13 de Outubro de 2012
Louvado sejas, Senhor,
pelo irmão muçulmano que me quer morto,
pelo irmão capitalista que me quer escravo,
pelo irmão comunista que me quer fantoche,
pelo irmão patrão que me quer até não servir,
pelo irmão governante que me quer calado,
pelo irmão colega que me quer pelas costas,
pelo irmão discípulo que me quer ultrapassado,
pelo irmão amigo que me quer quando dá jeito,
pelo irmão camarada que me quer alinhado,
pelo irmão sacerdote que me quer reverente,
pelo irmão lobo que me quer extinto,
pela irmã cobra que me quer mordido,
pelo irmão católico que me quer alienado,
pelo irmão protestante que me quer outro,
pelo irmão ateu que me quer ateu,
pelo irmão desconhecido que me quer incógnito,
pelo irmão idealista que me quer teoria,
pelo irmão marxista que quer peça descartável,
pelo irmão Sol que não sabe que existo,
pelo irmão Senhor que em mim resiste
quando o nego.
Louvado sejas, Senhor, pelas tuas criaturas
que não aturas
nas tuas inalcançáveis transcendentes alturas.
Obrigado,
Senhor,
pelo amor fraternal. Menos mal, Senhor,
Obrigado pelo irmão Eu,
Entre o agnóstico e o ateu,
que te agradece porque não és meu
Nem eu sou teu.
Graças a ti, Senhor,
Dei-me a uma criatura que me atura,
apesar da sua inalcançável transcendente altura.
Obrigado, Senhor, por me teres dado
ao paciente irmão verdugo que se chama Amor,
antes de retornar irmãmente aos braços do Criador.
Meu irmão Manuel Anástacio, o Venturoso,
cuja ventura simplesmente não para
07 de Abril de 2012
Tu és santo, único Deus Senhor,
Que operas coisas maravilhosas
Tu és forte, és grande, és altíssimo
És rei onipotente: tu, Pai santo,
rei do céu e da terra
Tu és trino e uno, Senhor Deus dos deuses
És o bem, todo o bem, o sumo bem,
o Senhor Deus vivo e verdadeiro
Tu és caridade, és sapiência
És humildade, és paciência
És beleza, és mansidão
És segurança, és descanso
Tu és júbilo e alegria,
És nossa esperança
És justiça
És moderação
És toda nossa riqueza e suficiência
Tu és beleza
Tu és mansidão
És protetor, és nosso guardião e nosso defensor
És força, és conforto
Tu és a nossa esperança
Tu és a nossa fé
Tu és a nossa caridade
És toda a nossa doçura
És nossa vida eterna, grande e admirável Senhor
Deus onipotente,
Misericordioso Salvador
Este texto, entregue por São Francisco a Frei Leão em 1224 (isto é, dois anos antes de morrer) e preservado hoje em dia em Assis, é um dos dois manuscritos de sua própria mão que sobreviveram aos séculos. Como em toda a marca que Francesco deixou sobre a terra, ele passa com resignação pelas coisas grandes e de menos importância requeridas pela ortodoxia (tu és rei onipotente, trino e uno, etc) e pausa sobre as coisas importantes – isto é, pequenas e singelas e que dizem respeito à cumplicidade entre os homens na qual se revela a divindade: tu és beleza, tu és mansidão (que aparecem juntas duas vezes) e, meu Deus, tu és toda a nossa doçura. Numa palavra, ele começa falando de teologia e termina falando sobre Jesus.
O pergaminho original revela que na primeira vez em que aparece a palavra “caridade”, como que para deixar um sumo e definitivo esclarecimento, Francesco voltou atrás e escreveu, acima da palavra latina caritas, a palavra (que em latim se escreve como em português) amor.
28 de Março de 2012
Não encontro outra maneira de dizer: algumas pessoas tem corpo aberto, e com isso quero dizer que algumas pessoas você sente intuitivamente que não se importam de ser tocadas. A maioria de nós – embora eu talvez esteja falando apenas da minha mínima fatia de ocidente – tem corpo fechado: preferimos não ser tocados, especialmente por estranhos, e largamos no caminho deste mundo indícios muito claros disso.
Mas o milagre, o improvável milagre, é que entre nós existem pessoas de corpo aberto. Sem que digam nada, você acaba sacando que pode tocá-las no braço para estabelecer um contato e transmitir uma ênfase, mesmo se for a primeira vez que estiverem conversando. Se você estiver sentado no chão e a pessoa de corpo aberto estiver sentada numa poltrona, você sentirá como coisa muito natural a ideia de recostar as costas junto às pernas dela. Uma pessoa de corpo aberto não vai se importar se você de repente capturar-lhe um dedo, tocar-lhe as costas da mão, encostar o seu braço no dela, apertar-lhe os ombros para uma massagem sem método e sem motivo.
É importante que eu deixe logo claro que não estou falando daquelas pessoas-que-pegam-em-você, muito menos justificando esse método de invasão territorial. As pessoas-que-pegam-em-você não respeitam os conceitos mais fundamentais de autonomia e de civilidade, e nisso negam sua própria autonomia e sua própria civilidade. Pegam em você não para estabelecer contato, mas para invadir e explorar, espoliar e possuir, e para isso não há justificativa.
A uma pessoa de corpo aberto jamais ocorreria invadir: muito pelo contrário. Sua luz, sua atração e seu método residem na sua autossuficiência. Como um distraído deus, a pessoa de corpo aberto é tão senhora do seu mundo que sinaliza gentilmente que nada pode violar a sua soberania. Não transmite convites, mas comunica muito serenamente a abolição das interdições usuais. Trata-se de uma transmissão quieta, jamais alardeada verbalmente, mas que você acaba percebendo, muitas vezes imediatamente.
Embora a mulher tenha demorado milênios a conquistar o direito sobre a posição do próprio corpo na geografia social, esta não é e nunca foi uma questão de gênero; há homens de corpo fechado e mulheres de corpo aberto. Não é uma questão de classe social; há pobres de corpo fechado e ricos de corpo aberto. Não é uma questão de idade; há jovens de corpo fechado e velhos de corpo aberto. Não é uma questão de humor; há gente dulcíssima de corpo fechado e gente irritadiça de corpo aberto. Não é uma questão de orientação sexual; há homossexuais de corpo fechado e heterossexuais de corpo aberto. Não é questão de estado civil; há gente solteira de corpo fechado e gente casada de corpo aberto. E, sempre, em todos os casos, vice e versa.
Se estou dizendo isso é porque muitas vezes me ocorreu que ter o corpo aberto é uma virtude cristã, talvez a virtude cristã por excelência, porque é ao mesmo tempo a mais recatada e a mais escancarada, a mais humilde e a mais ambiciosa, a mais invisível e a mais revolucionária, a mais sofisticada e a mais acessível da virtudes. Que as verdadeiras luzes da herança de Jesus – digamos, na falta de outras, São Francisco, – tinham corpo aberto, se intui mesmo por aqueles que conhecem minimamente a sua história; e sem que pensemos muito nisso, acabamos entendendo que essa gentileza de corpo, essa disponibilidade do abraço, fazia parte absolutamente essencial da sua mensagem e do seu impacto através das eras.
Há, é claro, solenes e numerosos indícios de que o próprio Jesus tenha tido corpo aberto em seus dias na Terra (e, talvez mesmo depois, como encena continuamente a narrativa de Tomé). Na sociedade do tempo de Jesus a política do corpo era pelo menos tão complexa e exigente quanto a da nossa; acho irresistível que os evangelistas tenham considerado as violações de Jesus à política vigente do corpo singulares e significativas o bastante para terem-nas deixado registradas nos evangelhos. De fato, uma das coisas que fazem com que os evangelhos como gênero literário se diferenciem por completo da literatura da sua época é a sua disposição em pausar para discorrer sobre as questões do corpo. Que o tráfico entre corpos – a lavagem de pés, o beijo, o partir do pão, a saliva curativa, o amigo que se reclina sobre o peito – pudesse fazer parte integrante ou essencial de uma biografia ou de uma mensagem profética é coisa que a própria figura de Jesus parece ter inspirado. Aparentemente nenhum corpo havia inspirado as mesmas associações antes, e permanecem raros – e num certo sentido divinos – os que as inspiram depois.

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A paixão de Francesco
19 de Março de 2012
Tomás de Celano conta que quando Francisco de Assis encontrava no chão um pedaço de papel com alguma coisa escrita “sobre Deus ou sobre quem quer que seja” ele o erguia dali “com a maior reverência” e o depositava num lugar “santo ou decente”.
Uma maneira de interpretar esse procedimento é como sendo resultado daquela reverência que pessoas pouco letradas demonstram por vezes diante da palavra escrita. Porém Francesco, embora nunca tenha chegado a ser um homem de letras – como atestam a singeleza de vocabulário em toda a sua obra e os erros de gramática e de ortografia nos dois únicos manuscritos de seu punho que chegaram até os nossos dias, – sabia escrever e escrevia desarmantemente bem para um homem que abraçou o projeto de permanecer simples.
Francesco não achou-se indigno do destino de poeta e de trovador; isto é, seu respeito pela palavra escrita não se origina de sua pouca familiaridade com ela. Talvez o contrário é que seja verdade.
É claro que Francesco, que chamava o lobo de irmão, tinha a proverbial tendência a encontrar (ou atribuir, se é que existe diferença) dignidade não só em animais mas também em coisas inanimadas – plantas, astros e elementos da natureza. Porém para o homem de Assis os animais e as coisas tinham uma dignidade inseparável deles mesmos, nascida da honra inerente de fazerem parte da criação. Já as palavras aparentemente ganhavam sua dignidade a partir da sua relação com as pessoas: os papéis que Francesco recolhia do chão eram os que traziam “palavras escritas sobre Deus ou sobre quem quer que seja”.
Como ser humano que sou, encontro nisso uma parábola – isto é, uma palavra. Se intuiu que as pessoas imprimem dignidade às palavras, não é inconcebível que o santo tenha vislumbrado a realidade oposta e complementar: que as palavras emprestam dignidade às pessoas, no sentido lacaniano de que nos tornamos pessoas quando na tenra infância nossa carne é atravessada pela palavra e nos tornamos um corpo – quando somos varados, confundidos, iluminados, escravizados e libertos, mortos e renascidos pelo batismo das palavras. O verbo se fez carne é a história da humanidade; não é só a biografia divina, mas também a de cada um.
Francesco, que chamava de irmão o lobo e o sol e o fogo; que chamava de irmã a água e a lua e a morte, talvez tenha entendido que a relação entre as pessoas e as palavras é ainda mais íntima e indestrinçável do que a fraternidade… que o homem e a palavra são mais chegados do que irmãos… que, para todos os efeitos, nossa relação com as palavras é de identidade. Recolher uma palavra do chão é recolher do chão um homem. Levantar do chão uma folha de papel com o meu nome equivale a reparar-me a honra.
Não há nisso mágica nenhuma, pelo menos não uma mágica maior do que aquela de sempre: a de sermos feitos nós mesmos de pouca coisa além de palavras.

01 de Setembro de 2011
Não há santo mais inesperado e humano (e portanto mais santo) do que Francesco. A maior parte das histórias que se agregaram ao redor da sua pessoa confirma esse seu compromisso com uma santidade sensual da qual não se tinha notícia desde os tempos de Jesus.
Uma:
No caminho para a Babilônia, São Francisco entrou numa pousada para repousar. Ali havia uma mulher belíssima de corpo mas impura de alma, que aproximou-se dele e convidou-o a pecar.
– Eu aceito – disse Francisco, – vamos para a cama.
A mulher o foi levando para o quarto, mas ele disse:
– Venha comigo, vou levá-la a um leito belíssimo.
Francisco levou-a então até um grande fogo que havia naquela casa, e em fervor de espírito despiu-se por completo e deitou-se ao lado daquele fogo no lugar mais quente, e convidou-a a despir-se e deitar-se com ele naquele leito belo e confortável. Francisco permaneceu naquela posição por um longo intervalo, com o rosto alegre, sem arder nem se queimar; diante disso aquela mulher, assustada pelo milagre e compungida de coração, não apenas arrependeu-se do pecado e da sua má intenção, mas também converteu-se perfeitamente à fé de Cristo, tornando-se santa a tal modo que através dela muitas almas salvaram-se naquelas regiões.
Citada nos anônimos “Fioretti” do século XIV, capítulo vinte e quatro
Ignore a improbabilidade do milagre se achar necessário; a história permanece magnífica ilustração da santidade como ela deveria ser. Pois Francesco não nega a força da paixão nem a sua legitimidade; ele não condena em atos ou palavras a pecadora que o seduz, e não sonega dela sequer a sua nudez. Como faria um verdadeiro santo, ele diz imediatamente sim à tentação, mas o faz de um modo que transtorna todas as expectativas e promove uma improvável conciliação. Fica revelado nele o que estava revelado em Jesus: que expor sem disfarces a humanidade e alinhar-se a ela é coisa capaz de seduzir os pecadores mais do que a mais estrita das santidades seria capaz de fazer.
A história reaparece, com singeleza talvez maior (“con te io peccherò”) na segunda estrofe de Il Sultano Di Babilonia E La Prostituta (2000), do menestrel contemporâneo Angelo Branduardi:
Frate Francesco si fermò per riposare
Ed una donna gli si volle avvicinare,
bello il suo volto ma velenoso il suo cuore,
con il suo corpo lo invitava a peccare
Frate Francesco parlò:
“Con te io peccherò”
Nel fuoco si distese,
le braccia a lei protese
Lei si pentì, si convertì…
così Francesco partì per Babilonia a predicare

NOTAS
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