24 de Fevereiro de 2010

O escândalo da hospitalidade

Manuscritos

Para os ouvintes deste primeiro discurso de Pedro “arrepender-se” parece ter representado mudar de idéia tanto a respeito de Jesus quanto a respeito de sua mensagem de inclusão. Gente que até aquele momento via Jesus como um criminoso, um herege e um perdedor passava a encará-lo como vencedor, messias e exemplo a ser seguido; De sorte que foram batizados os que receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas (Atos 2:41).gente que encarava sua mensagem de graça e aceitação como delírio vulgar de uma doutrina que não se dava ao respeito mostrava-se agora disposta a colocá-la escandalosamente em prática.

Para essa espetacular transformação a narrativa não fornece outra explicação que a incubação do espírito. Fica claro que a metanoia da promessa Pedro não era sustentada pela mera lógica da sua argumentação; ela trazia por endosso o sopro coletivo da terrível lucidez do Espírito. O argumento verdadeiro e o verdadeiro desafio daquela mensagem era a incontornável comunidade dos cento e vinte postados diante da multidão.

Pedro estava, afinal de contas, convidando seus ouvintes (judeus, todos eles) a integrarem uma comunidade tão inclusiva e tolerante que permitia – na verdade exigia – que homens e mulheres adorassem no mesmo espírito, no mesmo recinto e com a mesma voz. Naquela cultura e naquela sociedade poucos escândalos maiores eram tidos como concebíveis, mas essa miscigenação era mera sombra do que ainda estava por vir. Quem seria capaz de abraçar a exigentíssima inclusividade do reino até as últimas consequências? Quem seria capaz de suportá-la?

Em retrospecto, as radicalidades da vida comum devem ter parecido desafio de pouca monta comparado ao de associar-se a uma comunidade disposta a ver-se associada a qualquer um. Estamos todos mais ou menos dispostos a suportar ou desfrutar da vida comum, desde que possamos escolher pelos nossos próprios critérios essa companhia – e aqui, num só golpe da narrativa, três mil impenitentes abriram mão dessa prerrogativa, entregando-se à insanidade de uma comunidade sem verdadeiro critério de admissão além da disposição coletiva de estender esse mesmo cavalheirismo a todos. E fizeram isso, conta-se, porque o espírito de Jesus deixara sulcos suficientemente profundos na sua passagem pela vida de uma centena de testemunhas.

Não é tão cedo, portanto, que devemos decidir ter perdido Jesus de vista no livro de Atos, pois até aqui a coerência ideológica dos evangelhos prevaleceu. “Os que receberam a sua palavra”, isto é, os que acolheram a sua mensagem de inclusão, foram todos imediatamente incluídos – sem trâmite que não o batismo – na comunidade subversiva dos discípulos.

Pode ser preciso salientar que com toda a probabilidade nenhuma outra comunidade na história havia demonstrado tão desarmante disposição à inclusividade – e certamente nenhuma comunidade (além dos desdobramentos do movimento cristão) demonstrou-a depois. Três mil agregados num só dia – esta é a assombrosa marca da ausência de critério de admissão na comunidade dos seguidores de Jesus.

Todos os movimentos sociais são mais ou menos inclinados ao recrutamento; porém as comunidades que se dão ao respeito, especialmente as que alegam para si algum aval divino ou sobrenatural, impõem invariavelmente condições e critérios muito claros de seleção, normas normalmente severas que determinam quem pode e quem não pode participar – sob pena ou temor de resvalarem na mais completa descaracterização.

E como poderia ser diferente? Que grupo, que ideal e que sonho sobreviveriam a uma inclusividade sem restrições?

O filósofo francês Jacques Derrida, furioso mas terníssimo promotor da desconstrução, enquanto refletia sobre problemas e perigos semelhantes concluiu que a verdadeira justiça só se manifesta numa hospitalidade pura, absolutamente sem limites.

Immanuel Kant já havia avançado, em seu tratado sobre a Paz Perpétua (1795), a noção de “hospitalidade universal”, mas tratava-se de uma hospitalidade delimitada por claras restrições. Para o sensatíssimo Kant, uma nação só deveria oferecer hospitalidade sob duas condições: o estrangeiro deveria comportar-se pacificamente no país que estivesse visitando, e tinha o direito de visitar, mas não de permanecer.

Para Derrida, a única verdadeira hospitalidade, ao contrário daquela exemplificada pela cautela de Kant, é absolutamente incondicional – é imponderada e irrestrita e inescapavelmente arriscada. Para Derrida, impor restrições para a hospitalidade é o mesmo que sonegá-la. Devemos estar dispostos a acolher um estranho mesmo que “ele seja o diabo”, mesmo que ele se mostre pronto “a destruir nossa casa”.

O problema com a hospitalidade condicional, explica Derrida, é que ela não consegue estabelecer a paz, porque está fundamentada, em última instância, numa violência. Qualquer comportamento “inaceitável” do estranho será interpretado por nós como violência da parte dele e será corrigido com violência da nossa parte, mas isso apenas porque fomos nós que cometemos a violência de não aceitá-lo incondicionalmente em primeiro lugar. Quando impomos condições para a hospitalidade não estamos verdadeiramente abertos à outra pessoa e não nos confrontamos de fato com ela; o que fazemos nessa postura é anular a alteridade do outro, desfigurando-o e remoldando-o à nossa própria imagem.

O problema com a hospitalidade pura, por outro lado, é que abrir mão de critérios de seleção e de mecanismos de controle não é coisa que seres humanos prefiram de fazer voluntariamente. Intuitivamente sabemos que abrir mão de controle é abrir mão do futuro – e isso comunidade nenhuma deseja fazer, porque seu sonho é a consagração e seu sustento a idéia de permanência. Uma comunidade radicalmente inclusiva é uma ameaça porque não há nela a ordem interna que garante seus próprios resultados e suas próprias premiações; sua ausência de limites nos impede, muito literalmente, de podermos prever onde ela vai parar.

Para Derrida, a verdadeira hospitalidade deve representar uma abertura irrestrita a esse futuro desconhecido, um futuro sobre o qual nada pode ser determinado – a não ser que não será de forma alguma condicionado “pelos conceitos historicamente restritos de humanidade, de ética e de democracia debaixo dos quais trabalhamos atualmente”1.

A hospitalidade radicalmente inclusiva produzirá, para usar a linguagem dos evangelhos, um reino sobre o qual só podemos falar através de comparações. Para adentrar o reino será preciso abrir mão daquilo que nos é mais caro – e deve estar evidente que o que valorizamos acima das possessões são os nossos critérios. Quem ousará arrepender-se/mudar de mentalidade, passando a ignorar as normas políticas, sociais, culturais, econômicas, sexuais e religiosas de relacionamento a fim de pisar o domínio desconhecido e arriscado de uma inclusividade radical? Quem irá se dispor a despojar-se de tudo que possui para adquirir a pérola que ninguém parece querer? Quem ousará adentrar voluntariamente o campo minado do Reino?

Muito claramente, só será capaz de fazê-lo quem tiver sido devidamente seduzido pelo Não-condicionado, aquele que estiver inteiramente imbuído do seu espírito. Em seus dias na terra Jesus já havia trabalhado em todas as frentes para fazer avançar a noção de que as respostas de Deus, ao contrário das nossas, não são condicionadas. Sua santidade é singularidade de critérios, não distância espiritual. Deus, ao contrário de nós, derrama generosidade sobre justos e injustos. Deus come com pecadores e toca os impuros. Deus está trabalhando quando cremos que só é seguro descansar. Deus é amor, e as obrigações do amor só o que não é amor pode restringir.

A narrativa de Atos vai revelando, passo a passo, as tremendas consequências e desafios associados a essas vertigens. Se Deus não é condicionado, nossa hospitalidade – nossa disposição à tolerância e à aceitação – também não deve ser. Se Deus não é condicionado, o futuro também não deve ser. Se Deus é amor, amar é prover expressões tangíveis e mensuráveis do incondicional2.

E esses desafios veremos quem estará disposto a abraçar, e até onde.

NOTAS
  1. Hans Boersma. []
  2. Andrew Marin. []
11 de Fevereiro de 2010

Uma pura graça

Goiabas Roubadas

Devo estar despreparado, ou antes preparado para estar despreparado, para a chegada inesperada de qualquer outro. Será isso possível? Não sei dizer. Porém se existe uma pura hospitalidade, ou uma pura graça, ela consiste nessa abertura sem horizonte, sem horizonte de expectativa, uma abertura com relação ao recém-chegado não importa quem seja. Isso pode ser algo terrível, porque o recém-chegado pode ser uma pessoa boa ou pode ser o diabo; porém se você exclui a possibilidade de que o recém-chegado esteja vindo para destruir a sua casa – se você quer estar no controle disso e excluir de antemão essa possibilidade – não existe hospitalidade.

Jacques Derrida, Hospitality, Justice and Responsability, em Questioning Ethics: Contemporary Debates in Philosophy (London: Routledge, 1999).