26 de Setembro de 2006
Enfim, o fascinante é que li em National Geographic que há mais pessoas vivas agora do que todas as que morreram na história da humanidade. Em outras palavras, se todo mundo quisesse interpretar Hamlet ao mesmo tempo não seria possível, pois não há caveiras suficientes.
Jonathan Safran Foer, Extremamente alto e incrivelmente perto
07 de Junho de 2006
Portugal sofre de, pelo menos, dois grandes flagelos demográficos: uma drástica diminuição da natalidade, com um substancial aumento da esperança média de vida, e a desertificação humana do interior. Isso faz com que zonas inteiras da faixa leste do país estejam reduzidas a dúzias de velhos solitários, artificialmente arrebanhados em Lares da Terceira Idade, a que se dá, por vezes, nomes que seriam cómicos se não fossem cruéis. A uma dessas casas botaram o nome de “Última Morada”, e outras afinam pela mesma espécie de bom-gosto. Juntando a tudo isso, vem o verão todos os anos levar o que sobra de uma antiga floresta nacional, alargando os horizontes num sem-fim de milhares e milhares de figuras esguias e ressequidas de árvores queimadas.
Quanto mais longe de Bruxelas, de Estrasburgo ou de Paris, melhor é Portugal.
Não é um problema especificamente português. O que será especificamente português é essa divisão do país em Litoral e Interior, essa desertificação que assola a zona mais próxima dos centros de decisão da União Européia, a região que poderia, teoricamente, atrair população, quadros, dinheiro, investimento, a faixa do território que mais poderia beneficiar da integração de Portugal na União. Mas não é assim. Quanto mais longe de Bruxelas, de Estrasburgo ou de Paris, melhor é Portugal – ou pelo menos assim julgamos nós. É um Estado-Membro ao contrário. É como se na América as regiões de um Estado fossem tão mais desenvolvidas quanto mais afastadas de Washington ou de Nova Iorque. Portugal olha para a Europa, a que pertence, às curvas, através do mar e do ar. Por terra, o histórico peso da Meseta impede os portugueses de ver e de entender a União em linha recta. Tudo o que tenha de passar pela Meseta faz tremer o peito.
Vem isto a propósito de um fenómeno singular que está atraindo as atenções para Vila de Rei. Aquela vilinha pequena do distrito de Castelo Branco, na chamada zona d’ “O Pinhal”, tem a particularidade de ser a povoação que fica no centro geográfico de Portugal, bem perto do Alto de Milriça – o centro geodésico do país. E padece do outro mal que desertifica o interior: a emigração, que leva os poucos jovens que a terra inda produz. Vêm à ideia os versos de Rosalia:
“iste parte e aquel parte e todos todos se ván, Galiza sen homes quedas que te poidan traballar”…
Pois teve o município de Vila de Rei uma idéia original: chamar gente do Brasil para repovoar o concelho.
Teve o município de Vila de Rei uma idéia original: chamar gente do Brasil para repovoar o concelho.
Chegaram as primeiras quatro famílias inteirinhas, de Maringá, Estado do Paraná, oito adultos e seis crianças.
Portugal tem 500.000 imigrantes, na sua maioria eslavos ou africanos, que, aliás, preferem os grandes centros litorais. Mas chamar gente do Brasil, e para o interior, tem um gostinho especial e refresca a língua. Inverte os caminhos da História e, quem sabe, um dia refrescará também a toponímia.

José Cunha-Oliveira – de Olivais, Coimbra, Portugal – piloto do notável Toponímia Galego-Portuguesa… e Brasileira, de onde arrebatei este documento
* * *
“Brasileiros chegaram há um mês a Portugal e ‘estão adorando’”, diz esta nota do Portugal Diário.
À porta da casa dos brasileiros há quem deixe diariamente fruta, legumes, ovos, azeite, vinho.
12 de Novembro de 2005
O período de cem anos que tem o ano 2000 como seu ponto central marcará três outras transições importantes e únicas na história da humanidade. Em primeiro lugar, ninguém que morreu antes de 1930 viveu num período durante o qual a população humana dobrou de tamanho. Semelhantemente, quem nascer depois de 2050 provavelmente não viverá um período no qual a população mundial dobrará de tamanho.
Em contraste, todos que têm hoje mais de 45 anos já testemunharam mais do que a duplicação da população humana, de três bilhões em 1960 a 6.5 bilhões em 2005. A maior taxa de crescimento populacional já alcançada, cerca de 2,1 por cento ao ano, ocorreu entre 1965 e 1970. A população humana nunca cresceu a tal velocidade antes, e provavelmente nunca voltará a crescer a essa taxa.
Nossos descendentes olharão para o pico do final dos anos 60 como o evento demográfico mais importante da história da população humana, embora aqueles de nós que o experimentaram não foram capazes de reconhecê-lo na ocasião.
Joel E. Cohen, Scientific American

Leia também: O último tio da terra
The century with 2000 as its midpoint marks three additional unique, important transitions in human history. First, no person who died before 1930 had lived through a doubling of the human population. Nor is any person born in 2050 or later likely to live through a doubling of the human population.
In contrast, everyone 45 years old or older today has seen more than a doubling of human numbers from three billion in 1960 to 6.5 billion in 2005. The peak population growth rate ever reached, about 2.1 percent a year, occurred between 1965 and 1970. Human population never grew with such speed before the 20th century and is never again likely to grow with such speed.
Our descendants will look back on the late 1960s peak as the most significant demographic event in the history of the human population even though those of us who lived through it did not recognize it at the time…
21 de Setembro de 2005
Um artigo da última Scientific American opina que a humanidade está numa encruzilhada sem precendentes – um momento de decisão marcado por coordenadas como energia, poluição, população, biodiversidade, saúde pública, alimentação, água, empregos e clima. Individualmente esses fatores sempre representaram problema, mas nunca neste grau e de forma tão interrelacionada quanto neste primeiro degrau do milênio.
O ano de 2005 marca o fulcro central de uma década que representará três transições fundamentais e únicas na história da humanidade. Antes do ano 2000 o número de jovens sempre foi maior do que o número de velhos. Desde 2000 há mais gente velha do que nova. Historicamente, sempre houve mais gente morando no campo do que na cidade. De 2007 em diante a população urbana será mais numerosa do que a rural. Desde 2003 as mulheres ao redor do mundo têm tido e continuarão a ter, em média, filhos suficientes apenas para repor o seu próprio lugar e o do pai na geração seguinte – ou menos.
As três mudanças são avassaladoras em sua singularidade e suas conseqüências, mas a última me pegou particularmente de jeito. Eu, que como muitos idealizo e sinto falta da grande família grande, vou continuar sentindo.
As tendências são evidentes na vida diária. Muitos de nós já tiveram a experiência de se perder na sua cidade natal, que cresceu ao ponto de não a reconhecermos mais. O crescimento, porém, tende a se desacelerar à medida que as famílias diminuem. Cada vez mais crianças crescem não apenas sem irmãos, mas sem tios, sem tias e sem primos.
Caracas, crescer sem irmãos já me parece suficientemente ruim, mas sobreviver sem tios, tias e primos me parece inconcebível. Chegará o dia em que o último tio dará o seu último suspiro e então seu cargo será uma curiosidade, mera nota de rodapé no museu de figuras históricas que não existem mais – ao lado de “taquígrafo”, “meeirinho” e do sujeito que acendia as lamparinas nas esquinas quando anoitecia.
Os jantares de final de ano da família terão, no máximo, oito pessoas – normalmente, apenas três.

FALTAM 3 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL
17 de Julho de 2005
Um desastre de proporções bíblicas, mas sem rãs pulando no seu prato, subindo pela sua calça e brotando do ralo da pia. O que poderia ser pior que uma praga de rãs? Rã nenhuma, é claro.
O que poderia ser pior que uma praga de rãs?
Faz alguns anos que venho acompanhando a notícia de que os sapos e rãs estão desaparecendo em velocidade alarmante em diferentes lugares do mundo – e depois de ler tantos artigos em publicações diferentes (por exemplo aqui e aqui) sou forçado a concluir que não é mesmo lenda urbana.
Os dados vem de exatamente todas as regiões do globo: os pântanos nunca foram tão silenciosos. A partir de 1989 os cientistas começaram a perceber um sensível declínio na população mundial de anfíbios, e a tendência nos últimos anos parece ter apenas se acentuado. Em algumas regiões, como na América Central, na região das Rochosas nos Estados Unidos e em algumas porções da Austrália, para grande parte das espécies o declínio já chegou à extinção.
Ninguém sabe ao certo quantas espécies de anfíbios já desapareceram apenas no continente americano, que é lar de mais da metade do total mundial. No ano 2000 calculava-se que mais de 3000 espécies de anfíbios americanos corriam o risco de extinção, e fazia já anos que ninguém via um único espécime que fosse de 117 delas. Muitas dessas espécies de anfíbios, você já deve ter ouvido falar, são (ou eram) usadas como base para o desenvolvimento de novos remédios e tratamentos para um amplo espectro de doenças.
Não são apenas as espécies exóticas de sapos que estão desaparecendo em escala catastrófica, mas também as mais rasteiras e (anteriormente) comuns. As razões da extinção, embora ninguém saiba ao certo, estão certamente ligadas a mudanças no ecossistema geradas pela expansão das áreas de habitação e produção humanas. Os anfíbios desaparecem mesmo das reservas e áreas protegidas, por isso além da poluição e dos agentes locais os cientistas receiam que o aquecimento global, os raios ultravioleta e novos agentes infecciosos possam estar entre os culpados.
A extinção dos anfíbios só se compara em escala à extinção dos dinossauros.
Mais de um cientista afirmou que a presente extinção dos anfíbios só se compara em escala à extinção dos dinossauros, que também desapareceram cronometradamente e de uma hora para outra de toda a face do planeta, sem que ninguém saiba exatamente porquê.
Como o ecossistema é uma rede extremamente sensível, na qual em toda a criação apenas o homem ousa mexer deliberadamente, a nova praga do desaparecimento das rãs pode ser o gatilho para pragas novas e inesperadas, que tem o potencial de afetar muitas outras espécies além da humana. As moscas são apenas o começo.

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