08 de Dezembro de 2011

Joquempô

Manuscritos

Nossa alegria de existir naquele domingo debaixo do sol era tão sem limites que beirava a fraude ou a extravagância. Era incrível, mas nos bastávamos ali, com os pés cravados na areia, chupando os gelos do copo vazio de caipirinha e a pele rejeitando gota a gota o protetor solar.

Junto da nossa frota de cadeiras de lona as crianças brincavam de alguma modalidade particularmente violenta de joquempô, inteiramente perplexas diante da ideia e despreparadas para a execução de uma brincadeira que não acontecesse pela mediação azul do computador ou do iPad.

– Em suma – disse o Marcelo, – o Steve Jobs era um idiota, e sinto-me rebaixado até de ter de explicar isso às pessoas.

Estávamos conversando sobre o problema das interfaces de programas de computador e discutíamos a questão das áreas clicáveis dentro de um jogo eletrônico, aquelas porções do cenário ou dos personagens com as quais você pode interagir através de um clique do mouse ou um toque do joystick. A questão, naturalmente, é que mesmo num jogo com o mais elaborado dos cenários, um número limitado de áreas visíveis da tela acaba sendo clicável. De outra forma o jogo seria um pesadelo tanto para se programar quanto para se jogar.

Enquanto o Fabrício oferecia sua opinião, fechei os olhos. Debaixo das pálpebras incandescentes, com o sal beliscando a pele e as ondas varando horizontalmente os tímpanos, entendi subitamente esta vertigem: que o universo, apesar dos vastíssimos recursos energéticos e da abundância de lugar para o armazenamento de dados, provavelmente tem uma única e minúscula interface para a interação da criação com Deus e vice-versa: a superfície do planeta Terra.

Como que para confirmar a sacada, o Marcelo terminou de esmagar um cubo de gelo entre os dentes e opinou:

– Interface boa mesmo é a do mundo. Não só você pode clicar em qualquer coisa; as coisas também clicam em você.

E, de olhos fechados, senti no joelho um toque amigável.

31 de Outubro de 2011

Afrasíabe e o rio amarelo

Manuscritos

Afrasíabe despertou aterrorizada, num sobressalto, e estava num barco cheio de demônios adormecidos.

Nenhum ruído, nenhum movimento, alterava a paisagem enquanto o barco descia o grosso rio ao sabor da corrente. As nuvens delgadas quedavam imóveis no céu cor-de-rosa, em cuja expansão o único movimento era a transição para um alaranjado profundo na orla do horizonte. A vegetação baixa da margem, intocada por qualquer vento, tocava os olhos com o violeta e com o púrpura, e a água do rio era da cor inocente da lazurita.

Três ou quatro dúzias de demônios amontoavam-se inconscientes no bojo do barco, sem qualquer ordem ou conforto, como se tivessem sido despejados ali. Estavam inteiramente nus, tinham os cabelos negros e a pele de um imaculado carmim. Da massa indistinta de carne subia aqui um braço, ali uma perna, mais além o contorno encurvado de um torso musculoso, um peito que se erguia como uma fonte, uma cabeça escondida sob uma coxa, a flor contorcida de uma genitália.

Afrasíabe acordou meio submersa no emaranhado de corpos adormecidos, um pé descalço apertado contra o rosto. Seu braço direito estava preso sob a curva de um ombro que se apoiava contra a borda do barco – o braço do demônio pendurado para fora, pousado serenamente contra o costado, os dedos escuros singrando a superfície da água.

Pensar naquela água trouxe-lhe tudo de volta à lembrança: os acordos e ajustes que havia feito, os subornos que havia dispensado, as burocracias que havia contornado, as divindades tutelares que tinha tido de apaziguar, as esperanças que havia escondido em cantos da alma e em orifícios do corpo.

Nas planícies crestadas de Orcia, no verão depois da guerra, Afrasíabe tinha se apaixonado por um demônio, e ela e seu amado tinham sonhado juntos arranjar um modo de transportá-la em segurança ao coração do inferno, o único lugar em que seu amor poderia se consumado.

O projeto havia se mostrado formidavelmente ambicioso e arriscado, não só pelo número de sacrifícios e de contravenções que requeria, mas porque exigia que num dado momento os dois apaixonados se esquecessem do próprio projeto – que esquecessem, em plena trajetória um em direção ao outro, o amor que os impulsionara em primeiro lugar.

Antes de passar pelos arcos dos portões em espiral de Ut, que levariam seu regimento de volta ao inferno, o demônio teve de dormir pendurado de cabeça para baixo no galho de uma castanheira morta, de modo a poder destruir por completo a lembrança de que conhecera e amara um ser humano.

Ela, por sua vez, tivera de beber o vinho amargo das lágrimas de uma rã a fim de esquecer o nome e o rosto de seu amado, de modo a não ter o que dizer aos torturadores no passo de Yhdeksan. Consequentemente, Afrasíabe tivera de atravessar as vinte aduanas do inferno e percorrer suas nove nações sem ter a mais remota lembrança do verdadeiro motivo da sua jornada. Guiaram-na as notas crípticas que havia tatuado com uma agulha microscópica na parede interna do útero, e que apareciam gravadas na pele dos filhos que lhe nasciam pelo caminho.

Mas agora, no barco entre os demônios adormecidos, os fumos da água do Ocs lhe trouxeram tudo de volta num único vagalhão de arrebatamento. Ela lembrou inclusive o que haviam decidido em primeiro lugar e que haviam discutido por mais tempo: que por razões de segurança o seu esquecimento mútuo deveria permanecer até o final estanque e simétrico, de modo a permanecer completo. Quando se encontrassem, ela não deveria ser capaz de reconhecê-lo entre os outros demônios, embora retivesse a lembrança de ter amado um deles; ele, por sua vez, não deveria seria capaz de lembrar-se de tê-la amado, embora retivesse a lembrança do seu rosto.

Sua presente tarefa era adivinhar e acordar, da multidão adormecida no barco, um único demônio, aquele que havia sido na terra o seu amado. Se acabasse despertando, por engano ou por deslize, o demônio errado, seria imediatamente desmembrada e devorada sem misericórdia, e de seus ossos se fariam esteiras sobre as quais as diabas dançariam pela eternidade. E mesmo se soubesse despertar o demônio certo e apenas ele, nada garantia que se reacenderia nele, a tempo de suster o golpe fatal, o amor que havia nutrido por ela debaixo de outro céu.

Afrasíabe olhou ao redor e avaliou longamente o corpo adormecido de seus companheiros de viagem antes de fazer a sua escolha. Ela rejeitou as tentações óbvias de escolher o mais bonito, o mais forte ou o mais feio; estava convicta de que podia reter a tranquilidade de que seu amado não seria qualquer um desses. Ela por fim desvencilhou-se com todo cuidado dos corpos que a prendiam no lugar, rastejou com cuidado sobre a superfície oleosa de três ou quatro demônios inertes, estendeu resolutamente a mão e apertou um braço carmim.

O demônio que Afrasíabe despertou demorou um instante para olhá-la nos olhos. Nesse instante as águas turquesa do Ocs se encontraram com as do rio Amarelo, e Afrasíabe teve a súbita certeza de que sua história, por um erro monumental de julgamento que talvez não fosse nem ao mesmo seu, seria acometida por uma fatalidade cuja natureza ela não tinha como prever.

10 de Outubro de 2011

O nome da história

Manuscritos

A eremita trouxe as xícaras de chá e sentou-se de frente para o adolescente na mesa de madeira debaixo da pérgula, junto de onde ele tinha deixado a bicicleta. Tomaram um gole em sincronia e resvalaram numa página de silêncio enquanto observavam o ocre sem limites de Val d’Orcia.

– Em que você está pensando? – ela disse.

– Que talvez Deus não exista.

Ele tomou mais um gole, mas ela franziu um pouco a testa e não soube preservar o silêncio que ele talvez esperasse.

– Eu às vezes oro para que Deus não exista – ela disse de repente, a xícara junto ao peito como uma vela numa procissão.

– Como assim?

– Não sei. Às vezes penso que seria belíssimo se Deus fosse uma invenção dos homens.

– Não sei – ele coçou a barba rala. – Eu preferia que Deus fosse mais importante do que uma boa alucinação.

– É que – ela gastou um instante juntando palavras para descrever o irromper de sangue que trazia dentro do peito – isso se ajustaria perfeitamente ao Deus que eu gostaria de adorar e servir. Um Deus que se permitisse criar. Que se permitisse aperfeiçoar.

– Mas, que se fosse assim, seria para sempre subalterno aos homens.

– Não vejo porquê – ela foi sincera. – Talvez tudo no universo seja subalterno aos homens, menos esse Deus.

– Você está de novo entrando em terreno de excomunhão.

– E você veio buscar companhia num eremitério – ela explicou, vagamente irritada.

E voltaram a habitar o silêncio. Ele arriscou olhá-la por um instante, depois fechou os olhos e meneou a cabeça para capturar o dia no cheiro do vento.

– Acho que tudo está ligado – ela não resistiu – a essa coisa humana de contar histórias. Histórias que tenham começo, meio e fim. O desejo de ouvir e contar histórias é parte da nossa própria estrutura. O homem é maior que os anjos, mas interrompe o que estiver fazendo para dobrar-se à superioridade da narrativa. O universo inteiro é menor que a menor parábola.

– Você está querendo dizer que Deus é uma ficção.

– Não, estou dizendo que as histórias podem ser indicação de Deus – ela corrigiu, e apertava a xícara entre os dedos como se o calor da tarde não bastasse para aquecê-la. – E que nós, seres humanos, somos feitos de tal forma que o universo é regido de acordo com as histórias que contamos. Quando as ficções mudam, o mundo muda em conformidade.

– Isso é porque contamos histórias para inventar um sentido para o mundo – ele conformou-se ao papel de antagonista que no rumo da conversa ela havia destinado para ele. – A ficção dá a ordenação que o mundo por si mesmo não tem. Para ouvir histórias é preciso contribuir com uma espécie de “submissão experimental”, uma ingenuidade assumida de caso pensado. Fazemos isso na esperança de encontrar um sentido para a coisa toda. O que você está dizendo é que Deus não passa do resultado mais elevado desse tipo de experimentação. A maior história jamais contada, por assim dizer.

– Quero dizer que acho que Deus existe mesmo, mas que só se manifesta na ficção.

– O que é absurdo – ele disse, e imediatamente lamentou não ter um argumento melhor para interpor.

Ele mudou de posição no banco e uma perna roçou por um instante a meia preta dela. Ela recuou imediatamente, mas mais por coordenação fraternal do que por verdadeiro constrangimento. Nunca falariam a respeito disso, mas sabiam que não fosse a diferença abismal de idade teriam juntos explorado em redemoinho as camas do verão. Nem os votos dela nem o constrangimento dele teriam se colocado no caminho.

– E há algo sobre Deus que não seja absurdo? A ortodoxia, que é conservadora, insiste nisso. A liturgia. Nossa amizade é absurda.

Ele tomou o último gole e afastou a xícara para o centro da mesa. Depois alçou uma perna para cima do banco, apertou-a junto do corpo e apoiou o queixo no joelho. Ela olhava com um vago sorriso para um ponto no ar.

– Estou aqui tentando lembrar o nome de uma história de Jorge Luis Borges sobre um agente secreto num país estrangeiro que mata um homem só por causa do nome dele. Eles conversam um pouco sobre destino, vida e morte e depois o sujeito mata esse civil desconhecido só porque o nome dele, quando a notícia do assassinato saísse no jornal, serviria de senha para que a organização do agente deslanchasse alguma mobilização de guerra.

– E por que você quer lembrar o nome da história?

– Não sei. É que a ideia do conto se tornou de imediato uma obsessão para mim, essa de matar uma pessoa só para passar uma mensagem – ela finalmente olhou diretamente para ele. – Você me mataria para passar uma mensagem? Como posso saber se você não tem um revólver nessa mochila?

– Você não tem o nome certo – ele disse, e procurou o horizonte. – Não é a mensagem que eu quero passar.

Ela baixou a cabeça e sorriu, imediatamente irritada por ter se permitido irritar tão facilmente. Ela às vezes esquecia que ele era homem, mas isso só até que ele a fizesse lembrar do jeito mais inequívoco. Que os homens cedessem tão facilmente ao seu próprio arquétipo era, por si mesmo, o grande arquétipo masculino.

– A pergunta que você na verdade quer me fazer – ele adivinhou, – é se eu mataria Deus para passar uma mensagem.

E olhou para ela.

– A pergunta que eu quero fazer – ela exigiu, muito empertigada, – é se Deus se deixaria matar para passar uma mensagem.

05 de Julho de 2011

A disciplina

Manuscritos

O emissário da Sé passou no seminário três noites e dois dias, tendo sido em tudo acompanhado pelo padre reitor. Folheando devagar um molho de chaves, o reitor mostrou-lhe cada sala e cada passagem, demorando-se quando necessário para levantar histórias, espantar seminaristas e indicar reformas no prédio. Juntos percorreram o jardim privado, entre as roseiras que havia plantado o próprio fundador, juntos colheram nectarinas e ameixas vermelhas no pomar ensolarado atrás do refeitório. Disseram entre as estantes da biblioteca escura nomes de autores que não chegavam a ter em comum, e de comum acordo não tocaram as lombadas dos livros. Andaram lado a lado pelos corredores, avaliando um ao outro com minúcia e cortesia, as mãos conciliadas nas costas, e no fim de cada dia comeram sozinhos na sala de jantar da casa reitoral, separados por uma garrafa de vinho.

Na última noite, após o jantar, o emissário baixou o garfo sobre os ossos de duas codornas e ergueu a taça até a altura do nariz.

– Quando você me fala do rigor das reformas morais que está pensando em instaurar, e na severidade das punições que está planejando aplicar, não consigo deixar de lembrar do conselho que diz-se davam os filósofos aos antigos imperadores de Roma.

– Que conselho? – o padre reitor ainda sorria recostado em sua cadeira, mas já estava incerto sobre se devia manter o bom humor.

– Basicamente, os sábios aconselhavam os imperadores a conterem a sua sede por justiça e a agirem com misericórdia, especialmente no que diz respeito a transgressões de menor monta. Uma perseguição por demais rigorosa dos imorais, explicavam eles, acabaria revelando à sociedade que os transgressores são na verdade mais numerosos do que os cidadãos cumpridores da lei. E esse é um segredo que deve ser mantido oculto a todo custo, porque revelá-lo poderia inspirar a maioria de transgressores a sublevar o governo e dominar a minoria de cumpridores da lei. Daí a necessidade de cautela, e de clemência por parte dos governantes.

– Estamos por certo falando de um tempo – o padre reitor esvaziou a sua taça e saboreou o vinho – antes que a gravidade do sacrifício evangelical convocasse o mundo a uma moral mais elevada e exigente.

– Isso sem qualquer dúvida – cedeu o emissário, e escondeu os lábios na curva da taça.

Na manhã seguinte, enquanto tomavam café, a mala do emissário aguardava em pé junto à mesa. Despediram-se cordialmente e o emissário partiu no carro que lhe mandara a arquidiocese.

Duas horas depois do almoço o padre reitor foi interrompido em seu gabinete por um seminarista de cabelos ralos e aloirados, que explicou-lhe pela porta entreaberta que o emissário de Roma estava ali para vê-lo. Quando o rapaz desapareceu no corredor o lugar na porta já estava ocupado pelo italiano.

– Esqueceu alguma coisa? – O padre reitor ergueu-se um palmo da cadeira e indicou o assento à sua frente. – Sente, por favor.

O emissário recusou com um gesto pouco paciente da mão.

– Venha comigo você, padre reitor, quero mostrar-lhe uma coisa.

O reitor baixou sobre a mesa os papéis que trazia em ambas as mãos e juntou-se ao emissário no corredor.

– O que você me diria – o emissário começou, as mãos unidas na frente do corpo – se eu lhe dissesse que há neste seminário um lugar que você não conhece, mas que seus seminaristas conhecem bem, e onde por vezes se reúnem para discutir conduta que você jamais aprovaria?

Não houve na resposta qualquer traço de hesitação.

– Eu pediria para ser levado até esse lugar.

– Venha comigo – sentenciou o emissário, e o reitor seguiu-o ao longo das arcadas.

Do lado de fora, quando viraram a esquina do edifício e postaram-se diante dos portões de ferro do jardim privado, o reitor mergulhou a mão no bolso e puxou o molho de chaves, mas o emissário indicou com a mão que não seria necessário.

– Esta manhã, logo que saí daqui – disse o emissário, – fui até o bispo Omar e confessei-me com ele. Disse a ele que eu e você dormimos juntos. Disse que eu e você fizemos amor durante os três dias em que estive com você aqui.

O reitor deixou cair o molho de chaves.

– O que você está dizendo?

– O bispo está sob o peso do sigilo da confissão. Fiz ele prometer que não vai perseguir a questão de forma alguma. Ninguém vai ficar sabendo. Nada vai mudar para você.

O reitor tomou o braço do emissário e usou para apertar-lhe a garganta, como faria com uma faca.

– Você não sabe o que está dizendo. Vamos até lá e você vai se retratar agora mesmo. O bispo Omar é meu amigo, o que ele vai pensar?

– Ele não vai pensar, ele vai saber. Sua ficha é limpa demais, isso pesa automaticamente contra você. Você não é ingênuo o bastante para ignorar isso.

– Ninguém vai acreditar – o reitor soltou o braço do outro e fitou o vazio.

– Só o bispo vai saber, mas ele vai acreditar – o emissário ajeitou o colarinho. – Ele não tem como esquecer as confissões das mulheres a que você resistiu quando era pároco, e que angariaram para sua fortitude em relação a elas uma força de lenda. As lendas, você sabe, dizem muito. E há o fato de você ser reitor de um seminário. E há o caso do seminarista italiano, aquele que vim para ajudar a esclarecer…

– Isso é uma afronta! Você mais do que ninguém sabe que foi ele quem tentou me seduzir!

– E eu não culpo o rapaz – confessou gentilmente o emissário. – Não pendo nessa direção, mas entendo a tentação que um homem como você pode representar. E não condeno você por se achar melhor do que os outros.

– Deus é testemunha da minha integridade diante de tudo isso.

– Deus – corrigiu o emissário – é testemunha da sua falta de clemência. Mas agora é a sua vez de suportar a disciplina.

– Do que você está falando?

O emissário deu um passo para trás, de modo a alinhar-se com a esquina do prédio.

– O seminarista foi enviado para testar a sua virtude. Eu fui enviado para corrigi-la.

E deu as costas, deixando o padre reitor ali em pé, olhando para as mãos.

28 de Abril de 2011

A consistência histórica dos dons carismáticos

Manuscritos, Sonhos

– Posso entrar? – ela diz, e no instante seguinte já está dentro.

Adália tem trinta e sete anos. É o tipo intimidador de mulher que tem o corpo esguio e aprumado de quando tinha vinte, e usa vestidos justos e acalorados para não deixar qualquer dúvida disso. O rosto anguloso é tão bonito quanto naquele tempo, mas com uma sobrancelha mais atrevida e um sorriso mais largo. Quando acontece dela sorrir, o que não é o caso agora.

Enquanto o mulherão desaba no sofá cruzo os braços e viro-me para o espelho da parede, para uma rápida conferência: encontro sorrindo com um vago beicinho um cara que é três ou quatro mais novo do que ela, o tipo do sujeito que foi sempre magro demais mas agora está amadurecendo bem, os anos fornecendo o necessário e atrasado recheio às carnes. Ao mesmo tempo em que está ficando bonito o sujeito está ficando careca: mais um lembrete de que no mundo nada é de graça.

Jateado na base do espelho está o meu logotipo: um planeta Terra, e sobre ele uma Bíblia aberta, como se fosse um telhado invertido; com um pé em cada página do livro está um homem de terno apontando uma arma diretamente para a frente, em posição de James Bond; acima dele paira uma cruz e acima dela uma pomba, englobada por um arco-íris circular do qual projetam-se línguas de fogo que se abrem em feixe logotipo abaixo; onde as línguas de fogo atingem as páginas da Bíblia levanta-se do papel um anjo; onde atingem a Terra nasce ali uma igreja. De cada lado do logotipo há uma letra, F e B; o Brandão insiste que querem dizer “Facebook”, mas que prefiro pensar que representam meu nome, Fabrício de Barros. É um logotipo simples, mas tem a minha cara.

Ajusto o sorriso e ignoro deliberadamente a careca do homem no espelho. Não faz diferença: eu e Adália sabemos que fomos desde sempre irresistíveis. É praticamente nossa descrição de cargo.

– Enquanto você estava fora o secretário executivo da convenção esteve aqui – ela começa a falar olhando para o maço de papéis que tem nas mãos em vez de para mim, sinal inequívoco de que existe entre nós alguma pendência de que não estou certo de lembrar, – e deixou o dossiê do caso de Londrina.

– Muito bem, vamos então aos detalhes – descruzo os braços e sento-me para limpar a Taurus 9mm que está desmontada em cima da mesa. É melhor ignorar as manhas e permanecer profissional, se não quiser que o briefing seja interrompido pelos inevitáveis quinze minutos de suor e reconciliação. Acabei de sair do banho, a camisa está limpa, e nesse calor é difícil manter sob controle o efeito do desodorante.

Adália cruza as pernas com deliberação, como se existisse numa página dupla, e folheia devagar o dossiê.

– Mega-igreja, configuração usual, público A-B. Entre as doze maiores da convenção. O secretário disse que nunca tivemos caso mais importante.

– Mas quanto vale exatamente a igreja?

– Treze pastores – ela desce uma coluna de texto com os dedos, erguendo uma sobrancelha quando acha necessário. – Seis congregações. Dois mil e trezentos membros. Programa na TV, o pacote básico. Passivo de quase um quarto de milhão. E entradas mais do que proporcionais.

– Treze? Uma igreja com mais pastores do que Jesus tinha discípulos. Nunca é bom sinal.

– Acredite, eu sei – ela me olha nos olhos pela primeira vez, e deixamos que as memórias se assentem em silêncio entre nós.

– E qual é o caso? – sou eu a quebrar o momento, voltando a limpar o cano da pistola.

– Começou com uma atividade de fim de semana; chamava-se originalmente Magazine mas logo mudaram o nome para Arrebatados! Com o ponto de exclamação.

– E do que se tratava?

– Pense um Big Brother para crentes. Montaram no centro da arena de esportes uma casa com paredes de vidro, todos os aposentos vigiados por câmeras de vídeo, com transmissão pela internet. Um grupo de doze membros da igreja ficava confinado na casa do Arrebatados! da noite de sexta-feira até segunda pela manhã.

– Não saíam nem para assistir os cultos? – fico admirado com a mera possibilidade.

– Participavam por um telão colocado no santuário, davam depoimentos, aquela história. E eram avaliados todos os domingos pelo seu comportamento: o quanto eram vistos orando, lendo a Bíblia, repartindo a comida e as horas de internet. O mais perverso tinha de sair da casa mas não era visto como “eliminado”: era deixado para trás. E na sexta-feira seguinte um novo membro da igreja entrava na casa para substituí-lo.

– Então não terminava nunca?

– Era pra terminar quando o público decidisse que nenhum dos remanescentes merecia ser eliminado, mas não chegou a chegar nesse ponto. Em fevereiro passado entrou na casa o nosso problema.

Ela estende três páginas impressas e uma foto pixelada, presos por um clipe.

– Caio de Jesus. Caio nunca é um bom presságio.

– Trinta e dois anos, auditor, casado, duas filhas. Na madrugada de domingo do seu primeiro fim de semana na casa, seu amigo Caio teve uma visão. Deus estava usando o Arrebatados! de Londrina para escolher novos doze discípulos, que deveriam julgar as nações no fim do mundo agora em 2012.

– E naturalmente todos refutaram a visão à luz da Bíblia.

– E naturalmente todos acreditaram. Caio explicou que a partir daquele dia não poderiam sair da casa nem mesmo durante a semana, até que o armagedom pessoal de cada um estivesse completo. Explicou ainda que para ganhar o prêmio os candidatos teriam que vencer todas as tentações: homens e mulheres da casa teriam de tomar banho juntos, confessar suas fantasias um ao outro e dormir pelados na mesma cama para demonstrar a sua pureza.

– Não há como negar que há uma consistência histórica nos dons carismáticos – opino, ajustando a mola do ferrolho e começando a remontar a Taurus. Adália me olha por um instante. Digamos que já havíamos visto o mesmo espírito exigindo as mesmas coisas.

– A controvérsia se estendeu durante semanas, blá-blá-blá, até que o pastor da igreja resolveu dar um basta na coisa e fechou sumariamente a casa. O que aparentemente demonstrou que ele era o Anticristo.

– É claro.

– O problema é que a essa altura metade da igreja já estava apoiando o profeta Caio. Para resumir: com o apoio dos seus Onze, o profeta convocou uma assembleia, conquistou a maioria, mudou o estatuto da igreja e expulsou como impenitente toda a ala moderada. E, desnecessário dizer, reinstaurou a casa.

– Mais uma vitória para a democracia.

– Para conferir acesse www etc.

Ela deixa que o dossiê caia sobre a mesa de centro e reclina-se no sofá olhando diretamente para mim. A esta altura já juntei o cano ao ferrolho e o ferrolho ao chassi; termino acoplando o carregador com um sensato clique.

– Estou supondo que nossa missão seja recuperar a igreja para a convenção, rever o patrimônio perdido e expulsar do templo o falso profeta e os sectários.

– E derrubar a casa – ela lembra. – Espero que dessa vez possamos usar explosivos.

Tento ignorar a provocação, mas não devo esquecer o que prometi.

– Já acionamos o Brandão?

Ela olha sem ver para o relógio de pulseira fina nas costas do pulso.

– A esta hora ele já deve estar em Londrina fazendo o trabalho dele.

– Muito bem, Adália – congratulo, congratulando-me secretamente por ser tão gentil.

Nesse momento entra sem bater o nosso cliente, Januário Cembrino, secretário executivo da convenção. Quarenta e tantos anos, sempre de terno e gravata, Januário e é um sujeito muito baixo e compacto, o tipo de homem que Adália gosta de chamar de portátil. Tem rosto quadrado, os cabelos curtos e encaracolados de imperador romano e a pele castanha de índio brasileiro. Adália estaria perdidamente apaixonada por ele se já não estivesse por mim.

– Fabrício, espero que Adália já tenha lhe colocado a par de tudo – ele se deixa cair sem vontade na cadeira na minha frente. – E da importância do caso.

Deixo sobre a mesa a pistola e o lenço de flanela que estava usando para dar o polimento final. Só então produzo meu melhor sorriso.

– Ora, boa tarde pra você também. Mais entusiasmo, Januário, você sabe muito bem que vamos tirar você de mais essa. Tenha um pouco de fé.

– Espero que sim – ele limpa a testa com o lenço.

– Agora, tenho de reconhecer que é um caso difícil. Preciso saber se tenho a sua permissão para usar todos os recursos. Línguas de fogo? Dons carismáticos? Cai-cai? Unção do riso? Água de Jerusalém?

– O que for necessário – ele cede.

Estendo o braço e aperto a mão dele de determinada maneira.

– O que for necessário – ele me olha muito sério.

– Então vamos, Adália, que o campo é o mundo.

Levantamos os três, pego as chaves do carro e Adália já colocou o dossiê na minha mochila. Guardo com todo o cuidado a pistola dentro da gaveta, pego a minha Bíblia e logo estamos longe dali.