02 de Julho de 2012
Uma pessoa inteligente que preze a sua tradição religiosa não vai aproximar-se a sério da ideia messiânica, porque o vento messiânico traz invariavelmente a ameaça de perturbações e de inovações teológicas – colocando desse modo em risco as tradições que definem e sustentam a própria religião.
Uma pessoa boa que se importe com a gente comum não vai se aproximar a sério da ideia messiânica (não vai em especial se colocar numa posição em que possa ser considerada ela mesmo o messias) porque ninguém ignora que na própria noção de messianismo está, em termos históricos e ideológicos, embutida a necessidade de violência.
No fim das contas, o messianismo é a expectativa de uma resolução violenta – isto é, não consensual ou gradual – para as tensões que apertam uma determinada subcultura. A realização sem trâmites da utopia encontra todo o tipo de resistência, exigindo desse modo grande dispêndio de energia. Por esse motivo, quando foram tentados na prática os movimentos messiânicos mostraram-se quase invariavelmente associados a revoluções, ao recrudescimento de tensões raciais e sociais e ao derramamento de sangue.
E só se pode dizer “quase invariavelmente”, claro, por causa de Jesus.
Jesus, pelo que sabemos, era um cara inteligente que prezava a sua tradição religiosa e um homem bom que se importava com a gente comum, mas isso não o impediu de aproximar-se do terreno minado da ideia messiânica. O que distingue o movimento inspirado por ele dos outros desse gênero que vieram antes e depois não está em que Jesus se abstinha de pregar ou anunciar a catástrofe – mas em que ele anunciava a gentil catástrofe da irmandade universal.
E, não importa o que você pense, o mundo estava mais preparado para a notícia de um império mundial controlado pela fria espada de um descendente de Davi no trono de Jerusalém do que para a noção de que todos os seres humanos são irmãos livres debaixo da aprovação invariável de um mesmo Pai.
A mensagem de Jesus de Nazaré era tão desarmantemente original, tão exigente e radical em apresentação e em desdobramentos, que manteve seu cerne não-violento mesmo depois que seu proponente saiu de cena e deixou de controlar a coisa toda pessoalmente. Até ser engolido, assimilado e vomitado em forma inversa pelo Império, no quarto século, o movimento de Jesus manteve-se consistentemente não-violento e popular – e isso numa época em que era raríssimo que as duas coisas andassem juntas.
Gente como nós, criada no leite inofensivo da ideologia pop da não-violência, pode ter perdido a capacidade de assombrar-se diante do quanto soava improvável e radical, dois mil anos atrás, a ideia de um movimento popular não-violento. Pode ser útil lembrar que uma postura radical de não-violência era coisa improvável há meros cem anos, e que em tantos sentidos permanece sendo nos nossos dias.
Claro que Jesus mal havia não esfriado no túmulo e começou a circular a versão de que sua passagem pela terra não havia sido suficiente, isto é, que seu método não devia ser considerado válido. O messianismo não-violento de Jesus não podia ser tolerado, pelo que ficou resolvido que sua visita pacífica tinha sido apenas a primeira – o que anulava em grande parte a sua singularidade. Decidiu-se que ele deve voltar desta vez valendo, de espada na mão, pra mostrar quem é que manda e botar ordem neste barraco.
07 de Abril de 2012
Tu és santo, único Deus Senhor,
Que operas coisas maravilhosas
Tu és forte, és grande, és altíssimo
És rei onipotente: tu, Pai santo,
rei do céu e da terra
Tu és trino e uno, Senhor Deus dos deuses
És o bem, todo o bem, o sumo bem,
o Senhor Deus vivo e verdadeiro
Tu és caridade, és sapiência
És humildade, és paciência
És beleza, és mansidão
És segurança, és descanso
Tu és júbilo e alegria,
És nossa esperança
És justiça
És moderação
És toda nossa riqueza e suficiência
Tu és beleza
Tu és mansidão
És protetor, és nosso guardião e nosso defensor
És força, és conforto
Tu és a nossa esperança
Tu és a nossa fé
Tu és a nossa caridade
És toda a nossa doçura
És nossa vida eterna, grande e admirável Senhor
Deus onipotente,
Misericordioso Salvador
Este texto, entregue por São Francisco a Frei Leão em 1224 (isto é, dois anos antes de morrer) e preservado hoje em dia em Assis, é um dos dois manuscritos de sua própria mão que sobreviveram aos séculos. Como em toda a marca que Francesco deixou sobre a terra, ele passa com resignação pelas coisas grandes e de menos importância requeridas pela ortodoxia (tu és rei onipotente, trino e uno, etc) e pausa sobre as coisas importantes – isto é, pequenas e singelas e que dizem respeito à cumplicidade entre os homens na qual se revela a divindade: tu és beleza, tu és mansidão (que aparecem juntas duas vezes) e, meu Deus, tu és toda a nossa doçura. Numa palavra, ele começa falando de teologia e termina falando sobre Jesus.
O pergaminho original revela que na primeira vez em que aparece a palavra “caridade”, como que para deixar um sumo e definitivo esclarecimento, Francesco voltou atrás e escreveu, acima da palavra latina caritas, a palavra (que em latim se escreve como em português) amor.
19 de Janeiro de 2012
PILATOS. Você está desrespeitando seu pai e sua mãe. Está desrespeitando a sua Igreja. Está violando os mandamentos do seu Deus, e alegando ter direito a agir assim. Está pleiteando em favor dos pobres, e declarando que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no paraíso de Deus; apesar disso você banqueteou-se na mesa dos ricos, e encorajou meretrizes a gastar em perfume para os seus pés o dinheiro que poderia ter sido dado aos pobres, deixando nisso o seu tesoureiro tão revoltado que ele o traiu ao Sumo Sacerdote por um punhado de prata. Ora, banqueteie-se o quanto quiser: não culpo você por recusar-se a fazer-se de faquir e a tornar-se exposição ambulante de austeridades tolas. Porém preciso impor um limite quando você promove tumulto no templo e arremessa o dinheiro dos cambistas para ser disperso entre os seus simpatizantes. Tenho uma lei para administrar. A lei proíbe obscenidade, sedição e blasfêmia, e você foi acusado de sedição e de blasfêmia. Você não as nega: você fala sem parar sobre a verdade, que acontece de ser apenas aquilo em que você gosta de acreditar. Sua blasfêmia não representa nada para mim: toda a religião judaica, do começo ao fim, é blasfêmia do meu ponto de vista romano; mas significa muito para o Sumo Sacerdote, e não posso manter a ordem em meio aos hebreus a não ser lidando com os tolos judeus de acordo com a tolice judaica. Já a sedição diz respeito a mim e ao meu cargo muito de perto. Quando você promete suplantar o Império Romano com um reino em que é você e não César a ocupar o trono, torna-se culpado da mais grave sedição. Sou avesso a mandar crucificá-lo; embora seja judeu, e como se não bastasse jovem e imaturo, percebo que você é à sua maneira judia um homem de qualidade. Não me sinto à vontade em atirar à multidão um homem de qualidade, mesmo que sua qualidade seja meramente judaica. Pois como aristocrata sou eu mesmo um homem de qualidade, e falcão não arranca olho de falcão. Na verdade, se condescendo em parlamentar com você tão extensamente é na misericordiosa esperança de encontrar uma desculpa para tolerar sua blasfêmia e sedição. Em sua defesa você oferece apenas uma frase vazia sobre a verdade. Sou sincero quando digo que desejo poupá-lo, porque se não libertá-lo terei de libertar aquele patife Barrabás, que foi mais longe do que você e cometeu assassinato, enquanto entendo que você só ressuscitou dos mortos um judeu. Então, pela última vez, faça seu juízo funcionar, e encontre-me uma razão sólida para deixar partir em liberdade um blasfemador sedicioso.
JESUS. Não peço que me liberte; também não aceitaria minha vida ao preço da morte de Barrabás, mesmo se acreditasse que você tem poder para revogar o suplício ao qual estou predestinado. Mas para satisfazer seu anseio pela verdade, direi que a resposta às suas questões está em seu próprio argumento de que nem você nem o prisioneiro que você está julgando são capazes de provar que têm razão; sendo assim você não deve me julgar, para não ser julgado. Sem sedição e blasfêmia o mundo permaneceria imóvel, e o reino de Deus nunca chegaria a estar um estágio mais próximo. O império romano começou com uma loba dando de mamar a duas crianças. Se essas crianças não tivessem sido mais sábias do que sua madrasta, seu império seria uma matilha de lobos. É por crianças que são mais sábias que os pais, por súditos que são mais sábios que seus imperadores e por mendigos e vagabundos que são mais sábios que seus sacerdotes que os homens alçam-se de serem animais predadores a crerem em mim e serem salvos.
PILATOS. O que você quer dizer com “crer em você”?
JESUS. Ver o mundo como eu vejo. O que mais poderia significar?
PILATOS. E você é Cristo, o Messias, certo?
JESUS. Se eu fosse Satanás meu argumento permaneceria válido.
PILATOS. Devo então poupar e encorajar todo herege, todo rebelde, todo transgressor e todo velhaco, porque ele pode acabar se mostrando mais sábio do que todas as gerações que fizeram o Direito Romano e construíram sobre ele o Império Romano?
JESUS. Pelos frutos você os reconhece. Cuidado quando você mata um pensamento que é novo pra você; esse pensamento pode ser o fundamento do reino de Deus na terra.
PILATOS. Pode ser também a ruína de todos os reinos, de toda lei, de toda sociedade humana. Pode ser o pensamento do animal predador lutando para voltar.
JESUS. Não é o animal predador que está lutando para voltar; é o reino de Deus que está lutando para vir. O império que olha para trás com terror dará lugar ao reino que olha para a frente com esperança. O terror enlouquece os homens; a esperança e a fé dão-lhes sabedoria divina. Os homens que você enche de temor não se intimidarão diante de nenhum mal e perecerão em seu pecado; os homens que encho de fé herdarão a terra. A você eu digo: expulse o medo. Pare de me dizer coisas vãs sobre a grandeza de Roma. Aquilo que você chama de grandeza de Roma não passa de medo: medo do passado e do futuro, medo dos pobres, medo dos ricos, medo dos sumos sacerdotes, medo dos judeus e gregos que são cultos, medo dos gauleses e dos godos e dos hunos que são bárbaros, medo da Cartago que vocês destruíram para salvá-los do medo que tinham dela e que agora temem mais do que nunca, medo do César imperial, o ídolo criado por vocês mesmos, e medo de mim, o vagabundo sem um tostão, espancado e ridicularizado, medo de tudo exceto o domínio de Deus: fé em coisa alguma que não seja sangue e ferro e ouro. Você, representando Roma, é o covarde universal; eu, representando o reino de Deus, enfrentei tudo, perdi tudo, e ganhei uma coroa eterna.
PILATOS. Você ganhou foi uma coroa de espinhos, e vai usá-la na cruz. Você é um sujeito mais perigoso do que eu imaginava. Com sua blasfêmia contra o deus dos sumos sacerdotes pouco me importo: no que me diz respeito você pode espezinhar a religião deles até o inferno. Mas você blasfemou contra César e contra o Império; e falou sério, e tem poder para dobrar o coração dos homens contra ele, como dobrou o meu. Devo portanto por um fim em você, enquanto resta alguma lei neste mundo.
JESUS. A lei é cega sem conselho. O conselho com que concordam os homens é vão: não passa do eco de suas próprias vozes. Um milhão de ecos não irão ajudá-lo a governar com justiça, mas quem não tem medo de você e mostra o outro lado é uma pérola do maior valor. Mate-me e você ficará cego, para sua própria condenação. O maior dos nomes de Deus é Conselheiro; quando o seu império for pó e o seu nome uma lembrança, entre as nações os templos do Deus vivo ecoarão ainda o louvor a ele como Maravilhoso! Conselheiro! O Pai da Eternidade, o Príncipe da Paz.
Bernard Shaw, no prefácio de On the rocks (1933)

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Se ele era inocente
16 de Janeiro de 2012
Jesus era do ponto de vista do Sumo Sacerdote um herege e um impostor, do ponto de vista dos comerciantes um agitador e um comunista. Do ponto de vista imperialista dos romanos era um traidor, do ponto de vista do senso comum um louco perigoso. Do ponto de vista do esnobe, que exerce sempre grande influência, era um vagabundo sem um tostão.
Do ponto de vista da polícia ele era obstruidor das vias públicas, pedinte, aliado de prostitutas, apologista de pecadores e depreciador de juízes; seus companheiros eram vadios que tinham sido seduzidos de seus ofícios regulares para uma vida de vagabundagem. Do ponto de vista dos devotos Jesus era um violador do sábado, negador da eficácia da circuncisão, advogado do rito estranho do batismo, glutão e bebedor de vinho. Era odiado pela classe médica por praticar a medicina sem qualificação, curando as pessoas por curandeirismo e sem cobrar pelo tratamento.
Ele era contra os sacerdotes, contra o judiciário, contra os militares, contra a cidade (tendo declarado que era inconcebível que um rico entrasse no reino do céu), contra todos os interesses, classes, principados e potestades, convidando a todos que abandonassem essas categorias e o seguissem.
Por todos os argumentos legais, políticos, religiosos, do costume e da polidez, Jesus foi o maior inimigo da sociedade do seu tempo já colocado atrás das grades. Era culpado de cada acusação feita contra ele, e de muitas outras que não ocorreu a seus acusadores levantar. Se ele era inocente, o mundo inteiro era culpado. Inocentá-lo seria atirar pela janela a civilização e todas as suas instituições. A história confirma o litígio contra ele, pois nenhum Estado jamais constitui-se sobre os seus princípios ou tornou possível viver de acordo com os seus mandamentos; os Estados que assumiram o nome dele foi para usá-lo como credencial que os habilitasse a perseguir os seus seguidores de modo mais plausível.
Bernard Shaw, no prefácio de On the rocks (1933)

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19 de Dezembro de 2011
A propósito, se não tenho coragem de recomendar descaradamente o filme Árvore da vida, de Terrence Malick, é porque às vezes tenho vergonha de quanto descaradamente cristão o filme é, e queria poder evitar esse proselitismo. Mas não se iluda: trata-se de uma obra imensa, luminosa e generosa, ao mesmo tempo ambiciosíssima e tremendamente singela. Árvore da vida é um filme do Espírito e um filme de Jesus em todos os sentidos, inclusive no que a coisa pode ter de mais constrangedor, a sensação sempre iminente de que talvez se esteja assistindo a uma peça de Natal com ambições cósmicas. Porém é um grande filme e um filme cristão, e não creio que as duas coisas já tenham coexistido neste universo. Fiquei por meses ponderando se tinha assistido ao primeiro filme da minha vida ou ao último.
E o glorioso é que a melhor resenha do filme que cheguei a ler é de um homem que não se dá ao trabalho de acreditar em Deus, Tim Brayton, que lê do seguinte modo a contraposição entre o caminho da natureza e o caminho da graça (ou, para usar a linguagem bíblica, entre carne e espírito):
O que me deixou um pouco perplexo, na primeira vez em que vi o filme, foi pensar que se a obra cinemática de Malick pode ser resumida a um único tema, seria a inseparabilidade entre o caminho da natureza e o caminho da graça, não seria? “Natureza”, no entanto, não se refere aqui ao mundo natural, mas à natureza humana. A mulher prossegue sem intervalo a explicar suas palavras, esclarecendo que os que seguem o caminho da natureza são levados a fechar-se para a bondade e para luz; forçam a si mesmos e aos outros a seguir uma espiral desordenada de provarem-se incessantemente os mais fortes, os mais capazes, os mais ricos, os mais poderosos, e assim por diante. Os que seguem o caminho da graça permitem-se simplesmente Ser. Não é o modo como ela coloca, “Ser”, mas não resta nenhuma dúvida a partir do seu tom de voz de que, se tivesse usado essas precisas palavras, “Ser” viria proferido em inequívocas maiúsculas.
Brayton tem a lucidez adicional de enxergar o que pode ter passado despercebido a muitos cristãos que viram o filme, a sacada de que na vida de cada um carne e espírito – o caminho da natureza e o caminho da graça – permanecem inseparáveis mesmo quando um consegue ultrapassar em muito o poder do outro. Foi por isso que, com alguma hesitação, coloquei a narração inicial do filme para introduzir minha nota sobre a manipulação de antônimos. Não deve haver dúvida de que o capitalismo é o caminho da natureza e a herança de Jesus é o caminho da graça, mas natureza e graça, embora antagônicos, não são, infelizmente, antônimos. Carne e espírito não existem separados dentro de nós mesmo quando empreendemos entregar a vida com toda paixão apenas a um. Se temos de “escolher que caminho seguir” não é em regime definitivo, o que não seria possível, mas a cada momento. Nem os mais virtuosos nem os mais perversos dentre nós são consistentes na sua escolha, o que explica em parte a ambivalência e a complexidade da condição humana. Como lembra aquela canção italiana de que gosto, somos todos vítimas e algozes e – de algum modo misterioso mas muito literal – os outros somos nós.

NOTAS
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