27 de Agosto de 2012

O equívoco da maldade

Manuscritos

Tudo é puro para os que são puros.
Tito 1:15

 

Com base numa frase que me disse certa vez o Hernan Pimenta, brinco há mais de um ano com a ideia de um conto de horror que não chegarei a colocar por escrito. Nessa história um homem se ocupa a vida inteira, como todos, com os variegados aborrecimentos, rancores e neuroses da condição humana; depois de morto, como a todos, lhe é concedido saber que a revelação que lhe escapou a vida inteira é que na realidade o ser humano é bom.

O horror da história está em que é só depois de morto, quando é tarde demais, que o protagonista descobre que os horrores, os temores e as culpas com os quais havia ocupado o espaço inteiro da vida eram imaginários. Nesse mundo do qual estou falando, como me disse recentemente meu amigo Danilo, é impossível que do coração do homem saia outra coisa que não o bem. Nesse mundo as pessoas ensinam umas as outras, sem trégua e de todos os modos, as disciplinas da desconfiança, da culpa, do rancor e do medo, e são essas as distrações que acabam gerando em todos os casos os erros de julgamento que passam para a história como maldade. Entrincheiramo-nos sem motivo, e as trincheiras desnecessárias que construímos tornam a guerra inevitável.

Nesse mundo todas as histórias são tragédias como o Otelo, de Shakespeare, em que um protagonista honrado mata uma pessoa honrada – a pessoa que ama – por acreditar (sem fundamento, como se descobre no final) que ela havia sido contaminada pela maldade. É a maldade imaginária ou projetada, a falsa maldade, que desencadeia a verdadeira – a qual, como se fundamenta num equívoco, não passa ela mesma de um erro de julgamento.

Nessa história de horror Deus não criou o mal e nem teria como fazê-lo, porque o seu universo é genuinamente impermeável à maldade. Somos todos bons, e o diabo é Iago, o diabo é simplesmente a ideia universalmente eficaz de que devemos desconfiar uns dos outros. O único horror verdadeiro é que vivemos cegos para o fato de que não existe horror algum1.

NOTAS
  1. “Sabe qual é meu medo?” – escreveu-me o Hernan naquela ocasião (depois de ler este texto de Leonardo de Souza): – “descobrir, no final das contas, no fundo, que o ser humano é bom.” []
31 de Outubro de 2011

Afrasíabe e o rio amarelo

Manuscritos

Afrasíabe despertou aterrorizada, num sobressalto, e estava num barco cheio de demônios adormecidos.

Nenhum ruído, nenhum movimento, alterava a paisagem enquanto o barco descia o grosso rio ao sabor da corrente. As nuvens delgadas quedavam imóveis no céu cor-de-rosa, em cuja expansão o único movimento era a transição para um alaranjado profundo na orla do horizonte. A vegetação baixa da margem, intocada por qualquer vento, tocava os olhos com o violeta e com o púrpura, e a água do rio era da cor inocente da lazurita.

Três ou quatro dúzias de demônios amontoavam-se inconscientes no bojo do barco, sem qualquer ordem ou conforto, como se tivessem sido despejados ali. Estavam inteiramente nus, tinham os cabelos negros e a pele de um imaculado carmim. Da massa indistinta de carne subia aqui um braço, ali uma perna, mais além o contorno encurvado de um torso musculoso, um peito que se erguia como uma fonte, uma cabeça escondida sob uma coxa, a flor contorcida de uma genitália.

Afrasíabe acordou meio submersa no emaranhado de corpos adormecidos, um pé descalço apertado contra o rosto. Seu braço direito estava preso sob a curva de um ombro que se apoiava contra a borda do barco – o braço do demônio pendurado para fora, pousado serenamente contra o costado, os dedos escuros singrando a superfície da água.

Pensar naquela água trouxe-lhe tudo de volta à lembrança: os acordos e ajustes que havia feito, os subornos que havia dispensado, as burocracias que havia contornado, as divindades tutelares que tinha tido de apaziguar, as esperanças que havia escondido em cantos da alma e em orifícios do corpo.

Nas planícies crestadas de Orcia, no verão depois da guerra, Afrasíabe tinha se apaixonado por um demônio, e ela e seu amado tinham sonhado juntos arranjar um modo de transportá-la em segurança ao coração do inferno, o único lugar em que seu amor poderia se consumado.

O projeto havia se mostrado formidavelmente ambicioso e arriscado, não só pelo número de sacrifícios e de contravenções que requeria, mas porque exigia que num dado momento os dois apaixonados se esquecessem do próprio projeto – que esquecessem, em plena trajetória um em direção ao outro, o amor que os impulsionara em primeiro lugar.

Antes de passar pelos arcos dos portões em espiral de Ut, que levariam seu regimento de volta ao inferno, o demônio teve de dormir pendurado de cabeça para baixo no galho de uma castanheira morta, de modo a poder destruir por completo a lembrança de que conhecera e amara um ser humano.

Ela, por sua vez, tivera de beber o vinho amargo das lágrimas de uma rã a fim de esquecer o nome e o rosto de seu amado, de modo a não ter o que dizer aos torturadores no passo de Yhdeksan. Consequentemente, Afrasíabe tivera de atravessar as vinte aduanas do inferno e percorrer suas nove nações sem ter a mais remota lembrança do verdadeiro motivo da sua jornada. Guiaram-na as notas crípticas que havia tatuado com uma agulha microscópica na parede interna do útero, e que apareciam gravadas na pele dos filhos que lhe nasciam pelo caminho.

Mas agora, no barco entre os demônios adormecidos, os fumos da água do Ocs lhe trouxeram tudo de volta num único vagalhão de arrebatamento. Ela lembrou inclusive o que haviam decidido em primeiro lugar e que haviam discutido por mais tempo: que por razões de segurança o seu esquecimento mútuo deveria permanecer até o final estanque e simétrico, de modo a permanecer completo. Quando se encontrassem, ela não deveria ser capaz de reconhecê-lo entre os outros demônios, embora retivesse a lembrança de ter amado um deles; ele, por sua vez, não deveria seria capaz de lembrar-se de tê-la amado, embora retivesse a lembrança do seu rosto.

Sua presente tarefa era adivinhar e acordar, da multidão adormecida no barco, um único demônio, aquele que havia sido na terra o seu amado. Se acabasse despertando, por engano ou por deslize, o demônio errado, seria imediatamente desmembrada e devorada sem misericórdia, e de seus ossos se fariam esteiras sobre as quais as diabas dançariam pela eternidade. E mesmo se soubesse despertar o demônio certo e apenas ele, nada garantia que se reacenderia nele, a tempo de suster o golpe fatal, o amor que havia nutrido por ela debaixo de outro céu.

Afrasíabe olhou ao redor e avaliou longamente o corpo adormecido de seus companheiros de viagem antes de fazer a sua escolha. Ela rejeitou as tentações óbvias de escolher o mais bonito, o mais forte ou o mais feio; estava convicta de que podia reter a tranquilidade de que seu amado não seria qualquer um desses. Ela por fim desvencilhou-se com todo cuidado dos corpos que a prendiam no lugar, rastejou com cuidado sobre a superfície oleosa de três ou quatro demônios inertes, estendeu resolutamente a mão e apertou um braço carmim.

O demônio que Afrasíabe despertou demorou um instante para olhá-la nos olhos. Nesse instante as águas turquesa do Ocs se encontraram com as do rio Amarelo, e Afrasíabe teve a súbita certeza de que sua história, por um erro monumental de julgamento que talvez não fosse nem ao mesmo seu, seria acometida por uma fatalidade cuja natureza ela não tinha como prever.

17 de Outubro de 2011

Dexter Morgan, padroeiro do século XXI

Manuscritos, Recomendações

Não chegou até mim arte televisiva contemporânea mais bem escrita do que Dexter, o seriado norte-americano sobre um assassino em série que mata assassinos em série. E não se trata só dos enredos bem amarrados, do uso inteligente e bem-humorado das narrações em off, das ambições shakespearianas dos arcos narrativos e da construção de edifícios de suspense mais altos do que se considerava humanamente concebível. Há a questão do discurso além do discurso, a questão de um arranque criativo semiconsciente que mostra-se tanto uma precisa captura do espírito da época quando uma inclemente reflexão sobre ele.

Sinto-me tentado a escrever volumes sobre Dexter; permita-me impor uma página ou duas.

Dexter, sumo sacerdote da violência redentora

Os norte-americanos, ainda mais do que o restante dos homens, são obcecados com as possibilidades redentoras da violência. Dessa obsessão nascem as paixões nacionais pela pena de morte, pelos super-heróis, pelas glórias militares, pelos filmes de terror, pelo oeste sem lei. A mesma fé no poder redentor da violência inspira os adeptos do vigilantismo (aquelas ordens civis que fazem a justiça com as próprias mãos), inflama os tiroteios suicidas nas escolas e anima as aspirações dos assassinos em série.

Em sua qualidade de assassino impiedoso de assassinos impiedosos, Dexter Morgan é a encarnação de todas as seduções dessa teologia. Impossível não dobrar-se de prazer quando o Dexter elimina um criminoso culpado com a mesma minuciosa crueldade com que o criminoso que está sendo eliminado costumava matar gente inocente. Há algo de irresistivelmente justo e congruente e libertador nessa simetria; como seres humanos somos incapazes de resistir a uma história que nos conduza até um lugar em que ela possa ser devidamente celebrada.

Dexter nos leva a esse lugar todas as vezes. Quando deixamos de acreditar nas possibilidades da justiça efetuada pelas mãos de homens, não é como se não tivéssemos um sumo sacerdote que se compadecesse de nós. Dexter, que o rubro céu o proteja, é a incorporação da guerra justa e da violência redentora justamente quando podíamos ser tentados a deixar de acreditar nela. Pelos heróis que nascem banhados em sangue, rogai por nós.

Dexter, patrono do gerenciamento de múltiplas identidades

Desde pelo menos Jekyll e Hyde, de cujo legado se apropriaram tantos super-heróis e supervilões, a ficção tem brincado com as possibilidades metafóricas e dramáticas de uma dupla identidade. O jogo cambiante das máscaras pode ser, na verdade, retraçado como o mistério impulsionador de todo teatro e de todo o drama.

Porém, com a extravagante entrada em cena da internet, vive-se o primeiro momento da história em que o homem comum pode se ver pessoalmente envolvido com as tentações e complicações do gerenciamento de identidades. A internet, que é repleta de destinos mas não confere passaportes, é um um convite aberto para que desenvolvamos vários rostos.

É coisa mais do que corriqueira cultivar mais de um blog, sustentar mais de uma conta no Google ou usar nomes diferentes em diferentes redes sociais, cada uma dessas instâncias voltada para um interesse ou para um público. Há o cara da foto no Facebook, que pode não querer usar o mesmo nome quando entra num ambiente da internet em que se folheia pornografia, em que se compartilha conteúdo pirata ou em que se discute a sua preferência sexual. Na verdade, cada vez que precisa escolher um nome de usuário você está sendo convidado a assumir uma nova identidade, a desenhar um novo círculo que não necessariamente interceptará aqueles que em você, sob algum nome, já existe.

Na prática, as contas de usuário servem menos para proteger a sua privacidade do que para orientar a publicidade que será despejada na sua direção, mas a sedução de cada nova máscara permanece. Ninguém precisa mais contentar-se em ser uma pessoa só1.

Na narrativa de Dexter, a centralidade do problema do gerenciamento de identidades reflete as complicações dessa nossa nova condição. Dexter é na luz do dia um policial quietão mas gente boa, profissional de primeira, amigo leal e pai de família, mas no abrigo da noite persegue sem trégua a sua obsessão, o “passageiro sombrio” que exige recorrentes derramamentos de sangue para manter-se mais ou menos sob controle. Nas histórias de super-heróis a problemática da identidade dupla é em geral tratada com leveza de farsa e descartada sem maiores problemas, mas a iminente e impensável sobreposição de mundos opostos é o que define toda a tensão na trajetória de Dexter.

Acompanhamos os seus trabalhos no sentido de manter as suas esferas separadas, mas entendemos simultaneamente que ninguém tem como manter partes de si mesmo independentes por tempo indeterminado. Por outro lado, as ferramentas da internet tem nos dado tamanha tarimba na prática da compartimentalização que nos tornamos incapazes de considerar como desejável a perspectiva de abrir mão de qualquer uma de nossas identidades paralelas.

Se o grande desafio da maturidade psicológica é o que Jung chama de individuação – o processo de nos tornarmos um in-divíduo, harmonizando num todo não-dividido as partes de nós mesmos que vivem em esferas separadas, – Dexter serve de formidável parábola sobre as dificuldades desse processo na presente experiência. Os dois mundos de Dexter não têm como colidir sem catástrofe; da mesma forma, temos aprendido a sustentar uma árvore inteira de narrativas pessoais que em outro tempo seriam consideradas irreconciliáveis. Pelos desafios do gerenciamento de identidades, rogai por nós.

Dexter, santo protetor dos alienados e perplexos

O aspecto mais ressonante e original da narrativa de Dexter, no entanto, é sua alienação essencial do mundo que o rodeia. Tendo sua estrutura psíquica precariamente organizada depois de sobreviver a um devastador trauma de infância, Dexter não sabe e não entende o que o mundo exterior espera dele. Não sabe sentir ou agir “naturalmente”. Suas reações são todas simuladas, fundamentadas na observação. Incapaz de encontrar dentro de si uma fonte genuína de convicção e de sentimento, seu método é oferecer em cada momento ao mundo o que ele imagina que o mundo espera dele naquele momento – e surpreende-se quando funciona na maioria dos casos. As pessoas ao seu redor o tomam por um cara um pouco esquisito mas simpático, sensível e de confiança – porém ele mesmo entende ser uma completa farsa.

É por esse milagre, pela sua ascendência como ícone espetacular de nossa própria alienação essencial, que vejo em Dexter a figura altaneira do padroeiro deste século.

Eis um cara que, como grande parte de nós, ou como todos nós grande parte do tempo, relaciona-se com o mundo como um observador, não como um participante. Dexter vive imerso numa experiência que lhe parece inteiramente estranha e impenetrável. Não tendo sido poupado de enxergar o caráter arbitrário e artificial das reações e princípios que tomamos por naturais, ele aprendeu a resignar-se a olhar o mundo com o fascínio e o horror com que observaríamos uma civilização extraterrestre.

O poder da metáfora está em que, devido a uma vasta cadeia de causas interligadas, nenhum conceito representa com mais acerto a condição do habitante deste milênio do que este: alienação. Não importa quão saudável ou natural lhe pareça o seu cotidiano, nosso próprio modo de viver está inteiramente permeado de pacotes de estranheza e de distanciamento. Karl Marx entreviu o capitalismo como fonte inexorável de alienação, mas absolutamente não tinha como prever os extremos vertiginosos aos quais içaríamos essa tendência.

Não há como não identificar-se em alguma medida com Dexter e sua precária relação com um mundo alheio e indecifrável. Tornamo-nos, no modo que vida que aprendemos a tolerar, gente assim. Como os personagens de um mau filme de ficção científica da madrugada, aprendemos a nos relacionar uns com outros e com o mundo pela intermediação de máquinas, tendo perdido a arte do contato direto com o que quer que seja. Nada no mundo real gera em nós uma verdadeira conexão, e todas as nossas reações dentro dele são simuladas. Onde deixei o meu celular? Pelo horror de um mundo que não nos diz respeito, rogai por nós.

NOTAS
  1. Na verdade, uma pequena e inflamada revolta coletiva permanece sendo lançada contra o recém-lançado Google+, porque essa rede social exige formalmente (ao contrário do que na internet é a prática usual) que seus usuários utilizem o seu nome verdadeiro para identificar o seu perfil. Depois que aprendemos a viver sob a luz eles, a treva do banimento dos pseudônimos nos parece inteiramente incompreensível e inaceitável, coisa que se espera mais de um governo totalitário do que de uma corporação moderna e antenada. []
12 de Outubro de 2011

The Tree

Fotografia

02 de Agosto de 2011

Boitatá

Fotografia