07 de Fevereiro de 2005

Checklist do egoísta esclarecido

Sociedade

[     ] Essa gente tem algum poder, ou não tem poder algum?
[     ] Há algo neles que devo temer pessoalmente, ou não?
[     ] Eles irão me expor se eu fizer isso ou aquilo, ou não me exporão?
[     ] Se é fato que me exporão, então com que objetivo, e pelo que exatamente uma pessoa é exposta hoje em dia?
[     ] Será que não tenho como ganhar a confiança deles e ao mesmo tempo ludibriá-los um pouco, se eles forem de fato tão influentes?
[     ] É a coisa a se fazer, ou não?
[     ] Não posso, por exemplo, alavancar a minha carreira precisamente através deles?

Extraído das reflexões do cafajeste Pyotr Petrovich, em algum lugar entre o Crime e o Castigo de Dostoiévski.

Leia também:
A raça superior

23 de Janeiro de 2005

Doente

Goiabas Roubadas

O que eles costumam dizer? Eles dizem: “você está doente, por isso o que vem imaginando não passa de delírio fora da realidade”. Mas não há lógica estrita nesse raciocínio. Concordo que fantasmas só aparecem para gente doente, mas isso apenas prova que fantasmas não podem aparecer para ninguém mais além de gente doente, não que eles mesmos não existem.

O assustadoramente lúcido Svidrigailov, defendendo-se do ceticismo de Raskolnikov depois de revelar-lhe que estava sendo visitado por fantasmas. Ainda Dostoiévski, no mesmo e perturbador Crime e Castigo.

11 de Janeiro de 2005

Os crimes do bem maior

Goiabas Roubadas, Sociedade

«Creio apenas na minha idéia geral. Ela consiste precisamente no fato das pessoas estarem divididas de forma genérica, segundo a lei da natureza, em duas categorias: uma categoria inferior ou, por assim dizer, material (os comuns), que serve apenas para a reprodução de sua própria espécie; e as pessoas propriamente ditas – quer dizer, aqueles que tem o dom ou o talento de trazer alguma palavra nova para o seu ambiente.

As pessoas da primeira categoria, a material, são por natureza conservadoras, moderadas, vivem em obediência e gostam de serem obedientes. Na minha opinião elas até mesmo devem ser obedientes, porque esse é o propósito delas, e para elas não há decididamente nada humilhante em agir dessa forma. Os da segunda categoria transgridem todos a lei, são destruidores ou têm inclinação para destruir, dependendo das suas habilidades. Os crimes dessas pessoas, naturalmente, são relativos e variegados; na sua maior parte elas requerem, em declarações muito diversas, a destruição do presente em nome do que é superior. Mas se uma dessas pessoas precisa, pela sua idéia, passar por cima de um cadáver, por cima de sangue, então nela mesma, na sua consciência, ela tem o direito, na minha opinião, de permitir-se derramar sangue – dependendo, entretanto, da idéia e da sua escala, perceba bem isso. É apenas neste sentido que eu falei [...] a respeito do direito deles de cometerem crimes de forma legítima.

Não há, no entanto, muito motivo para alarme; as massas dificilmente reconheceriam esse direito [nesses indivíduos extraordinários]; elas os punem e enforcam (mais ou menos), cumprindo assim, e de forma muito apropriada, a sua função conservadora; porém, nas gerações subseqüentes essas mesmas massas colocam os punidos num pedestal e adoram-nos (mais ou menos).

A primeira categoria é senhora do presente; a segunda, senhora do futuro. A primeira preserva o mundo e faz com que a humanidade aumente numericamente; a segunda move o mundo e o conduz em direção ao seu objetivo.»

O protagonista de Crime e Castigo, que havia cometido há alguns dias (e sem que ninguém ainda soubesse) um duplo assassinato, desfia a sua própria versão da teoria da raça superior.

29 de Novembro de 2004

Comparação

Família, História

Para meus familiares e amigos letos, uma linha que li esta semana do assombroso Crime e Castigo, de Dostoiévksi (publicado em 1866, cento e um anos antes deste que vos fala vir à luz):

Sei que minha irmã escolheria antes ser um escravo negro numa plantação [norte-americana] ou um leto para um alemão báltico do que rebaixar-se a esse ponto [de casar por interesse].

A nota de rodapé esclarece:

A situação dos letos debaixo do jugo russo era tão ruim que até mesmo os alemães pobres da região consideravam-nos como escravos – assunto muito discutido na imprensa russa da década de 1860.

Em 1892, onze anos depois da morte de Dostoiévksi, meu avô Janis Purens arriscou trocar a Letônia pelo Brasil.