04 de Outubro de 2007

Recrutamento

Manuscritos

A cidade reage quando ele passa, como uma planta que troca as folhas de lugar com a passagem da manhã para a tarde. O dia é nublado com brechas; perfurando as nuvens muito brancas, o sol derrama focos efêmeros de radiância sobre as ruas, sobre as árvores e sobre as pessoas, como um iluminador de teatro procurando protagonistas.

O jovem avança vorazmente tarde adentro, botas contra paralelepípedos, ruminando todos os círculos que tem de fechar. Ele evita o portão cinza do cemitério luterano onde estão Leonar e Mutt e suas bisavós e seus quatro avós e sua mãe, mas não seus bisavôs e não seu pai. Ele escala a ladeira impossivelmente íngreme da Rua da Ponte e pausa diante dos largos ciprestes do conservatório; num único gesto ele despeja na calçada, como um lavrador que rejeita a semente que não tem como germinar, as incontáveis manhãs frias que passou nas salinhas de piano daquele lugar, ensaiando numa encarnação anterior do coro de meninos – o mesmo no qual cantava, até o que parece que foi ontem, Otero.

Ele salta sem bater palmas o muro baixo do casarão cor-de-rosa de Maria Mesquita, em cujo galpão veio recolher as fileiras de cogumelos que colocara para secar. Maria Mesquita, que já era velha quando ele era criança; que a cada visita dele e de seus primos a esta casa fornecia poemas, figurinhas, docinhos de pêssego cobertos de açúcar e cartas avulsas de jogo do mico. De todos que o jovem vai encontrar naquela tarde, Maria Mesquita é a única que, desajeitadamente, lhe dá um abraço. Misericordiosamente, porém, e docemente, ela nada diz, e é o mesmo quando ele atravessa o pasto do Mano para pegar o saco de ameixas, quando avança pelas sombras do monastério para pegar as lingüiças e bate na porta do reitor para recolher a encomenda de ovos, ovos vermelhos de pata, embalados um a um com notícias da guerra. Cada um desses velhos amigos dá um jeito de lhe entregar, furtivamente, um pequeno presente além da encomenda que ele veio buscar e pela qual faz questão de pagar: Maria Mesquita aperta-lhe nas mãos secas uma flor e uma latinha de nata, o Mano um envelope de amendoins salgados, o prior mete na mochila de lona um exemplar minúsculo, de capa verde, de A Imitação De Cristo, e o reitor oferece a promessa de que, no que depender dele, Adra e o bebê terão sempre tudo de que precisarem.

Na extremidade da cidade ele pára para ver Gottlob, que não está em casa e talvez esteja morro acima com as cabras, ou no vale com os joelhos atolados nos arrozais. Ele deixa no pé da porta, equilibrado no vértice entre quatro losângos, um único ovo, esperando que o amigo que não verá mais entenda a mensagem.

Ele volta para casa subindo o rio, porque quer vê-lo na última luz e porque prefere não atravessar novamente a cidade, não hoje.

Em casa ele derrama-se sobre Adra e despem-se no quarto e ele abre seus presentes. Ela chora diante dos perfumes, porque terão ovos e lingüiça e cogumelos e ameixas e nata e amendoins, e é a última noite deles antes do apito do trem, e amanhã começará o derradeiro racionamento.

– Otero? – ele pergunta, enquanto ela compõe recatadamente os alimentos nas cestinhas da cozinha.

– Hoje farei uma sopa – ela anuncia. – Sobrou ainda um pouco de vagens e batata e mel. Teremos um banquete. Otero está no celeiro.

– Como ele está?

Ela não responde e ele sai para a vermelhidão. As nuvens partiram em regimentos para os contrafortes das montanhas, deixando o sol livre para redimir o último ângulo do vale. No alto do morro, sentado de pernas cruzadas no alto de um saco de grãos, sob o abrigo do celeiro e olhando cegamente para o pôr-do-sol, está o menino de nove anos e meio.

Ele aproxima-se sem dizer uma palavra, puxa uma caixa empoeirada e senta-se ao lado do irmão, que não chora mais mas não tem aparentemente nada a acrescentar. Na parede atrás deles está preso o velho mapa do continente que já pertenceu ao pai deles. Alguns nomes e fronteiras mudaram desde a última guerra, mas Otero vem demarcando o avanço das frontes com os alfinetes coloridos que roubou de Adra, a partir de informações contrabandeadas dos recortes de jornal do mural da sala dos professores.

– Quando papai morreu – ele decide que vale à pena corrigir-se antes de prosseguir. – Quando papai foi para a guerra você tinha três anos e eu dezessete, por isso o que ele não teve oportunidade de fazer cabe agora a mim. Você sabe, todo mundo sabe, que o nosso vilarejo tem um estatuto secreto, que tem garantido nossa paz de espírito durante incontáveis gerações. Você é ainda muito novo, mas posso não ter outra oportunidade. Quero lhe falar agora sobre o Estatuto, e quando for necessário você deve falar ao seu filho da mesma forma.

Sem tirar os olhos da escuridão púrpura que tinge o crepúsculo, ele se alonga com a precisão do homem que não tem tempo. Explica que o Estatuto é tão velho quanto a aldeia; diz-se, ele explica, que precede a chegada dos italianos, precede os alemães, os saxões, os celtas e romanos e talvez até mesmo os homens. O Estatuto é a lei do lugar, e sua paz. Seu conteúdo é simples e sua jurisdição pertence apenas aos cidadãos do sexo masculino; as mulheres podem chegar a ouvir que ele existe, mas o Estatuto não pertence às mulheres e elas jamais saberão o que ele diz.

– Quando há uma guerra ameaçando o horizonte da cidade – ele cita, – isto é, quando não é mais possível ignorar a guerra que se entrevê na distância, todo homem capaz deve apresentar-se voluntariamente para proteger a integridade da província.

– Todo mundo sabe disso – observa Otero, recusando-se a olhar para o irmão mesmo na escuridão. – Isso não tem como ser o Estatuto.

– De fato não é, mas você sabe que a guerra jamais tocou o nosso chão. O racionamento sim, é claro, e o recrutamento e as perdas, mas não o bombardeio e o sítio e o sangue.

Ele pára para ponderar sobre o que acaba de dizer. A noite caiu por completo e lá embaixo só as luzinhas da casa e uma sugestão da fumaça da chaminé.

– O Estatuto é o seguinte – ele morde o lábio inferior. – A participação da aldeia na guerra deve ser evitada enquanto for possível, mas o homem que for para a guerra não deve jamais voltar.

E ele olha para o perfil do irmão, esperando que ele tenha idade para entender.

– Não entendi. Mesmo se ele sobreviver?

– Mesmo se sobreviver – ele desvia os olhos para o chão, coça o pulso com o indicador da outra mão. – Se sobreviver à guerra ele pode tentar a vida em outro lugar, pode, não sei, recomeçar, mas não pode voltar. É esse o estatuto.

– Foi por isso que papai não voltou?

– Papai morreu. Papai morreu na guerra. Foi por isso que ele não voltou.

– Isso quer dizer que você não vai voltar? Nunca mais?

– Não vou voltar, mano, mas é melhor que seja assim. Vocês estarão protegidos, você e meu filho, de quaisquer horrores que eu poderia trazer comigo. Não nos veremos mais, Otero, por isso é importante que você cuide da minha família. Cuide da minha Adra e do meu bebê. Você vai fazer isso?

O menino, ofegante, não ousa responder.

– Antes de partir, meu irmãozinho, quero lhe dar um presente, algo que você sempre quis.

Ele tira o revólver do bolso interno da jaqueta de couro e estende o cabo para o menino. Eles descem o caminho juntos, em silêncio, e ele é grato porque não ocorre ao irmão fazer a única pergunta que ele prefere não responder. A guerra já tocou a vida de Otero o quanto basta. É melhor que ele não precise pensar no que acontece quando um homem viola o estatuto, o que acontece quando um homem volta. Que ele não saiba quando foi usado o revólver.

Naquela noite os três comem em paz, e na manhã seguinte ele acorda beijando a barriga esférica de Adra e partem, ele e seus amigos, ao apito do trem, para a terra onde não há futuro e que é, ele sabe, todo lugar.

A partir de uma idéia original de Ivan Volcov

06 de Setembro de 2007

A feira de livros de Can’acre

Manuscritos

Para Mark Carpenter

Quando li não lembro onde que a paixão por livros é a mais avassaladora de todas as paixões pensei eu gostaria de ter escrito isso, mas esse é um pensamento que me assalta com tanta freqüência que não lhe atribuo nenhuma significação especial; nada o distingue de outras fugidias falsas reminiscências e pequenas invejas que constituem o meu limitado estro intuitivo e o ruído de fundo de minhas emoções, que, pesado tudo, são literárias todas elas. Os livros tiraram-me da maneira mais justa e completa tudo que me deram: a literatura foi o augúrio que me conduziu a Deus, a ninfa cuja mão me mostrou o amor, o companheiro de espada que me desafiou à lealdade, o adversário que me acendeu a paixão, a amante que me ensinou o tédio. Em troca dessa glória as estantes me varreram, espoliaram e exauriram, devassaram meu universo interior, levando cativa minha vontade e negando-se a deixar em meu poder qualquer fiapo de autenticidade que pudesse ter peso ou validade na vida real. Hoje tudo que sou e que sinto é regido pelo jogo vão da literatura, pela ardente cobiça das ordens de palavras que com resignado afeto sonho serem minhas; sustentado, mantido vivo pela busca pelo assombro definitivo, o prazer e o horror de ler o que eu gostaria de ter escrito, de encontrar aquela frase, aquela particular e assombrosa escolha de palavras que não me ocorreu ter disposto daquela forma mas que já era minha idéia, minha potencial idéia, à espreita por trás dos meus pensamentos, pesada e furtiva e sem jamais vir à tona como a Fera na Selva de Henry James.

Sonhei com Can’acre e com sua Feira muito antes de pisar os losangos de pedra que pavimentam suas angulosas esquinas. Sonhei-a anônima e imponderável: encontrá-la, sabê-la real no mundo real, foi um necessário e previsível e surreal anticlímax. Se a negra, tortuosa Feira tivesse permanecido sem nome e sem realidade no âmbito da obra menor que são os sonhos, seu fascínio não seria talvez inferior e eu não seria mais feliz.

Não previ, é claro, suas coordenadas no espaço; sonhei, no entanto, seus e temas e títulos, seus gigantescos galpões e estreitas estantes ao ar livre, seus negros volumes; sonhei, com indelével clareza, a sensação dela. E quando digo sonhei falo de sonho no sentido primário, a atividade noturna e talvez física, em oposição ao devaneio da imaginação.

Não fui capaz de imaginar a Feira; ela teve de se revelar a mim, ambas as vezes.

Esclareço essas declarações nesta breve nota, e o que justificará talvez o leitor será saber que minha pobre introdução é também minha pobre história; Can’acre e seu sonho são apenas o ícone final, a última pá de terra cansada sobre o túmulo de minha obsessão.

Com oito ou nove anos a literatura já havia me arrancado da maneira mais irreversível a virgindade do pensamento. O orgasmo definitivo, a definitiva ruína, conheci na tarde em que pisei sozinho pela primeira vez o assoalho rangente da escura e empoeirada casa de madeira que abrigava a vasta biblioteca do meu tio-avô, trazida de navio dos Estados Unidos, de onde ele trouxera também o diploma de doutor em Teologia.

Quando mudei com meus pais para Curitiba, antes dos dez anos de idade, meu tio-avô ainda era vivo e morava sozinho por trás de persianas cerradas. A diabetes havia arrancado seus olhos e a artrite suas forças, e que eu soubesse ele só voltava a existir nos breves momentos em que um parente ou conhecido eventual vinha ler, em inglês insuficiente, as obras que ele pedia. Como Borges entre as altas estantes da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, mas na decrépita casa descascada dos fundos do terreno da minha avó, meu tio-avô era uma encarnação do arquétipo do cego em sua biblioteca.

Meu tio não recebia crianças nem mortais que não falassem inglês. Meus primeiros contatos com sua biblioteca e seus sagrados volumes foram nas breves mas diárias visitas que eu fazia à casa, levando a bandeja com nabos mergulhados no leite que minha vó lhe preparava. Enquanto ele cheirava o prato por trás de inquietos olhos cegos eu aguardava ali em pé, tentando não respirar, os olhos percorrendo ávidos os títulos nas estantes mais próximas. Nunca dissemos realmente nada um ao outro nessas ocasiões. Hoje quero crer que naqueles instantes nos unia – o velho de noventa anos e o menino de nove – uma silenciosa e trágica reverência pela solene massa de livros ao nosso redor, a consciência de que estávamos ambos tragicamente separados dela, ele porque lhe faltavam os olhos, eu porque me faltava o idioma.

Os volumes viviam encarcerados atrás das portas envidraçadas de dez ou doze armários de madeira vermelha envernizada, altos, estreitos e idênticos. Logo os decorei: cada um tinha sete prateleiras e seis janelas retangulares de vidro, três em cada folha da porta. Que eu pudesse ver, todos os volumes eram de capa dura, alguns deles (os menos antigos) ostentando as cores vistosas e desenhos vigorosos daquela sobrecapa de papel que os americanos chamam de dust jacket.

Por dois minutos diários eu andava a passos de lesma ao longo dos armários da sala, cabeça inclinada para passar os olhos pelas lombadas, deslizando por desconcertantes títulos dos quais eu não entendia uma palavra, a não ser um eventual God ou um evidente Philosophy. A maior parte dos volumes tinha mais de trinta anos, os mais antigos com capas escuras gravadas com ornamentos e letras douradas. Ali estava The Golden Bough, de Frazer, que mais tarde eu leria em português como O Ramo Dourado sem saber que se tratava do mesmo livro e que a esta altura eu seria capaz de lê-lo em inglês. Ali estavam os três volumes esverdeados das obras de Platão na tradução de Llewelyn e Vaughan, cujo Fédon me levaria às lágrimas nesta mesma sala anos depois. Mais adiante um pequeno e impossivelmente belo volume de poesias de Longfellow, que hoje sei ter sido editado por Nimmo em 1875. Ali estavam, incongruentemente, os dois volumes do Manuale Tipografico de Bodoni.

E havia o cheiro. Se hoje eu sei que o Paraíso cheira a livros velhos, descobri-o nas crepitantes e pobres salas daquela casa escura. O paradoxo estava em que esse bordel da alma ficava a poucos passos de outra casa, também de madeira, mas oposta à casa dos livros no que tinha de luminosa e arejada e barulhenta. Nesta outra, emoldurados por janelas eternamente abertas, pululavam bolos e sucos e tios e netos, e reinava absoluta minha avó.

Minha avó, que por anos a fio preparou os nabos no leite para o seu cunhado, meu tio-avô, o dono dos livros, o cego perdido em sua biblioteca, até o dia em que alguém entrou na casa dos fundos levando a bandeja de nabos (não fui eu) e não encontrou quem pudesse comê-los.

Nessa mesma tarde, depois que levaram o corpo, entrei sozinho no seu santuário-casa-biblioteca e chorei por meu tio-avô, chorei sua cegueira e seu isolamento e os livros que ele deixou para trás, chorei porque ninguém além desse pobre e medíocre menino de dez anos, que não sabia ler inglês, era capaz de reconhecer a a importância e a santidade daquele lugar, chorei pela deleite egoísta que era ter uma biblioteca cega só para mim. De raiva, de alegria e de dor, abri um armário, peguei um livro, escondi-o dentro da camisa e nunca mais o devolvi. Lançando do limiar da porta um último olhar para as prateleiras inúteis e repletas, jurei com a patética convicção de Scarlet O’Hara que jamais voltaria a passar fome. Eu só entraria de novo naquela casa quando dominasse o idioma que me guiaria naquele labirinto de delícias.

Menti.

Muito antes de ser capaz de entender uma frase completa em inglês eu vinha folhear interminavelmente as páginas amareladas, examinar com apaixonado zelo os diagramas, as gravuras, os ornamentos, as ordeiras tabelas assinaladas pela palavra Contents, as citações latinas em itálico, as gravuras em bico de pena. Sentado no chão empoeirado ou empoleirado na cama, por cima dos acolchoados de pena, um único volume nas mãos, na réstia de sol de uma única brecha de janela, eu passava horas olhando as palavras. Minha fascinação não diminuía pela minha incapacidade de entender o que estava escrito; ao contrário, minha ignorância só fazia amplificar o que me pareciam as infinitas possibilidades daqueles textos. Era um peso maravilhoso, avassalador, pensar que aquelas páginas podiam estar dizendo qualquer coisa. Que narrativas fantásticas, que assombrosas teorias aquelas colunas de texto não ocultariam?

Nos seis ou sete anos que se seguiram aprendi a língua inglesa para fazer jus àquela biblioteca. Durante esse período a biblioteca do meu tio-avô permaneceu, a não ser por minhas inócuas visitas, intocada e não-lida em sua solitária casa, seu destino final mergulhado num limbo judicial familiar que pendia alternadamente entre a discussão amigável e o litígio. Minha avó apenas tolerava que eu visitasse a casa; ela parecia ficar satisfeita se eu devolvesse obedientemente a chave no lugar e não roubasse mais do que um livro por visita.

Quando ficou decidido que a velha casa seria derrubada e o seu espaço destinado a fins mais salubres, definiu-se também que os altos armários seriam divididos entre meus cinco tios, os sobrinhos do morto; quanto aos livros, a um irmão do meu pai (o pastor da família) couberam os circunspectos títulos de Teologia e a mim todo o resto – Platão e Shakespeare e Tennyson e Dante e Bertrand Russell e Emerson e Plotino e Marco Aurélio e Dante e Josefo e Plutarco e Samuel Johnson.

No verso seis do capítulo onze da Carta aos Hebreus está escrito que para aproximar-se de Deus é necessário crer que ele existe e é recompensador dos que o buscam; o mesmo pode ser dito, com a mesma retórica e com a mesma e improvável esperança, sobre a busca da satisfação literária. Abri cada volume esperando encontrar ali uma presença, uma feição – uma pessoa, uma surpresa e um jogo; assim, não buscando Deus e não esperando encontrá-lo, vislumbrei na literatura as indefinidas e vastas credenciais de um outro invisível que me provocava e me recompensava e me amava e nutria. No universo de obras maiores mas desiguais da biblioteca do meu tio, aprendi a reconhecer entre uma passagem e outra a voz marcada, equilibrada e fluente do Narrador, o prosador último, o outro do outro lado, meu interlocutor (ao mesmo tempo recordado e imaginado). Aprendi a reconhecer a sutileza de suas inflexões, aprendi a não perder o fio do seu sarcasmo; memorizei a rouquidão de sua prosa, o estalo de prazer na sua língua – suas pausas, suas ênfases e suas obsessões.

Que eu não o encontraria em todas as páginas, nem mesmo na maior parte delas, ficou claro logo de início. A brutal experiência ensinou-me, no entanto, a rastreá-lo; guiava-me menos seu fluido vocabulário do que o caráter inconfundível de seus tópicos, suas inversões, suas estudadas marcações, sua cadência. Senti o pulso do Narrador na nobre dramaturgia do Fédon de Platão, mas perdio-o de vista meia jornada adentro da República; só reencontrei-o, dias depois, na lucidez dos sete primeiros parágrafos de O Demônio da Perversidade de Poe, de 1850. Ouvi sua tranqüila respiração na apaixonada sensatez de Toynbee, mas por angustiantes intervalos ela foi sufocada pela ironia de Wells.

Com o tempo, com o empilhar de volumes e o grifar dos lápis, aprendi a reconhecer uma frase ou um parágrafo do Narrador, a ser capaz de diferenciar de imediato um original de uma impostura.

O Narrador, por exemplo, diz (via Sócrates, via Platão, via F. J. Church)

As long as the sight of one thing brings another thing to your mind, there must be recollection, whether or no the two things are alike,

mas jamais diria (com Emerson)

Shakespeare, Homer, Dante, Chaucer, saw the splendour of meaning that plays over the visible world; knew that a tree had another use than for apples, and corn another than for meal, and the ball of the earth, than for tillage and roads; that these things bore a second and finer harvest to the mind, being emblems of its thoughts, and conveying in all their natural history a certain mute commentary on human life.

Ele diz (com Bernard Shaw em Man and Superman)

He is carefully dressed, not from the vanity that cannot resist finery, but from a sense of the importance of everything he does which leads him to make as much of paying a call as other men do of getting married or laying a foundation stone,

mas jamais diria (com Bernard Shaw em Man and Superman)

Two other chairs are against the wall between the busts.

Na Conferência dos Pássaros de Farid ud-Din Attar está contada a história de um homem que encontrou Majnun peneirando terra na beira de uma estrada. “O que você está procurando?” perguntou o homem. “Estou procurando [minha amada] Laïla”, ele respondeu. “E você espera encontrá-la aqui?” insistiu o homem. “Procuro-a em todos os lugares”, replicou Majnun, “na esperança de encontrá-la em algum”.

Reconheci nessas linhas o estilo acústico e inimitável do Narrador, e percebi que com essa história ele me fornecia uma ferramenta, uma evidente mas apropriada metáfora da minha própria busca. Instruído por ele mesmo, passei a procurá-lo em todos os lugares, na esperança de encontrá-lo em algum.

Na virada dos meus trinta anos a populosa mas finita biblioteca esgotou-se, e perdi de vista o Narrador quando virei a última página do último volume dA História do Declínio e da Queda do Império Romano de Gibbon.

Desnecessário dizer que minha obsessão pela satisfação literária havia ultrapassado as proporções de vício; a súbita ausência do Narrador assassinou-me. Peneirar a terra do caminho em busca dele pareceu-me uma opção tão razoável quanto deve ter parecido a Majnun; o absurdo, eu entendia agora, é ter de ser privado de Laïla.

E peneirar a terra foi o que passei a fazer. Decidi dedicar a vida a essa empresa, de antemão inútil: canalizar todos os recursos disponíveis, e mais, à patética tentativa de reencontrar o Narrador. Para ser justo preciso dizer que encontrei-o fora dos limites daquela biblioteca original, em pelo menos duas ou três ocasiões memoráveis: ocorrem-me agora, naturalmente, a prosa de Borges, a de Lovecraft, a de Joseph Campbell (que, previsível mas tragicamente, esgotaram-se também).

Encontrei traços do Narrador em Conrad, em Ende, em Bradbury, em Thomas Ligotti. À parte dessas e de outras poucas exceções, no entanto, a literatura contemporânea provou-se deserto, a palavra aplicada aqui sem qualquer força de metáfora. A tarefa de peneirar terra de verdade à beira de uma estrada de verdade teria se mostrado talvez menos frustrante; teria pelo menos me colocado mais próximo de Majnun, mais próximo de Attar, mais perto do Narrador.

Borges conduziu-me a William James, às rudes kenningar do norte, às tragédias da honra no Japão, às Mil e Uma Noites. Devo a ele e a Campbell as breves mas eloqüentes encarnações do Narrador que testemunhei nessas e em outras literaturas. Li As Lendas dos Judeus, li O Épico de Gilgamesh e li o Alcorão, mas todos cometeram a impudícia de se esgotarem. Passado tempo suficiente não havia tradição que eu não houvesse devassado, período histórico que eu não houvesse percorrido, obra menor que eu não houvesse assimilado.

Fernando Pessoa veio e passou.

Silenciou-se, para todos os efeitos, a voz do Narrador. Cessou para mim a literatura, vedou-se o acesso ao pequeno prazer da surpresa e ao infinito deleite do reconhecimento. Continuei a capturar frases avulsas do Narrador numa ou outra página moderna, uma curta zombaria, uma falsa promessa – mas era pouco, aquilo era pouco.

Borges falou-me, não lembro onde, de alguém que gostaria de ser capaz de esquecer As Mil e Uma Noites só para ter o prazer de lê-las novamente pela primeira vez. Entendi de imediato esse sentimento, e sabia que era o Narrador que zombava de mim com a ironia. Meras palavras haviam me seduzido, enriquecido e moldado, e traído.

Quando tive o sonho, aos vinte anos de idade, sonhei-o duas noites seguidas, ou talvez duas vezes na mesma noite. No sonho eu estava em Paris (eu nunca havia estado em Paris, mas sabia que estava em Paris), e na manhã ou entardecer de Paris eu andava entre ruas estreitas e prédios assobradados, na companhia de alguém de que não me lembro ou que talvez não estivesse lá.

Parei numa esquina diante da vitrine de uma livraria pequena, nostálgica mas muito arejada, guarnecida por colunas desordenadas de volumes empilhados na horizontal. No alto da pilha mais próxima vi, através do vidro do sonho, um volume de tamanho médio, de capa dura, a capa de trás virada para cima. A dust-jacket era em duas cores, preta na metade de cima, vermelha na de baixo, os caracteres brancos. Aproximei-me de imediato e o deslumbramento do sonho está em que não fui capaz de entender o que estava escrito. Com a convicção ao mesmo infundada e completa dos sonhos eu sabia que aquilo era francês, mas não o francês da vida real (que eu não compreendia, mas cuja sonoridade e cor eu já conhecia): um francês de sonho, incompreensível, suficiente, absoluto. O meu assombro diante daquele desconhecido foi completo e avassalador, e esgotou num único soluço de esperança as sensações possíveis da existência.

Virei-me, e vi que as ruas estreitas haviam dado lugar a um grande pátio ensolarado, com enormes galpões e cilos ao fundo, o calçamento de paralelepípedo tomado por altas estantes de livros assando no sol da manhã. Homens de sobretudo e mulheres de calções de seda percorriam os claros corredores sondando, folheando, pechinchando, peles e páginas tremendo na excitação da brisa.

E só.

Março de 2002 em Paris, a Paris da vigília, eu estava sentado no coquetíssimo Café Littéraire do Salon du Livre, aguardando o início de um fórum qualquer enquanto revia as anotações que trazia da Buchmesse de Leipzig. Mais cedo naquele dia eu havia sido apresentado a um editor associado da Societe des Auteurs et Compositeurs Dramatiques, um magro e irriquieto jovem marselhês chamado Jean Alègre.

Foi ele quem me encontrou e, sem dizer uma palavra, puxou uma cadeira e sentou-se, os braços cruzados apoiados nas coxas.

– Entediado? – ele anunciou em zombeteiro francês.

– Plenamente – sorri, levantando os olhos e colocando de lado as anotações.

As afinidades improváveis que haviam surgido no nosso contato à mesa do café da manhã eram suficientes, ambos sabíamos, para que nos sentissemos agora à vontade na presença um com o outro, e isso (estava implícito) era por si só recompensa maior do que qualquer coisa que se pudesse esperar de um evento como aquele.

A princípio haviam-se levantado trivialidades apenas interessantes, como o fato de Jean Alègre ter uma tia no Rio de Janeiro e eu uma irmã em La Seyne-sur-Mer. Depois, com a imponderada ousadia de estranhos que não esperam encontrar-se novamente, havíamos descoberto que compartilhávamos dos mesmos gostos por autores clássicos, ternos antiquados e escuros, programas de rádio dos anos 40, a aversão a aglomerações e o desprezo por trivialidades apenas interessantes.

Como o tema do Salon daquele ano era L’Italie à l’honneur, eu não havia hesitado em mencionar Dante e Orlando Furioso; havia enfatizado o caráter perturbadoramente contemporâneo das reflexões de Marco Aurélio, e Jean anunciara que estava relendo as Meditações na tradução passável de um volume (o segundo) dos Harvard Classics, de 1910, que tirara da pasta para me mostrar, o dedo acariciando a deliciosa rubrica de P.F. COLLIER & SON COMPANY.

– “Begin the morning by saying to thyself, I shall meet with the busybody, the ungrateful, arrogant, deceitful, envious, unsocial” – ele havia citado num inglês imperfeito e bem-humorado, enquanto passava geléia cor de sangue numa instável torrada.

– Apropriado – eu dissera.

Horas mais tarde, portanto, no burburinho que anunciava a entrada de algum autor célebre no Café Littéraire, Jean fez-me uma oferta cujos termos não tenho permissão de divulgar, apertou-me a mão e desapareceu num apinhado corredor.

Seria inútil, talvez improcedente, descrever com a brutal precisão de uma novela contemporânea a curiosa viagem de automóvel que empreendemos cedo na manhã seguinte. Deixarei que a embeleze a imaginação do leitor: que proveja o necessário sigilo, o tédio, o calor, as poucas palavras, a possível tensão. Os mais ousados intuirão minha calma, meu profético bem-estar.

Depois de duas ou três horas Jean Alègre parou o carro. Pela janela aberta entrava o ventoso silêncio do que podia ser uma pequena cidade ou uma animada zona rural. Ele anunciou que eu podia finalmente olhar.

Estávamos, disse-me, em Can’acre.

Deixamos o carro numa esquina na orla da cidade e percorremos ruas estreitas e populosas até a praça central. Ali, como em todo o caminho, encontramos ruas e calçadas tomadas por frágeis estantes dobráveis de madeira, cada estante tomada por livros de todos os tamanhos, os maiores ostentando elaboradas capas negras esculpidas com criaturas fantásticas em papier-maché, os menores varados por belíssimos ornamentos de douradas filigranas.

Muito antes de chegarmos à vasta praça central além dos repletos galpões e cilos, mesmo talvez antes de abrir ao acaso um volume e deparar-me com as esperadas palavras num idioma desconhecido, eu já havia intuído por completo Can’acre e sua feira. Meu sonho, previsivelmente, havia invadido a realidade; a realidade, de forma imprevisível, havia sido invadida pelo sonho de outrem.

Em Can’acre (ignoro seu nome verdadeiro), uma cidadezinha muito real a duas ou três horas de viagem de Paris, todos são filólogos, todos escritores e – naturalmente – todos tipógrafos. Nas casas abundam as prensas, os tipos móveis, as colas, as pilhas de papel, as escrivaninhas, os tinteiros, talvez até, Deus nos livre, os computadores pessoais. Periodicamente (quem sabe todos os dias, não tenho como saber) cada habitante/autor/editor apresenta seus incompreensíveis e belamente pretensiosos volumes na despretensiosa Feira. Cada volume é, tanto quanto eu saiba (Jean Alègre apressou-se em não me dar explicações), único e perfeito e bem-cuidado e perfeitamente compreensível para o seu autor. Ignoro se os idiomas de Can’acre são peculiares às suas obras ou a seus autores; basta-me saber, com a mesma e imediata convicção que se abateu sobre mim naquela manhã, que cada livro da Feira é uma uma obra real, estanque, ininteligível mas perfeitamente decifrável – e pode estar dizendo qualquer coisa.

Abri mão naquele dia, como Jean Alègre já fizera antes de mim, do terrível privilégio de morar em Can’acre. Ao contrário dele, nunca voltei à Feira. O grosso volume que roubei da prateleira mais alta de uma precária estante numa ensolarada esquina (pois a moeda de Can’acre é o furto), que trago comigo em todas as minhas cabeceiras e que só ousei folhear uma vez (temeroso de intuir uma palavra, deparar-me com a chave do seu código ou compreender o seu assunto), é testemunho suficiente do assombro possível.

26 de Agosto de 2007

O último show do ABBA

Manuscritos

Eu estava no rodízio de pizza com os amigos quando a mensagem me chegou pelo celular. Não no meu, naturalmente, porque seria óbvio demais e muito fácil de rastrear. A Agência Nacional de Acobertamento, marque isso, nunca entra em contato com você diretamente, a não ser que seja para pedir doações. Menti que meu celular estava sem bateria e pedi o da Simone para usar como calculadora e fazer o rateio da conta. Rabiscando febrilmente no guardanapo, usei o algoritmo secreto para transformar o texto do torpedo que acabara de chegar, “BLZ”, na verdadeira mensagem: NCNTRM N MDLSS GR MSM PT SBR BB PT BJS S. Vogais, como se sabe, são para maricas.

Vinte minutos depois eu puxava o freio de mão no estacionamento do Madalosso em Santa Felicidade, aguardando o contato de “S”, a célebre agente sansei, especialista em disfarces, ninjútsu e comida tailandesa, cujo nome verdadeiro é Maria Aparecida Sumida. Apesar da beleza estonteante (dava pena tirar sua foto do quadro de funcionário do mês, por isso baixamos uma norma tornando o cargo vitalício) Sumida alcançara notoriedade dentro da organização como tradutora do original de Harry Potter para o inglês.

Pouca gente tem como saber, mas a série Harry Potter foi escrita [em português] pelo dentista sergipano Riclédson Pinto, que não conseguiu publicá-la no Brasil porque a obra não passou pelos critérios de mediocridade do DECOE – o Departamento de Contenção de Excelência da ANA. A solução encontrada foi traduzir os livros para o inglês, adaptando a ação para outro país, e publicá-la mundo afora por um pseudônimo (Li, naturalmente, o original de Se a Pedra Filosofar, que se passava na ilha de Marajó em vez de na Inglaterra. Harry Potter era Ari Portinho, Hagrid era Agostinho, Draco Malfoy era Cardo Foimal, Hermione era Hermione, Voldemort era Morto Valdomiro e Hogwarts era a EEPSG Rogério Duarte; para mérito da agente Sumida, considero sua versão inglesa quase superior).

Eu conhecera “S” em 1997, quando trabalhamos juntos numa missão suicida que acabamos abortando. Apaixonei-me perdidamente e tivemos um caso tórrido que durou trinta e cinco minutos, mas depois de me acusar de amar a ANA mais do que ela, Sumida desaparecera por completo da minha vida.

Até esta noite.

A agente “S” entrou no meu Corsa 1.0 sem aviso e sem abrir a porta, passando pela janela aberta do passageiro uma longa perna torneada, depois o corpo, depois a outra perna. Beijamo-nos longamente nos lábios.

– O que houve com o Banco do Brasil desta vez? – perguntei, limpando a boca com as costas do braço.

– Brabo, não se trata do BB. Encontramos a fita perdida do ABBA.

Mordi os lábios, levemente embaraçado por ter entendido mal a mensagem (malditas vogais), mas excitadíssimo com a significância do momento. Há quanto tempo vínhamos procurando a fita perdida do ABBA? Vinte anos?

Do restaurante, de um dos salões onde rolava uma festa de casamento, começou a soar um cover muito desafinado de The Winner Takes It All, e enchi-me imediatamente de nostalgia. Durante uma década inteira a partir de 1972 os integrantes do ABBA, os baianos Anelise, Bento, Bráulio e Areli, haviam se mantido exemplarmente fiéis ao seu contrato e às diretrizes da ANA, escondendo a origem tupiniquim de seu vertiginoso sucesso. Mas em 1982, no ano seguinte ao lançamento de The Visitors, o quarteto decidiu secretamente quebrar o sigilo e revelar a grandeza do Brasil para o mundo, num show milionário em Salvador. Tiveram de ser eliminados silenciosamente e substituídos por sósias que vinham sendo treinados para essa eventualidade, porém não antes de gravarem uma fita de demonstração com músicas brasileiras arranjadas no estilo inconfundível do conjunto. Agentes da ANA conseguiram reaver as cópias da fita antes que viessem a público, mas durante anos circulou a nóticia de que uma única cópia sobrevivera, numa fita cassette regravada (eu, que ouvi uma das fitas antes de ser destruída, lembro ter chorado ao pensar que o mundo jamais ouviria as versões de Pássaro Bacurau, Você Abusou e Feira de Mangaio na voz singular do ABBA). Por todos esses anos vínhamos tentando rastrear a fita perdida, para evitar que caísse em mãos erradas e ameaçasse os objetivos mais elevados da ANA.

– Estava com o Sidclei, não estava?

Sumida confirmou com a cabeça.

Sidclei “Tanho” Machado havia sido Agente Laranja da ANA por mais de dez anos; trabalháramos juntos num caso ou outro antes dele partir para a dissidência. Eu sabia que nossos caminhos voltariam a se cruzar, mas não de forma tão espetacular.

– Onde está o Tanho?

– Aqui mesmo – Sumida indicou o restaurante com a cabeça – É ele quem está animando a festa de casamento.

– Eu deveria saber – disse eu, ajeitando o cabelo no retrovisor. – Princesa, aí no porta-luvas você vai encontrar uma pistola, uma granada de mão, um par de luvas cirúrgicas e uma fita cassette. Traga por favor a fita cassette.

Conversamos com Sidclei num canto do salão atrás de uma samambaia, cada um dos três equilibrando um pedaço de bolo de casamento num guardanapo de papel.

– O que você quer, Sidclei? – perguntei, limpando glacê do bigode.

– Que vocês libertem o Elvis – exigiu o dissidente, muito sério.

– Isso pode ser arranjado – menti. – Onde está a fita?

– Num lugar seguro – sorriu o Tanho. – Eu não seria idiota de trazer comigo.

– E se eu disser que a fita já está em nosso poder? – blefei, apresentando triunfalmente a fita que Sumida trouxera do carro.

– A fita não é essa – zombou Sidclei. – Não é nem a mesma marca.

– Nós não seríamos idiotas de trazer a fita conosco – argumentei confusamente, tentando confundir o Tanho.

– Se vocês tem a fita – quis saber Sidclei, – onde ela estava escondida?

– Removemos cirurgicamente enquanto você dormia – continuei, sem perder a firmeza – Você vai encontrar uma cicatriz na parte inferior da nádega esquerda.

Pela sua expressão de espanto ficou evidente que eu finalmente o atingira. O ex-agente Sidclei levou a mão reveladoramente às costas; achei que estava indo apalpar a nádega, mas ele logo trouxe a mão de volta e apontou-a na nossa direção. Com uma pistola.

Num piscar de olhos, antes que ele pudesse engatilhar, Sumida já tinha enrolado as pernas ao redor do seu pescoço e trazia-o imobilizado no chão, oferecendo-me a pistola numa das mãos e o pente de balas na outra.

– É tarde demais, Brabo – anunciou Sidclei, desafiadoramente, falando por entre as panturrilhas de Sumida – Eu sabia que isso podia acontecer e tomei as devidas providências.

– Que providências?

– A internet, idiota – sorriu o Tanho, e olhei para a agente Sumida, que parecia sinceramente preocupada.

– Como assim? – ela perguntou.

– Converti as músicas em mp3 e subi os arquivos para sáites de compartilhamento: rapidshare, mediafire, filesend, 4shared e uma dezena de outros que não vou dizer. Está tudo lá. Se eu e o Elvis não formos libertos em dez minutos, todos os usuários da internet receberão um email dizendo onde baixar esses arquivos, e o segredo da ANA estará perdido para sempre.

Sumida afrouxou o abraço das pernas e Sidclei afastou-se rastejando para junto da parede, resmungando baixinho e acariciando o pescoço.

– E agora? – disse a nissei, pondo-se de pé. – O que a gente faz?

– Está muito claro o que temos de fazer – disse eu, começando já a digitar uma série de números no celular. – Vamos ter de apagar a internet. De novo.

– Vocês não têm como apagar a internet inteira – implorou Sidclei. – Ou têm?

– Apagamos a intranet da ANA em 1965 – explicou Sumida, distraídamente, – que tinha o dobro de informação do que a internet tem agora.

– Está feito – eu disse, fechando o celular. – Princesa, no porta-luvas do carro…

– Já sei, o par de luvas cirúrgicas. Vamos extrair a fita desse verme.

Dez minutos depois ligava-me o gaúcho William Portão de Richmond, dizendo que estava esperando um email importante e perguntando se a culpa era minha do planeta estar offline.

– William, meu velho – disse eu, – temos backups para vender. Como da outra vez.

– Eu já te disse mil vezes pra me chamares de Bill – ele disse, e desligou.

 

Este documento faz parte da série

Os Anais da ANA

  1. Os agentes da ANA
  2. A Central de Piadas da ANA
  3. O Protocolo Mainardi
  4. O último show do ABBA
  5. A primavera de McCain
11 de Agosto de 2007

Im Abendrot

Manuscritos

– Muito bem – sorri a vestal, trajando apenas os cabelos negros, presos num rabo-de-cavalo, e uma ânfora translúcida diante dos seios. – Você venceu seus inimigos e provou o seu valor. A terrível sombra que nos ameaçava dissipou-se sobre a terra; seus amigos foram libertos e correm com pernas céleres para aclamar a sua vitória. O herói recobrou a sua honra; resta-lhe apenas recuperar o seu nome secreto, o nome que está gravado dentro do seu peito, na superfície do seu coração, e teve de permanecer oculto até agora.

Ela aponta com a cabeça para o cálice solitário em cima da mesa.

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20 de Março de 2007

Remissivo

Manuscritos

– Gostei do chinelo – ela me diz quando me aproximo do carro.

Bato a porta e dou um suspiro. Cassandre está erguendo e abaixando o Manual aberto numa mão espalmada, como se estivesse tentando avaliar o peso.

– Vocês não têm noite – ela me repreende, com um meio sorriso. – Nem chuva.

– Mas temos sexo, coisa que você não esperava – ela coloca sua mão sobre a minha antes que eu possa girar a chave na ignição.

– O sexo não compensa a falta de noite. Nada compensa nada.

– Eu também acho isso – suspiro de novo, e toco Cassandre brevemente no queixo com o punho fechado. – Mas o paraíso não tem sutilezas, princesa. A ausência de noite é para ser uma marca de bem-aventurança, um símbolo visível da vitória final da alma sobre as trevas. Lux aeterna, aquela história.

– Você resolveu o que tinha de resolver?

– Só mais uma parada, e posso deixá-la onde você quiser – esclareço.

– Ainda não sei onde quero ficar.

– Você não vai querer ficar comigo pra sempre – observo, tentando parecer casual. – Não encontrou alguma luz no Manual?

Pouso a mão sobre a capa amarela do livro.

– Você também não tem muita sutileza, seu velho sedutor – a jovem afasta minha mão. – Agora entendo a conveniência de você ter me arranjado um exemplar proibido do seu Manual.

– E qual seria? – minhas sobrancelhas apertam a testa para o alto.

– Pra eu ter de te perguntar sobre o que o livro não diz.

Levo os dedos à ignição.

– Deixe ser eu a perguntar: o que livro não diz?

– Nenhuma palavra sobre o inferno, naturalmente. Nada de nada, nenhuma menção de normas, fronteiras, imigrantes ou ilegais. Vasculhei todas as possibilidades no Índice Remissivo. Pelo seu Manual o inferno não existe.

– E você, acha que existe?

Ela fecha o livro e joga-o no banco de trás, com impaciência apenas em parte fingida. Já estou manobrando no pasto de Andu e tomando a estrada de terra que nos levará de volta à rodovia.

– Me conte sobre o inferno – ela pede, condescendentemente.

Impossível dizer quantas vezes antecipei essa conversa. Faço o Cabriolet avançar devagar.

– O céu não tem relações diplomáticas com o inferno, isso você já percebeu. Não o reconhecemos como território. Mas você está vendo aquela serra azulada na distância? Ali já é o inferno.

Ela examina a brecha entre as árvores naquela direção, procurando alguma singularidade que possa ver.

– É grande?

– Tão grande quanto o céu, aparentemente. O céu não é pequeno, tanto que nunca encontramos um fim, mas em toda a sua circunferência parece haver uma fronteira com o inferno. Os teólogos discutem até hoje sobre qual dos dois é contido pelo outro.

– Dá pra ir lá?

– Falando não oficialmente, dá e todo mundo sabe. Mas são poucos os que tem coragem de visitar.

– Por quê?

– Medo da tentação. E medo de não poderem voltar. Depois de três dias no inferno um habitante do céu torna-se permanente. Adquire aquele tom vermelho de pele que você viu nos encarnados do shopping, e não pode voltar para o paraíso mesmo que queira.

Ela aperta os lábios, considerando as implicações do que eu disse.

– O que tem lá?

– Lá é bem diferente daqui – asseguro.

– Você já foi?

Olho um instante para a cadeia de montanhas.

– Já. A diferença mais importante é que no inferno, ao contrário daqui, as coisas estão sujeitas à decomposição. Tudo pode dar errado no inferno. Você pode se ferir, se machucar. Morrer.

Ela não tinha como antecipar essa notícia, mas recupera-se logo.

– E quem morre no inferno, vai para onde?

Fito Cassandre nos olhos.

– Quem disse que vão para algum lugar?

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