que fizer, é verdadeiro que esses terão sido determinados pelo estado anterior do seu cérebro.

Em alguma página de Borges está escrito que para a divindade (ou para algum ser suficientemente semelhante ao que concebemos como divindade) bastaria o acesso a um único instante de tempo para intuir a partir dele toda a história anterior e posterior do universo. Cada momento está prenhe de todo o passado e de todo o futuro; nesse sentido paradoxal, sou eu no presente que determino o futuro final do planeta e sou determinado por ele. Sou vítima e algoz, escravo e livre. Acho a idéia suficientemente bela para ser verdadeira.

16 de Outubro de 2006

O destino eterno de Deus

Fé e Crença

Inteiramente irrelevante para o resto do mundo, desenrola-se nos nossos dias um acirrado embate teológico que em nada fica devendo às elucubrações do escolasticismo medieval. O prêmio almejado por ambos os lados da discussão é o status de ortodoxia – a consagração de crença correta, oficial, credenciada, inquestionável e inquestionada. Em jogo está quem tem direito a usar a marca do verdadeiro cristianismo©. Com quem Deus vai ficar no final?

Com quem Deus vai ficar no final?

CALVINISMO: Em defesa da soberania de Deus

Deste lado, pesando 400 anos e com treinadores peso-pesado como Martinho Lutero e Calvino, está o calvinismo, sistema teológico característico das igrejas de tradição reformada. Os títulos já dizem tudo sobre a sua origem histórica: o calvinismo ostenta ser extensão fiel da postura teológica geral da reforma protestante do século XVI – refletindo em especial o pensamento de João Calvino e de seus discípulos imediatos.

No que interessa para a nossa discussão é preciso dizer que o calvinismo enfatiza tanto a tremenda soberania de Deus (Deus faz o que quer) quanto a tremenda incompetência do homem (o homem é incapaz de fazer por si mesmo qualquer coisa de bom).

O calvinista crê encontrar na Bíblia que Deus é soberano, e entende com isso que o livre-arbítrio humano é coisa que não existe. O homem, atolado até o pescoço na fossa do pecado, não tem qualquer inclinação, capacidade ou independência moral para desejar a Deus, quanto menos o cacife para escolher tomar o lado divino a fim de encontrar a salvação. Os que são salvos são salvos por iniciativa inconcidional de Deus tomada na eternidade antes do tempo começar a se desenrolar – ou seja, não com base em qualquer mérito, disposição em mudar ou manifestação de fé do indivíduo favorecido.

A morte sacrificial de Cristo não beneficia toda a humanidade, mas apenas essa porcentagem de eleitos que Deus escolheu em sua misericórdia e sem precisar dar explicações a ninguém. Essa graça concedida em favor dos eleitos é “irresistível” – isto é, do mesmo modo que não fez nada para merecê-la, o predestinado não tem liberdade para rejeitá-la e vai acabar cedendo a ela na hora certa, e para sempre. Os outros, predestinados à destruição, não tem por um lado espaço de manobra para mudarem o seu próprio destino, por outro direito a reclamarem dele.

Não é sem fundamento bíblico que o calvinismo deita essas propostas aparentemente paralisantes e deterministas. O apóstolo Paulo, em particular, parece fornecer ampla credencial para cada um dos pontos defendidos pelos calvinistas. Para citar uns poucos exemplos:

Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou (Romanos 8:29-30).

…que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos (2 Timóteo 1:9).

Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que usa de misericórdia (Romanos 9:16).

O calvinismo enfatiza a soberania de Deus e a incompetência do homem.

O conceito de predestinação parece também ter feito parte integrante do discurso do próprio Jesus e de outras tradições apostólicas:

Se o Senhor não abreviasse aqueles dias, ninguém se salvaria; mas ele, por causa dos eleitos que escolheu, abreviou aqueles dias (Marcos 13:20).

Os gentios, ouvindo isto, alegravam-se e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos haviam sido destinados para a vida eterna (Atos 13:48).

Ancorado nessa qualidade de testemunhos o calvinismo sustenta que a soberania divina deve ser entendida em termos de um controle firme de Deus sobre as rédeas da história. A liberdade de escolha de que o homem crê desfrutar é ilusória, visto que o desenrolar do enredo, em especial no que diz respeito a baixas e resgates individuais, já foi definido por Deus antes das câmeras começarem a rodar.

As particularidades do sistema calvinista refletem com exatidão as condições ideológicas do mundo em que nasceu. A reforma protestante levantou-se em grande parte como reação aos abusos teológicos, sociais e políticos da igreja católica do seu tempo. Os reformadores mostravam particular indignação para com a obsessão circular da igreja católica com as “boas obras”, obras alegadamente meritórias e/ou sacrificiais através dos quais o adorador podia garantir – e muitas vezes comprar – a sua salvação. Os reformadores criam, e com acerto, que o Deus da Bíblia não admite barganhas; ele exige performance mas não aceita subornos e não reconhece méritos, promovendo a reconciliação exclusivamente através de sua própria postura cavalheiresca, a que os autores do Novo Testamento dão o nome de graça.

O calvinismo é o resultado de se levar a idéia de predestinação às suas últimas conseqüências lógicas. Se Deus predestinou, a graça é irresistível. Se Deus predestinou, não foi para todos que Jesus morreu. Se Deus predestinou, a liberdade humana é uma ilusão e uma farsa. Se Deus predestinou, ele conhece o futuro por inteiro e a história está pronta – apenas não terminou de ser filmada.

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