11 de Setembro de 2011

Uma perversa simetria

Goiabas Roubadas

Não é possível separar o sofrimento do 11 de setembro da cobertura de mídia que o cercou, porque a mídia foi o motivo pelo qual a atrocidade foi perpetrada. Essas mortes foram projetadas e desenhadas para a câmera, aprovisionando-a de todos os modos.

Por essa razão a cultura das imagens tem um relacionamento diverso com os ataques, que serviu como confirmação em pesadelo de sua má consciência. Houve uma perversa simetria no fato dos terroristas terem servido a destruição das torres a uma sociedade cujo entretenimento favorito consiste em assistir ao maior número possível de explosões gigantescas. O espetáculo foi ao mesmo tempo a visão mais terrível do mundo e exatamente o tipo de imagem que toda organização de notícias cobiça e todo espectador sintoniza para consumir.

Laura Miller, escrevendo sobre porque não
é possível escrever boa ficção sobre 11 de setembro de 2001

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26 de Junho de 2009

O pop não poupa ninguém

Sociedade

A fama é o pecado de se tornar importante para alguém que você não conhece e que não conhece você.

Diz-se da pornografia que ela é degradante para os homens e mulheres que se despem e se rebaixam ao sexo explícito em benefício do espectador. Porém o segredo da pornografia, a verdadeira chave de sua atração e de sua consagração, está em que ela é tão degradante para o espectador quanto para o envolvido na sua produção. Nada há de inerentemente humilhante ou atraente no sexo, mas a pornografia oferece um pacto mútuo de desumanização, e nisso reside o seu apelo.

A fama e a pornografia são indistinguíveis nisso, no que fornecem um mesmo acordo de desumanização entre produtor e consumidor, entre artista e espectador, entre famosos e fãs.

Absolutamente ninguém encarnou melhor essa potência do que Michael Jackson, o homem mais irresistível do mundo, o rapaz bonito que se desfigurou publicamente porque, muito evidentemente, nós o desfiguramos. Agora que a Fera está morta podemos reconhecer, como numa reviravolta muito rasa de Shyamalan, que os desfigurados somos nós, porque adoramos um homem que não conhecíamos e o destruímos no processo. A fama não cria deuses, só cria bodes expiatórios.

Um homem derramou a sua beleza por nós, e nós o consumimos.

20 de Agosto de 2007

Fanfarra para o homem comum

Pense comigo

 

A sombra na súbita celebridade de Paul Potts está, é claro, na possibilidade (a certeza, dirão alguns) de a fama acabar corrompendo um sujeito tão evidentemente gente boa como ele. A fama é uma gasolina implacável que queima tanto quanto ilumina; ninguém, absolutamente ninguém, escapa ileso da celebridade.

A fama quer destruir Paul Potts, quer destruir Ricardo Gondim, quer destruir o Papa, quer destruir até mesmo este pobre articulista de que ninguém ouviu falar. É preciso uma tremenda dose de integridade pessoal – e penso em exceções como Jesus, Gandhi e Madre Tereza – para resistir ao cal descaracterizador da celebridade. Esses heróis da resistência fugiram constantemente da celebridade, mas mesmo eles morreram um pouco a cada dia com o toque profano dela.

A celebridade é doença terminal porque extrai do sujeito a sua coisa mais essencial, a sua humanidade. Transformar homens em ídolos é despojá-los de sua humanidade, e portanto de sua relevância. É ajoelhar-se diante do acessório recusando-se a abraçar o essencial. É espetáculo de antropofagia, consumo público de seres humanos.

E, depois de conviver por tempo suficiente com a adoração, a vítima da celebridade enfrentará um dia a tentação de ajoelhar-se diante de si mesmo – tentação que é possível resistir por algum tempo, mas não indefinidamente ou o tempo todo. E quando o ídolo finalmente resvalar e cair, cairá publicamente, e seu público estará pronto para contorcer-se em horror e prazer diante da sua capitulação – num êxtase fora do corpo que terá precisamente a mesma natureza e intensidade daquele em que o aplaudiram na primeira vez.

* * *

Há no entanto algo de terrivelmente belo, algo de profundamente certo e curativo, na ascensão meteórica e na adoração arbitrária do azarão Paul Potts. Minha impressão é que apenas parte desse sentimento origina-se no prazer rasteiro do anacronismo – o deleite plebeu de ver um homem ordinário fazendo feitos extraordinários.

É claro que amamos Paul pela sua medida de competência, mas – e há aqui uma surpresa – amamo-lo também pelas suas incompetências, que razoavelmente nos representam. Um homem sem atrativos brilha por alguns momentos como um deus, e nos ocorre a atordoante possibilidade de que talvez haja um deus à espreita dentro de cada homem. Imagino que todos os homens sejam redimidos, por um instante, por essa nossa percepção fugaz do mistério que permanece fechado em todos.

Shakespeare opinou, pela boca de Hamlet, que se déssemos a cada homem o que merece não haveria quem escapasse do açoite. A glorificação do anônimo Potts, por outro lado, faz-me imaginar que se a cada homem fosse dado encontrar uma voz para expor sua ânsia sem nome e a ourivesaria de sua arquitetura interior, não haveria quem escapasse do aplauso.

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