20 de Janeiro de 2012

“Igreja” entre aspas

Família

As pessoas aparentemente continuam escrevendo livro sobre Deus. Meu irmão Tuco Egg (da Trilha) está lançando Igreja entre aspas pela Editora Grafar, com prefácio do Paulo Brabo1. Como o livro da Bacia e os livros de Brennan Manning publicados no Brasil, Igreja entre aspas já vem com a capa previamente envelhecida, que é para tentar convencer você subliminarmente de que o que podem parecer heresias novas são na verdade tradições muito antigas.

Só há uma maneira de saber.

 

 

Ande também:
nA Trilha

NOTAS
  1. Em que ele diz coisas como “E se a igreja for um lugar de onde ninguém pode sair, mesmo se quiser? E se for uma graça estendida ao mundo, e não um projeto de seleção? E se a expressão ‘os portões do inferno não prevalecerão contra ela’ for indicação de que só o inferno tem portões, e não a igreja?” Esse tipo de coisa. []
21 de Novembro de 2011

O acalentado conforto da proibição

Manuscritos

 

Só os grandes articuladores da fé, que vivem e pensam em esferas distantes da multidão, é que falam da sua religião em termos profundos e categorias teológicas. Para uma pessoa normal, ou para alguém que observa de fora, uma religião é mais claramente definida pelas suas proibições.

O cidadão comum, muito sensatamente, prefere não ter de sentir-se à vontade entre termos como atonement, parousia, kenosis, koinonia e kairos. O cristão médio vive muito bem sem conhecer as quatro teorias da redenção, sem ter lido a autobiografia de Agostinho, sem pausar diante das agonias de Kierkegaard e sem dobrar-se com as angústias de Bonhoeffer. Ele intui que é possível aproximar-se de Jesus sem saber exatamente o que é graça irresistível, pecado original, amilenismo, soteriologia, hermenêutica, exegese, escatologia realizada, depravação total, arminianismo, imanência, universalismo, teísmo aberto ou monergismo. Muitos cristãos tarimbados sentem-se pouco à vontade para manusear sem proteção até mesmo conceitos que são mencionados pelo nome na Bíblia, coisas como santificação, graça, justificação, eleição e arrependimento. Até mesmo, olha, fé.

Em contraste com isso, os mais despreparados dentre nós sentem-se em geral prontos para elencar as interdições que envolve a nossa fé particular – ou, no mínimo, para zelar nominalmente pela aplicação delas. De longe, “minha religião não permite” é a profissão de fé mais comumente proferida da Terra.

É desse modo, elencando proibições, que na vida real falamos aos outros da nossa religião e inquirimos os outros a respeito da deles. É falando de proibições que orientamos ou corrigimos o caminho dos que se agregam ao círculo da nossa crença.

Há coisa de cinquenta anos as facções evangélicas e protestantes do Brasil cultivavam uma série de interdições em comum, a maioria das quais foram abolidas nesse intervalo, embora continuem a vigorar para um grupo ou outro. Crente não podia não podia beber, não podia ir ao cinema, não podia jogar futebol; não podia ouvir música do mundo, não podia entrar em boate, não podia fumar; não podia jogar, não podia fazer apostas e não podia dizer palavrão; se fosse mulher, não podia usar calça comprida, não podia usar maquiagem, não podia cortar o cabelo.

Corta para 2011: não só caíram todas essas proibições (ou a sua maioria), como a cultura e a tecnologia avançaram rápido demais para que as assembleias pudessem legislar com adequada austeridade proibições novas. Tarde demais para lembrar que crente não pode usar telefone celular, não pode ter conta no twitter e não pode ler o Paulo Brabo.

Isso não quer dizer que os cristãos tenham deixado de construir sua identidade entrincheirando-se atrás de suas mais sagradas proibições. Permanecemos, como sempre, particularmente interessados nas transgressões que dizem respeito ao corpo: da nossa pauta eterna aparentemente nada tem poder para riscar a contracepção, as relações homossexuais e o sexo não apaziguado pelo casamento.

Tanto a teologia quanto as proibições acabam sempre, portanto, encontrando o seu público. Para os teólogos, a essência da fé está nas filigranas e coisas profundas que a massa não tem como entender; para a massa dos fiéis, a essência da fé está nas proibições muito práticas que lhes fornecem por um lado uma identidade e por outro lhes garantem uma recompensa.

Uma das muitas coisas singulares a respeito de Jesus de Nazaré é que ele evitou por completo tanto as armadilhas teologantes dos letrados e eruditos quanto a religiosidade rasa, de proibição e recompensa, das massas.

Jesus não ignorava, naturalmente, que as duas abordagens tem muita coisa em comum. Em grande parte, a lista de proibições adotada pelos crentes é composta ou esboçada pelos religiosos letrados que residem acima deles na pirâmide socioeconômica. “Se não são os sofisticados o bastante para entender as minúcias da teologia em que se fundamentam,” raciocinam os líderes religiosos com relação ao seu rebanho, “que pelo menos não caiam naquelas transgressões mais severas. Façamos uma lista”.

Postando-se muito acima dessas mesquinharias, Jesus recusava-se, por um lado, a gastar um instante que fosse do seu tempo expondo ou discutindo teologia. Era contando histórias que ele desfiava indicações sobre a natureza e os desafios do Reino. Era no calor sem sofisticação de estradas, de refeições, de curas e de abraços – no calor da vida real – que ele mostrava como o Reino se deveria viver.

Por outro lado, ele recusava-se de modo consistente a fornecer ao seu público o conforto almejado das listas de proibições. Jesus não só negava-se a falar da vida abundante em termos de obediência a interdições, como repelia com exuberância as tentativas que as pessoas por vezes faziam de, às custas dele, reduzir a ética a uma resposta “sim ou não” para um problema complexo.

Naquela época não tinha qualquer penetração cultural a noção que todos conhecemos hoje, de que as motivações mais mesquinhas para se agir de determinada forma são o medo da punição e o desejo da recompensa. Jesus, no entanto, agia e ensinava como se fosse coisa muito evidente que uma ética de conduta regida por proibições é limitada e infantilizante. Muito mais ambicioso, o rabi de Nazaré sonhava com um mundo de autonomia individual e de decisões responsáveis: “por que vocês não decidem por si mesmos o que é certo?” (Lucas 12:57).

Ao mesmo tempo, Jesus desafiava constantemente a noção – pelo menos tão enraizada nos seus dias quanto nos nossos – de que simplesmente abster-se de descumprir os mandamentos era coisa capaz de garantir alguma recompensa ou de habilitar o adorador a exigi-la de Deus. Não contente em negar o conforto das listas de regras e proibições, o Filho do Homem insistia que na perspectiva divina nenhuma obediência tem recompensa ou a merece.

Na verdade, Jesus sugeriu mais de uma vez que a sensação de superioridade moral que acompanha uma vida de obediência estrita aos mandamentos é, em si mesma, a única recompensa que um religioso/carola deve esperar receber pela sua conduta.

Quem rege sua postura pela obediência aos mandamentos, insistia Jesus, não faz nada de mais e nada deve esperar em troca. A imitação de Deus requer uma bondade assertiva e uma generosidade vivida, não uma vida de recuos, desvios e melindres. Como ilustração espetacular desse modo de ver as coisas, em seu último discurso no evangelho de Mateus o Filho do Homem ousa condenar ao inferno não os pecadores que rebaixaram-se a fazer o mal, mas os religiosos que deixaram de fazer o bem.

Essa visão outorgava ao homem uma liberdade que tinha tanto de terrível quanto de sublime. O apóstolo Paulo maravilhou-se diante dela mais de uma vez. Por vezes usamos o seu “mas nem todas me convém” a fim de anular por completo o seu “todas as coisas me são lícitas”, porém isso é não fazer justiça à vertigem que ele detectou. Para recapturá-la seria preciso reescrever o seu hino como: “todas as coisas me são lícitas, e terei a hombridade de assumir responsabilidade por todas que eu fizer ou deixar de fazer”.

Um Deus que sonhava para os seres humanos uma vida de plena maturidade, sem recalques mas sem descontos, mostrou-se incrível e exigente demais para ganhar verdadeira popularidade.

Ao sugerir que seu Pai não recompensava a obediência, mas esperava uma gentileza assertiva mais do que uma obediência neurótica a regulamentos, Jesus requereu uma profunda e intransigente ressignificação da imagem que os homens faziam (e ainda tendem a fazer) de Deus. Não é de se admirar que poucas gerações de convertidos depois os cristãos já tivessem revertido à imagem tradicional da divindade, aquele que aceita os bons e rejeita os desobedientes.

Jesus, patrono da maturidade, perguntava a seus discípulos porque eles não discerniam por si mesmos o que era correto, e ensinava que as prostitutas chegam ao céu antes dos religiosos. Hoje em dia as igrejas, patrocinando a imaturidade, explicam que a Bíblia é uma norma inflexível de conduta, e ousam dizer a gente adulta, capaz de ler os evangelhos por si mesma, que criança boazinha é que vai para o céu.

10 de Novembro de 2011

Vírgula

Goiabas Roubadas

A igreja é a soma de iniciativas individuais, não o amontoado de propósitos coletivos.

Meu amigo Ivan Volcov,
numa anotação sua que encontrei numa gaveta

Leia também:
Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais

07 de Novembro de 2011

As divinas gerações

Manuscritos

“Dieu d’Abraham, Dieu d’Isaac, Dieu de Jacob”
non des philosophes et des savants.
Blaise Pascal, Mémorial (1654)

 

De todas as lendas que sustentam os fundamentalismos cristãos, talvez nenhuma seja mais infundada – e por certo nenhuma é mais útil – do que a ideia de que há um único modo de se ler e de se entender a Bíblia, um modo de interpretação que permaneceu inalterado ao longo dos milênios e que corre nos nossos dias o risco de ser miseravelmente derrubado pelas licenciosidades interpretativas e morais dos liberais.

Reza a lenda que esse método fechado de interpretação – e usam-se para descrever sua autoridade palavras fortes como “literal” e “inerrante” – é eterno, fora do tempo e inteiramente impermeável às variações da história. Desse modo, a lenda exige que Lutero interpretou a tradição bíblica da mesma forma que Paulo, que a interpretou da mesma forma que Jesus, que a interpretou da mesma forma que Esdras, que a interpretou da mesma forma que Isaías, que a interpretou da mesma forma que Davi, que a interpretou da mesma forma que Moisés, que a interpretou da mesma forma que Abraão.

A ortodoxia não pode existir sem a lenda de uma exegese fora do tempo, porque quando diz que a Bíblia é a inerrante Palavra de Deus o fundamentalista não está dizendo apenas que o texto bíblico é eterno e imutável, mas também, e em especial, a sua interpretação. Para que a própria ideia de fundamentalismo faça sentido, a história e suas novidades devem se manter inteiramente incapazes de lançar novas luzes hermenêuticas sobre a letra da revelação. Qualquer possibilidade de interpretar-se a Bíblia a partir da nossa presente condição deve ser encarada como insidiosa tentação, pelo que a única interpretação autorizada deve necessariamente ter sido definida, sem margem de manobra, não só quando nós mesmos entramos em cena, mas desde sempre.

O fundamentalista, portanto, não é quem lê a Bíblia literalmente, mas quem não consegue enxergar qualquer diferença entre a Escritura e a sua compreensão pessoal dela. Na prática, trata-se de alguém apaixonado não pela inerrância de um texto sagrado, mas pela inerrância da sua própria interpretação. E, como não quer ter de reconhecer que sua leitura é tão seletiva e historicamente condicionada quanto qualquer outra, o fundamentalista precisa batalhar ostensivamente para que não apenas o texto, mas também sua interpretação autorizada se mantenham inalterados diante de novos contextos.

O problema com essa noção de uma interpretação bíblica que permaneceu inerrante e imutável ao longo dos séculos, inteiramente imune às influências dos fatos novos e da passagem do tempo, é que ela é espetacularmente negada não só pela história, mas pela própria narrativa bíblica.

O que impulsiona o drama da revelação na Bíblia são precisamente os modos através dos quais as novas perspectivas sociais e históricas constrangem os israelitas e seus herdeiros a retrabalhar e reinterpretar um corpo antigo e mais ou menos fixo de tradições bíblicas, de modo a encontrar nele novos significados e novos desafios à luz desconcertante do momento presente.

Nesse sentido, a Bíblia não é o registro da realidade eterna dos feitos divinos, mas a história das reformulações da imagem divina que os homens se viram forçados a fazer diante da realidade cambiante dos fatos. Não é a descrição de um Deus imutável, mas a descrição progressiva e cumulativa das feições divinas que os homens creram que o próprio Deus ia revelando a partir dos indícios da história.

É a própria Bíblia, portanto, que nos ensina que novas circunstâncias não apenas permitem, mas requerem novas interpretações de um mesmo corpo de tradições bíblicas. Os cronistas, os salmistas, os profetas, Jesus e Paulo (bem como os que foram registrando as suas histórias) – todos esses propuseram interpretações das tradições bíblicas que se distanciavam sensivelmente do ensino da ortodoxia da sua época. E, muito declaradamente, não o fizeram movidos por outra coisa que não a perspectiva privilegiada que sua posição na linha do tempo concedia a cada um. O testemunho coletivo dessas vozes intra-bíblicas é que as revoluções da história fornecem chaves de interpretação que quem deseja aproximar-se da divina herança não se pode dar ao luxo de ignorar.

Os eventos que influenciaram e alteraram a interpretação das tradições judaico-cristãs dentro do intervalo em que o cânone da Bíblia foi composto incluem, só para citar os mais importantes:

  • o estabelecimento em Davi e Salomão de uma monarquia unificada, dotada de um local centralizado de adoração e de um sacerdócio especializado. A ascensão da monarquia acabou abafando as ênfases anárquicas e num governo descentralizado que parecem ter prevalecido nas tradições mais antigas – como atestam, por exemplo, muitos trechos do Pentateuco e todo o livro de Juízes. Um testemunho sobrevivente da hesitação que predominava anteriormente com relação à monarquia aparece no discurso de divina advertência em 1 Samuel 8. A história de Israel até o momento da ascensão da monarquia e do sacerdócio centralizado teve de ser literalmente reescrita (isto é, reinterpretada) à luz da nova forma de governo. Para uma comparação entre tradições e interpretações por vezes abertamente antagônicas, é sempre útil contrastar os livros de Samuel e de Reis à narrativa de Crônicas.
  • a destruição do reino do Norte pelos assírios (em 721 a.C.) e mais tarde (em 587 a. C.) a destruição de Jerusalém e a dissolução do reino do Sul pelos babilônios, com a consequente vida nacional no exílio. As invasões dos assírios e a destruição do reino do Norte fizeram com que as antigas tradições fossem reinterpretadas como favorecendo a tribo de Judá, berço do reino sobrevivente. Porém as expectativas de um “trono eterno” para a linhagem de Davi foram demolidas juntamente com o Templo um século e meio depois. Vivendo na diáspora, os exilados de Judá viram-se obrigados a rever suas noções estabelecidas sobre misericórdia, fidelidade e soberania divinas. Longe da pátria e impedidos pela falta do Templo de continuar oferecendo os sacrifícios prescritos pela Lei, acabaram concluindo que haviam em grande parte interpretado erroneamente a letra do Pentateuco. As novas circunstâncias levaram-nos a entender que uma rígida religiosidade exterior não era o que Deus valorizava ou requeria de Israel em primeiro lugar, mas sim uma postura de misericórdia e um coração contrito. Nessa releitura das antigas tradições consiste o bojo da proclamação dos profetas.
  • a conquista do Oriente Médio por Alexandre, o Grande, e a resultante helenização das regiões em que viviam os judeus. Os judeus no exílio tiveram de aprender a manter a identidade nacional/religiosa diante da competição das culturas em que estavam inseridos, e foram nisso notavelmente bem sucedidos. Porém a cultura grega, que tomou conta do mundo conhecido a partir das vitórias de Alexandre, mostrou-se eloquente e cativante demais para ser evitada indefinidamente. Logo as ideias dos gregos estavam influenciando o modo como os judeus liam seus próprios textos e pesavam sua própria herança. Essa influência acabou remodelando a tradição bíblica de muitas formas. Em primeiro lugar, a Bíblia hebraica foi traduzida – isto é, reinterpretada, visto que traduzir é interpretar – para a língua grega. Quando citam a Bíblia hebraica, os autores do Novo Testamento (que escreviam em grego) fazem uso dessas versões e das interpretações que elas trazem embutidas em si. Segundo, muitos intérpretes judeus (dos quais o mais ilustre foi Fílon de Alexandria) procuraram conciliar as tradições judaicas com a filosofia grega, aplicando ao mesmo tempo os métodos de interpretação dos pensadores gregos aos seus próprios textos sagrados. Finalmente, a ênfase grega no indivíduo parece ter influenciado diretamente a composição e a teologia da terceira porção da Bíblia hebraica, em que a devoção nacional e coletiva (que prevalecia nos textos mais antigos) é substituída pela relação pessoal do adorador para com o seu Deus.
  • o ministério e a morte de Jesus de Nazaré. Levando a um novo extremo a herança subversiva dos profetas que o precederam, Jesus propôs uma radical reinterpretação das tradições do Antigo Testamento. Para Jesus, a vitória do Deus de Israel sobre seus competidores nada tinha dos êxitos políticos, econômicos e militares que os judeus vinham sonhando para o seu futuro. O iminente reino de Deus deveria representar uma reformulação intransigente e universal do espírito humano, uma revolução de beleza, cavalheirismo e graça que evitaria todas as armadilhas dos sistemas de poder e de manipulação que governam este mundo. Frases como “vocês ouviram o que foi dito… eu porém digo a vocês…” e “não vim anular, mas cumprir” apenas atestam que era de modo muito consciente que Jesus vinha propor a completa reformulação da posição sobre Deus, justiça, nação, valor e identidade que prevalecia na ortodoxia dos seus dias. A vida frugal, o ensino subversivo e a morte prematura de Jesus levaram os primeiros cristãos a reavaliar por completo o que pensavam que o Antigo Testamento dizia sobre a pessoa e a obra do Messias – bem como sobre todos os sonhos de Deus para a humanidade.
  • o ministério e os escritos do apóstolo Paulo. Paulo entendeu mais e antes do que qualquer outro que a singularidade da pessoa e da obra de Jesus representavam um convite à transformação não apenas da nação judaica, mas do mundo inteiro. Ele dedicou a vida à dupla tarefa de divulgar a boa nova império adentro e de vasculhar as tradições bíblicas em busca de confirmação para seu parecer sobre a primazia de Jesus e sobre a natureza de seu próprio ministério. Paulo foi o primeiro a ousar reinterpretar a Bíblia inteira à luz da pessoa de Jesus, e o que encontrou deixou maravilhadas gerações de leitores.

A Bíblia contém em si mesma, portanto, numerosos precedentes para a reinterpretação da natureza da revelação à luz de novas circunstâncias históricas. Como epitomado na postura de Jesus, essas novas leituras não requerem a invalidação da autoridade das antigas tradições; o que pedem é uma nova e generosa reavaliação das implicações dessas tradições para os desafios e particularidades do momento presente.

Essa variedade nas cores da exegese intra-bíblica demonstra que a própria Bíblia não ignora que é da condição humana interpretar as tradições que respeitamos de um modo que faça mais sentido dentro de nossa própria perspectiva histórica e conceitual. Seu testemunho é que não há um modo único e “literal” de se entender a significância do legado bíblico. E mais: quando feito de mente aberta e com um coração compassivo, interpretar-se as antigas tradições à luz das demandas do presente pode nos proporcionar uma visão mais clara a respeito de Deus, não uma visão deturpada ou desrespeitosa.

E que a interpretação da Bíblia não se manteve estática depois que o cânone estava concluído a história dá testemunho mais do que abundante. Alguns dos eventos que representaram gatilhos para profundas reinterpretações das tradições bíblicas:

  • a destruição de Jerusalém e de seu Templo, em 70 d.C., resultado da revolta dos judeus contra a ocupação romana;
  • a perseguição romana contra os cristãos;
  • o fato de que o cristianismo foi se tornando um movimento predominantemente gentio, acompanhado de um crescente rancor contra os judeus dentro do movimento;
  • a promulgação do cristianismo como religião legal do império romano, pela mão do imperador Constantino;
  • os concílios cristãos e o fechamento do cânone;
  • a cisão entre o cristianismo ocidental e o oriental;
  • a Reforma e Contra-Reforma;
  • a difusão do pensamento racionalista e materialista e as revoluções científica e industrial;
  • o Holocausto dos judeus europeus pela mão dos nazistas;
  • a secularização definitiva da cultura no século XX e os ventos da pós-modernidade no terceiro milênio.

A análise dessas e outras instâncias demonstra que o conceito de uma interpretação bíblica que permaneceu estática, isenta e inalterável ao longo dos milênios, até os nossos dias, é na melhor das hipóteses equivocado – e, na pior, mentiroso.

O estudo desses exemplos ajuda a provar ainda que interpretar a Bíblia a partir da nossa perspectiva histórica pode, em muitos casos, significar simplesmente interpretar a Bíblia em nosso próprio favor. Essa narrativa (que também é a nossa) demonstra que a exegese bíblica pode ser usada como ferramenta arbitrária de dominação, de divisão e de exclusão.

Restam porém os casos (como o de Jesus e o dos profetas) em que a reinterpretação das tradições bíblicas à luz do momento presente promove uma noção mais avançada e madura de Deus, resultando numa relação mais saudável entre os homens. O que essas instâncias positivas têm em comum é que o Deus descrito por elas é sempre mais misericordioso e menos tribal, mais inclusivo e menos vingativo do que a figura divina que prevalecia anteriormente. As interpretações que fazem a revelação avançar falam de um Deus cada vez menos obcecado com a justiça e cada vez mais obcecado com o amor. Falam, numa palavra, de um Deus maior: o Deus que já gostamos de chamar de criador mas que preferiu ser chamado de Pai.

E ninguém soube falar dessas coisas com mais intimidade do que Jesus. Como indicado por ele, um Deus maior não é o requer mais amor para si, mas o que espera mais amor entre os homens. Um mundo mais justo não é aquele em que Deus pode exercer sem impedimentos o seu poder, mas um mundo em que os homens renunciem em favor uns dos outros à busca insensata pelo poder. Fiel não é quem pede a Deus misericórdia sobre si mesmo, mas quem concede misericórdia aos outros.

* * *

Se não deve haver dúvida de que a interpretação bíblica não permanece estática, mas é renovada pela perspectiva de cada época (e, num certo sentido, de cada leitor), cada um permanece livre para reagir como quiser diante dessa notícia. Para alguns, essa contínua reformulação é clara indicação de que cada época acaba criando o seu Deus à sua própria imagem e semelhança. Para outros, é indicação de que o da Bíblia não é o Deus fora do tempo dos filósofos e dos sábios, mas o Deus de Abraão, Isaque e Jacó – o Deus que se revela no calor da história.

Talvez, como fazia Jesus, seja necessário renovar continuamente a crença de que a divindade continua trabalhando: de que não concluiu a sua criação e permanece se des-cobrindo como cada vez maior e mais ambicioso – na prática, um Deus cada vez mais invisível, mais recatado e mais indistinguível do exercício da mais simples e ardente humanidade.

14 de Setembro de 2011

Ready for that day [2]

História, Sociedade

Are you prepared to run this Christian race?

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Welcome

Para uma congregação degenerar-se em seita basta um único ingrediente: um líder. Nem todas as congregações tem um líder e nem todas as congregações são seitas, mas todas as seitas tem um líder. Destemperados todos somos; nosso problema é que alguns de nós chegam ao poder. Nota para mim mesmo: Brabo, não siga líderes. Por tudo que é sagrado, não se torne um.

O líder bem intencionado só quer a perpetuação da instituição, e isso com o objetivo de proteger você.

O líder mal intencionado só quer o seu dinheiro, e afirmará que a causa mais sentida das coletas que faz é patrocinar os seus sonhos.

O líder de uma seita lhe estenderá na última ceia um copo com cianeto, irá convidar você e seus filhos a morrer com ele, e você aceitará de bom grado.

E até ser tarde demais você pode não ter como perceber com qual dos três está lidando.

A congregação de que estou falando foi fundada na década de 1950 em Indianápolis, como ramo da denominação Discípulos de Cristo, e mudou-se em 1965 para a Califórnia, onde formou uma comunidade vibrante e engajada, comprometida com justiça social e integração racial. Em 1974 essa comunidade decidiu que era hora de abandonar os Estados Unidos, cuja postura fascista, corporativista e racista seus membros tomavam (com acerto) por anticristãs; em 1977 a maior parte do grupo transferiu-se para a Guiana, onde fundaram a colônia rural que ficaria conhecida como Jonestown, um “paraíso socialista” modelado para contrastar com a vida alienada e consumista que haviam abandonado nos Estados Unidos.

Porém a essa altura o líder e fundador original já dava há anos indicações de enraizados distúrbios mentais1, e lapidara à excelência o dom psicopata de promulgar perversidades sem perder a doçura do tom de voz.

Em 18 de novembro de 1978, horas depois de uma complexa escaramuça envolvendo dissidentes e que resultou no assassinato de um deputado norte-americano que viera visitar a colônia, o líder da congregação reuniu a comunidade e conduziu um suicídio em massa no qual morreram mais de 900 pessoas, entre homens, mulheres e crianças – inclusive o próprio líder, Jim Jones. Pelo que se sabe, e conforme testemunha uma gravação feita na ocasião, o suicídio em si aconteceu calmamente, entre aleluias e choros de bebês, mas sem grandes manifestações de repúdio, de tristeza ou de horror. “Não estamos cometendo suicídio”, explica Jones; “este é um ato revolucionário”. E mais tarde: “Elas [as crianças] não estão chorando de dor; [o veneno] é que é um pouco amargo”.

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As últimas deliberações em Jonestown
Transcrição dos diálogos aqui

A congregação chamava-se Peoples Temple e em 1973, ainda na Califórnia, seu coro gravou o disco He’s Able/Ele é capaz, da qual subtraí a canção Walking With You, Father/Caminhando contigo, Pai, que arquivei aqui, bem com as outras canções que ilustram este documento.

***

Acima do altar na casa de reuniões da congregação do Peoples Temple na Guiana havia uma placa com o lema da comunidade: Those who don’t remember the past are condemned to repeat it – os que não lembram o passado estão condenados a repeti-lo.

 

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Walking with you, Father

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Set them free

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Walk a mile in my shows

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Hold on, Brother

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Down from his glory

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He’s Able

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Something got a hold of me

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Because of Him

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Black baby

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Will you

Album via wfmu.org

Leia também:
Os que menos são
Jonestown (abundante material primário sobre o assunto, em inglês)

NOTAS
  1. Famosamente, o líder de Jonestown vangloriava-se (ao que se sabe com pouco fundamento) de ser “o único heterossexual” do planeta. []