30 de Julho de 2008
Ele espera que eu não faça nada, mas seu poder não se compara ao meu, porque é meu.
Abro o volume imediatamente e ele se reparte com facilidade no meio. No fulcro entre duas páginas que não saberei ler, dobrada uma única vez sobre si mesma, ergue-se debilmente uma folha timbrada dos blocos de notas do Conselho – idêntica em tudo às que aguardam solenemente sobre minha mesa na sala vazia do Bureau (onde estará o Cirurgião que não atende o celular), mas ostentando num dos lados meu próprio nome escrito nas maiúsculas de Sahid.
Aqui está, então, ao alcance da mão, o bilhete que Sahid deixou sobre a sua mesa, e não a minha, antes de ir para o inferno; que Cortiano encontrou e entregou à polícia antes que ele mesmo pudesse ler; que os brutamontes do Ermitão interceptaram na Avenida Radial e cujo conteúdo pode de alguma forma ter levado Cyril Crepsi à estremadura voluntária; que por alguma mão secreta acabou chegando ao Mahatma e sua biblioteca subterrânea e seu Oe eo circular. A mensagem que, sendo endereçada a mim, todos no vasto mundo leram antes de mim.
Ao homenzinho que está assistindo só consigo dizer:
– Preciso saber por que querem me matar.
– Você deseja uma reviravolta para redimir a sua história – ele responde, – mas só um escândalo pode fazer isso. A morte é escândalo suficiente; você não precisa do bilhete de Sahid para isso.
Mas o bilhete já está aberto entre meus dedos.
– Está em sânscrito – anuncio, olhando com algum rancor para o homenzinho.
– Só a porção central – ele corrige. – Estes sinais ao redor não sei o que querem dizer.
De fato, nas bordas do papel Sahid desenhou uma malha fechada de pontos e arcos de círculo que assemelham-se mais a um código ou faixa ornamental do que a escrita. No centro, acima da assinatura, três ou quatro palavras na caligrafia pontuada de descendentes da escrita devanagari.
– Eu não sabia que Sahid escrevia em sânscrito – observo.
– Ele não sabe. Escrevi e ele copiou. Sahid acha que não muita gente conhece sânscrito e isso poderia proteger o conteúdo do bilhete, mas ele pode estar errado tanto em uma coisa quanto em outra.
– Você pode traduzir para mim – estendo o bilhete na direção do homenzinho.
– Ciro, você é meu irmão – ele fala sem olhar para o papel. E em seguida, ficando em pé num único gesto ao redor da vara de caminhada: – Ciro, Sahid é seu irmão.
Não chego sequer a duvidar, porque a revelação explica tudo, muito mais do que posso compreender neste momento. Sahid, a personalidade notável, presidente do Bureau até alguns dias – até partir para o inferno, por razões que ninguém conhece – é meu irmão, o irmão de cuja existência eu havia por algum motivo aberto mão. Isto explica em parte por que querem me matar; explica toda a atenção que tenho recebido de gente que deveria me ignorar; explica porque sou o alvo e a esperança de tanta gente, mesmo sendo o “macaco” da definição de De la Mettrie. Acabei herdando uma série de complicações e expectativas que diziam respeito não a mim, mas a meu duplo secreto. E, antes de partir para onde ninguém volta, no último momento possível, ocorreu a Sahid me alertar. Deveria ter me ocorrido antes o quanto somos parecidos.
– Pronto – o homenzinho começa a dar as costas, na direção da abertura por onde entramos na biblioteca, – você tem a sua reviravolta. Tem a sua nova busca, e sua história se estreitou radicalmente.
– Não entendo – estou tremendo, mas agora sou eu a colocar-me de pé, deixando o livro aberto no chão. – Não entendo como você pode achar a ignorância uma coisa boa; como pode achar que eu não saber que Sahid é meu irmão me levaria mais para perto da verdade.
Ele se volta para responder.
– Você poderia chegar a entender se não tivesse lido o bilhete. Agora não pode mais.
Desvio o rosto um instante, procurando rápido um canal para minha indignação.
– E o que você esperava? Que eu vivesse na ignorância e abraçasse a sua causa?
– Eu esperava que você abraçasse a sua causa. Mas você deve ir, é tarde demais.
Não consegui ainda juntar as palavras para jogar contra ele e vem-me à mente outra necessidade, muitas vezes mais premente. Posso só ter este momento para fazer a pergunta.
– Você conhece Sahid. Vocês eram amigos, foram parceiros. O que pode me dizer dele?
Ele suspira.
– Temos poucas regras nos ashrams do paraíso, mas esta é uma delas: nunca falamos de uma pessoa que não esteja presente no momento da conversa.
Ando passos perplexos em alguma direção.
– É uma regra estúpida, é uma regra arbitrária. Você sabe muito bem que pode me facilitar a vida contando sobre Sahid.
– A regra do silêncio pode parecer arbitrária, mas foi concebida para que você possa se concentrar no seu interlocutor, ou seja, concentrar-se no aqui, no agora e em você. Mas está muito evidente que o Cirurgião não quer dar ouvidos a si mesmo.
E oferece-me as costas. Neste momento, antes que eu conjure uma solução para chamá-lo de volta, Glenn Miller aparece correndo por um dos corredores internos da biblioteca. É um homem com pressa, e traz um celular na mão.
– Mia Dladla acabou de ligar procurando você – ele fala antes de recuperar o fôlego.
Mordo o lábio inferior, instintivamente. Mia Dladla, a policial e a conspiradora, querendo mais uma vez estreitar minha história pelo celular.
– Ela mandou dizer que a sua encomenda está pronta – ele completa.
– O que quer que essa gente peça de você, não faça – o homenzinho está se afastando silenciosamente sobre os pés descalços.
– Você disse que estava comigo? – preciso saber.
– Não. Disse que não, mas não sei se ela acreditou.
– Eu não teria acreditado. Isso quer dizer que ela pode rastrear a ligação.
– Bapu, a polícia pode chegar a qualquer momento.
O homenzinho está de costas para a nossa conversa, diante da saída, mas ouve com atenção. Ele responde sem se virar.
– Leve seu amigo até a estação. Deixe que ele siga o seu caminho.
Glenn já adiantou-se dois passos corredor adentro.
– Vem comigo, Ciro, vou levá-lo de coche até a estação de Tochidepa’. Dali você pode tomar o trem até Dunedin, e dali para onde quiser. Temos um dos nossos aguardando na estação.
Guardei o bilhete no bolso da camisa e já estou correndo ao lado de Glenn pela biblioteca.
– Cassandre está com ele – Glenn faz questão de confessar.
Viro o rosto para lançar um olhar de reprovação contra o homenzinho, mas ele já sumiu pela abertura.
27 de Fevereiro de 2008
Afrasíabe estava sozinha chorando, sentada num banquinho de três pés em sua casa, quando vieram avisar que o monstro Ksyinzuiu estava se aproximando do vilarejo. Afrasíabe viu pela porta aberta a gente da vila fugindo como um rio, correndo numa só direção, mas ela mesma não se mexeu do lugar.
Quando os gritos haviam silenciado e o pó das ruas inchava para abrigar o sangue dos mortos, Ksyinzuiu ergueu o teto do casebre de Afrasíabe como se fosse a tampa de uma caixa e olhou para dentro.
– Ei, por que você não fugiu? – trovejou o monstro. – Por acaso não tem medo de mim?
– A peste levou meu marido e meu filho – disse Afrasíabe ajeitando os cabelos, sem parar de chorar e sem levantar os olhos. – Do que eu deveria fugir?
– Você por acaso não sabe que é para isso que os deuses enviam os monstros e as grandes catástrofes? Para que os homens coloquem seu próprio sofrimento numa perspectiva justa? Só grandes ameaças tem lastro para apagar dores compridas.
– Talvez você não seja uma ameaça tão grande – disse a mulher. – Talvez minha dor seja comprida demais para os recursos dos deuses.
Ksyinzuiu arregalou os olhos de peixe e rompeu numa gargalhada.
– Cá cá cá, mulher. Por causa da sua presença de espírito vou lhe dar uma escolha que nunca dei a ninguém. Você pode entregar-se voluntariamente à morte entre os meus dentes, ou pode tentar adivinhar os três segredos que juntos têm o poder de me destruir. Se você não conseguir, morrerá de qualquer forma. O que me diz? O que escolhe? Matar ou morrer?
– Não me importune com uma coisa nem outra. Se eu me entregar para morrer estarei desistindo da minha dor, que é meu bem mais precioso; se matar você, estarei trocando minha dor por uma vitória que em nada se equipara à extensão dela.
E olhou para o monstro, que tinha a altura de dois homens, a pele cor de pedra recoberta por espinhos curtos e grossos e uma horrenda cabeça de peixe que lhe saía diretamente do tronco.
– Muito bem, não posso matá-la se você não fugir ou se não vier ao meu encontro – opinou Ksyinzuiu. – Ouça outra oferta: junte-se a mim e seja o meu arauto, um anunciador da minha chegada nos lugares que devo visitar. Você é uma mulher triste, é certo que terá prazer em promulgar a desgraça.
Assim Afrasíabe tornou-se o arauto de Ksyinzuiu. Ela entrava nos vilarejos e anunciava, sem jamais levantar a voz, a iminência do açoite dos deuses. A desesperança no seu rosto era tão clara que todos desfaleciam, abandonando imediatamente a idéia de recorrer à compaixão do céu. Enquanto Afrasíabe ainda estava falando Ksyinzuiu aparecia, derrubando carroças e portões com os braços deformados e abrindo e fechando a bocarra, até que os os pés de Afrasíabe descansassem descalços no vermelho mais puro.
Um dia os dois chegaram a um vilarejo abandonado em cuja praça havia uma grande pilha de corpos em decomposição, e Ksyinzuiu falou:
– Não devemos seguir adiante, já completei o meu circuito nesta região. Todas as aldeias foram devoradas pela peste, não há mais o que matar.
E fez menção de seguir adiante, mas Afrasíabe disse:
– Esta é a aldeia para a qual viajaram meu marido e meu filho, a aldeia em que morreram comidos pela peste. Ksyinzuiu, adivinhei os seus três segredos, agora posso destruí-lo.
O monstro virou-se para olhá-la de frente.
– E quais são?
– O primeiro é o mais evidente, mas apenas quem o acompanhasse como tenho feito seria capaz de descobrir: você usa sua boca para matar, mas nunca para comer. Nos meses em que tenho sido o seu arauto nunca o vi pôr coisa alguma na boca. O segundo é este: você só mata os que não conseguem fugir, mas os cadáveres em decomposição que deixa para trás são a mesa pronta em que a peste se banqueteia. Sem os campos dos seus mortos a peste não teria como se multiplicar. Ela mata os que sua mão não consegue tocar, e matou minha família.
– Muito bem. E o terceiro?
– Ao terceiro se chega pela perspectiva dos outros dois. É verdadeiro o ditado que diz que a peste é o hálito de Ksyinzuiu, mas o monstro original está morto. O verdadeiro Ksyinzuiu foi substituído por um autômato que pode caminhar e matar mas não comer, uma estátua animada construída por alguém que desejava perpetuar a peste.
E estendeu a mão para tocar a pele de ferro de Ksyinzuiu.
– Você adivinhou os três segredos – disse o autômato. – Fui feito quando o verdadeiro Ksyinzuiu morreu. Construiu-me um homem que, como você, teve a família destruída pela peste; um homem cuja dor era tamanha que queria estendê-la de modo a comportar as futuras gerações. Deus criou o homem pela mesma razão.
– O que você quer fazer agora? – disse Afrasíabe.
– Ora, de posse dos três segredos você tem poder sobre mim e pode ordenar a minha destruição.
– Preciso pensar bem. Se deixar você viver terei de conviver com a culpa de não ter eliminado o horror que ceifou a minha família e ainda ceifará outras; se o destruir, terei de conviver com o mérito de ter livrado o mundo da destruição e da peste.
– E você não sabe o que é pior – sorriu o monstro.
– Não preciso apressar essa decisão – disse Afrasíabe, e foram caminhando juntos para o sul.
06 de Fevereiro de 2008
Na delegacia de Gerais, e isso deve ter sido mais de um mês depois, me perguntaram por que fiz o que fiz se não acredito no que Albano acreditava. Respondi que não vi mal em fazer, e talvez tenha dito tudo.
Moro numa região solitária, e transmitir uma impressão genuína deste lugar talvez seja mais importante do que relatar o que no fim das contas tenho a dizer. A terra onde nasci, a terra onde moro, é marcada por amplitudes e generalidades que as convenções da geografia não foram feitas para descrever. Onde em outros lugares faria sentido falar em planícies, várzeas e cadeias de montanhas, mais preciso seria dizer desta região que ela é definida por espaços negativos, por lacunas que competem umas com as outras pela primazia. Não deve haver mais ou menos elementos do que em outras paisagens semelhantes, mas aqui há beligerância, há franca hostilidade entre as partes que a compõem. O resultado é uma terra fustigada por vastidões horizontais e verticais, coisas hostis que reduzem o homem a vértice temporário numa paisagem que prescinde dele.
Árvores e coqueiros e morros erguem-se de modo peculiar, como se não tivesse terminado de se desdobrar para cima enquanto você olha para eles, e as nuvens passeiam profanamente no nível dos mortais, engolindo casas e morros inteiros e regurgitando-os em condição diferente no momento seguinte. Não é algo que os grupos de turistas percebam enquanto esticam suas barracas coloridas no contrafortes da serra; trata-se de uma escala que requer que você esteja caminhando sozinho para atingi-lo, e aqui andamos sozinhos a maior parte do tempo.
Trata-se, no fim das contas, de um conflito de solidões; diz respeito tanto à conformação do lugar – sua sucessão de morros, grotas, várzeas, pântanos, matagais fechados, galinheiros abandonados, cascatas, casinhas de dois cômodos e curvas de rio, – quanto à distância entre as pessoas. Falo, em suma, da índole que essas demarcações imprimem ao rosto dos homens e ao coração da paisagem. A coisa toda é conformada de modo a que todos sintam-se intrusos, mesmo a terra, que o mato fecha sem deixar cicatriz, mesmo o céu, que as nuvens censuram e onde sol e estrelas parecem ser exceção.
É território inóspito e de difícil acesso, e há um silencioso orgulho local de que as coisas sejam assim. As duas ou três estradas que cruzam a região não foram feitas para automóveis, e as trilhas que não se usam por duas ou três semanas são requeridas pelo deus da mata. A eletricidade chegou há sete anos mas as tempestades regem as linhas elétricas e telefônicas; tudo que tenho é um rádio e uma geladeira, mas para alimentá-los confio menos nos postes que predam os deslizamentos do que no gerador a diesel que cospe baforadas enquanto treme no seu telhadinho lá fora.
Finalmente há os estalos, rugidos prolongados que abalam periodicamente os vazios entre os morros, mesmo em dias de céu limpo. Três equipes de meteorologistas da capital já vieram analisar os ruídos, a mais recente há coisa de dois anos, e com esses conversei e travei alguma amizade. O parecer é que trata-se de algum fenômeno atmosférico, mas não há consenso sobre qual é a sua verdadeira natureza, ou se há registro de fenômenos similares em outros lugares. Foram embora levando suas gravações e seus registros, mas não tivemos notícia dos resultados.
Entre nós um estalo (que a gente velha chama de atroada) é um som metálico que vem do céu; dura dois ou três segundos e reverbera por metade disso. Para se ter uma idéia do timbre é preciso ter ouvido o grito da araponga, que por sua vez tem algo do choque de uma marreta contra uma bigorna. Um estalo é ao mesmo tempo mais alto em volume, mais prolongado e mais metálico; é ainda, se é que isso é possível, mais seco. Sempre achei que evocava a colisão de poderes invisíveis no espaço acima da mata.
O que aconteceu foi que o Albano mandou me chamar.
Saí de casa de cedo e fui encontrá-lo fumando sozinho no terreiro da casa do Samuel, o guardador do nosso cemiteriozinho. Ofereceu-me fumo para aplacar a manhã fria e aceitei para aplacar o nervosismo do Albano, que demonstrava grave desconforto todas as vezes que tinha de falar comigo semi-oficialmente, porque eu era uma pessoa que lia livros, talvez de forma voluntária. Perguntou se eu tinha ouvido falar dos ladrões de túmulos e ficou satisfeito quando respondi que não: sinal de que o Samuel tinha guardado segredo.
– Faz duas ou três semanas que tem gente mexendo nos túmulos. O Samuel disse que até ontem não viu nada, mas ouviu os tiros.
– Tiros – eu disse.
– Essa é a parte. Essa gente vinha cavar os túmulos, abria os caixões e dava tiros nos cadáveres. Três tiros em cada um: na cabeça, no peito e num dos pés. Não conseguiram terminar o serviço porque o Samuel aparecia com o cachorro, mas já vieram cinco noites.
Parei de tirar lama da sola da botina com um pedaço de pau.
– Você avisou na sede do distrito?
– Fiquei sem saber o que fazer. Fora o Samuel e o cachorro, só eu estava sabendo. Nós dois mesmo tratamos de enterrar as pessoas de volta e limpar a merda que o cara fez.
Enfiei o pauzinho na terra macia do terreiro.
– E por que você veio me avisar?
– Porque ontem à noite ficamos de tocaia e apanhamos o sujeito – ele apagou o cigarro. – É o seu avô.
Desviei o olhar para a neblina.
Meu avô era um curandeiro e um charlatão. Nunca cheguei a saber se ele era mesmo louco ou mero canalha, e nunca cheguei a decidir qual seria pior. Não nos falávamos há anos, e a moeda principal na nossa transação era o caso do meu pai.
Fui embora naquela manhã com a incumbência de conversar com ele. O Albano estava disposto a abafar a coisa toda (”afinal de contas ninguém tinha se machucado”) se meu avô se dispusse a arrematar o detalhe mais constrangedor da história, o desaparecimento de um dos defuntos, o corpo da velha Coralina. Se ele devolvesse o corpo ou dissesse onde o tinha colocado, ninguém mais precisava ficar sabendo.
Na minha lembrança falar com meu avô era uma tortura, e nesse caso não foi diferente. Era possível ofendê-lo e ser ofendido por ele, mas não entabular uma conversa equilibrada sobre qualquer assunto. Ele não foi exatamente evasivo, mas parecíamos estar falando de coisas diferentes. Ao mesmo tempo em que tagarelava sobre sua teoria e mostrava-me de longe seus cadernos de anotações e envelopes de fotografias, resmungava que não era a mim que devia explicações. Perguntou-me trivialidades obscenas como “se eu sabia por que os egípcios embalsamavam os seus mortos”, e quando jurou-me que não tinha tocado no defunto da velha Coralina, saí dali resolvido a deixar que o Albano resolvesse o caso do jeito que achasse melhor. Fui para casa debaixo de um céu armando chuva, e quando liguei o gerador para ter luz em casa estava encharcado até os ossos.
No que aconteceu em seguida não tive qualquer parte e sei muito pouco. O que consigo recuperar é que naquele mesmo dia o Albano teve uma longa (e certamente tortuosa) conversa com meu avô. Deve ter explicado que não havia sandice que justificasse um comportamento bárbaro daqueles, e que qualquer reincidência era coisa inadmissível. Deve ter deixado claro que se o corpo desaparecido não fosse devolvido ou encontrado seria obrigado a formalizar uma denúncia. Deve ter saído de lá deixando algum prazo para que a situação fosse resolvida – prazo que no fim das contas não foi necessário, porque meu avô, que não era jovem, foi encontrado morto em sua cama dois depois. Minha avó, que tinha tido um derrame seis anos antes e pode se mexer mas não falar, jazia tremendo deitada ao lado do falecido, e em seus olhos encontrei o que podiam ser iguais medidas de tristeza e pavor.
Era de madrugada e o corpo do velho estava sendo velado na capelinha do cemitério quando o céu finalmente desabou. Choveu como não chovia há décadas; os ribeirões incharam, as árvores caíram e os rios cobriram todas as pontes. Trilhas e estradas viraram tentáculos de um monstro de lama, e o vento amarrou os postes nos seus próprios fios. Eu, que tinha passado o dia na capela e tinha ido para casa descansar, estava acordado quando começou. Esperei uma hora e assim que concluí que a chuva não ia ceder resolvi me vestir, selar a Morena e ver se conseguia chegar ao cemitério.
Estava nisso quando bateram com força na porta. Era o Samuel.
Tremendo de frio mas recusando-se a entrar porta adentro, o guardador do cemitério explicou-me que o Albano tinha enlouquecido; que chutara a porta da capela no meio da noite, puxara a mesinha do canto para junto do caixão e subira nela; que, para horror da meia dúzia de pessoas reunida ali naquela hora (inclusive minha avó), desfechara três tiros sobre o defunto: um na cabeça, um no peito e um nos pés. Sumira em seguida noite adentro sem dizer palavra, e enquanto o céu ainda estrelado ribombava de atroadas começara a chover.
Entendi imediatamente para onde o Albano tinha ido, e levei o Samuel comigo. Cobrimos em hora e meia o terreno que em condições normais teríamos percorrido em vinte minutos, e quando chegamos à choupana do meu avô vimos de longe as chamas lá dentro. Disse com firmeza que o Samuel aguardasse do lado de fora; entrei sozinho pela porta aberta e encontrei o Albano em pé, olhando diretamente para mim com lágrimas de fogo. Ele afastara a mesa e usara a madeira das cadeiras para armar uma fogueira ali mesmo, sobre o assoalho. O fogo já começava a escalar as paredes, e no alto da fogueira queimava o que tinha de ser os cadernos de anotações do meu avô e as fotografias que ele recolhera.
Pedi ao Albano que saísse comigo, e quando ele se recusou perguntei por que estava fazendo aquilo. Chorando sem trégua, meu amigo disse-me que fora convencido “porque o velho tinha morrido do jeito que morreria” e “a velha Coralina estava onde ele disse que estaria”.
– Me ajude – ele implorou, e deu um tiro na cabeça.
Com a ajuda do Samuel arrastei o corpo agonizante para a chuva, e na luz da casa que se dobrava sobre si mesma animada pelo fogo, disparei sobre o Albano morto as duas balas que restavam no revólver.
04 de Outubro de 2007
A cidade reage quando ele passa, como uma planta que troca as folhas de lugar com a passagem da manhã para a tarde. O dia é nublado com brechas; perfurando as nuvens muito brancas, o sol derrama focos efêmeros de radiância sobre as ruas, sobre as árvores e sobre as pessoas, como um iluminador de teatro procurando protagonistas.
O jovem avança vorazmente tarde adentro, botas contra paralelepípedos, ruminando todos os círculos que tem de fechar. Ele evita o portão cinza do cemitério luterano onde estão Leonar e Mutt e suas bisavós e seus quatro avós e sua mãe, mas não seus bisavôs e não seu pai. Ele escala a ladeira impossivelmente íngreme da Rua da Ponte e pausa diante dos largos ciprestes do conservatório; num único gesto ele despeja na calçada, como um lavrador que rejeita a semente que não tem como germinar, as incontáveis manhãs frias que passou nas salinhas de piano daquele lugar, ensaiando numa encarnação anterior do coro de meninos – o mesmo no qual cantava, até o que parece que foi ontem, Otero.
Ele salta sem bater palmas o muro baixo do casarão cor-de-rosa de Maria Mesquita, em cujo galpão veio recolher as fileiras de cogumelos que colocara para secar. Maria Mesquita, que já era velha quando ele era criança; que a cada visita dele e de seus primos a esta casa fornecia poemas, figurinhas, docinhos de pêssego cobertos de açúcar e cartas avulsas de jogo do mico. De todos que o jovem vai encontrar naquela tarde, Maria Mesquita é a única que, desajeitadamente, lhe dá um abraço. Misericordiosamente, porém, e docemente, ela nada diz, e é o mesmo quando ele atravessa o pasto do Mano para pegar o saco de ameixas, quando avança pelas sombras do monastério para pegar as lingüiças e bate na porta do reitor para recolher a encomenda de ovos, ovos vermelhos de pata, embalados um a um com notícias da guerra. Cada um desses velhos amigos dá um jeito de lhe entregar, furtivamente, um pequeno presente além da encomenda que ele veio buscar e pela qual faz questão de pagar: Maria Mesquita aperta-lhe nas mãos secas uma flor e uma latinha de nata, o Mano um envelope de amendoins salgados, o prior mete na mochila de lona um exemplar minúsculo, de capa verde, de A Imitação De Cristo, e o reitor oferece a promessa de que, no que depender dele, Adra e o bebê terão sempre tudo de que precisarem.
Na extremidade da cidade ele pára para ver Gottlob, que não está em casa e talvez esteja morro acima com as cabras, ou no vale com os joelhos atolados nos arrozais. Ele deixa no pé da porta, equilibrado no vértice entre quatro losângos, um único ovo, esperando que o amigo que não verá mais entenda a mensagem.
Ele volta para casa subindo o rio, porque quer vê-lo na última luz e porque prefere não atravessar novamente a cidade, não hoje.
Em casa ele derrama-se sobre Adra e despem-se no quarto e ele abre seus presentes. Ela chora diante dos perfumes, porque terão ovos e lingüiça e cogumelos e ameixas e nata e amendoins, e é a última noite deles antes do apito do trem, e amanhã começará o derradeiro racionamento.
– Otero? – ele pergunta, enquanto ela compõe recatadamente os alimentos nas cestinhas da cozinha.
– Hoje farei uma sopa – ela anuncia. – Sobrou ainda um pouco de vagens e batata e mel. Teremos um banquete. Otero está no celeiro.
– Como ele está?
Ela não responde e ele sai para a vermelhidão. As nuvens partiram em regimentos para os contrafortes das montanhas, deixando o sol livre para redimir o último ângulo do vale. No alto do morro, sentado de pernas cruzadas no alto de um saco de grãos, sob o abrigo do celeiro e olhando cegamente para o pôr-do-sol, está o menino de nove anos e meio.
Ele aproxima-se sem dizer uma palavra, puxa uma caixa empoeirada e senta-se ao lado do irmão, que não chora mais mas não tem aparentemente nada a acrescentar. Na parede atrás deles está preso o velho mapa do continente que já pertenceu ao pai deles. Alguns nomes e fronteiras mudaram desde a última guerra, mas Otero vem demarcando o avanço das frontes com os alfinetes coloridos que roubou de Adra, a partir de informações contrabandeadas dos recortes de jornal do mural da sala dos professores.
– Quando papai morreu – ele decide que vale à pena corrigir-se antes de prosseguir. – Quando papai foi para a guerra você tinha três anos e eu dezessete, por isso o que ele não teve oportunidade de fazer cabe agora a mim. Você sabe, todo mundo sabe, que o nosso vilarejo tem um estatuto secreto, que tem garantido nossa paz de espírito durante incontáveis gerações. Você é ainda muito novo, mas posso não ter outra oportunidade. Quero lhe falar agora sobre o Estatuto, e quando for necessário você deve falar ao seu filho da mesma forma.
Sem tirar os olhos da escuridão púrpura que tinge o crepúsculo, ele se alonga com a precisão do homem que não tem tempo. Explica que o Estatuto é tão velho quanto a aldeia; diz-se, ele explica, que precede a chegada dos italianos, precede os alemães, os saxões, os celtas e romanos e talvez até mesmo os homens. O Estatuto é a lei do lugar, e sua paz. Seu conteúdo é simples e sua jurisdição pertence apenas aos cidadãos do sexo masculino; as mulheres podem chegar a ouvir que ele existe, mas o Estatuto não pertence às mulheres e elas jamais saberão o que ele diz.
– Quando há uma guerra ameaçando o horizonte da cidade – ele cita, – isto é, quando não é mais possível ignorar a guerra que se entrevê na distância, todo homem capaz deve apresentar-se voluntariamente para proteger a integridade da província.
– Todo mundo sabe disso – observa Otero, recusando-se a olhar para o irmão mesmo na escuridão. – Isso não tem como ser o Estatuto.
– De fato não é, mas você sabe que a guerra jamais tocou o nosso chão. O racionamento sim, é claro, e o recrutamento e as perdas, mas não o bombardeio e o sítio e o sangue.
Ele pára para ponderar sobre o que acaba de dizer. A noite caiu por completo e lá embaixo só as luzinhas da casa e uma sugestão da fumaça da chaminé.
– O Estatuto é o seguinte – ele morde o lábio inferior. – A participação da aldeia na guerra deve ser evitada enquanto for possível, mas o homem que for para a guerra não deve jamais voltar.
E ele olha para o perfil do irmão, esperando que ele tenha idade para entender.
– Não entendi. Mesmo se ele sobreviver?
– Mesmo se sobreviver – ele desvia os olhos para o chão, coça o pulso com o indicador da outra mão. – Se sobreviver à guerra ele pode tentar a vida em outro lugar, pode, não sei, recomeçar, mas não pode voltar. É esse o estatuto.
– Foi por isso que papai não voltou?
– Papai morreu. Papai morreu na guerra. Foi por isso que ele não voltou.
– Isso quer dizer que você não vai voltar? Nunca mais?
– Não vou voltar, mano, mas é melhor que seja assim. Vocês estarão protegidos, você e meu filho, de quaisquer horrores que eu poderia trazer comigo. Não nos veremos mais, Otero, por isso é importante que você cuide da minha família. Cuide da minha Adra e do meu bebê. Você vai fazer isso?
O menino, ofegante, não ousa responder.
– Antes de partir, meu irmãozinho, quero lhe dar um presente, algo que você sempre quis.
Ele tira o revólver do bolso interno da jaqueta de couro e estende o cabo para o menino. Eles descem o caminho juntos, em silêncio, e ele é grato porque não ocorre ao irmão fazer a única pergunta que ele prefere não responder. A guerra já tocou a vida de Otero o quanto basta. É melhor que ele não precise pensar no que acontece quando um homem viola o estatuto, o que acontece quando um homem volta. Que ele não saiba quando foi usado o revólver.
Naquela noite os três comem em paz, e na manhã seguinte ele acorda beijando a barriga esférica de Adra e partem, ele e seus amigos, ao apito do trem, para a terra onde não há futuro e que é, ele sabe, todo lugar.

A partir de uma idéia original de Ivan Volcov
06 de Setembro de 2007
Para Mark Carpenter
Quando li não lembro onde que a paixão por livros é a mais avassaladora de todas as paixões pensei eu gostaria de ter escrito isso, mas esse é um pensamento que me assalta com tanta freqüência que não lhe atribuo nenhuma significação especial; nada o distingue de outras fugidias falsas reminiscências e pequenas invejas que constituem o meu limitado estro intuitivo e o ruído de fundo de minhas emoções, que, pesado tudo, são literárias todas elas. Os livros tiraram-me da maneira mais justa e completa tudo que me deram: a literatura foi o augúrio que me conduziu a Deus, a ninfa cuja mão me mostrou o amor, o companheiro de espada que me desafiou à lealdade, o adversário que me acendeu a paixão, a amante que me ensinou o tédio. Em troca dessa glória as estantes me varreram, espoliaram e exauriram, devassaram meu universo interior, levando cativa minha vontade e negando-se a deixar em meu poder qualquer fiapo de autenticidade que pudesse ter peso ou validade na vida real. Hoje tudo que sou e que sinto é regido pelo jogo vão da literatura, pela ardente cobiça das ordens de palavras que com resignado afeto sonho serem minhas; sustentado, mantido vivo pela busca pelo assombro definitivo, o prazer e o horror de ler o que eu gostaria de ter escrito, de encontrar aquela frase, aquela particular e assombrosa escolha de palavras que não me ocorreu ter disposto daquela forma mas que já era minha idéia, minha potencial idéia, à espreita por trás dos meus pensamentos, pesada e furtiva e sem jamais vir à tona como a Fera na Selva de Henry James.
Sonhei com Can’acre e com sua Feira muito antes de pisar os losangos de pedra que pavimentam suas angulosas esquinas. Sonhei-a anônima e imponderável: encontrá-la, sabê-la real no mundo real, foi um necessário e previsível e surreal anticlímax. Se a negra, tortuosa Feira tivesse permanecido sem nome e sem realidade no âmbito da obra menor que são os sonhos, seu fascínio não seria talvez inferior e eu não seria mais feliz.
Não previ, é claro, suas coordenadas no espaço; sonhei, no entanto, seus e temas e títulos, seus gigantescos galpões e estreitas estantes ao ar livre, seus negros volumes; sonhei, com indelével clareza, a sensação dela. E quando digo sonhei falo de sonho no sentido primário, a atividade noturna e talvez física, em oposição ao devaneio da imaginação.
Não fui capaz de imaginar a Feira; ela teve de se revelar a mim, ambas as vezes.
Esclareço essas declarações nesta breve nota, e o que justificará talvez o leitor será saber que minha pobre introdução é também minha pobre história; Can’acre e seu sonho são apenas o ícone final, a última pá de terra cansada sobre o túmulo de minha obsessão.
Com oito ou nove anos a literatura já havia me arrancado da maneira mais irreversível a virgindade do pensamento. O orgasmo definitivo, a definitiva ruína, conheci na tarde em que pisei sozinho pela primeira vez o assoalho rangente da escura e empoeirada casa de madeira que abrigava a vasta biblioteca do meu tio-avô, trazida de navio dos Estados Unidos, de onde ele trouxera também o diploma de doutor em Teologia.
Quando mudei com meus pais para Curitiba, antes dos dez anos de idade, meu tio-avô ainda era vivo e morava sozinho por trás de persianas cerradas. A diabetes havia arrancado seus olhos e a artrite suas forças, e que eu soubesse ele só voltava a existir nos breves momentos em que um parente ou conhecido eventual vinha ler, em inglês insuficiente, as obras que ele pedia. Como Borges entre as altas estantes da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, mas na decrépita casa descascada dos fundos do terreno da minha avó, meu tio-avô era uma encarnação do arquétipo do cego em sua biblioteca.
Meu tio não recebia crianças nem mortais que não falassem inglês. Meus primeiros contatos com sua biblioteca e seus sagrados volumes foram nas breves mas diárias visitas que eu fazia à casa, levando a bandeja com nabos mergulhados no leite que minha vó lhe preparava. Enquanto ele cheirava o prato por trás de inquietos olhos cegos eu aguardava ali em pé, tentando não respirar, os olhos percorrendo ávidos os títulos nas estantes mais próximas. Nunca dissemos realmente nada um ao outro nessas ocasiões. Hoje quero crer que naqueles instantes nos unia – o velho de noventa anos e o menino de nove – uma silenciosa e trágica reverência pela solene massa de livros ao nosso redor, a consciência de que estávamos ambos tragicamente separados dela, ele porque lhe faltavam os olhos, eu porque me faltava o idioma.
Os volumes viviam encarcerados atrás das portas envidraçadas de dez ou doze armários de madeira vermelha envernizada, altos, estreitos e idênticos. Logo os decorei: cada um tinha sete prateleiras e seis janelas retangulares de vidro, três em cada folha da porta. Que eu pudesse ver, todos os volumes eram de capa dura, alguns deles (os menos antigos) ostentando as cores vistosas e desenhos vigorosos daquela sobrecapa de papel que os americanos chamam de dust jacket.
Por dois minutos diários eu andava a passos de lesma ao longo dos armários da sala, cabeça inclinada para passar os olhos pelas lombadas, deslizando por desconcertantes títulos dos quais eu não entendia uma palavra, a não ser um eventual God ou um evidente Philosophy. A maior parte dos volumes tinha mais de trinta anos, os mais antigos com capas escuras gravadas com ornamentos e letras douradas. Ali estava The Golden Bough, de Frazer, que mais tarde eu leria em português como O Ramo Dourado sem saber que se tratava do mesmo livro e que a esta altura eu seria capaz de lê-lo em inglês. Ali estavam os três volumes esverdeados das obras de Platão na tradução de Llewelyn e Vaughan, cujo Fédon me levaria às lágrimas nesta mesma sala anos depois. Mais adiante um pequeno e impossivelmente belo volume de poesias de Longfellow, que hoje sei ter sido editado por Nimmo em 1875. Ali estavam, incongruentemente, os dois volumes do Manuale Tipografico de Bodoni.
E havia o cheiro. Se hoje eu sei que o Paraíso cheira a livros velhos, descobri-o nas crepitantes e pobres salas daquela casa escura. O paradoxo estava em que esse bordel da alma ficava a poucos passos de outra casa, também de madeira, mas oposta à casa dos livros no que tinha de luminosa e arejada e barulhenta. Nesta outra, emoldurados por janelas eternamente abertas, pululavam bolos e sucos e tios e netos, e reinava absoluta minha avó.
Minha avó, que por anos a fio preparou os nabos no leite para o seu cunhado, meu tio-avô, o dono dos livros, o cego perdido em sua biblioteca, até o dia em que alguém entrou na casa dos fundos levando a bandeja de nabos (não fui eu) e não encontrou quem pudesse comê-los.
Nessa mesma tarde, depois que levaram o corpo, entrei sozinho no seu santuário-casa-biblioteca e chorei por meu tio-avô, chorei sua cegueira e seu isolamento e os livros que ele deixou para trás, chorei porque ninguém além desse pobre e medíocre menino de dez anos, que não sabia ler inglês, era capaz de reconhecer a a importância e a santidade daquele lugar, chorei pela deleite egoísta que era ter uma biblioteca cega só para mim. De raiva, de alegria e de dor, abri um armário, peguei um livro, escondi-o dentro da camisa e nunca mais o devolvi. Lançando do limiar da porta um último olhar para as prateleiras inúteis e repletas, jurei com a patética convicção de Scarlet O’Hara que jamais voltaria a passar fome. Eu só entraria de novo naquela casa quando dominasse o idioma que me guiaria naquele labirinto de delícias.
Menti.
Muito antes de ser capaz de entender uma frase completa em inglês eu vinha folhear interminavelmente as páginas amareladas, examinar com apaixonado zelo os diagramas, as gravuras, os ornamentos, as ordeiras tabelas assinaladas pela palavra Contents, as citações latinas em itálico, as gravuras em bico de pena. Sentado no chão empoeirado ou empoleirado na cama, por cima dos acolchoados de pena, um único volume nas mãos, na réstia de sol de uma única brecha de janela, eu passava horas olhando as palavras. Minha fascinação não diminuía pela minha incapacidade de entender o que estava escrito; ao contrário, minha ignorância só fazia amplificar o que me pareciam as infinitas possibilidades daqueles textos. Era um peso maravilhoso, avassalador, pensar que aquelas páginas podiam estar dizendo qualquer coisa. Que narrativas fantásticas, que assombrosas teorias aquelas colunas de texto não ocultariam?
Nos seis ou sete anos que se seguiram aprendi a língua inglesa para fazer jus àquela biblioteca. Durante esse período a biblioteca do meu tio-avô permaneceu, a não ser por minhas inócuas visitas, intocada e não-lida em sua solitária casa, seu destino final mergulhado num limbo judicial familiar que pendia alternadamente entre a discussão amigável e o litígio. Minha avó apenas tolerava que eu visitasse a casa; ela parecia ficar satisfeita se eu devolvesse obedientemente a chave no lugar e não roubasse mais do que um livro por visita.
Quando ficou decidido que a velha casa seria derrubada e o seu espaço destinado a fins mais salubres, definiu-se também que os altos armários seriam divididos entre meus cinco tios, os sobrinhos do morto; quanto aos livros, a um irmão do meu pai (o pastor da família) couberam os circunspectos títulos de Teologia e a mim todo o resto – Platão e Shakespeare e Tennyson e Dante e Bertrand Russell e Emerson e Plotino e Marco Aurélio e Dante e Josefo e Plutarco e Samuel Johnson.
No verso seis do capítulo onze da Carta aos Hebreus está escrito que para aproximar-se de Deus é necessário crer que ele existe e é recompensador dos que o buscam; o mesmo pode ser dito, com a mesma retórica e com a mesma e improvável esperança, sobre a busca da satisfação literária. Abri cada volume esperando encontrar ali uma presença, uma feição – uma pessoa, uma surpresa e um jogo; assim, não buscando Deus e não esperando encontrá-lo, vislumbrei na literatura as indefinidas e vastas credenciais de um outro invisível que me provocava e me recompensava e me amava e nutria. No universo de obras maiores mas desiguais da biblioteca do meu tio, aprendi a reconhecer entre uma passagem e outra a voz marcada, equilibrada e fluente do Narrador, o prosador último, o outro do outro lado, meu interlocutor (ao mesmo tempo recordado e imaginado). Aprendi a reconhecer a sutileza de suas inflexões, aprendi a não perder o fio do seu sarcasmo; memorizei a rouquidão de sua prosa, o estalo de prazer na sua língua – suas pausas, suas ênfases e suas obsessões.
Que eu não o encontraria em todas as páginas, nem mesmo na maior parte delas, ficou claro logo de início. A brutal experiência ensinou-me, no entanto, a rastreá-lo; guiava-me menos seu fluido vocabulário do que o caráter inconfundível de seus tópicos, suas inversões, suas estudadas marcações, sua cadência. Senti o pulso do Narrador na nobre dramaturgia do Fédon de Platão, mas perdio-o de vista meia jornada adentro da República; só reencontrei-o, dias depois, na lucidez dos sete primeiros parágrafos de O Demônio da Perversidade de Poe, de 1850. Ouvi sua tranqüila respiração na apaixonada sensatez de Toynbee, mas por angustiantes intervalos ela foi sufocada pela ironia de Wells.
Com o tempo, com o empilhar de volumes e o grifar dos lápis, aprendi a reconhecer uma frase ou um parágrafo do Narrador, a ser capaz de diferenciar de imediato um original de uma impostura.
O Narrador, por exemplo, diz (via Sócrates, via Platão, via F. J. Church)
As long as the sight of one thing brings another thing to your mind, there must be recollection, whether or no the two things are alike,
mas jamais diria (com Emerson)
Shakespeare, Homer, Dante, Chaucer, saw the splendour of meaning that plays over the visible world; knew that a tree had another use than for apples, and corn another than for meal, and the ball of the earth, than for tillage and roads; that these things bore a second and finer harvest to the mind, being emblems of its thoughts, and conveying in all their natural history a certain mute commentary on human life.
Ele diz (com Bernard Shaw em Man and Superman)
He is carefully dressed, not from the vanity that cannot resist finery, but from a sense of the importance of everything he does which leads him to make as much of paying a call as other men do of getting married or laying a foundation stone,
mas jamais diria (com Bernard Shaw em Man and Superman)
Two other chairs are against the wall between the busts.
Na Conferência dos Pássaros de Farid ud-Din Attar está contada a história de um homem que encontrou Majnun peneirando terra na beira de uma estrada. “O que você está procurando?” perguntou o homem. “Estou procurando [minha amada] Laïla”, ele respondeu. “E você espera encontrá-la aqui?” insistiu o homem. “Procuro-a em todos os lugares”, replicou Majnun, “na esperança de encontrá-la em algum”.
Reconheci nessas linhas o estilo acústico e inimitável do Narrador, e percebi que com essa história ele me fornecia uma ferramenta, uma evidente mas apropriada metáfora da minha própria busca. Instruído por ele mesmo, passei a procurá-lo em todos os lugares, na esperança de encontrá-lo em algum.
Na virada dos meus trinta anos a populosa mas finita biblioteca esgotou-se, e perdi de vista o Narrador quando virei a última página do último volume dA História do Declínio e da Queda do Império Romano de Gibbon.
Desnecessário dizer que minha obsessão pela satisfação literária havia ultrapassado as proporções de vício; a súbita ausência do Narrador assassinou-me. Peneirar a terra do caminho em busca dele pareceu-me uma opção tão razoável quanto deve ter parecido a Majnun; o absurdo, eu entendia agora, é ter de ser privado de Laïla.
E peneirar a terra foi o que passei a fazer. Decidi dedicar a vida a essa empresa, de antemão inútil: canalizar todos os recursos disponíveis, e mais, à patética tentativa de reencontrar o Narrador. Para ser justo preciso dizer que encontrei-o fora dos limites daquela biblioteca original, em pelo menos duas ou três ocasiões memoráveis: ocorrem-me agora, naturalmente, a prosa de Borges, a de Lovecraft, a de Joseph Campbell (que, previsível mas tragicamente, esgotaram-se também).
Encontrei traços do Narrador em Conrad, em Ende, em Bradbury, em Thomas Ligotti. À parte dessas e de outras poucas exceções, no entanto, a literatura contemporânea provou-se deserto, a palavra aplicada aqui sem qualquer força de metáfora. A tarefa de peneirar terra de verdade à beira de uma estrada de verdade teria se mostrado talvez menos frustrante; teria pelo menos me colocado mais próximo de Majnun, mais próximo de Attar, mais perto do Narrador.
Borges conduziu-me a William James, às rudes kenningar do norte, às tragédias da honra no Japão, às Mil e Uma Noites. Devo a ele e a Campbell as breves mas eloqüentes encarnações do Narrador que testemunhei nessas e em outras literaturas. Li As Lendas dos Judeus, li O Épico de Gilgamesh e li o Alcorão, mas todos cometeram a impudícia de se esgotarem. Passado tempo suficiente não havia tradição que eu não houvesse devassado, período histórico que eu não houvesse percorrido, obra menor que eu não houvesse assimilado.
Fernando Pessoa veio e passou.
Silenciou-se, para todos os efeitos, a voz do Narrador. Cessou para mim a literatura, vedou-se o acesso ao pequeno prazer da surpresa e ao infinito deleite do reconhecimento. Continuei a capturar frases avulsas do Narrador numa ou outra página moderna, uma curta zombaria, uma falsa promessa – mas era pouco, aquilo era pouco.
Borges falou-me, não lembro onde, de alguém que gostaria de ser capaz de esquecer As Mil e Uma Noites só para ter o prazer de lê-las novamente pela primeira vez. Entendi de imediato esse sentimento, e sabia que era o Narrador que zombava de mim com a ironia. Meras palavras haviam me seduzido, enriquecido e moldado, e traído.
Quando tive o sonho, aos vinte anos de idade, sonhei-o duas noites seguidas, ou talvez duas vezes na mesma noite. No sonho eu estava em Paris (eu nunca havia estado em Paris, mas sabia que estava em Paris), e na manhã ou entardecer de Paris eu andava entre ruas estreitas e prédios assobradados, na companhia de alguém de que não me lembro ou que talvez não estivesse lá.
Parei numa esquina diante da vitrine de uma livraria pequena, nostálgica mas muito arejada, guarnecida por colunas desordenadas de volumes empilhados na horizontal. No alto da pilha mais próxima vi, através do vidro do sonho, um volume de tamanho médio, de capa dura, a capa de trás virada para cima. A dust-jacket era em duas cores, preta na metade de cima, vermelha na de baixo, os caracteres brancos. Aproximei-me de imediato e o deslumbramento do sonho está em que não fui capaz de entender o que estava escrito. Com a convicção ao mesmo infundada e completa dos sonhos eu sabia que aquilo era francês, mas não o francês da vida real (que eu não compreendia, mas cuja sonoridade e cor eu já conhecia): um francês de sonho, incompreensível, suficiente, absoluto. O meu assombro diante daquele desconhecido foi completo e avassalador, e esgotou num único soluço de esperança as sensações possíveis da existência.
Virei-me, e vi que as ruas estreitas haviam dado lugar a um grande pátio ensolarado, com enormes galpões e cilos ao fundo, o calçamento de paralelepípedo tomado por altas estantes de livros assando no sol da manhã. Homens de sobretudo e mulheres de calções de seda percorriam os claros corredores sondando, folheando, pechinchando, peles e páginas tremendo na excitação da brisa.
E só.
Março de 2002 em Paris, a Paris da vigília, eu estava sentado no coquetíssimo Café Littéraire do Salon du Livre, aguardando o início de um fórum qualquer enquanto revia as anotações que trazia da Buchmesse de Leipzig. Mais cedo naquele dia eu havia sido apresentado a um editor associado da Societe des Auteurs et Compositeurs Dramatiques, um magro e irriquieto jovem marselhês chamado Jean Alègre.
Foi ele quem me encontrou e, sem dizer uma palavra, puxou uma cadeira e sentou-se, os braços cruzados apoiados nas coxas.
– Entediado? – ele anunciou em zombeteiro francês.
– Plenamente – sorri, levantando os olhos e colocando de lado as anotações.
As afinidades improváveis que haviam surgido no nosso contato à mesa do café da manhã eram suficientes, ambos sabíamos, para que nos sentissemos agora à vontade na presença um com o outro, e isso (estava implícito) era por si só recompensa maior do que qualquer coisa que se pudesse esperar de um evento como aquele.
A princípio haviam-se levantado trivialidades apenas interessantes, como o fato de Jean Alègre ter uma tia no Rio de Janeiro e eu uma irmã em La Seyne-sur-Mer. Depois, com a imponderada ousadia de estranhos que não esperam encontrar-se novamente, havíamos descoberto que compartilhávamos dos mesmos gostos por autores clássicos, ternos antiquados e escuros, programas de rádio dos anos 40, a aversão a aglomerações e o desprezo por trivialidades apenas interessantes.
Como o tema do Salon daquele ano era L’Italie à l’honneur, eu não havia hesitado em mencionar Dante e Orlando Furioso; havia enfatizado o caráter perturbadoramente contemporâneo das reflexões de Marco Aurélio, e Jean anunciara que estava relendo as Meditações na tradução passável de um volume (o segundo) dos Harvard Classics, de 1910, que tirara da pasta para me mostrar, o dedo acariciando a deliciosa rubrica de P.F. COLLIER & SON COMPANY.
– “Begin the morning by saying to thyself, I shall meet with the busybody, the ungrateful, arrogant, deceitful, envious, unsocial” – ele havia citado num inglês imperfeito e bem-humorado, enquanto passava geléia cor de sangue numa instável torrada.
– Apropriado – eu dissera.
Horas mais tarde, portanto, no burburinho que anunciava a entrada de algum autor célebre no Café Littéraire, Jean fez-me uma oferta cujos termos não tenho permissão de divulgar, apertou-me a mão e desapareceu num apinhado corredor.
Seria inútil, talvez improcedente, descrever com a brutal precisão de uma novela contemporânea a curiosa viagem de automóvel que empreendemos cedo na manhã seguinte. Deixarei que a embeleze a imaginação do leitor: que proveja o necessário sigilo, o tédio, o calor, as poucas palavras, a possível tensão. Os mais ousados intuirão minha calma, meu profético bem-estar.
Depois de duas ou três horas Jean Alègre parou o carro. Pela janela aberta entrava o ventoso silêncio do que podia ser uma pequena cidade ou uma animada zona rural. Ele anunciou que eu podia finalmente olhar.
Estávamos, disse-me, em Can’acre.
Deixamos o carro numa esquina na orla da cidade e percorremos ruas estreitas e populosas até a praça central. Ali, como em todo o caminho, encontramos ruas e calçadas tomadas por frágeis estantes dobráveis de madeira, cada estante tomada por livros de todos os tamanhos, os maiores ostentando elaboradas capas negras esculpidas com criaturas fantásticas em papier-maché, os menores varados por belíssimos ornamentos de douradas filigranas.
Muito antes de chegarmos à vasta praça central além dos repletos galpões e cilos, mesmo talvez antes de abrir ao acaso um volume e deparar-me com as esperadas palavras num idioma desconhecido, eu já havia intuído por completo Can’acre e sua feira. Meu sonho, previsivelmente, havia invadido a realidade; a realidade, de forma imprevisível, havia sido invadida pelo sonho de outrem.
Em Can’acre (ignoro seu nome verdadeiro), uma cidadezinha muito real a duas ou três horas de viagem de Paris, todos são filólogos, todos escritores e – naturalmente – todos tipógrafos. Nas casas abundam as prensas, os tipos móveis, as colas, as pilhas de papel, as escrivaninhas, os tinteiros, talvez até, Deus nos livre, os computadores pessoais. Periodicamente (quem sabe todos os dias, não tenho como saber) cada habitante/autor/editor apresenta seus incompreensíveis e belamente pretensiosos volumes na despretensiosa Feira. Cada volume é, tanto quanto eu saiba (Jean Alègre apressou-se em não me dar explicações), único e perfeito e bem-cuidado e perfeitamente compreensível para o seu autor. Ignoro se os idiomas de Can’acre são peculiares às suas obras ou a seus autores; basta-me saber, com a mesma e imediata convicção que se abateu sobre mim naquela manhã, que cada livro da Feira é uma uma obra real, estanque, ininteligível mas perfeitamente decifrável – e pode estar dizendo qualquer coisa.
Abri mão naquele dia, como Jean Alègre já fizera antes de mim, do terrível privilégio de morar em Can’acre. Ao contrário dele, nunca voltei à Feira. O grosso volume que roubei da prateleira mais alta de uma precária estante numa ensolarada esquina (pois a moeda de Can’acre é o furto), que trago comigo em todas as minhas cabeceiras e que só ousei folhear uma vez (temeroso de intuir uma palavra, deparar-me com a chave do seu código ou compreender o seu assunto), é testemunho suficiente do assombro possível.

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