08 de Abril de 2009
Não é por acaso que em seu discurso Pedro recapitula o mecanismo da vitimização, que levou ao assassinato de um inocente (“Jesus, aprovado por Deus . . . a quem vocês prenderam, crucificaram pelas mãos de homens corrompidos, e mataram”), antes de apresentar Jesus como a fonte do transtorno do Espírito (“tendo recebido do Pai o Espírito Santo prometido, ele derramou isso que vocês agora estão vendo e ouvindo”). Sua idéia não é apenas constrastar a perversidade do processo de vitimização com a santidade do transbordar do Espírito. Seu discurso está construído de forma a contrapor geometricamente uma coisa à outra; sua sacada está em demonstrar que tratam-se de dois processos semelhantes mas inversos. Foi o preciso reverso do processo da vitimização que possibilitou a incubação do Espírito.
Para falar dessas mesmas coisas com um vocabulário contemporâneo será necessário mais uma vez recorrer a Girard, cuja obra lança luz precisamente sobre o mecanismo de vitimização, pelo qual as comunidades resolvem suas tensões internas através da condenação unânime e eliminação de um bode expiatório.
O mecanismo da conciliação de uma comunidade através da morte violenta de uma vítima arbitrária é conhecido desde a Antiguidade. Ele é virtualmente expresso com todas as letras no verso cinquenta do décimo capítulo de João: “É melhor que um único homem morra pelo povo do que a nação inteira seja destruída.” A contribuição de Girard está em apontar que tanto a solução da catarse violenta quanto as tensões internas que tornaram necessária a catarse originam-se na mesma fonte: a irreversível tendência do ser humano à imitação.
Para Girard, a imitação – o desejo de ser como o outro – é a menor partícula da antropologia, o átomo da humanidade. De uma ponta à outra a Bíblia reconhece essa inclinação humana à imitação – muitas vezes explicitamente, como na redação dos dez mandamentos. Girard nota que os mandamentos não proíbem apenas a apropriação indébita, o que deveria bastar (“não se aproprie do que não é seu”), mas proíbem expressamente o desejo (“não cobice o que pertence ao outro”).
PILATOS
E HERODES
PASSARAM A
SER AMIGOS
Nessa escolha de palavras a Bíblia reconhece que a raiz de todas as rivalidades, a raiz de todas as tensões e antagonismos, está no desejo de ser como o outro. Todo desejo é mimético, isto é, imitativo. Nisto está a antropologia da Bíblia, e em grande parte a sua psicologia: não desejamos as coisas por si mesmas, desejamos as coisas porque pertencem à outra pessoa. Inconscientemente refletimos que, se as coisas pertencem ao próximo, o próximo deve, ele mesmo, desejá-las. É dessa forma que passamos a cobiçar o que não nos pertence: porque queremos ser como o outro. Não cobiçamos as coisas porque nos pareçam particularmente satisfatórias, mas porque o outro nos parece satisfatório, e ser como ele inteiramente desejável. “No momento em que comerem esse fruto vocês serão como Deus”. O acesso ao que não temos é mera ferramenta transversal no nosso projeto de dominação – isto é, de imitação – completa.
Todo antagonismo é portanto uma espécide torta de admiração, porque nosso projeto mais secreto é desejar o que o outro deseja, isto é, imitá-lo até o fim na tentativa de encontrarmos nossa própria satisfação. Os irmãos invejam o casaco de José porque querem ser como ele; odeiam-no porque admiram-no. Isso explica porque via de regra acabamos nos transformando na imagem precisa daquilo que mais odiamos e perseguimos.
É tudo um jogo de espelhos.
Num universo de necessária escassez, como o nosso, nem todos podem ter tudo; a inclinação humana à imitação acaba gerando toda espécie de rivalidades e antagonismos em todos os níveis da sociedade. Grupos antagonistas disputam o poder, estapeando-se para gerenciar a abundância, e suas diferenças vão se aferrando ao ponto do insustentável. Quando as tensões internas de uma comunidade chegam ao ápice, num ponto em que a completa desordem e a guerra de todos contra todos parece ser a alternativa, uma solução brota de forma secreta e inconsciente: os antagonistas apagam suas diferenças e reencontram a ordem na demonização e na eliminação de um bode expiatório. José, o desejado indesejado, é jogado unanimemente no poço e vendido aos egípcios.
Se o bode expiatório é culpado das coisas que seus perseguidores o acusam, isso não diz em nada respeito à eficácia ou à natureza do processo. Antes de ser eliminada, na verdade, a vítima é tacitamente acusada de ser responsável por todos os males que recaem sobre a comunidade; só dessa forma a sua eliminação é capaz de restabelecer a ordem e aplacar as tensões geradas pelas rivalidades internas ao grupo.
Dessa forma, na condenação de alguma vítima inocente e arbitrária, os grupos antagonistas reencontram a harmonia perdida na rivalidade, e encontram-na numa forma sublimada e comunitária de imitação, a imitação do ódio pela vítima escolhida. A imitação, que gerara as tensões comunitárias em primeiro lugar, acaba resolvendo-as, ao preço da eliminação de uma única vítima; fica parecendo de fato vantajoso “que um único homem morra (pelo processo de vitimização) para que a nação inteira não seja destruída (pela exacerbação de suas rivalidades internas)”.
Pedro não deixa de notar que foi um processo exemplar de vitimização, a demonização e a eliminação de uma vítima inocente, que levou Jesus à morte e à cruz. É somente a surreal peculiaridade do mecanismo de vitimização que pode explicar a colaboração de facções antagonistas – saduceus e fariseus, ricos e pobres, soldados e paisanos, judeus e romanos – na súbita demonização e eliminação de Jesus, o bode expiatório último. A luz que Girard lança sobre o procedimento explica uma unanimidade que seria de outra forma incompreensível. Uma vez colocado em andamento, o processo de vitimização produz uma espécie de inteligência subterrânea e perversa, que transformará inimigos em aliados pelo recrutamento de um terceiro antagonista que possa ser executado sem maiores problemas no altar da reconciliação.
O primeiro resultado do assassinato de Jesus foi, portanto, a restauração imediata da ordem social. Imitando o ódio de todos por Jesus, todos reconciliaram-se das tensões geradas pelas rivalidades usuais. Lucas percebe expressamente que “Pilatos e Herodes, que antes disso viviam em inimizade um com o outro, nesse mesmo dia [da execução de Jesus] passaram a ser amigos (23:12)”.
Tudo isso observa Girard, e observa ainda que este mecanismo é a única ferramenta de Satanás. A acusação é sua própria essência, é sua própria pessoa.
A vitimização de Jesus, segundo Girard, é exemplar; é reflexo perfeito e figura da condenação e eliminação de todas as vítimas inocentes, de Abel a José a Sócrates aos judeus na Alemanha nazista. Para Girard, o que o evangelho tem de peculiar está em sua habilidade de denunciar pontualmente cada aspecto do processo, de modo a “expor” o mecanismo – isto é, expor Satanás – de forma completa e definitiva. Depois de Jesus, Satanás não terá mais como “funcionar” de modo encoberto, porque o Filho do Homem exibiu publicamente as entranhas de seu maior segredo.
Enquanto via-o caminhar para a cruz, Satanás cria que Jesus estava caindo, como planejado, na sua armadilha mais antiga; o evangelho, como iluminado ainda por Pedro e Paulo, assegura que Jesus estava na verdade anulando para sempre a sua eficácia.
Os próprios discípulos foram participantes do processo que vitimizou o homem de Nazaré; também eles aderiram à súbita e irresistível febre de demonização de Jesus. A maioria abandonou-o sem qualquer intervalo ou escrúpulo, e Pedro imitou irresistivelmente seus perseguidores, negando-o publicamente.
Para Girard, aquilo que abriu finalmente os olhos dos discípulos, levando-os a compreender rematadamente o processo e capacitando-os a escapar para sempre de sua atração circular, foi a ressurreição. O que parece ter escapado a Girard, até agora, é que Satanás encontrou seu algoz e seu remédio não na esperada ressurreição, mas no imprevisto desabrochar do Espírito.

20 de Fevereiro de 2009
55
A transfiguração do conflito ocorre quando a serpente empunha e veste um adereço que nenhum personagem havia usado até este momento: a máscara do acusador. Dizendo “Deus sabe que no momento em que comerem desse fruto os olhos de vocês se abrirão”, a serpente dá a entender, enquanto acena com essa bem-aventurança aparentemente sonegada, uma má vontade divina. Neste seu primeiro gesto está a raiz de todos os nomes associados à sua herança, particularmente “diabo”, que vem do grego diabolos – caluniador, acusador.
A vida torta que há na serpente é a acusação de um inocente, e o primeiro na Bíblia inteira a ser acusado por ela (isto é, o primeiro a ser acusado, e ponto final) é o próprio Deus. Não teria como ser diferente, porque Deus é o primeiro transgressor e portanto o primeiro a colocar a cara para bater (ou, como se diz na linguagem de Gênesis, o primeiro a conhecer o bem e o mal).
No entanto o homem compreenderá sem qualquer dificuldade a atração irresistível que há em imitar a ânsia litigiosa da serpente. Antes do fim desta mesma página, a fim de justificarem a trangressão, tanto Adão (“A mulher que me deste por companheira deu-me da árvore, e eu comi”) quanto Eva (“A serpente enganou-me, e eu comi”) terão vestido e falado através da máscara da acusação.
Através desse recurso narrativa demonstra claramente aquilo articulado por Girard, que o diabo é menos um personagem do que um mecanismo: o mecanismo da acusação alimentada pela imitação. Todos que usam a máscara do acusador imitam a serpente e são seus filhos; esses tornam-se a serpente e são a serpente.
28 de Janeiro de 2009
À primeira vista a segunda porção do discurso de Pedro parece ser essencialmente apologética — no sentido de tentar argumentar de todas as maneiras em favor da supremacia de Cristo. O próprio Pedro, no entanto, recusa-se a endossar a nossa crença de que seus argumentos são mais importantes do que suas conclusões. Quando analisado a partir de suas próprias ênfases, esta parte do discurso demonstra ser perfeita ressonância e desconcertante complemento da primeira.
No que diz respeito à sua defesa, Pedro faz duas coisas: primeiro, traz à lembrança da multidão a pessoa extraordinária Jesus foi enquanto viveu (“homem aprovado através dos milagres, prodígios e sinais miraculosos que Deus realizou entre vocês por intermédio dele”). Segundo, e de forma mais extensa, argumenta que a ressurreição de Jesus (“da qual todos nós somos testemunhas”) é cumprimento de uma profecia que Davi (de quem Jesus era descendente) teria deixado mais ou menos oculta (até agora) no texto de seus salmos.
– Homens de Israel, ouçam o que eu estou dizendo: Jesus de Nazaré, como vocês mesmo sabem, foi um homem aprovado por Deus diante de vocês, através dos milagres, prodígios e sinais miraculosos que Deus realizou entre vocês por intermédio dele. Esse Jesus, depois de ter sido entregue segundo o plano determinado e com o conhecimento prévio de Deus, vocês prenderam, crucificaram pelas mãos de homens corrompidos, e mataram. Mas Deus o ressuscitou, livrando-o das dores da morte, porque não era possível que ele fosse retido por ela. Porque é a respeito dele que Davi está falando quando diz: “Eu via o Senhor sempre diante de mim: ele está à minha direita, para que nada possa me abalar. Por isso o meu coração está feliz e a minha língua canta de alegria, e não apenas isso: a minha carne/corpo físico também irá repousar com esperança. Porque o senhor não deixará a minha vida na sepultura, nem permitirá que o seu escolhido sofra decomposição. O senhor me fez conhecer os caminhos da vida, e com a sua presença me encherá de alegria”. Homens irmãos, posso dizer-lhes sem constrangimento acerca do patriarca Davi que ele morreu, foi sepultado e sua sepultura está conosco até o dia de hoje. Mas Davi era profeta e sabia que Deus havia lhe jurado solenemente que da sua descendência, no que diz respeito à carne, faria surgir o Messias para ocupar o seu trono. Tendo visto de antemão, Davi estava falando da ressurreição do Messias quando disse que a sua vida não seria deixada na sepultura, e que sua carne não sofreria decomposição. A esse Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. De modo que, elevado à posição de honra à direita de Deus, e tendo recebido do Pai o Espírito Santo prometido, ele derramou isso que vocês agora estão vendo e ouvindo. Porque Davi não subiu ao céu, mas ele diz: “O Senhor disse ao meu Senhor: ‘sente-se à minha direita, até que eu tenha feito dos seus inimigos um estrado para os seus pés’.” Saiba então com toda a certeza, povo todo de Israel, que a esse Jesus que vocês crucificaram Deus o fez Senhor e Messias.
Atos 2:22-36
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De especial interesse para nós que buscamos traços do Jesus dos evangelhos no rastro dos apóstolos está em que, falando assim, Pedro parece estar sugerindo que a faceta mais digna de admiração do ministério de Jesus foram seus milagres — e não, por exemplo, seu caráter, seu ensino e sua originalidade. Essa ênfase soará sem qualquer dúvida estranha a nossos ouvidos sofisticados, a nós que sabemos pelos evangelhos que Jesus concedia importância quando muito secundária a seus próprios milagres, e tinha por preferência evitá-los ou mantê-los em segredo. Por que Pedro, que conheceu de perto a singularidade mais essencial do homem que está defendendo, imprimiria importância mais do que transversal aos milagres e prodígios que o perseguiram?
Para entender essa contradição é preciso despir o discurso de Pedro de sua veste apologética, de modo a encontrar a pérola que cintila por trás dos argumentos. A elaborada argumentação (“quando Davi disse isso, falava na verdade disso, como fica comprovado através de etc”) pode ser com segurança ignorada, porque sua função é meramente cumulativa e seu caráter midráshico, quase estilizado. O fato é que os ouvintes do discurso (bem como nós mesmos) não precisavam acreditar na consistência dos argumentos para serem impactados pela sua atordoante conclusão.
A chave do texto, a indicação da sua verdadeira ênfase, encontra-se nas bordas. A formidável revelação que Pedro quer apresentar está encapsulada na dupla referência “vocês mataram” (v.23) e “vocês crucificaram”(v. 36).
Ao contrário do que possa parecer, a intenção de Pedro com essas qualificações não é fazer com que seu público se sinta culpado. Sua intenção é fazer com que seus olhos se abram para o mecanismo ao qual René Girard dá o nome de vitimização. Pedro quer que seus ouvintes sejam capazes de reconhecer que, na ânsia de aplacar as tensões que se haviam despertado na sociedade durante e através do ministério de Jesus, tinham acusado, condenado e eliminado uma vítima inocente.
Como observa Girard, o mecanismo de encontrar e eliminar uma vítima inocente e unânime — um bode expiatório — na tentativa de aplacar as tensões de uma comunidade é tão antigo quanto a própria humanidade. O que o Novo Testamento faz de modo espetacular é denunciar com clareza tanto os mecanismos desse método quanto a perversidade dessa solução. Ao contrário do que normalmente acontece quando o mecanismo de vitimização é acionado numa sociedade, na Bíblia (e em especial no Novo Testamento) as vítimas não são convenientemente silenciadas pela morte. O sangue de Abel clama por justiça do seio da terra, e a mão e a voz de Jesus — efetivamente seu espírito — sobem do túmulo para dar testemunho da inocência de todas as vítimas.
É por isso que os argumentos de Pedro enfatizam, logo de início, a inocência de Jesus. É por isso que ele deve lembrar que Jesus demonstrara sem qualquer dúvida ser “aprovado por Deus” através de seus milagres. O que está sendo denunciado aqui não é a culpa individual, mas a perversidade do mecanismo de vitimização, a formidável cegueira coletiva que leva uma multidão a eliminar uma vítima que todos sabem inocente e não tem qualquer relação com os crimes de que está sendo acusada. Este mecanismo, propõe Girard, é a ferramenta de Satanás e é o próprio Satanás — cujo nome quer dizer, significativamente, “acusador”.
A surpresa que Pedro reserva para o final está em que, graças a Jesus, nada mais será o que era. As vítimas nunca mais serão eliminadas impunemente e a humanidade não terá mais como ceder ao mecanismo de vitimização coletiva sem saber o que está fazendo, porque em Jesus Deus denunciou Satanás e fez dele um estrado para os seus pés. O espetacular na vida e na obra de Jesus está em que a vítima foi eliminada mas o próprio Deus interviu de modo a comprovar sem equívoco a sua inocência. “O Jesus que vocês mataram Deus o fez Senhor e Messias” — e nisto está o mistério e a reviravolta diante da qual daqui a um minuto estarão se dobrando os ouvintes deste discurso.
A vítima, revela Pedro, é o próprio Deus.
Em Jesus, Deus se coloca do lado das vítimas. Em Jesus, a vítima é o Escolhido, o Ungido, o Messias. Em Jesus, Deus fala através das vítimas: uma vez que assume o lugar de honra à direita de Deus, a Vítima derrama “isso que vocês estão agora vendo e ouvindo”, isto é, seu Espírito, isto é, Deus falando através de mulheres de segunda classe e pescadores ignorantes.
É por isso Pedro pode dar a entender, sem incorrer em erro, que todos os seus ouvintes, mesmo os que acabaram de chegar a Jerusalém, são testemunhas da ressurreição de Jesus (“do que todos nós somos testemenhas”). Sem qualquer incorreção, exagero ou metáfora, Jesus está presente por inteiro no Pentecostes, falando em várias línguas, abraçando em várias vozes, suas mãos inteiramente preparadas para lançarem-se em defesa de todas as vítimas.

10 de Janeiro de 2009
Nossa sociedade é mais preocupada com as vítimas do que qualquer outra. Mesmo quando insincero, quando não passa de um grande espetáculo, o fenômeno não tem precedentes. Nenhum período histórico, nenhuma sociedade que conhecemos, jamais falou sobre as vítimas do modo como falamos. Podemos detetar no passado recente as primeiras manifestações desta atitude contemporânea, mas a cada dia novos recordes são quebrados.
Examine fontes antigas, pergunte em qualquer lugar, vasculhe os cantos do planeta e não irá encontrar em lugar algum coisa alguma que lembre mesmo que remotamente nossa preocupação contemporânea pelas vítimas. A China dos mandarins, o Japão dos samurais, os hindus, as sociedades pré-colombianas, Atenas, Roma republicana ou imperial – nenhuma dessas sociedades demonstrava qualquer preocupação por suas vítimas, que sacrificavam sem número aos seus deuses, à honra da pátria, à ambição dos conquistadores, grandes ou pequenos.
Nossa sociedade aboliu a escravidão e a servidão. Mais tarde vieram a proteção às crianças, às mulheres, aos idosos, aos estrangeiros de fora e de dentro. Há ainda a batalha contra a pobreza e o subdesenvolvimento. Mais recentemente tornamos universal a assistência médica e a proteção aos deficientes.
A cada dia cruzamos novos limiares. Quando uma catástrofe ocorre em algum lugar do globo, as nações mais priviliegiadas sentem-se obrigadas a enviar auxílio ou participar nas operações de resgate. Alguém pode afirmar que esses são gestos mais simbólicos do que reais, e refletem apenas uma preocupação com prestígio. Sem dúvida, mas em qual período antes da nosso e debaixo de qual céu a assistência mútua internacional representou uma fonte de prestígio para as nações?
Uma única rubrica engloba tudo que estou sumarizando agora em nenhuma ordem particular e sem nenhuma intenção de ser completo: a preocupação com as vítimas. Essa preocupação é às vezes exagerada e tão caricata que presta-se ao riso, mas deveríamos nos guardar contra a tentação de vê-la como mais um item, como nada além de tagarelice ineficaz. Trata-se mais do que uma comédia de hipocrisia. Ela criou ao longo dos séculos uma sociedade como nenhuma outra, e está unificando o mundo pela primeira vez na história.
A porção essencial do que circula agora como direitos humanos está no reconhecimento indireto do fato de que cada indivíduo ou cada grupo de indivíduos pode tornar-se “bode expiatório” dentro de sua própria comunidade. Enfatizar os direitos humanos equivale a uma tentativa (anteriormente impensável) de controlar o incontrolável processo de contágio mimético/imitativo violento.
O que temos é o reconhecimento vago da possibilidade de que qualquer comunidade pode acabar perseguindo seus próprios membros. Isso acontece sempre que uma multidão se mobiliza de repente contra qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer tempo, em qualquer modo, qualquer que seja o pretexto. Também acontece, mais frequentemente, quando uma sociedade torna-se permanentemente organizada na base dos privilégios de poucos às custas de muitos, quando formas de injustiça social perpetuam-se por séculos, às vezes por milênios. A preocupação com as vítimas busca proteger-nos contra as incontáveis variedades do mecanismo de vitimização.
Ninguém teve sucesso em tornar a preocupação pelas vítimas algo “ultrapassado”, e isso porque ela é a única coisa no nosso mundo que não é resultado de uma moda recente (embora muitas modas surjam a partir dela). A ascensão do “poder das vítimas” coincide, e não por acidente, com a chegada da primeira cultura planetária. Os antigos absolutos ruíram – humanismo, racionalismo, revolução, até mesmo a ciência. Ainda assim não vivemos num vácuo niilista, porque resta a preocupação com as vítimas, e é esse valor que domina a cultura planetária em que vivemos. Ela é nosso absoluto.
A preocupação com as vítimas leva-nos a opinar que nosso progresso rumo ao humanitarismo tem sido demasiado lento, e que não devemos de forma alguma glorificá-lo, a fim de não torná-lo mais lento ainda. A preocupação moderna com as vítimas obriga-nos a nos condenarmos perpetuamente. Característicamente, nossa preocupação com as vítimas nunca se mostra satisfeita com sucessos passados. Ela jamais louva a si mesma, nem tolera seu próprio louvor. Tenta desviar continuamente a atenção de si mesma, porque devemos estar atentos apenas para as vítimas. Nossa preocupação denuncia sua própria negligência, seu próprio farisaísmo. Nossa preocupação com as vítimas é a máscara secular do amor cristão.
Em resumo, o que nos impede de examinar nossa preocupação pelas vítimas é essa própria preocupação. Quer seja fingida, quer seja sincera, ela é compulsória em nosso mundo, e sem qualquer dúvida originou-se no cristianismo. A preocupação pelas vítimas não opera na base das estatísticas; opera segundo o princípio dos evangelhos, da ovelha perdida pela qual o pastor, se necessário, abandonará o rebanho inteiro.
René Girard, I See Satan Fall Like Lightning

Uma severa ressalva que devo levantar com relação a esta sacada de Girard está em que, quando se lê o capítulo inteiro do qual estas reflexões foram extraídas, fica manifesto que o autor se ressente de que a preocupação com as vítimas exista no mundo sob uma máscara secular. O sonho de Girard era que a igreja e o cristianismo fossem celebrados planeta afora como a verdadeira fonte deste admirável mundo novo. De minha parte, vejo como motivo de veemente celebração e glória que não seja assim.
Mais sobre o assunto na série de artigos que ainda não escrevi, sobre o desnorteante brilhantismo e os esperados atoleiros do pensamento de Girard.
29 de Dezembro de 2008
Quando afirma que não veio abolir a lei, mas cumpri-la, Jesus articula uma consequência lógica do seu ensino. O alvo da Lei é a paz entre os seres humanos. Em momento algum Jesus zomba da Lei, mesmo quando ela assume a forma de proibições. Ao contrário dos pensadores modernos, ele sabe que para evitar conflitos é necessário começar com proibições.
A desvantagem das proibições, no entanto, é que elas acabam não desempenhando o seu papel de modo satisfatório. Seu caráter eminentemente negativo, como bem observou São Paulo, provoca inevitavelmente o impulso mimético/imitativo de transgredi-las. O melhor modo de evitar a violência não consiste em proibir objetos [...], mas em oferecer às pessoas um modelo que os proteja das rivalidades miméticas, ao invés de envolvê-las ainda mais nessas rivalidades.
Com frequência acreditamos que estamos imitando o verdadeiro Deus, mas estamos na verdade meramente imitando falsos modelos de um eu independente que não pode ser ferido ou derrotado. Longe de nos tornarmos independentes e autônomos, entregamo-nos vez após outra a intermináveis rivalidades.
[...] Os não-cristãos imaginam que para se converterem devem renunciar uma autonomia que todos possuem naturalmente, uma liberdade e uma independência que Jesus quer arrancar deles. Na realidade, quando começamos a imitar Jesus descobrimos que nossa aspiração à autonomia levou-nos a nos dobrarmos continuamente diante de indivíduos que podem não ser piores do que nós, mas que são, no entanto, modelos prejudiciais, porque não somos capazes de imitá-los sem cairmos na armadilha das rivalidades, nas quais ficamos cada vez mais enredados.
Sentimos que estamos no processo de alcançar a autonomia quando imitamos nossos modelos de poder e de prestígio. Essa autonomia, no entanto, nada mais é do que o reflexo das ilusões projetadas por nossa admiração por eles. Quando mais essa admiração se intensifica, de modo mimético, menos conscientes nos tornamos de sua natureza mimética. Quando mais “orgulhosos” e “egocêntricos” nos tornamos, mais escravizados nos tornamos dos modelos que imitamos.
René Girard, I See Satan Fall Like Lightning

Leia também:
O bicho
A farsa mais poderosa do egocentrismo está em que ele acena com a ilusão de que estamos pensando sobre nós mesmos e buscando a nossa própria satisfação, quando estamos na verdade sendo prisioneiros dos outros e da sua vontade.
Em comparação: o dinheiro compra a felicidade
Os outros são a medida da nossa felicidade, e a inveja é nosso exigentíssimo motor.
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