29 de Novembro de 2011

Los más arduos pasajes

Traduzindo Borges

É ateu, mas sabe interpretar de um modo ortodoxo as mais árduas passagens do Alcorão, porque todo homem culto é um teólogo, e para sê-lo não é indispensável a fé.

Jorge Luis Borges, pausando sobre Omar Khayyām
em suas Otras Inqusiciones (1952)

15 de Junho de 2011

Por que as religiões rígidas prosperam

Goiabas Roubadas

Não é coisa fácil explicar porque algumas pessoas submetem-se entusiasticamente à lei religiosa, especialmente quando se está falando com gente que não tem o menor desejo de agir da mesma forma. Por que limitar-se à “teologia do corpo”, como a chamava o papa João Paulo II, quando o controle da natalidade e a pesquisa de células-tronco prometem alívio para duas das mais dolorosas vicissitudes da existência física – a gravidez indesejada e as doenças degenerativas? Porque restringir-se a alimentos kosher, quando o cashrut baseia-se em classificações zoológicas que caducaram milhares de anos atrás?

Entre os não-devotos, uma piedade dessa magnitude é frequentemente vilipendiada como patologia social. Os moderadamente religiosos demonstram mais respeito mas também não ajudam a esclarecer o mistério; eles só balançam a cabeça e dizem, “pra eles acho válido, só não é pra mim”. Nem mesmo os devotos encontraram um modo de comunicar ao resto do mundo o que os atrai numa observância religiosa rígida. Eles só dizem que agem assim porque Deus quer que ajam – argumento que simplesmente não faz sentido para um incrédulo. Ou alegam superioridade moral, coisa que, se você acredita que a moralidade deriva de Deus, é praticamente a mesma coisa que dizer que estão agindo assim porque Deus quer que ajam.

Em geral não se espera que um economista se mostre mais capaz de explicar a religião do que um religioso, mas um economista de fato o fez, utilizando a linguagem amoral da teoria da escolha racional1, que reduz as pessoas a “agentes racionais” que “maximizam a utilidade” – ou seja, gente que age movida apenas por interesse próprio. Em seu ensaio de 1994, Por que as igrejas rígidas prosperam, que se mostraria de grande influência no campo da sociologia da religião, o economista Laurence Iannaccone defende a teoria contra-intuitiva de que as pessoas escolhem as religiões rígidas devido aos benefícios mensuráveis que sua devoção lhes proporciona, não na vida futura, mas aqui e agora.

Iannaccone começa se perguntando por que as pessoas decidem afiliar-se a igrejas rígidas, visto que fazê-lo requer um custo tão alto. Costumes excêntricos são um convite ao ridículo e à perseguição; a participação numa igreja marginal pode limitar as chances de avanço econômico e social; as regras de observância impedem o acesso a prazeres aparentemente inocentes; e a coisa toda requer tempo que poderia ser gasto em diversão ou em aprimoramento pessoal.

De acordo com Iannaccone, o devoto paga esse elevado preço social porque compra com ele um produto religioso de maior qualidade. As normas rígidas desencorajam os aproveitadores, aqueles que minam os esforços do grupo tirando proveito mais do que contribuem. Uma igreja rígida é aquela na qual os membros pouco comprometidos foram eliminados. Aumentar as tarifas para a participação não funciona tão bem quanto aumentar o custo de oportunidade da afiliação, porque tarifas afastam os pobres, que são justamente os que menos têm a perder em doar o seu tempo, e são também os que têm mais incentivo para orar. As tarifas, além disso, encorajam os ricos a substituir devoção por dinheiro.

O que o devoto recebe em troca de todo o seu tempo e esforço? Uma igreja cheia de membros apaixonados; uma comunidade de pessoas profundamente envolvidas nas vidas uns dos outros e mais dispostas do que a maioria a prestar assistência mútua; uma agremiação de pares formada por almas versadas na mesma linguagem (ou linguagens), movidas pelos mesmos textos e acalentadas pelos mesmos sonhos. A religião é uma “‘mercadoria’ que as pessoas produzem coletivamente”, afirma Iannaccone. “Minha satisfação religiosa depende então tanto de meus próprios inputs quando do input dos demais”. Se uma experiência espiritual rica e consistente é o que você busca, uma igreja pentecostal com fachada de loja ou uma sinagoga ortodoxa é provavelmente mais adequada do que uma igreja elegante formada por gente distraída e ambiciosa que mal consegue encontrar uma manhã livre para o culto de domingo, que dizer várias noites livres por semana para estudo bíblico e trabalho voluntário.

A partir de determinado ponto, naturalmente, as desvantagens do fanatismo passam a ultrapassar os benefícios. Uma igreja atinge esse ponto quando se mostra incapaz de oferecer substitutos para tudo aquilo de que pede que seus membros abram mão. Seitas que seduzem seus fiéis para o deserto mas não lhes proveem um meio de subsistência logo desaparecem de cena. Códigos abrangentes de comportamento que isolam as pessoas socialmente – tais como, digamos, o do judaísmo – desaparecem por completo a não ser que se estabeleçam redes que prestem suporte aos seus aderentes. Isso ajuda a explicar, entre outras coisas, porque os judeus que mudaram-se para cidadezinhas do sul [dos Estados Unidos] para abrir mercearias nos séculos XIX e XX, e viveram por décadas sendo as únicas famílias judaicas de suas comunidades, acabaram assimilando a cultura exterior mais do que praticamente todos os judeus ao redor do mundo.

O exemplo que Iannaccone dá de uma igreja cuja postura rígida pode ter saído pela culatra é a igreja católica, que tem tido dificuldade em manter seguidores na Europa e em atrair homens para o sacerdócio na América do Norte. Os tradicionalistas colocam a culpa pelas dificuldades da igreja nas reformas do [Concílio] Vaticano II, a partir do qual a missa começou a ser proferida no vernáculo e padres e freiras despiram suas vestimentas de outro mundo. Os que aspiram por uma reforma colocam a culpa na recusa dos líderes da igreja em ceder à opinião popular a respeito de controle da natalidade, homossexualidade e celibato clerical. Iannaccone afirma que os dois lados estão certos. “A igreja católica pode ter conseguido chegar a uma singularíssima posição de ‘pior-de-dois-mundos’”, ele escreve, “tendo abandonado posturas marcantes e estimadas nas áreas de liturgia, teologia e estilo de vida, e conservando ao mesmo tempo justamente as demandas que seus membros e seu clero mostram-se menos dispostos a aceitar.”

Porém, se códigos rígidos de conduta, judiciosamente aplicados, provam-se uma vantagem no mercado espiritual, faz sentido que os Estados Unidos, um dos poucos países sem uma religião estatal e com um mercado religioso genuinamente aberto, seja berço de tantas variedades de fundamentalismo e de ortodoxia. O crescimento explosivo do conservadorismo cristão, judaico e islâmico e o lento declínio de denominações mais refinadas como o episcopalismo pode representar não o triunfo das forças reacionárias, mas o resultado natural da competição religiosa.

Será consequência necessária da teoria de Iannaccone que os Estados Unidos estejam destinados a serem dominados pela direita religiosa, pelo menos enquanto seus líderes não forem longe demais? Não necessariamente. Suas observações tem mais a ver com o modo como as igrejas funcionam do que com o que advogam. O ponto central reside em que os fiéis anseiam por um comprometimento entusiástico de seus companheiros de adoração – não que os que anseiam por comprometimento pendem para a esquerda ou para a direita.

Reconhecidamente, devoção e ideias absolutistas tendem a andar juntas. É mais fácil aliciar os afiliados de correntes competidoras quando você pode asseverar que seu modo de vida provê acesso exclusivo à verdade. Porém, se o desejo por conexões abundantes e por uma comunidade forte representa mesmo que uma pequena parte da atração de uma vida religiosa rígida, as soluções de Iannaccone para a questão dos aproveitadores podem prover valiosas percepções, mesmo para igrejas e sinagogas menos rigorosas. Ministros metodistas podem permitir-se exigir mais oração e mais trabalho voluntário de seus congregantes. Rabinos do movimento judaico conservador (que são menos rígidos do que os do judaísmo ortodoxo) podem exercer maior pressão para que suas congregações mantenham-se kosher, estudem o Talmude e visitem os enfermos. Não há motivo para que níveis elevados de comprometimento religioso não estejam ligados a teologias liberais ao invés de conservadoras, a posturas de ceticismo e de dúvida ao invés de discursos fundamentalistas, se for nisso que creem e preguem pastores e rabinos. Demandas mais elevadas podem acabar gerando igrejas e sinagogas menores, mas o papa Bento XVI pode ter acertado em cheio quando, ainda cardeal, disse a um jornalista alemão que o futuro da igreja católica está em igrejas menores formadas por seguidores mais dedicados – um cristianismo “caracterizado pela semente de mostarda,” como ele coloca.

O maior obstáculo para essas reformas por parte dos líderes liberais é, naturalmente, a imaginação liberal, que tende a associar ritos tradicionais a uma postura retrógrada, ignorante e de extrema direita. Porém o mundo está repleto de seitas rigorosíssimas com praticantes cuja postura política não se presta a uma categorização fácil. Pense no pacifismo dos quacres, ou no ativismo contra a pena de morte por parte de muitos católicos. Como entenderam os grandes líderes religiosos do mundo, ritual é teatro: você pode usá-lo para passar a mensagem que quiser.

Judith Shulevitz, Slate Magazine, maio de 2005

Leia também:
O segredo do sucesso
Confissões de um ex-dependente de igreja

 

NOTAS
  1. Os economistas pressupõem que as pessoas são racionais por razões metodológicas, não porque de fato acreditem nisso. N. do A. []
19 de Novembro de 2009

Ainda sobre a ameaça muçulmana

Divino preconceito

A versão curta:

Nada há para temer.

A versão longa:

Há muitos sentidos em que é desnecessário e antiético semear o pânico acenando com uma iminente islamização do Ocidente, e O mundo está mudando – aparentemente o título do vídeo de propaganda anti-islâmica que mencionei há pouco e que, informaram-me por email, é versão brasileira de uma produção norte-americana – é exemplo acabado dessa mentalidade a ser denunciada.

Em primeiro lugar há o mais escancarado, o fato de que o vídeo (e sua mentalidade) empunham a máscara da acusação e promovem o caminho fácil da demonização do outro. Para os produtores do vídeo, o mundo não apenas será muçulmano, mas será um mundo certamente pior precisamente por essa razão. Está pelo menos implícito que os muçulmanos são gente do mal; que o Islam é uma mancha que está ameaçando com sua imundície o seio imaculado e cristão do Ocidente.

Esta tonalidade de discurso é especialmente mesquinha e perigosa, porque semear o medo é um dos modos mais certeiros de se produzir alienação, estranhamento e intolerância – e, como bônus – controlar as massas.

Não há como deixar de lembrar que foi essa a estratégia usada pelos nazistas para alienar os judeus. Multidões sem fim de alemães sensatos foram calados por esse discurso, e as ferramentas utilizadas para manipulá-los foram precisamente as mesmas a que recorre esse novo vídeo cristão.

Não havia ainda o Youtube, mas na Alemanha nazista os cidadãos também recorriam a artefatos culturais arbitrários a fim de orientarem suas posições. Der Ewige Jude (“O judeu eterno”, 1940), um dos filmes mais odiosos de todos os tempos, demonizava os judeus com praticamente os mesmos argumentos com que O mundo está mudando demoniza os muçulmanos (veja as imagens comparativas que ilustram este artigo).

Der Ewige Jude alertava que, caso não fossem interrompidos imediatamente, os judeus dominariam o mundo; O mundo está mudando profetiza que, se não forem detidos por cristãos de coração puro, os muçulmanos engolirão a Terra.

O que está implícito na iconografia comum é a solução comum. Não se engane: para os produtores de O mundo está mudando os muçulmanos devem ser a qualquer custo detidos, marginalizados, neutralizados e eliminados – se não pelo bem opcional da conversão, quem sabe pelo mal necessário do campo de refugiados.

O segundo ponto que precisa ser espetacularmente denunciado é a hipocrisia da coisa toda. A posição oficial do vídeo (bem como do discurso subjacente) é de que o que está em risco, aquilo que precisa ser em última instância defendido contra a ameaça muçulmana, é “nossa cultura”. Quem assiste pode até pensar que os produtores querem ver preservado “para nossas crianças” os valores morais e a herança artística/histórica da civilização ocidental.

É hipocrisia, porque trata-se de um vídeo de propaganda: o que quer promover é a religião/religiosidade cristã (em sua modalidade evangélica) contra todos os competidores. É ainda hipocrisia em dose dupla, porque o que acaba defendendo não é nem mesmo o cristianismo formal, mas o modo de vida capitalista ocidental, que se vê constantemente ameaçado por manifestações mais temperadas e menos egoístas de islamismo.
Os judeus se alastram pela Europa e pelo mundo, no paranóico e perverso Der Ewige Jude (1940) da propaganda nazista

O curioso é que, pessoalmente, a única coisa que realmente lamento no avanço muçulmano em terreno europeu é precisamente aquilo que o vídeo afirma (hipocritamente) lamentar: a eventual perda de uma imponderável parcela da herança cultural do ocidente. Se é doloroso para mim pensar em igrejas milenares que se tornarão mesquitas, é por causa do peso de “milenares”, e não por causa do peso de “igrejas”.

Porém como em todos os casos, os cristãos devem abraçar irrestritamente a humildade, e lembrar que muitas dessas igrejas milenares – como descobri nesta passagem pelo norte da Itália – foram elas mesmas construídas sobre (e, em alguns casos, em) templos romanos que estavam ali muito antes delas.

Para resumir: não vejo como uma eventual Europa “muçulmana” poderá representar ameaça maior para a herança do cristianismo do que, digamos, os Estados Unidos – país bélico e consumista (não há diferença) que se considera em grande parte o epítome de “cristão”. Se sobreviveu a essa mácula e a essa representação, sobreviverá a qualquer coisa.

O legítimo movimento cristão, que é livre e gratuito e que edifícios fechados não podem conter, não tem por definição como ser ameaçado de fora. A única coisa que pode maculá-lo, é claro, somos nós, que dizemos Senhor, Senhor mas não fazemos o que ele diz.

Fora nossa própria hipocrisia, nada há que temer.

Finalmente, resta lembrar que ser cristão requer a vida do cidadão que se sujeita a esse projeto. Como exemplificado por Jesus e entendido por São Paulo e todos os mártires e São Francisco e Tolstoi e Gandhi e Martin Luther King e Madre Teresa, a única coisa que um cristão pode efetivamente fazer em defesa da sua fé é precisamente não lutar por ela. Lutar pelo cristianismo é baixar a cabeça e morrer. Se essa rendição for voluntária, como aparentemente está sendo, haverá talvez maior mérito para os que ousarem entregar o espírito.

Veja também:
Gli altri siamo noi
A guerra contra os turcos
Os estrangeiros que são todos
O último cristão
A raça superior
A regra do argueiro da fé
Der Ewige Jude, versão integral para download

17 de Novembro de 2009

A boa notícia

Pormenor

Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet.

Mandou-me o Alessandro Casagrande, para me importunar, este vídeo alarmista (produzido pela Primeira Igreja Batista de São José dos Campos) que lhe encaminhou um seu amigo cristão.

Se você tem mais o que fazer, e espero que tenha, posso explicar que o vídeo argumenta que:

[1] para manter uma cultura viva (o que quer que se queira dar a entender com isso) requer-se uma taxa de fertilidade mínima de 1,9 pessoas por família;
[2] as taxas de fertilidade na Europa encontram-se bem abaixo desta média e caindo;
[3] apesar disso a população na Europa não está diminuindo, por causa da entrada sem trégua de imigrantes muçulmanos e porque a taxa de fertilidade nas família muçulmanas residentes na Europa chega a 8,1;
[4] em breve a Europa será muçulmana, e sua cultura milenar (leia-se “cristianismo”) encontra-se ameaçada.

Minha resposta:
A boa notícia é que os cristãos não terão de ser esterilizados!

Para assistir em tela inteira clique o botão apropriado (  ) na barra de reprodução.

Leia também:
Ainda sobre a ameaça muçulmana

23 de Março de 2009

A rivalidade do anel

Goiabas Roubadas

SALADIN.
Já que é homem tão sábio, diga-me qual lei,
Qual fé lhe parece ser a melhor?
O judaísmo, o cristianismo ou o islamismo?

NATHAN.
Em tempos idos habitou no leste certo homem
Que de valorosa mão recebeu um anel de infinito valor:
Sua pedra, uma opala que emitia sempre cambiante matiz
E tinha, além disso, a virtude secreta de tornar seu possuidor
Agradável a Deus e os homens;
Diante disso e dessa persuasão ele passou a usá-lo.
Não será estranho saber que o homem do oriente não o tenha tirado do dedo jamais,
E tenha tomado providências para que o anel permanecesse entre seus descendentes como herança perpétua.
Dessa forma ele o deixou para o MAIS AMADO dentre os seus filhos,
Ordenando que esse legasse por sua vez o anel
Ao MAIS QUERIDO entre seus próprios filhos
E que, não importando a ordem do nascimento,
O FILHO FAVORITO, pela virtude suficiente do anel,
Permanecesse sempre o senhor da casa.
Está ouvindo, sultão?

SALADIN.
Estou ouvindo, prossiga.

NATHAN.
Passando de um filho a outro,
O anel chegou finalmente a certo pai
Que tinha três filhos, todos igualmente obedientes,
E que ele não tinha como deixar de amar igualmente.
Às vezes parecia ser este, às vezes esse, às vezes aquele –
segundo cada um recebia, a sua vez, as prodigalidades do seu coração – mais digno do anel,
O qual, com bem-intencionada fraqueza, o pai prometeu, em particular, a cada um.
Assim as coisas seguiram por um tempo,
Mas com a proximidade da morte o velho pai viu-se embaraçado.
Desapontar dois filhos que confiavam na sua promessa ele não podia suportar; quê fazer?
Manda chamar secretamente um joalheiro, do qual,
A partir do modelo do anel verdadeiro, encomenda dois outros,
Ordenando que não poupe esforços ou recursos a fim de fazê-los em tudo idênticos,
Inteiramente idênticos, ao verdadeiro.
O artista conseguiu: os anéis foram trazidos e nem mesmo o olhar do pai
Foi capaz de distinguir qual havia sido o modelo.
Cheio de alegria ele chama seus filhos,
Sai com cada um em particular, a cada um concede sua benção e seu anel, e morre. Está ouvindo?

SALADIN.
Estou, estou, termine a história.
Falta muito?

NATHAN.
Já terminou, sultão.
Porque o que segue pode ser adivinhado sem dificuldade.
Mal é morto o pai, cada um aparece com seu anel
Afirmando ser o senhor da casa.
Surgem intriga, discussão, conflito – tudo inútil,
Porque o verdadeiro anel não podia ser mais distinguido entre os outros
Do que, hoje em dia, pode ser discernida entre as outras qual é a verdadeira fé.

SALADIN.
Mas como? Essa é sua resposta à minha pergunta?

NATHAN.
Não, mas serve como meu pedido de desculpas.
Não consigo decidir entre os anéis que o pai mandou expressamente fazer
Para que fossem indistinguíveis um do outro.

SALADIN.
Os anéis – não me venha com brincadeiras!
É evidente que as religiões que nomeei podem ser distinguidas umas das outras
Mesmo em coisas como vestimenta, comida e bebida.

NATHAN.
Mas não o que baste como prova irrefutável.
Não são todas fundamentadas na história, tradicional ou escrita?
A história deve ser recebida na confiança, não é?
Em quem deveríamos confiar?
No nosso próprio povo, por certo, nos homems cujo sangue somos nós neles,
Que desde a infância nos dão provas de amor,
Que nunca nos enganaram, a não ser quando nos era mais benéfico sermos enganados.
Como posso crer menos nos meus antepassados do que você nos seus?
Como posso pedir de você que duvide dos seus antepassados para que os meus recebam o louvor da verdade?
É o mesmo com os cristãos.

SALADIN.
Pelo Deus vivo, o homem está certo.
Devo calar.

NATHAN.
Voltando aos anéis, como eu disse, os filhos reclamaram.
Cada um jurou ao juiz ter recebido seu anel diretamente das mãos do pai, como era de fato o caso,
Depois de ter obtido há muito tempo a promessa do pai de que um dia o anel seria seu, como era também o caso.
O pai, garantiu cada um, não poderia ter agido com falsidade com ele;
Antes de suspeitar de tal pai, por mais que estivesse disposto a julgar com caridade seus irmãos, estaria pronto a acusá-los de traiçoeira falsificação.

SALADIN.
Ah, e o juiz, quero saber o que você vai fazer o juiz dizer.
Vamos, prossiga.

NATHAN.
O juiz disse, Sem chamar o pai diante da minha tribuna
Não tenho como proferir a sentença.
Devo dispor-me a resolver enigmas? Devo esperar que o verdadeiro anel abra os lábios para testemunhar?
Mas esperem – vocês afirmam que o anel verdadeiro
Tem o poder secreto de fazer seu possuidor
Amado por Deus e pelos homens. Seja esse o árbitro.
Qual de vocês, irmãos, ama mais os outros dois?
Não respondem?
Esses anéis geradores de amor agem só internamente, não externamente? Cada um de vocês só é capaz de amar a si mesmo?
Enganadores enganados, é o que vocês são.
Nenhum dos anéis é verdadeiro.
O verdadeiro anel talvez tenha se perdido;
A fim de ocultar ou corrigir a sua perda,
O pai de vocês encomendou três para compensar um.

SALADIN.
Ah, perfeito! Perfeito!

NATHAN.
Então, prosseguiu o juiz,
Se aceitam um conselho ao invés de uma sentença,
Eis meu conselho a vocês: tomem as coisas como são.
Cada um de vocês tem um anel que lhe foi dado pelo pai,
E cada um crê que o seu seja o verdadeiro.
É possível que o pai tenha escolhido não mais tolerar a tirania do anel único.
O que é certo é que, por muito amá-los
E por amá-los da mesma forma,
Não lhe era possível contentar-se em favorecer um para que se tornasse opressor de dois.
Sinta-se cada um honrado por essa livre demonstração de afeto, não distorcida pelo preconceito.
Procure cada um rivalizar com seu irmão na demonstração da virtude do anel;
Ao poder dele acrescentem gentileza, benevolência e longanimidade,
bem como entrega interior à divindade.
Se as virtudes do anel continuarem a serem exibidas entre os filhos de seus filhos
Depois de mil anos, compareçam diante desta tribuna;
Alguém maior do que eu tomará assento nela, e ele decidirá.

O judeu Nathan conversa com o muçulmano Saladin na peça do cristão Ephraim Lessing,
Nathan, o Sábio (1779). Lessing compôs o personagem de Nathan tomando por base
seu amigo judeu Moses Mendelssohn (avô do compositor Félix).