03 de Outubro de 2011

O crepúsculo dos deuses

Manuscritos, Quase Ciência

Eu
Quero um lugar
Que não tenha dono
Qualquer lugar

Azymuth, Linha do horizonte

 

Somos gente, e gente precisa de mitos, aquelas grandes narrativas formadoras que nos alçam para além das perplexidades paralisantes da realidade cotidiana e servem de espinha dorsal sobre a qual suportamos e orientamos o arco da vida.

Como já foi suficientemente demonstrado, todos vivemos debaixo de uma narrativa deste tipo, mesmo os mais céticos e descrentes dentre nós. Talvez não baste dizer que os seres humanos precisam de mitos; mais acertado seria dizer que são os mitos que nos tornaram humanos em primeiro lugar, e que são eles os patrocinadores do que nos resta de humanidade.

O ocidente pré-moderno via o arco ascendente da existência como desenhado exclusivamente por Deus: era a divindade que víamos nos conduzindo gradualmente de um presente incerto a um futuro de segurança. A condução divina era nossa narrativa sustentadora.

Na era moderna, Deus foi grosso modo substituído pela razão. Passamos a crer que a razão (equipada por todos os seus periféricos ideológicos: a ciência, a autonomia, a liberdade, a democracia, o materialismo, a privatização da produção e da vida social, o otimismo humanista, o capitalismo liberal) é quem nos guiaria de um presente incerto para um futuro de segurança. Criamos coletivamente a narrativa da colonização do espaço.Nossa narrativa orientadora passou a ser arco ascendente do progresso conduzido pela mente racional.

Parte fundamental da estrutura de um mito (como tentei indicar acima na expressão “arco ascendente” e em verbos como “conduzir” e “guiar”) é o seu componente geográfico. Em cada mito está embutida uma promessa de deslocamento, a promessa de que seremos através da eficácia do próprio mito transferidos de um lugar para outro – em particular, do lugar em que estamos para um lugar melhor.

Independentemente do mito/narrativa que nos conduz, estamos todos antevendo e ansiando por esse “lugar melhor” de tranquilidade e abundância ao qual cremos que o mito pode nos levar. Esse destino já foi, para um punhado de hebreus sem-terra, o fulgor da Terra Prometida, que manava leite e mel. Para milhões de mulheres, escravos, párias e marginalizados de todos os impérios, foi o Paraíso em que reinariam a paz e a justiça que não encontraram na experiência terrena. Para a Europa cristã saturada, exaurida, injusta e infértil da segunda metade do milênio passado, a Terra Prometida foram as Américas, destino de impensável abundância e de irrestrita liberdade. Para os norte-americanos decepcionados com o convencionalismo, a rigidez social e o corporativismo das colônias do Atlântico, o “lugar melhor” foi o Oeste Selvagem, terra da oportunidade, da igualdade e do ouro1.

Portanto cada época (e, num certo sentido, cada lugar) teve seu próprio “mito de migração redentora” subalterno ao seu mito principal. Vivemos todos debaixo da expectativa perpétua desse lugar de abundância e de realização, esse destino ao mesmo iminente e distante, onde poderemos finalmente ser quem somos e não teremos mais de viver debaixo das limitações e constrangimentos da vida que temos agora – isto é, aqui.

No século XX, ao mesmo tempo em que a tradição cristã perdia definitivamente para a ciência o primeiro lugar como mito orientador no ocidente, os homens terminavam de mapear o globo e ponderavam com terror crescente as consequências da limitação de sua circunferência. Havendo os destinos terrestres de abundância finalmente se esgotado, a humanidade esboçou um mito de migração redentora que se adequasse ao seu novo mito orientador, e criamos coletivamente a narrativa da colonização do espaço.

As profecias do novo mito, contendo suas promessas e advertências, passaram a ser registradas nos livros de ficção científica, que são um ramo contemporâneo da milenar literatura apocalíptica. No Apocalipse de João a salvação dos homens está na cidade celeste que desce do céu à terra; na ficção científica a salvação da terra está nos homens que sobem ao céu para edificar as cidades celestes.

A ficção científica prometeu que colonizaríamos os planetas, que viveríamos em estações orbitais sustentáveis, que exploraríamos galáxias e pisaríamos sistemas planetários repletos de riquezas que a imaginação não pode conceber. Ensinou-os que descobriríamos no espaço novas formas de vida, novas fontes de energia e recursos, para todos os efeitos, inesgotáveis. Doutrinou-os com a ideia que a exploração espacial representaria uma retomada muitas vezes multiplicada do espírito da Grandes Navegações dos séculos XV e XVI, e que recuperaríamos nela nossa vocação de plantar colônias e esbarrar em novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.

O espaço tornou-se o nosso destino redentor, “a fronteira final” que prometia e possibilitava a grande futura migração – a mágica transferência para um domínio que representaria a solução de todos os problemas energéticos, populacionais e culturais que caracterizam a condição circular do nosso planeta.

A ideologia da exploração espacial ao mesmo tempo justificou a exploração dos recursos da Terra e a requereu. Se não tomamos medidas para conter a superpopulação foi porque a ficção científica implantou no inconsciente coletivo a noção de que no futuro estaríamos colonizando o espaço sem fim. Se não tomamos medidas para conter a radical espoliação dos recursos da terra foi porque a literatura apocalípticaA exploração dos recursos do espaço talvez requeira mais recursos do que a Terra tem de sobra para oferecer. da exploração espacial prometeu que em breve teríamos acesso aos recursos inesgotáveis e sem precedentes das estrelas e dos planetas2.

Porém nas últimas décadas temos testemunhado o que pode ser uma interrupção radical de toda essa narrativa, e o recente encerramento do projeto do ônibus espacial é apenas o símbolo mais recente dessa quebra de continuidade. A exploração espacial como a sonhamos talvez não seja impossível, mas o sonho tem perdido em golpes implacáveis da realidade o seu poder de factibilidade e de oportunidade, e portanto sua força de mito redentor.

Tudo que diz respeito à colonização do espaço tem se mostrado mais complexo e cheio de obstáculos do que costumávamos prever. Colocamos o pé na lua meia dúzia de vezes – custou caro e ensinou-nos muito em todas as áreas, mas foi só. Nenhum pé humano pisou o solo do mais próximo dos planetas do nosso próprio sistema, e não há qualquer perspectiva de que essa visita possa materializar-se nas próximas décadas. Se não temos como sequer antecipar ou arrebanhar a tecnologia e os recursos necessários para a mais simples das viagens interplanetárias, o sonho da colonização do nosso próprio sistema permanece distante ao ponto do irreal – quanto mais o de uma viagem a outro sistema planetário, quanto mais o de uma realidade em que esse tipo de viagem se torne coisa comum, factível e de retorno garantido.

Em particular, os cientistas intuem com cada vez mais clareza que a exploração dos recursos do espaço talvez requeira mais recursos do que a Terra tem de sobra para oferecer. Se, apesar das dificuldades, conseguirmos acesso aos recursos de outros destinos planetários, será com toda probabilidade tarde demais – tarde demais, isto é, para resolver os problemas que nos apertam na nossa presente experiência no planeta.

Os cientistas esperavam, pelo menos tanto quanto os cristãos, que a salvação viesse do céu, mas estamos todos aprendendo juntos a perder essa fé3. Perdemos nosso mito subalterno de migração redentora, e hoje em dia contribuímos para o naufrágio planetário sem contar sequer com a ilusão de um plano de fuga.

Talvez não seja cedo para concluir que o nosso primeiro planeta será também o nosso último. Talvez não seja cedo para celebrar que o universo pode estar para sempre a salvo de nós.

                  

 

NOTAS
  1. Os exemplos se pode indefinidamente multiplicar: para nordestinos esmagados pela seca, o destino de esperança foi o sul Brasil; para gente apertada pela falta de oportunidade no interior, é a cidade grande. []
  2. Ou seja, nada mudou muito desde que a tradição cristã ensinou que podíamos violentar esta terra sem qualquer escrúpulo porque em breve Deus nos daria outra. []
  3. Essa quebra de paradigma tem se refletido na própria ficção científica. O seu mito de migração redentora permanece mais ou menos inalterado, mas com cada vez menos frequência chegamos a esse novo destino através de foguetes, tecnologia convencional ou iniciativa humana. Daí a crescente importância, na literatura de ficção científica mais recente, de abismos negros, portais, wormholes e fendas no tecido espaço-tempo – soluções ou atalhos que aproximam-se, em espírito e em execução, do arrebatamento dos santos e da transição ao céu prometidos pela tradição cristã. Exemplos: a saga Stargate e as séries Primeval, Torchwood e Terra Nova. []
23 de Fevereiro de 2009

Prodigiosa

Brasil, Política

O Brasil é de tão prodigiosa extensão que seria impossível para o país alcançar um estado sequer mediano de perfeição sob o domínio de um só governo.

James Henderson, A HISTORY OF THE BRAZIL
Londres, 1821

26 de Setembro de 2006

Em outras palavras

Goiabas Roubadas

Enfim, o fascinante é que li em National Geographic que há mais pessoas vivas agora do que todas as que morreram na história da humanidade. Em outras palavras, se todo mundo quisesse interpretar Hamlet ao mesmo tempo não seria possível, pois não há caveiras suficientes.

Jonathan Safran Foer,
Extremamente alto e incrivelmente perto

07 de Junho de 2006

De Maringá para Vila de Rei

Goiabas Roubadas, The Net

Portugal sofre de, pelo menos, dois grandes flagelos demográficos: uma drástica diminuição da natalidade, com um substancial aumento da esperança média de vida, e a desertificação humana do interior. Isso faz com que zonas inteiras da faixa leste do país estejam reduzidas a dúzias de velhos solitários, artificialmente arrebanhados em Lares da Terceira Idade, a que se dá, por vezes, nomes que seriam cómicos se não fossem cruéis. A uma dessas casas botaram o nome de “Última Morada”, e outras afinam pela mesma espécie de bom-gosto. Juntando a tudo isso, vem o verão todos os anos levar o que sobra de uma antiga floresta nacional, alargando os horizontes num sem-fim de milhares e milhares de figuras esguias e ressequidas de árvores queimadas.

Quanto mais longe de Bruxelas, de Estrasburgo ou de Paris, melhor é Portugal.

Não é um problema especificamente português. O que será especificamente português é essa divisão do país em Litoral e Interior, essa desertificação que assola a zona mais próxima dos centros de decisão da União Européia, a região que poderia, teoricamente, atrair população, quadros, dinheiro, investimento, a faixa do território que mais poderia beneficiar da integração de Portugal na União. Mas não é assim. Quanto mais longe de Bruxelas, de Estrasburgo ou de Paris, melhor é Portugal – ou pelo menos assim julgamos nós. É um Estado-Membro ao contrário. É como se na América as regiões de um Estado fossem tão mais desenvolvidas quanto mais afastadas de Washington ou de Nova Iorque. Portugal olha para a Europa, a que pertence, às curvas, através do mar e do ar. Por terra, o histórico peso da Meseta impede os portugueses de ver e de entender a União em linha recta. Tudo o que tenha de passar pela Meseta faz tremer o peito.

Vem isto a propósito de um fenómeno singular que está atraindo as atenções para Vila de Rei. Aquela vilinha pequena do distrito de Castelo Branco, na chamada zona d’ “O Pinhal”, tem a particularidade de ser a povoação que fica no centro geográfico de Portugal, bem perto do Alto de Milriça – o centro geodésico do país. E padece do outro mal que desertifica o interior: a emigração, que leva os poucos jovens que a terra inda produz. Vêm à ideia os versos de Rosalia:

“iste parte e aquel parte
e todos todos se ván,
Galiza sen homes quedas
que te poidan traballar”…

Pois teve o município de Vila de Rei uma idéia original: chamar gente do Brasil para repovoar o concelho.

Teve o município de Vila de Rei uma idéia original: chamar gente do Brasil para repovoar o concelho.

Chegaram as primeiras quatro famílias inteirinhas, de Maringá, Estado do Paraná, oito adultos e seis crianças.

Portugal tem 500.000 imigrantes, na sua maioria eslavos ou africanos, que, aliás, preferem os grandes centros litorais. Mas chamar gente do Brasil, e para o interior, tem um gostinho especial e refresca a língua. Inverte os caminhos da História e, quem sabe, um dia refrescará também a toponímia.

José Cunha-Oliveira – de Olivais, Coimbra, Portugal – piloto do notável Toponímia Galego-Portuguesa… e Brasileira,
de onde arrebatei este documento

* * *

“Brasileiros chegaram há um mês a Portugal e ‘estão adorando’”, diz esta nota do Portugal Diário.

À porta da casa dos brasileiros há quem deixe diariamente fruta, legumes, ovos, azeite, vinho.

12 de Novembro de 2005

Nasci em 1967

História, Sociedade

O período de cem anos que tem o ano 2000 como seu ponto central marcará três outras transições importantes e únicas na história da humanidade. Em primeiro lugar, ninguém que morreu antes de 1930 viveu num período durante o qual a população humana dobrou de tamanho. Semelhantemente, quem nascer depois de 2050 provavelmente não viverá um período no qual a população mundial dobrará de tamanho.

Em contraste, todos que têm hoje mais de 45 anos já testemunharam mais do que a duplicação da população humana, de três bilhões em 1960 a 6.5 bilhões em 2005. A maior taxa de crescimento populacional já alcançada, cerca de 2,1 por cento ao ano, ocorreu entre 1965 e 1970. A população humana nunca cresceu a tal velocidade antes, e provavelmente nunca voltará a crescer a essa taxa.

Nossos descendentes olharão para o pico do final dos anos 60 como o evento demográfico mais importante da história da população humana, embora aqueles de nós que o experimentaram não foram capazes de reconhecê-lo na ocasião.

Joel E. Cohen, Scientific American

Leia também:
O último tio da terra

The century with 2000 as its midpoint marks three additional unique, important transitions in human history. First, no person who died before 1930 had lived through a doubling of the human population. Nor is any person born in 2050 or later likely to live through a doubling of the human population.

In contrast, everyone 45 years old or older today has seen more than a doubling of human numbers from three billion in 1960 to 6.5 billion in 2005. The peak population growth rate ever reached, about 2.1 percent a year, occurred between 1965 and 1970. Human population never grew with such speed before the 20th century and is never again likely to grow with such speed.

Our descendants will look back on the late 1960s peak as the most significant demographic event in the history of the human population even though those of us who lived through it did not recognize it at the time…