09 de Março de 2012

Uma tarefa para os pequeninos

Goiabas Roubadas

Entre o judaísmo de Jesus e o cristianismo de Paulo há um intervalo considerável o bastante para modificar historicamente a configuração do modelo de organização dos futuros seguidores do Evangelho. Intervalo tanto no sentido espaço-temporal quanto no sentido semântico.

O jovem artesão da Galileia viveu profundamente enraizado em seu mundo, encharcado por sua cultura, no bojo de sua época. Jesus não se esquivou da religião de seu povo nem tentou destruí-la: a maneira como escolheu vivenciá-la é que provocou uma ruptura irremediável para os que com ele mantinham contato. A boa notícia que Jesus anuncia refere-se à vivência da religião como a forma mais profunda de liberdade e de amor, experimentados para além dos parâmetros de um rito, de uma lei ou de uma história. A boa notícia é baseada na descoberta e no anúncio de que há um Deus que nos ama antes de mais nada, nos ama de forma despudorada e alegre, e nos ama de graça, por sua graça, sem que haja para ele alteração no seu amor em razão do que quer que tentemos fazer para ganhá-lo; um Deus que é como um Pai. (Por conta do revestimento viciado dessa terminologia durante dois milênios parece não nos causar tanto impacto que alguém se relacione com um deus chamando-o de papai, que é mais ou menos a tradução de Abba. Diríamos então que o anúncio do Deus Paizinho de Jesus soaria para nós como se um ex-presidiário saísse nas cidades do país anunciando que há uma Deusa, Mãe Paciente, que nos ama graciosamente; ela quer que espalhemos esse amor gratuito sendo todos como crianças de orfanato, ansiosas pelo amor da Mãe, e que seremos mais apaixonados pela Vida que ela nos dá quando tivermos a alegria de um travesti, a esperteza de um bêbado e a espontaneidade de um malandro.)

O Reino de Deus é este tempo em que se descobre que a vida é uma graça, que a presença ausente de Deus envolve tudo em todo tempo e lugar e que, por isso mesmo, toda vida deve ser preservada, promovida, amada e vivida de modo pleno. A boa notícia de Jesus é que chegara a hora em que todos poderiam saber disso e viver conforme essa novidade. O Reino estava inaugurado. “Viver conforme residentes do Reino” era toda a pregação de Jesus: converter-se. Viver conforme a descoberta do amor sem condicionamentos, do amor do Divino por nós e do nosso amor pela vida, com todas as fragilidades, com todos os defeitos, com todas as ambiguidades.

A pregação de Jesus pressupõe a disposição de assumir a religião como uma ética e não como um código jurídico, assumir uma forma de vida e não um tratado dogmático. A salvação de quem aceita a realidade do Reino não é uma decisão jurídica baseada numa troca entre iguais: é um presente que se manifesta numa maneira de estar no mundo. E Jesus não impõe nenhum critério para que alguém acesse o Reino, senão o da aceitação total. A crise que essa mensagem provoca se instala justamente nos centros de poder que necessitam, para manterem-se e se reproduzirem, da criteriosa separação, da concessão de privilégios, da barganha de considerações. Esses centros de poder estão encravados nas relações inter-pessoais e, portanto, estão na própria tessitura da linguagem e da sociedade. Por isso que é provocante e assustadora, para qualquer um que a escute, a ternura louca do Evangelho que Jesus anuncia. Assumir aquele estilo de vida supõe a negação espontânea de todos os aparatos de poder a que o indivíduo é educado a desejar. Esses aparatos de poder e o desejo de possuir o poder como uma mercadoria carregam consigo a destruição da vida e das possibilidades infinitas de viver a vida e de desejar vivê-la, sendo, portanto, o desejo de poder o cerne da infidelidade à graça da vida.

O poder, sendo uma categoria das relações da linguagem, passa a ser o alvo da crise que o Evangelho anunciado provoca, sem que pra isso haja deliberações e montagem de estratégias por parte de Jesus e de seu grupo de amigos. Jesus, pelo simples fato de viver o instante de modo pleno e por demonstrar serena e fortemente o gozo da vida e da aceitação do Amor Incondicional, instala o rasgão na forma de ver e de estar no mundo daqueles que com ele mantém o mínimo contato.

A vitalidade da pregação e da vivência de Jesus queima a alma de quem o escuta como um chamado forte de retorno à vocação da vida que é a liberdade e a gratuidade. Assumir essa forma simples e livre de viver, para o entendimento de Jesus, era uma tarefa que só poderia ser levada a cabo por aqueles que se desembaraçassem de suas regras pesadas, do emaranhado das leis que regem cada centímetro do corpo e da vida; uma tarefa para os pequeninos, os analfabetos, os que não esperam mais nada da vida, os que perderam a oportunidade de vencer na vida, os que não gozam da reputação outorgada pelos outros, os viciados, os corrompidos, os desesperados, os abobalhados, os de quem todos esperam mancadas.

Esses, por nada terem que resguardar, podem abrir-se escancaradamente, com seus erros e com suas feridas, ao amor incondicional da Vida e esses podem descobrir a abundante vida que surge de dentro da opressão. Esses entendem que o caminho para salvar a alma, segundo a Boa Notícia, começa por não pensar em salvar a alma.

Paulo, rasgado de paixão por essas novidades, arma-se de cuidados para que a mensagem seja levada ao máximo de pessoas no menor tempo possível e que a mensagem chegue carregada de testemunho a qualquer recanto de qualquer povo e qualquer religião. Paulo não admite barreiras para o anúncio da Boa Notícia do Reino. Por isso, toda a sua pregação baseia-se na universalidade do Cristo. A categoria Cristo para Paulo invoca a pessoa de carne e osso que foi Jesus de Nazaré e, para além, invoca o espírito da atuação de Jesus, que deve presentificar-se em quem quer que assuma a vivência do Reino. Cristo é Jesus em nós. Paulo preocupa-se com a eficiência da pregação do Evangelho e da vivência do Reino, por isso pressupõe que devam ser criadas comunidades estáveis, que se reúnam periodicamente e, para avivar a mensagem da salvação, celebrem, isto é, ritualizem. A preocupação de Paulo, óbvio, é válida e muito pertinente, mas não se pode deixar de ver que aqui se desenha a diferença entre a vivência da religião segundo Jesus e segundo Paulo.

Os elementos da vida em comunidade – reuniões e rituais – são a célula do surgimento de uma institucionalização da mensagem, especialmente quando começa a se debater sobre a escolha de critérios para a admissão de pessoas. As pessoas para terem acesso à vida daquela comunidade precisam moldar-se ao seu estilo de vida, que, paulatinamente, vai se homogeneizando. O problema aqui não é o da pureza ou impureza das pessoas que fazem a instituição que está surgindo; este problema da separação entre puro e impuro já fora abolido por Jesus, vide a parábola do trigo e joio. O problema reside na formatação criteriosa para a admissão do postulante, que responde a um código de poder instalado no miolo da linguagem e que vai se consolidando de modo unívoco. Paulo consegue, sem dúvida, manter a vitalidade da mensagem do Evangelho ainda diante da nascente institucionalização, mas não conseguiu garantir que assim fosse na posteridade.

As comunidades posteriores, especialmente depois do terceiro século, no período de decadência do Império Romano, deslumbradas com a possibilidade de tornarem a Boa Notícia hegemônica urbi et orbi, inflaram a prudência sensata de Paulo e minimizaram a escandalosa insensatez de Jesus, achando melhor para os seus fins adotar um modo mais organizado e estruturado de resguardar a mensagem; a isso corresponde a escolha criteriosa dos textos a serem outorgados o sobrenome de Sagrados e o esforço em criar uma história de unificação triangular, ou melhor, piramidal, de códigos, costumes e, principalmente, de organismos. Mas, segundo uma leitura menos aparelhada dos escritos sobre o Evangelho de Jesus, pode-se perceber uma certa dose de voluntarismo dos escritores quando pretendem basear em Jesus a fundação de uma instituição que deveria tomar conta de sua mensagem. Os textos em que Jesus funda sua igreja apostólica estão dissonantes dos acontecimentos precedentes e da trajetória da pregação da Boa Notícia. Ainda assim estes textos não conseguem conter a voracidade com que o comportamento e as palavras de Jesus incendeiam tudo.

A vivência de Jesus da religião não prescreve a estrita necessidade de uma instituição para resguardar a sua Boa Notícia. Pelo contrário, o estritamente necessário era a abolição de qualquer estrutura de poder que tomasse para si a posse do Divino e estabelecesse o mínimo de critério que fosse para o acesso à Liberdade e ao Amor. Nesse sentido, a Igreja de Jesus estava presente em qualquer mínima comunidade que mais se empenhasse em fazer como ele, em qualquer tempo e lugar, do que em preservar um possível mito. A Igreja de Jesus – ou seja, as pessoas e as comunidades que se empenhariam em propagar a Boa Notícia de que o Reino chegara – adota um método parecido com a fissão nuclear em que a explosão de um átomo é a causa da explosão dos dois átomos vizinhos e assim sucessivamente. Ou ainda, como uma sala repleta de ratoeiras armadas, se uma ratoeira desarma e cai em cima de outra, todas as ratoeiras da sala tendem a ser atingidas pela síndrome do desarmamento. Isto é, a Boa Notícia do Reino baseia-se em dois meios: o anúncio e a vivência. Viver conforme o Reino e anunciar a sua presença, sem mais. Quem ouvisse o anúncio e para si assumisse a residência no tempo do Reino, deveria viver conforme um residente do Reino e anunciá-lo a outros e assim por diante… É isso que dá sentido ao koan que Jesus aplica nos seus amigos quando eles reclamam que há pessoas fora do grupo originário que estão atuando em seu nome, isto é, estão anunciando e vivendo conforme o Reino. Jesus responde: “Aquietem-se! Quem não espalha o que ajunto, está ajuntando comigo.” Digamos que para nós soe assim: “Aprendam! Quem assumiu o tempo do Reino como seu tempo, e o anuncia, e vive conforme isso, não precisa estar babando de sentimentalismo aos meus pés, não precisa confinar-se entre as colunas de um templo majestoso, não precisa demonstrar que é meu amigo com palavras arrogantes e fartas de adjetivos laudatórios, não precisa participar de rituais que em nada lhe sublima o espírito, não precisa defender leis anacrônicas criadas em meu nome. Olhem para eles e vejam vocês o quanto é preciso livrar-se de um peso do qual eu lhes ajudei a se safar, e que vocês, por medo da liberdade, colocaram de novo em suas costas.”

O insubmisso Rondinelly Gomes Medeiros, em 2009,
pensando alto na companhia de Alysson Amorim

Leia também:
Notas para uma leitura de Paulo

13 de Fevereiro de 2012

O divino litígio

Goiabas Roubadas

Porque há esperança para a árvore,
que, se for cortada, ainda torne a brotar,
e que não cessem os seus renovos.
Ainda que envelheça a sua raiz na terra,
e morra o seu tronco no pó,
contudo ao cheiro das águas brotará,
e lançará ramos como uma planta nova.
O homem, porém, morre e se desfaz;
sim, rende o homem o espírito, e então onde está?
Como as águas se retiram de um lago,
e um rio se esgota e seca,
assim o homem se deita, e não se levanta;
até que não haja mais céus não acordará
nem será despertado de seu sono.
 
Jó 14:7-12

 

Terra, longevidade, descendentes e uma vida feliz é o que a aliança promete aos israelitas. Os profetas transmitem o mesmo conceito. Amós lembra seus ouvintes que Israel estabeleceu um contrato com YHWH, selado por um juramento. Ele está descrevendo o que se pode chamar de uma ação judicial divina, iniciada para preservar um acordo não honrado por uma das partes. Oséias usa a metáfora de um casamento que se deteriorou; trata-se evidentemente de uma outra obrigação contratual selada por um juramento. Deus contempla periodicamente a ideia A resposta que Jó recebe não é que os caminhos de Deus são inescrutáveis; isso ele já sabia.de processar o seu cônjuge adúltero e de pedir o divórcio.

É só no livro de Jó que é articulada a noção oposta, a de que seres humanos podem legitimamente processar Deus pela falha de cumprimento de suas obrigações contratuais. Para que esse argumento seja logicamente convincente, não pode existir a ideia de uma vida de natureza substancial depois da morte. Se houvesse vida de natureza substancial depois da morte, o sofrimento de Jó não bastaria para uma ação judicial legítima e válida contra a divindade. Se houvesse vida depois da morte, Jó estaria justificado em dizer que está sendo falsamente acusado por seus amigos e que sua aflição é dolorosa, mas não poderia colocar em dúvida a justiça divina, porque o resultado não estaria completo nesta vida. É por isso que a noção de sheol está presente no livro de Jó – não uma recompensa ou punição pós-morte, mas a mera eliminação final de almas.

[...]

O leitor contemporâneo reage muito mal ao modo como dominador Deus aparece e silencia Jó atestando a sua insignificância. Queremos uma resposta justa, igualitária, democrática em que todos tenham os mesmos direitos, poderes e possibilidade de resposta. Exigimos uma resposta de Deus ao seu tratamento inclemente da inocência de Jó. Queremos ouvir que a família de Jó não sofreu por causa dele. Queremos saber porque Deus permite o mal neste mundo.

Jó, no entanto, tem objetivos menos ambiciosos. O que ele quer é apenas chamar Deus ao tribunal. Não somos capazes de apreender quão vertiginoso é esse seu pedido: a presença de Deus enquanto Jó está vivo.

E esse vertiginoso pedido é exatamente aquilo que é concedido a Jó. A resposta é precisamente aquela que ele tinha esperança de ter, mas não tinha o direito de esperar. A resposta que Jó recebe não é que os caminhos de Deus são inescrutáveis; isso ele já sabia. A resposta é que Deus é tão misericordioso que se permite ser levado ao tribunal e processado. Deus na verdade comparece voluntariamente ao seu próprio tribunal a fim de dar testemunho, e mostra-se mais misericordioso do que qualquer monarca do Oriente Médio.

A Jó é permitido ver Deus – se não diretamente, a partir do redemoinho, – e ele não precisa sequer ascender ao céu para fazê-lo. Ao contrário os outros viajantes celestes do antigo Oriente Médio, é Deus que vem até Jó. Assim, embora fique aterrorizado e assombrado diante do poder de Deus, Jó sai do tribunal justificado. E o texto sustenta que pelo menos um inocente teve suas reinvidicações ouvidas depois de seu sofrimento, e nesta terra. Esperamos tanta coisa mais que acabamos perdendo de vista a afirmação que o texto faz.

Alan F. Segal, em Life After Death

23 de Dezembro de 2011

A salvaguarda do sexo

Manuscritos

Quanto mais eu rezo, mais gente me escreve pra falar a respeito das suas questões e inadequações sexuais. Diz muito sobre este mundo (e sobre o mundo evangélico) que tanta gente só encontre brecha para falar sobre esse assunto com um cara que nunca viu pessoalmente, um nome na internet, um ilustre desconhecido, um não-rosto diante do qual encontraram a graça de sentir-se à vontade para falar.

Essa galera não tem como não sacar que não tenho como ser terapeuta de ninguém, e quem conhece a minha inclinação sabe que não tenho a mínima vontade de ser. Mas ainda assim me escreve contando as suas barbaridades, talvez na esperança de que eu fique devidamente chocado, ou intuindo que sou liberal o bastante para não condenar o seu desvio da norma.

Fico de fato sem saber se esperam que eu diga “abandone essa vida de pecado ou prepara-se para arder no inferno” ou “não se alugue que isso não é pecado não”. E fico de cara ao pensar que alguém pode de fato achar que eu (ou qualquer um) teria cacife para dizer a quem quer que seja uma coisa ou outra.

Naturalmente, e como vivo dizendo, é esperado que as neuras que venham à tona sejam de natureza sexual, porque o sexo é a última fachada moral da subcultura evangélica, que em todas as outras frentes abraçou a mais completa permissividade. Ninguém (nenhum evangélico, pelo menos) me escreve para dizer que está em crise porque está cobiçando um iPad, porque está servindo o exército, porque presta serviço para agências de propaganda, porque dói-se da desigualdade da distribuição de renda no Brasil, porque sente que não está contribuindo para um futuro sustentável, porque quer cometer uma empresa e enriquecer, porque queria ganhar mais de modo a poder contribuir com causas honrosas, porque estamos queimando o planeta e obliterando culturas, porque não dorme à noite de repulsa ao capitalismo, porque tem gente dormindo na rua, porque só tem uma vida para oferecer em trabalho voluntário, porque a igreja tira dinheiro dos pobres e dá aos ricos, porque o governo tira dinheiro dos pobres e dá aos ricos, porque o sistema tira dinheiro dos pobres e dá aos ricos. Não: o sexo é o único motor da culpa. O sexo que nos ocupa a mente é o sexo que não estamos fazendo. Não é à toa que as igrejas enfatizam esse ponto, pois do contrário perderiam o pouco lastro de influência que lhes resta no mundo e no rebanho.

Imagino que a maioria busque em mim a graça que todos podem encontrar nos terapeutas (e que idealmente seria de encontrar em todos os seguidores de Jesus), a dádiva simples e curativa de ser ouvido sem ser condenado ou julgado. Talvez, no fundo, sabem que nem desejam a orientação que estão pedindo.

E, de minha parte, gostaria de poder oferecer a todos uma solução simples e abrangente, tipo relaxe e goze ou quem ama espera, mas nem isso posso fazer. Não rola porque propor tanto uma coisa quanto a outra é colocar um peso sobre as costas de quem está ouvindo, e não tenho essa vocação. Dizer “quem ama espera” é esmagar o sujeito debaixo da norma, aquela do sexo-só-dentro-do-casamento-monogâmico-heterossexual, e toda norma ignora as nuanças: neste caso, as nuanças mais importantes da vida e da experiência, das inclinações e dos arrebatamentos, das travas e dos enlevos, da Bíblia e da história. Dizer “relaxe que isso não é pecado” pode fazer ainda mais mal, porque é atravessar e às vezes interromper um caminho que, se for necessário e possível, cada um tem de fazer por si mesmo. Para quem se importa com esse tipo de coisa, ouvir de outra pessoa que uma coisa não é pecado pode tanto produzir uma falsa culpa quanto solidificar a dúvida, em vez de gerar a libertação que se esperava.

Acima de tudo, essas duas soluções se atem ao aspecto exterior da coisa, a mera execução da ópera, e a tensão sexual é parte inseparável de nós mesmo quando estamos achando que a norma nos protege.

Primeiro porque o sexo que nos ocupa a mente é sempre o sexo que não estamos fazendo: o sexo que desejamos, o sexo que gostaríamos de estar fazendo, o sexo de que abrimos mão, o sexo que vamos fazer na internet, o sexo que vamos fazer quando casar, o sexo que vamos fazer neste verão, o sexo que achamos errado mas que nos atrai do mesmo jeito. Neste sentido, a obsessão com a castidade é uma perversão como qualquer outra, e talvez a pior, porque nos constrange a definir a identidade pela medida do sexo, e pelo sexo que não estamos fazendo – e a vida é ao mesmo tempo muito mais e muito menos do que sexo. Ninguém deveria ter de viver indefinidamente com menos do que sexo, mas também ninguém deveria se sentir constrangido a definir-se ou a ver-se rotulado por ele.

Não foi sem fundamento que Freud conseguiu traçar nossa epopeia interior pela matriz do sexo. Entre outras coisas, o sexo é o emblema mais fulgurante do grande desafio da condição humana, a eterna possibilidade de estabelecermos verdadeiro contato com outro ser humano. Vivemos sozinhos, todos nós, todos prisioneiros de nós mesmos, sonhando sempre e temendo sempre a ocasião de uma conexão – a vertigem de encontrarmos uma saída de nós mesmos e tocarmos por um momento que seja uma outra pessoa, sem por um lado esmagar essa pessoa e sem por outro nos perdermos para sempre nela.

A questão com o sexo é que ele ao mesmo tempo possibilita essa conexão e nos protege dela. Toda conduta sexual é uma fuga em potencial: a castidade, a homossexualidade, a masturbação, o papai-mamãe, a promiscuidade, a fidelidade, a infidelidade e todos os matizes intermediários. Somos sofisticados o bastante para procurar no sexo (ou na ausência dele) um modo de evadirmos à possibilidade de um contato com outra pessoa e portanto com o espelho. Em particular, nossa conduta sexual pode nos fornecer uma falsa culpa protetora – putz, estou sendo infiel à minha esposa com essa dona da internet, que traste que eu sou, – quando a culpa verdadeira é muito outra, e nos custaria muito mais encará-la de frente.

Idealmente o sexo, mesmo o mais casual, deveria poder ser exercido como celebração do contato entre seres humanos. Muitas vezes, mesmo entre gente casada, o sexo (ou sua ausência) só serve para marcar a distância.

É por esse motivo, por ser o emblema por excelência dos sagrados desafios e promessas do contato interpessoal, que o sexo pode representar coisa tão melindrosa em tantas esferas, e tanta coisa diferente para tantas pessoas. Todo contato interpessoal existe nesta tensão entre [1] manter-se confortavelmente distante e [2] aproximar-se ao ponto de sufocar e esmagar. A distância é sempre entre negar-se por completo e negar por completo a dignidade do outro, entre viver sozinho e colecionar conquistas sem qualquer chão. Os dois extremos são muito confortáveis e são ambos emblemas de poder: o papa e Don Juan extraem sua força da mesma obsessão sexual.

Aqui reside o fascínio de um cara como Jesus de Nazaré, que pelo que sabemos nunca transou mas que intuímos claramente que não vivia como nós debaixo da sombra do sexo que não estava fazendo. Nunca viveu sozinho mas nunca esmagou ninguém. Wilhelm Reich chegou a ponderar – e entendo bem de onde ele tirou essa ideia – que Jesus pode ter sido a pessoa “mais fálica” que jamais existiu: um cara que penetrava a realidade e encarava os relacionamentos de um modo muito positivo, natural, sem neuras, sem julgamentos, sem rancores, sem recalques, sem culpas. Jesus parece ter sido o cara resolvido por natureza, não porque deixava possivelmente de exercer o sexo ou porque quem sabe o exercesse em segredo, mas porque tudo que fazia no curso da vida era estabelecer conexões muito reais com gente, aquilo que vivemos sonhando que o sexo faça por nós, ou de que nos mantenha a salvo.

Leia também: Na cama com a Bíblia

19 de Dezembro de 2011

O caminho da natureza e o caminho da graça

Filmes

A propósito, se não tenho coragem de recomendar descaradamente o filme Árvore da vida, de Terrence Malick, é porque às vezes tenho vergonha de quanto descaradamente cristão o filme é, e queria poder evitar esse proselitismo. Mas não se iluda: trata-se de uma obra imensa, luminosa e generosa, ao mesmo tempo ambiciosíssima e tremendamente singela. Árvore da vida é um filme do Espírito e um filme de Jesus em todos os sentidos, inclusive no que a coisa pode ter de mais constrangedor, a sensação sempre iminente de que talvez se esteja assistindo a uma peça de Natal com ambições cósmicas. Porém é um grande filme e um filme cristão, e não creio que as duas coisas já tenham coexistido neste universo. Fiquei por meses ponderando se tinha assistido ao primeiro filme da minha vida ou ao último.

E o glorioso é que a melhor resenha do filme que cheguei a ler é de um homem que não se dá ao trabalho de acreditar em Deus, Tim Brayton, que lê do seguinte modo a contraposição entre o caminho da natureza e o caminho da graça (ou, para usar a linguagem bíblica, entre carne e espírito):

O que me deixou um pouco perplexo, na primeira vez em que vi o filme, foi pensar que se a obra cinemática de Malick pode ser resumida a um único tema, seria a inseparabilidade entre o caminho da natureza e o caminho da graça, não seria? “Natureza”, no entanto, não se refere aqui ao mundo natural, mas à natureza humana. A mulher prossegue sem intervalo a explicar suas palavras, esclarecendo que os que seguem o caminho da natureza são levados a fechar-se para a bondade e para luz; forçam a si mesmos e aos outros a seguir uma espiral desordenada de provarem-se incessantemente os mais fortes, os mais capazes, os mais ricos, os mais poderosos, e assim por diante. Os que seguem o caminho da graça permitem-se simplesmente Ser. Não é o modo como ela coloca, “Ser”, mas não resta nenhuma dúvida a partir do seu tom de voz de que, se tivesse usado essas precisas palavras, “Ser” viria proferido em inequívocas maiúsculas.

Brayton tem a lucidez adicional de enxergar o que pode ter passado despercebido a muitos cristãos que viram o filme, a sacada de que na vida de cada um carne e espírito – o caminho da natureza e o caminho da graça – permanecem inseparáveis mesmo quando um consegue ultrapassar em muito o poder do outro. Foi por isso que, com alguma hesitação, coloquei a narração inicial do filme1 para introduzir minha nota sobre a manipulação de antônimos. Não deve haver dúvida de que o capitalismo é o caminho da natureza e a herança de Jesus é o caminho da graça, mas natureza e graça, embora antagônicos, não são, infelizmente, antônimos. Carne e espírito não existem separados dentro de nós mesmo quando empreendemos entregar a vida com toda paixão apenas a um. Se temos de “escolher que caminho seguir” não é em regime definitivo, o que não seria possível, mas a cada momento. Nem os mais virtuosos nem os mais perversos dentre nós são consistentes na sua escolha, o que explica em parte a ambivalência e a complexidade da condição humana. Como lembra aquela canção italiana de que gosto, somos todos vítimas e algozes e – de algum modo misterioso mas muito literal – os outros somos nós.

NOTAS
  1. “As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. Tem prazer em controlar, em impor sua vontade. Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro está resplandecendo ao seu redor, e o amor está sorrindo através de todas as coisas.” []
02 de Dezembro de 2011

Perdão e poder

Manuscritos

Não é de estranhar que Jesus de Nazaré tenha se recusado a reduzir a virtude a um conjunto confortável de regras; não é de estranhar que ele tenha se negado firmemente a indicar que a conduta do reino pudesse ser domada em normas ou esgotada pela obediência passiva. Essas suas cautelas se enquadram de modo natural em seu projeto de rejeitar o uso de qualquer ferramenta de manipulação e de poder. Legislar é poder, legislar é condicionar, e nada está mais distante da postura que Jesus assumiu para si mesmo e sonhou para os seus amigos.

Também não é de estranhar que a igreja tenha ignorado por completo esse sonho de Jesus, tendo caído muito cedo na tentação de regulamentar e institucionalizar. O desafio do sopro imprevisível do espírito se prestava menos como ferramenta de controle do que a promulgação de novos e exigentes regulamentos, Débito é controle.pelo que a igreja não tardou a elencá-los e a demandar o seu solene cumprimento.

Em especial, a elaboração de uma nova legislação resolvia o tremendo problema gerado pelo anúncio evangélico do perdão universal dos pecados. Porque, como quem pondera essas coisas não deve esquecer, o rabi de Nazaré era acima de tudo um sujeito que via como essencial viver desafiando as pessoas a celebrar um novo modo de vida com base no desconcertante anúncio divino da remissão das faltas que mancham a ficha de cada um (inclusive, estava implícito, daquelas manchas teimosas para as quais a lei de Moisés não previa compensação ou misericórdia). Tratava-se de uma absolvição incondicional, integral, imediata e gratuita – e, em cada um desses aspectos, inteiramente sem precedentes. O anúncio e o ingresso do reino dos céus começavam com o mergulho literal nessa vertiginosa notícia.

Deste lado de um rio com dois mil anos de largura, estamos habituados a tomar o anúncio do perdão plenário dos pecados como um dos aspectos mais imateriais e etéreos – um dos aspectos mais politicamente inofensivos – da mensagem de Jesus. Ser perdoado deve ser complicado.Não teríamos como estar mais enganados.

O anúncio da disponibilidade universal da absolvição dos pecados era um golpe que desfechava fraturas profundas nas estruturas sociais, religiosas, econômicas e políticas do mundo de Jesus. Como explicam tão rigorosamente os evangelhos, os representantes do estado de coisas em cada uma dessas esferas não deixaram de farejar essa ameaça no ar. Nenhum governo precisa perseguir gente santa: santos não incomodam, porque limitam-se a apontar o pecado. Jesus e João Batista foram perseguidos porque distribuíam o perdão e a liberdade, anulando e relativizando o poder paralisante da culpa e do pecado.

O problema, naturalmente, está em que nenhum estado de coisas, nenhum sistema de dominação e controle, tem como sobreviver à súbita ausência de débitos.

Os homens que projetaram a igreja formal julgaram que não convinha para a manutenção do sistema que uma pessoa se sentisse por muito tempo inteiramente perdoada, sem dever nada a ninguém – isto é, autônoma, livre, criativa e responsável. A fim de evitar a dificuldade que seria fiscalizar uma multidão autônoma de alforriados, viu-se como necessário colocá-los sem demora debaixo de uma nova e sensata cadeia de exigências. Uma lista de normas, que pudesse ser decorada e que não deixasse margem de manobra ou de dúvida. Por amor ao rebanho e, por tabela, a Jesus.

Nessa manobra, que deve ter sido em grande parte inconsciente, a igreja primitiva intuiu muito espertamente o que sabem hoje em dia todos os governos e todas instituições financeiras: débito é controle. Para que a instituição funcione e para que a máquina continue a rodar você precisa sentir que está devendo para ela. Quem deve, teme.

É por isso que os governos e as instituições tendem a aumentar indefinidamente a sua lista de proibições e de transgressões, mas tendem a diminuir a lista daqueles com autoridade para absolvê-las. É por isso que, nos nossos dias, mesmo as maiores autoridades e os mais poderosos tribunais são constrangidos pelo sistema a não mitigar a severidade de quaisquer penas, especialmente as mais graves. É por isso que é tão fácil conseguir um cartão de crédito e tão difícil sair de casa sem ele. É por isso que os religiosos do tempo de Jesus se incomodavam menos com os seus desvios da ortodoxia do que com a singeleza com que ele perdoava os pecados de quem quer que fosse.

A fim de se garantir a sobrevivência de qualquer sistema, ser perdoado deve ser complicado. Deve ter um procedimento, uma hierarquia, um prazo, um trâmite e um preço. Para que o débito exerça de modo adequado o seu poder de controle, o perdão não pode ser distribuído indiscriminadamente. Ninguém deve ter poder para absolver a seu bel-prazer – e, como se não bastasse a sua própria insubordinação, era com a missão de distribuir o perdão que Jesus convidava seus seguidores a passear mundo afora. Nada é mais subversivo do que o perdão emitido sem critério, e era um Deus assim – uma vida assim – que Jesus apresentava ao mundo. A este mundo.

A singularidade desse indulto universal é tão assombrosa que nem mesmo a igreja foi capaz de represá-la por completo. Porém os líderes pós-apostólicos entenderam muito depressa que a euforia libertadora do mais radical e abrangente dos perdões pode ser anulada imediatamente pela contabilização de novos débitos.

Afinal de contas, quem não deve nada a ninguém pode crer-se livre para mudar o mundo ou para reger a sua própria vida – e nada há de mais perigoso. O espírito da liberdade pode insistir em soprar onde quiser – e nada há de mais inconveniente.

Foi tida como medida urgente e necessária, portanto, reinstaurar a culpa. Foi deliberado como recomendável anular-se o risco da liberdade e do perdão.

Porque, descuidado leitor, o que você empreenderia se entendesse de repente que não deve nada aos seus empregadores? O que você faria agora mesmo se entendesse que não deve nada a seu banco, a seu governo ou a si mesmo?

Por tudo que é sagrado, o que você faria se entendesse que não deve nada a Deus?

Leia também:
O Deus que não tem ninguém na sua lista
Na cama com a Bíblia
O acalentado conforto da proibição