10 de Agosto de 2007

Toda Substância é Espírito

Goiabas Roubadas

6. Algumas verdades são tão claras e evidentes ao entendimento que basta a pessoa abrir os olhos para ser capaz de enxergá-las. Dentre essas considero ser especialmente importante esta, a saber, que todo o exército do céu e todo a aparelhagem da terra, numa palavra todos os corpos que compõem a imensa estrutura do mundo, não têm qualquer subsistência sem uma mente pela qual sua existência seja percebida ou conhecida; que, conseqüentemente, na medida em que não são percebidos por mim ou não existem na minha mente ou na de qualquer espírito criado, nenhum desses corpos têm existência real – ou, alternativamente, subsistem na mente de algum Espírito Eterno. É inteiramente ininteligível, e requer todo o absurdo da abstração, atribuir a qualquer porção deles uma existência independente de um espírito. Para convencer-se disso tudo de que o leitor precisa é refletir, e tentar separar em seu próprio pensamento o ser de uma coisa palpável do fato de ser concebida ou percebida.

7. Do que foi dito segue-se que não existe qualquer Substância que não seja Espírito, ou “aquele que percebe”.

Tratado sobre os príncipios do conhecimento humano (1710)
George Berkeley (1685-1753)

 

Este documento faz parte da série

Tratado sobre os príncipios do conhecimento humano

  1. O ser das coisas
  2. Toda Substância é Espírito
27 de Março de 2007

O aspecto positivo da negatividade

Goiabas Roubadas

Em primeiro lugar, não sou maniqueísta. No que me diz respeito, teologicamente falando, todos os homens são maus e todos os homens são salvos. Não raciocino em termos de bons e maus ou salvos e condenados, mas em termos dialéticos. Em segundo lugar, não tenho qualquer prazer em nadar contra a maré, mas creio firmemente no aspecto positivo da negatividade. Como Guéhenno, creio que o homem deve primeiro saber dizer não, ou como Descartes que o homem não deve aceitar coisa alguma como fato sem examiná-lo antes. Minha atitude não é mais pessimista da do médico que, depois de ver os resultados dos exames de um paciente, diagnostica um câncer. Tenho tentado sempre previnir as pessoas, colocá-las em postura de alerta. Tem sido sempre a minha convicção que o homem é livre para colocar em andamento eventos além daqueles que parecem inevitáveis.

Jacques Ellul, em entrevista a Patrick Chastenet

02 de Dezembro de 2006

O que dura uma idéia

Traduzindo Borges

[Sexto Empírico] (Adversus mathematicus, XI, 197) nega o passado, que já foi, e o futuro, que não é ainda, e argumenta que o presente ou é divisível ou é indivisível. Não é indivisível, pois nesse caso não teria princípio que o vinculasse ao passado nem fim que o vinculasse ao futuro; não teria sequer meio, porque não tem meio o que carece de princípio e fim. Tampouco é divisível, pois nesse caso constaria de uma parte que foi e de outra que não é. Ergo, o presente não existe, mas como tampouco existem o passado e o porvir, o tempo não existe.

O tempo não existe.

F. H. Bradley redescobre e melhora essas perplexidades. Observa (Appearance and Reality, IV) que se agora é divisível em outros agoras, não é menos complicado do que o tempo, e que se é indivisível, o tempo é uma mera relação entre coisas intemporais.

Tais raciocínios, como se vê, negam as partes para negar o todo; eu rechaço o todo para exaltar cada uma das partes. Pela dialética de Berkeley e Hume cheguei ao ditame de Schopenhauer: “A forma da manifestação da vontade é apenas o presente, não o passado nem o porvir; esses não existem a não ser para a conceituação e para o encadeamento da consciência, submetida ao princípio da razão. Ninguém viveu no passado e ninguém viverá no futuro: o presente é a forma de toda a vida, é uma possessão de que nenhum mal lhe pode arrebatar… O tempo é como um círculo que gira infinitamente: o arco que desce é o passado, o que ascende é o porvir; acima deles há um ponto invisível que toca a tangente e que é o agora. Imóvel como a tangente, esse ponto sem extensão marca o contato do objeto, cuja forma é o tempo, com o sujeito, que carece de forma, porque não pertence ao cogniscível e é condição prévia do conhecimento” (Welt als Wille und Vorstekkung, I, 54).

A vida de um ser dura o mesmo que uma idéia.

Um tratado budista do século quinto, o Visuddhimagga (Caminho da Pureza), ilustra a mesma doutrina com a mesma figura: “Estritamente falando, a vida de um ser dura o mesmo que uma idéia. Como a roda da carruagem, ao girar, toca a terra em apenas um ponto, dura a vida o que dura uma única idéia” (Radhakrishnan: Indian Philosophy, I, 373).

Outros textos budistas dizem que o mundo se aniquila e ressurge seis mil e quinhentos milhões de vezes por dia e que todo homem é uma ilusão, vertiginosamente fabricada por uma série de homens momentâneos e solitários. “O homem de um momento passado – adverte-nos o Caminho da Pureza, – viveu, mas não vive e não viverá; o homem de um momento futuro viverá, mas não viveu e não vive; o homem do momento presente vive, mas não viveu e não viverá” (obra citada, I, 407), sentença que podemos comparar a esta de Plutarco (De E apud Delphos, 18): “O homem de ontem morreu no de hoje, e o de hoje morre no de amanhã”.

O homem de um momento passado viveu, mas não vive e não viverá; o homem de um momento futuro viverá, mas não viveu e não vive; o homem do momento presente vive, mas não viveu e não viverá.

And yet, and yet… Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronômico, são desesperações aparentes e consolos secretos. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é espantoso por ser irreal; é espantoso porque é irreversível e de ferro. O tempo é a substância de que estou feito. O tempo é um rio que me arrebata, porém eu sou o rio; é um tigre que me devora, porém eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, desgraçadamente, é real; eu, desgraçadamente, sou Borges.

Jorge Luis Borges, Nova refutação do tempo, 1946

28 de Novembro de 2006

A força do leão

Manuscritos

Os filósofos do país de que estou falando leram O Ramo Dourado de Frazer e concluíram que a ciência é a mais insidiosa e inatural das superstições. O homem primitivo cria enxergar alguma relação secreta e invisível entre matar um leão ou vestir sua pele e herdar sua força; da mesma forma crêem os cientistas existir uma relação direta e rigorosa entre o pressionar do interruptor e o acender da lâmpada, entre a aplicação da vacina e a produção dos anticorpos, entre a passagem do tempo e a luz das estrelas. Porém quem pode afirmar, sem recorrer à superstição ou à metáfora, haver alguma relação verdadeira entre uma coisa e outra? O cientista dirá que se pode provar empiricamente, isto é, pela experiência, que, mantidas as demais condições do sistema, a mesma receita produzirá sempre o mesmo bolo, e que essa teimosa coincidência comprova a relação mágica que ele acredita existir. Não será isso, ponderaram nossos filósofos, incorrer em magia simpática e petição de princípio? De que modo, em qual universo, pode-se conceber a terrível abstração que seria “manter-se as condições do sistema”? Os selvagens estão em posição ideológica mais confortável: para comprovar empiricamente a relação entre a força do homem a força do leão bastava, é claro, matar o leão.

13 de Agosto de 2005

Filosófica

Família, Pense comigo

Outro dia o Arthur, que fez recentemente três anos, ficou doente e precisou tomar remédio com gosto ruim. Quando o Hélio foi dar pra ele a outra dose no dia seguinte, ele fez bico e argumentou:

– Por que eu tenho que tomar, se é ruim?