19 de Agosto de 2010

A arte de ser simples

Goiabas Roubadas

As coisas simples são sempre as mais difíceis.

A arte de ser simples é a mais elevada, e do mesmo modo aceitar-se a si mesmo é a essência do problema moral e o cerne de toda uma visão de mundo. Que eu alimente um mendigo, que perdoe uma ofensa, que ame um inimigo em nome de Cristo, são todas sem dúvida grandes virtudes. Aquilo que faço ao menor de meus irmãos estou fazendo a Cristo.

Mas e se eu acabar descobrindo que o menor de todos, o mais pobre dos mendigos, o mais acusado de todos os ofensores e o próprio grande adversário residem dentro de mim, e que eu mesmo careço de minha própria bondade? Que sou eu mesmo o inimigo que deve ser amado? E então?

Portanto, regra geral, toda a verdade do cristianismo é revertida, e não se aplica qualquer discurso de amor e longanimidade. Dizemos ao irmão dentro de nós: “Raca!” e infligimos condenação e fúria sobre nós mesmos. Escondemos do mundo o irmão interior, negamos ter jamais conhecido esse menor dos menores dentro de nós, e se o próprio Deus se aproximasse de nós nessa forma desprezível – a nossa forma – teríamo-lo negado mil vezes antes que cantasse um único galo.

Carl Jung
em Psicoterapeutas ou o clero

04 de Agosto de 2008

A sombra e sua réplica

Goiabas Roubadas

Um homem inconsciente de si mesmo age de modo cego e instintivo; ele é além disso enganado por todas as ilusões que se levantam quando vê tudo aquilo de que não tem consciência em si mesmo vindo de encontro a ele de fora, na forma de projeções sobre o seu próximo.

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As projeções transformam o mundo na réplica da face desconhecida de cada um.

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A regra psicológica afirma que quando uma situação interior não é tornada consciente ela acontece na realidade exterior na forma de destino. Quer dizer, quando o indivíduo permanece indiviso e não toma consciência de seu oposto interior, o mundo é forçado a exprimir o conflito, sendo fendido em metades opostas.

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Encher a mente consciente de concepções idealizadas é característica da teosofia ocidental, mas não o confronto com a sombra e o mundo da escuridão. Não se alcança a iluminação imaginando-se figuras de luz, mas tornando a escuridão consciente.

Carl Jung

30 de Novembro de 2007

Freud e Jung

Pense comigo

Para Freud estamos, perpetuamente, conspirando secretamente contra nós mesmos. Para Jung o universo está, perpetuamente, conspirando secretamente em nosso favor.

Vejo irresistível evidência de que os dois estejam certos.

28 de Julho de 2007

A minha fábula é a verdade

Goiabas Roubadas

Minha vida é a história do auto-descobrimento do inconsciente. Tudo no inconsciente busca manifestação exterior, e a personalidade deseja também evoluir do seu estado inconsciente e experimentar a si mesma de forma integral. Não tenho como empregar a linguagem científica para traçar esse processo de crescimento interior, pois não tenho como experimentar a mim mesmo como um problema científico.

O mito expressa a vida de forma mais precisa do que a ciência.

O que somos na nossa visão interior, e aquilo que o homem é sub specie aeternitatis, só pode ser expresso através do mito. O mito é mais individual e expressa a vida de forma mais precisa do que a ciência.

Foi por isso que empreendi, aos oitenta e três anos de idade, contar meu mito pessoal. Posso apenas fazer declarações indiretas, “contar histórias”. A questão não é se essas histórias são ou não “verdadeiras”. A única coisa que importa é se narram a minha fábula, a minha verdade.

Carl G. Jung, Memories, Dreams, Reflections

Leia também:
Mito e metáfora
Joseph Campbell e o monomito

31 de Julho de 2005

Nós, protestantes

Goiabas Roubadas

Nós, protestantes, teremos mais cedo ou mais tarde de enfrentar a seguinte questão: devemos entender a imitação de Cristo no sentido de que devemos copiar sua vida e, se é que posso usar essa expressão, simular seus estigmas; ou no sentido mais profundo de que devemos viver nossas próprias vidas de forma tão verdadeira quanto ele viveu a sua em todas as suas implicações? Não é coisa fácil viver uma vida modelada na de Cristo, mas é indizivelmente mais difícil viver nossa própria vida de forma tão verdadeira quanto Cristo viveu a dele.

Carl Jung, em Os psicoterapeutas e o clero